Edição Especial de Natal (2016)

A Academia de Letras de Itabuna deseja a todos um Feliz Natal e um 2017 voltado para as coisas que verdadeiramente importam: 

Amor, Generosidade, Paz e Felicidade

Canção White Christmas, composta por Irving Berlin e gravada originalmente por Bing Crosby.
Nesta versão ela é interpretada por Andrea Bocelli




CANÇÃO DA LAPINHA 
Renato de Oliveira Prata

Natal, férias no colégio 
A vida é que diz presente
Natal, sou neste presépio 
O quarto rei do oriente. 

Natal, mar de areia fina
Brilham figuras em louça
Natal, bois de cartolina 
Os sinos...há quem os ouça. 

Natal, ouro se quisera
Nas cores de caju e manga
Natal, tempo de espera
Cheira a folhas de pitanga. 

Natal, estrela apartada
Guia os magos peregrinos 
Natal, fatia dourada
Os pastores são meninos. 


Ọdún idásilẹ̀

Ruy Póvoas

Ouvi o galo cantar
e sei muito bem
onde o anúncio se deu.
Na fonte em que bebi,
até hoje a água jorra
em borbotão.
Quando o trem bala da vida
passou igual ao raio,
saltei para dentro dele
e desembarquei na existência
onde esperavam por mim,
na distante esquina da vida,
com ansiedade e alegria.
A estação estava assinalada
com o opaxorô de Orixalá
e o zigue-zague do raio de Oyá.
Havia uma piscina enorme,
do tamanho de uma bacia,
e nela me banharam
com águas lustrais
de ouro e alfazema.
Depois, me puseram
no colo de Oxalá.
Vim para passar uns tempos,
e nesse tempo de agora,
alcanço cinquenta anos
no tempo do meu orixá.
É tempo de ọdún idásilẹ̀,
tempo de comemorar.

Ajalá Deré.

Em 18 de dezembro de 2016,
desejando a todos do egbé
Feliz Natal e próspero Ano Novo.



Três Poemas de Natal
            Cyro de Mattos
    


  Oratório de Natal


De Belém
Vem a estrela,
A mais bela.
Tudo é glória,
Tudo é paz,
Tudo é amor.
Tudo é canto,
Nenhum pranto,
Tudo é flor.
Tudo é graça
Na manhã
Que me abraça.


       Os Pastores


Na colina
Ovelhas pastam,
Verdes hastes
Cantam hinos.

Há um arco no céu
De sete cores.
A flauta toca
Uma canção doce.

Quanto mais escuta
O ouvido se encanta.
De louvar o menino
A gente nunca cansa.

      

 Eu Creio Nessa Manhã


Por que os homens
Amam a droga
E não da abelha
Os favos de mel?

Por que os homens
Amam as balas
E não a paz
Sem nenhum fuzil?

           Por que os homens
Só vêem o chão
E não a estrela
Em seus caminhos?

Viver amargos,
Viver sozinhos,
E do que mais
Os homens gostam.

Mas eu creio nessa manhã
Anunciada em Belém
Por um menino rei
Em seu berço de palha.

Eu gosto de ouvir
Sua canção na estrada
Falando duma união geral,
Que viver vale a pena
Quando a vida é uma dança
Com os homens como irmãos,
Cantando como passarinho,
Sorrindo como criança.



                                 

FORÇA CHAPE

Por Cyro de Mattos 
                                                              


Tanta dor, tristeza. A vida ceifada  com golpe imenso e impiedoso.  O que dizer sobre  o absurdo que destrói a inocência  na traição da madrugada?  É muito difícil escrever alguma coisa para diminuir a dor provocada  com a tragédia aérea que envolveu  os jogadores da Chapecoense, dirigentes, jornalistas e a tripulação, na última terça-feira de 29 de novembro.  A queda do avião, nas proximidades do aeroporto de Medellín, deixou um trauma terrível no qual das 76 pessoas 71  morreram, 19 eram jogadores da Chapecoense;   apenas 5 sobreviventes foram resgatados dos escombros. 
Na segunda-feira à noite,  depois de assistir  ao Jornal Nacional, da TV Globo, dirigi-me ao computador para atualizar a correspondência e, a seguir, dar andamento  à  escrita de meus textos literários. Nesse hábito que a literatura me impõe há anos, costumo viajar com as palavras pelas pastagens silenciosas da noite.   Dessa vez, ao terminar mais uma tarefa do fazer literário, pela madrugada de terça-feira, estava extenuado, sem sono. Liguei a  televisão em busca de algum programa que amenizasse o cansaço, trazendo daí a pouco o sono. 
Logo fiquei de frente a um impactante momento trazido pela notícia que me deixou perplexo. O repórter anunciava na televisão que  o  avião com a delegação da Chapecoense,  sem combustível,  havia caído em terras colombianas, a cinco minutos do aeroporto. Bateu no morro,  descera se rasgando entre as árvores até ficar  destroçado no fundo enlameado de grande  cratera. Com o tempo chuvoso, a televisão mostrava  os  homens do salvamento em extremo esforço,  buscando  localizar os corpos. Havia  na agonia deles a esperança de encontrar sobreviventes.
         A tragédia era por demais absurda, atingia aquele ponto  insensato em que forças cegas na avidez da morte  convergem para o horror e a estupefação do acontecimento. Haveria de ter uma saída naquele quadro  desesperador para transformar o trauma em algo menos doloroso, pensei. Haveria mais sobreviventes. Era  inacreditável,  injusto,   que  o sonho de jogadores vitoriosos, heróis que  estenderam para milhares de torcedores   a alegria como forma de vida, fosse interrompido pela mão pesada do inconcebível.  Meu Deus, não era possível, não era possível.
 Na Arena  Condá, no oeste de Santa Catarina,  havia assistido  pela televisão a proeza de um time de porte médio, de uma cidade de pouco mais de duzentos mil habitantes, eliminar  da Copa Sul-Americana o poderoso time copeiro argentino do Independente, tantas vezes campeão mundial de clubes. Vi  eliminar o São Lorenzo, outro time famoso argentino, campeão da Libertadores. Vi deixar para trás  também a respeitável equipe do Junior Barranquilla, da Colômbia.  No desastre aéreo, como num pesadelo, o futebol agora pendia na dor, somente na dor.  Foi então que a esperança,  de dentro dos pesares, dos rostos em lágrima, fez brotar sua luz verde  com o facho da solidariedade. No  estádio Atanásio Girardot  onde seria realizada a partida final da Copa Sul-Americana, entre a Chapecoense e o Atlético Nacional, a esperança inventou o carinho para amenizar  o sofrimento de milhares.  O  povo colombiano, de branco, com velas acesas, rezava, chorava. Aplaudia, dizendo, a uma só voz,  que  o campeão daquela temporada na América do Sul era o time brasileiro. “Força Chape!” Um grito solidário   ecoava  pelos  campos de futebol do mundo,   propagava-se com os ventos do amor pelas  vastidões do eterno, molhando-nos,  nessa hora da pureza, de humano entendimento.  
        Imagino que,  ante o sentimento de coragem e nobreza do povo colombiano, a morte naquele instante teve vergonha de ser a conhecida mulher indesejada de nossos caminhos, a soberba detentora dos nossos ossos.  

Convite para Posse do Alitano Aleilton Fonseca na Academia de Letras de Ilhéus.


Mario Albiani lança livro em Itabuna


Academia de Letras de Itabuna fecha ano com 2ª “Guriatã”




A revista destaca a produção de integrantes da ALITA, além de outros nomes da literatura regional

      A Academia de Letras de Itabuna (ALITA) encerra as atividades do ano de 2016 colocando à disposição da comunidade a 2ª edição da revista Guriatã. Editada pelo escritor Cyro de Mattos, a publicação reúne textos (artigos, poesias, ensaios, crônicas etc) assinados por integrantes da instituição, além de discursos, fotografias e matérias alusivos à trajetória da Academia.
       Nas palavras do editor, “uma academia de letras serve para interagir com a comunidade na promoção e defesa da liberdade de expressão. O ideal que lhe dá suficiência deve consistir na valorização da humanidade nas letras”. Ele ressalta o papel da ALITA – e de instituições afins – para cultivar a importância da língua, da literatura e da comunicação como manifestações voltadas para o conhecimento.
       A segunda edição da “Guriatã”, que contou com o apoio cultural do Grupo Chaves, traz textos assinados pelos seguintes membros da Academia: Aramis Ribeiro Costa, Cyro de Mattos, Carlos Valder do Nascimento, Renato Prata, Aleilton Fonseca, Sônia Carvalho de Almeida Maron, Ruy Póvoas, Ceres Marylise Rebouças, Rilvan Santana, Jorge Luiz Batista dos Santos, Lurdes Bertol, Delile Oliveira, Raquel Rocha, João Otávio, Celina Santos, Margarida Fahel e Carlos Eduardo Passos. Entre os poemas, versos de Firmino Rocha, Telmo Padilha e Valdelice Pinheiro.

Ruy Póvoas é destaque em prêmio nacional de literatura




O escritor Ruy do Carmo Póvoas, vice-presidente da Academia de Letras de Itabuna (ALITA), foi destaque no prêmio ABEU 2016, entregue na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. O livro “A Viagem de Orixalá: estrada de Sagitário, caminhos de Orunmilá” conquistou o 3º lugar na categoria Ciências Sociais da Expressão.
Publicada pela Editus – editora da Uesc (Universidade Estadual de Santa Cruz) –, a obra mistura realidade com ficção, propondo ao leitor uma imersão em heranças culturais africanas. A narrativa, que envolve 16 personagens, transcorre em quatro partes, batizadas pelo autor como flechas: a viagem, a estrada, a caminhada e a chegada.
O caminho percorrido pelo autor e seus parentes se cruza com tantos outros, mostrando a possibilidade de o indivíduo se encontrar com outras crenças. Assim, é permitida a troca de conhecimentos, abrindo novos caminhos para outras experiências, seja no âmbito do real, seja do imaginário.
A referida premiação, organizada pela Associação Brasileira das Editoras Universitárias, é voltada para publicações deste segmento. O curador do ABEU é o professor José Castilho Marques Neto, Secretário Executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura e há 20 anos ligado ao setor editorial universitário.


A Viagem de Orixalá: entre texto e paratextos


 Maria de Lourdes Netto Simões
           
 O título  A Viagem de Orixalá:  estrada de Sagitário, caminhos de Orunmilá instiga à leitura; especialmente instiga a alguém como eu, agnóstica, mas respeitadora de crenças e caminhos (entendendo-os como linguagens). E, pelo que o título suscita, a  pergunta se impõe: será um texto de  ficção? de resultados de pesquisa? de ensinamentos?. Tal dúvida se fortalece  com a epígrafe de abertura: ”Tudo isso [...] será a vida imitando a arte”. 
De saída, debruço-me sobre o belo projeto gráfico e a estrutura do livro. Ilustrado, com inventivas gráficas (inclusive páginas manuscritas)  e inúmeros paratextos: dedicatória, epígrafes, agradecimento, sumário, ilustrações, orelhas,  chamadas de advertência ao leitor, notas de rodapé, glossário.
O Sumário refere, além de um texto introdutório – Ficção e Oralidade- , quatro partes ficcionais;  mais um texto denominado “Cerração”  e  um Glossário.  Mas, antes do sumário, um paratexto põe a questão da autoria, onde Ruy Póvoas afirma que o livro ficcional será escrito por um personagem, criado por ele, de nome Leonam. Em verdade, nesse esclarecimento de autoria, RP afirma: ”eu fico com o papel daquele  que providenciou condições para ele atuar” ( p. 15). Insinua ao leitor as regras do jogo da escrita e o tema sobreposto em várias intenções: “Ao focalizar a viagem de Orixalá, na verdade, é ele [Leonam] quem viaja em busca de si mesmo” (p. 13). 
Será somente isso? –   a dúvida se impõe. Mas notemos: ele escolheu um agnóstico para Narrador=Personagem-escritor.  Com que autoridade esse N=Pe falará de astrologia ou de candomblé?  Ao afirmar que terá de admitir que o seu N=Pe crie, por sua vez, “criaturas ficcionadas”,  estará estabelecendo um álibi relacionado à verossimilhança ficcional? Como diz, “caberia ao escritor apenas oferecer condições para revestir os  personagens com roupagens especiais que lhes dão vida , vigor e vitalidade” (p. 15). E fica a pergunta: quais roupagens?
Em verdade,  parece ser o autor,  Ruy Póvoas,  o maestro que se vale da ficção para o seu propósito de escrita e suplementa essa narração com uma estrutura que se encontra nos limites do texto principal da obra, os  paratextos.  Tudo isso, numa primeira impressão, provoca a ideia de deslimite de gênero, integração de saberes, fronteiras derrubadas entre a vida e a arte.
Para verificação de tal hipótese, tomo o  conceito de paratextos de Gerárd Genette, que os considera como  editoriais e autorais. Para estas considerações, interessa o paratexto autoral (in: Seuils. éditions du Seuil, coll. "Poétique", 1987, p. 8),  visando evidenciar a importância e contribuição do recurso paratextual para o nível de significação da obra.  Genette  refere a paratextualidade  como uma forma de  transcendência textual, “aquilo por meio de que um texto se torna livro e se propõe como tal a seus leitores, e de maneira mais geral ao público” (in: Paratextos Editoriais. São Paulo: Ateliê editorial, 2009, p.9). Tal conceito compreende o texto em íntima ligação com uma estrutura que o envolve e contribui para que tome forma e produza sentidos.
Senão, vejamos.
1.    A gênese do texto ficcional
Ficção e Oralidade são os dois recursos básicos da inventiva de A Viagem de Orixalá. Já  sinalizado no título do capítulo, complementa-se metaforicamente:  viagem,  estrada, caminhos. Aí, como introdução geral da ficção, os processos ficcionais são discutidos  pelo N=Pe: a criação de mais 15 personagens, além dele mesmo; a escolha da Astrologia, dos Odu de Ifá e dos saberes do terreiro do candomblé, como forma de lidar com o conhecimento.
O insight para a escrita do livro fica, para o leitor, entre a realidade (o livro como um todo na sua inventiva) e a ficção (o narrado pelo personagem Leonam). Agora, é o N=Pe quem fala sobre os quatro acontecimentos que provocaram a criação ficcional: a comemoração dos  70 anos, um sonho com a constelação de Sagitário,  a visita à festa do Pilão de Orixalá e a eleição de um mito africano (p. 23).  Esses são os disparadores dos insights para os personagens.
Como RP havia anunciado em Uma questão de Autoria, o escritor  se “descolaria” do personagem recém-criado. Tanto é que, já agora, é Leonam quem afirma:  “É a ficção criando a realidade” (p.24).  Na tentativa de explicação desse processo criador, no entanto, esse N=Pe encontra-se ainda imiscuído com RP em muitos momentos do seu “outrar”,  até mesmo na reflexão (p. 25)  sobre outros escritores e processos de dar vida a personagens.  Sobre o ato da escrita, Leonam afirma que a viagem  “não começa por um projeto, mas por arrebatamento” (p26). Mas, gradativamente, o leitor não terá dificuldade em perceber, por trás,  a orientação autoral de Ruy Póvoas, ao  identificar  reflexões que ultrapassam o perfil do personagem Leonam. Assim é que refere a “estrada”,  os “caminhos”. Conforme afirma: “ a estrada é a intuição que se anima na oralidade [...] e passa também  pela memória “ (p.27);  e acrescenta: “a viagem é compulsiva, mas os caminhos se constituem escolhas” (p.26)
A dúvida sobre a legitimidade de o N=Pe fazer essas reflexões sobre o processo criador  instala-se no próprio texto: “se ele não passa de um ser de ficção, como ousa descrever o processo criador?” (p.27) e provoca a inquietação: essa é voz do leitor? voz de RP, buscando salvaguardar a verossimilhança?  Pela boca de  Leonam, a ambiguidade dá resposta aos céticos: “eu também escrevo” (p. 27).  
Leonam anuncia que “o download está começando” (p.27) e indica um ponto de referência e partida: A festa do Pilão, num terreiro de candomblé.  Diz da estratégia de recorrer ao mito nagô como “espinha dorsal”  dos textos dos 16 participantes (mas não fala de “um caminho diferente”, referido no sumário, e que se encontra à p. 327). Sustentando  a tese de que “escreve quem realmente tem o quê dizer” (31), agradece aos seus inspiradores. Assinando como organizador do livro, Leonam Navarro deixa  claro ao leitor que acaba de escrever a introdução do texto ficcional.  No entanto, a ambiguidade autoral não se esvai;  subsistem por trás do nível do relato ficcional,  algumas “pegadas” do escritor RP: “não sei se ainda terei oportunidade de aparecer por aqui [...] que também seja uma despedida” (p.32).  Despedida de quem??  Leonam certamente aparecerá, pois será o personagem principal do texto ficcional que se estrutura em quatro partes. 
2.   A viagem:  o pensar
 Download da memória? Do projeto articulado? A epígrafe que abre a Parte I anuncia a sua palavra-chave: o pensar. Eis que tem início A viagem de Orixalá, estrada de Sagitário, caminhos de Orunmilá. Astrologia e ensinamentos das crenças do candomblé  são a base do pensar.  Mas por que escrever?: “Eis aqui uma sequela da viagem na existência: necessidade de explicação”  (p.36).
“Chegar aos 70 foi para mim a viagem das viagens” (p. 40), tal é declarado  pelo personagem-escritor Leonam. Indiretamente, também por  Ruy Póvoas quando revela os seus 70 anos, ao informar o  ano do seu  nascimento (1943),  através do paratexto autoral,  segunda ‘orelha’ do livro.  A virada para os 70  parece ter sido  motivação de mudança, o “gatilho” para a escrita das memórias.
A visão do Sagitário criou  o sonho, ordenou a narrativa a partir das 4 flechas   e recomendou:  “Não esqueça dos Odu de Ifá...” (p.49).  Depois, A Luz de Orunmilá  explica os princípios do candomblé; traz o mito, a fonte que faz a espinha dorsal da narrativa; o desencadeador do processo do autoconhecimento,  dos ensinamentos.
Vale ressalvar que a estratégia autoral de o N=Pe ser agnóstico possibilita ao leitor, leigo sobre o mundo do candomblé,  assenhorear-se de conhecimentos básicos para a compreensão do  significado mais profundo da narrativa.  Estudando Leonam, aprende também o leitor: “Agora eu tinha as falas [...] além das leituras, pesquisas e estudos sobre Astrologia, Sagitário e sobre os Odu de Ifá” (p.76).  Ou seja, oralidade e pesquisa;  o corpus teórico do trabalho é dessa forma definido.
Na formulação do pensar dessa  Parte I, o recurso paratextual   das notas de rodapé alia esclarecimentos científicos à  ficção. Referenciam, iluminam e esclarecem  o ensinamento; e, ficcionalmente, contribuem para a verossimilhança do personagem.  Ainda, fortalecem e dão legitimidade ao pensar, como dão sustentação ao projeto.

3.   A escolha de estradas.
Na vida, a escolha da estrada a percorrer é fundamental para o caminhar.  Assim também na ficção; a estrada se define através de opções e possibilidades do andar, os caminhos. E o mesmo  podemos  dizer em relação a um projeto de pesquisa; a escolha da “estrada” a percorrer implica na metodologia a ser desenvolvida.
A epígrafe que abre a Parte II adverte a possibilidade de outros olhares sobre a sociedade, além daqueles oferecidos pelas Ciências Sociais (p77). A ficção de Leonam, por ordem do Sagitário,  elege Os Odus de Ifá como orientação para o caminho a percorrer. A linguagem a ser usada na busca de si mesmo, é também escolha. Como afirma Leonam: “Apenas preferi não me sentar no divã. [...] Escrever, então, para mim, seria caminhar em busca de mim mesmo” (p.79).
É o  N=Pe quem diz: “Esse prólogo parece que nunca mais vai terminar. [..] Não é comum escritores fazerem making-of e, além do mais, fazê-lo integrante da obra escrita” (p.79). Mas a verdade é que o making-of  já fora iniciado por Ruy Póvoas, em “uma questão de autoria” (p. 13).   Agora, a paratextualidade autoral é  admitida na afirmação do making-of  e ratifica  parte da metodologia definida para a escrita do livro.
As reflexões sobre estrada (sentido literal e figurado)  evidenciam a necessidade do conhecimento de alicerce, “o chão teórico-metodológico que me possibilitará tal empreendimento” (p.82). Como reconhece Leonam: “Daí,  minha tenacidade de entender ao máximo possível sobre assuntos da Astrologia e dos Odu de Ifá” (p.80).  A decisão de estrada é também a do suporte que sustentará a caminhada: “Tomar os Signos do Zodíaco e os dezesseis  Odu-meji como possibilidade de acesso ao inconsciente”  (p. 81). Os paratextos – especialmente as notas de rodapé – dão a sustentação teórico-metodológica que Leonam busca e precisa. Também nesse caso, a presença de RP subjaz, através da  experiência do babalorixá (oralidade) e do pesquisador (as informações científicas trazidas pelas notas).  O texto introdutório da Parte II assenta a decisão do N=Pe: “As quatro flechas que Sagitário me deu vão se transformar em quatro partes do livro” (p.92).
Essa conclusão de Leonam não estará extemporânea, considerando que ele já está escrevendo a Parte II? Ou toda a reflexão teórico-metodológica não seria do texto maior, assinado por Ruy Póvoas?  Fica a dúvida para o leitor. E  o próprio Leonam responde: “Dormientibus non siccurrit jus”  (p. 92,   embora a tradução, no rodapé, seja um paratexto autoral de RP).   A certeza  de que “a lei não socorre aos que dormem”  leva-o  [-os] à promessa da sua vigilância total  sobre o processo da escrita.
Ficcionalmente, do encontro no Terreiro ocorre o conhecimento do mito, pelos 16 personagens-escritores. A estratégia de os Pe não serem gente do candomblé justifica a necessidade de esclarecimento do ritual (para a ficção; para a pesquisa). Mais uma vez, ganham os leitores... O encontro no terreiro é a descrição-narrativa  do ritual, com o didatismo de uma aula. (p.100).  O ensinamento pela oralidade é, no enunciado, apresentado em letra cursiva. Dessa forma, é contado  o mito da Viagem de Orixalá, cuja lição será retomada por cada personagem-narrador, como fonte para as respectivas  autorreflexões. E o mito é concluído com uma sentença: “A glória cabe apenas a quem se dispõe enfrentar a si mesmo” (p.106).
Dessa “afirmação”,  é selado  o Pacto entre os amigos: “a história vai ser a espinha dorsal do livro” (p.121). Fragmentos do mito serão  epígrafes desencadeadoras de cada caminho. Assim, cada N=Pe escreverá a partir das respectivas autorreflexões provocadas pelo  mito, em “enfrentamento de si mesmo” (p.121). Nesse ponto, o projeto é  ficcional e a sua metodologia  é  traçada pelos personagens em reuniões sucessivas. Dentre as conclusões, uma coisa fica assentada: “a fé é independente das peias da religião” (p.121).  Essa afirmação ficcional tem repercussão de ensinamento e alcança a perspectiva  de multiculturalidade, de respeito às diferenças, subliminarmente proposta por  RP ao conceder  liberdade ao narrador da ficção.
Nesse mister do ensinar, os paratextos autorais ganham cada vez mais ressalto, complementando e suplementando a ficção, em função do objetivo comum (da pesquisa e da ficção)  quanto às “ferramentas” para o  processo do autoconhecimento.  Pari passu, a metodologia para a elaboração da ficção se define, fluindo das conversas entre os do grupo. Simultaneamente, tem visibilidade a metodologia da pesquisa/ do processo ficcional. A  estratégia dos paratextos dão os subsídios referencias de conhecimento ao grupo de personagens e ao leitor. E fortalecem a verossimilhança ficcional.  Acentuam o deslimite de gênero que o livro suscita.

4.   O cerne temático - A Caminhada, em execução do projeto ficcional  e da autorreflexão.
 A epígrafe de W Borges que abre a Parte III afirma que “No rio da vida, as águas do tempo curam tudo, pois diluem no eterno as coisas passageiras” (p.137). Tal ideia pode se relacionar à ficção e à vida que imita a  ficção, como sinaliza a já referida epígrafe que abre o livro: “qualquer fato semelhante,  acontecido, será a vida imitando a arte.” (p.9).
Na proposta ficcional de Leonam  são eleitas  três orientações: “o orixá, o odu e  signo” (p. 201).  Assim, os focos evidenciam a diversidade: filosófico, antropológico,  psicanalítico, religioso,  social, identitário...,... E, pensando no inquietante deslimite de gênero,  a ideia é a de que RP  insubordinou-se. Ele, o pesquisador, valeu-se da ficção criando personagens que legitimassem o seu falar. Transgressões poéticas?  Cientificismo tangencial?? Álibis?  
Ficcionalmente, a caminhada é de cada Personagem-escritor que,  trabalhando com um fragmento do mito, visa a autorreflexão e o autoconhecimento. Além disso, cada  um traça a sua  metodologia de abordagem. Os focos são aqueles que dizem respeito às respectivas vidas. Assim, os ensinamentos  vão sendo apresentados, absorvidos pelo leitor, homeopaticamente.  Inclusive com o inesperado Caminho Diferente, que faz com que sejam 17 caminhos e  não 16. Opira! Com esse, haverá a intensão autoral de deixar ao leitor a reflexão sobre a sua  possibilidade de mudar o próprio destino?  E a epígrafe desse Caminho 17,  induz a essa conclusão: ”A glória cabe apenas a quem se dispõe enfrentar  a si mesmo”  (p.327, negritado pelo autor).
Suplementarmente, os paratextos referenciais (notas de rodapé) tornam-se mais intensos, dando substância às reflexões de cada personagem, situados em áreas de conhecimento diversas.  Nesse proceder, por vezes, ocorre a impressão de que o paratexto autoral das referências científicas, que suplementa a reflexão ou narrativa,  se sobrepõe à ficção (p.141). Se, por um lado, as referências complementam as lacunas de conhecimento dos personagens, por outro, proporcionam ao leitor, também, uma informação suplementar.  O leque de  focos  abrange as humanidades em perspectivas existenciais que sinalizam as possibilidades de multiplicidade de caminhos para o autoconhecimento.
Dessa forma, o texto enunciativo  se resolve em três níveis de escritura: o do planejamento do autor RP, do planejamento do Narrador Leonam, do planejamento de cada personagem-narrador, em função do fragmento do mito  a cada um destinado (p.221). Como conclui o próprio personagem, “o mito de A Viagem é  de profunda generosidade no  que diz respeito ao ensinamento de princípios éticos e morais” (p.226). Do mito, ao rito, ao ritual, prossegue a viagem, transportado pela linguagem do candomblé.
Se os Caminhos são vários, não cabe ao leitor, no entanto, juízo de valor. A intencionalidade autoral se justifica pela convicção de que “a ciência, a religião, as artes possibilitam [...] opções as mais variadas” (p.207). A diversidade é respeitada e aí também reside um dos ensinamentos: cada um tem o seu caminho; é  preciso aprender a trilhá-lo conforme o seu perfil;  pois “nenhum caminho [é] melhor do que o outro” (p.207). 
Assim, “costurando”  os vários focos,  a cada Parte, é traçada progressivamente  a metodologia de cada etapa da “viagem”. Na instância do enunciado, o leitor recebe orientações  sobre maneiras de autoconhecimento,  inclusive sobre o jogo de búzios, que explica a “trama de Sombra e Luz, através da qual o humano é construído e se constrói” (p.253). Os focos também revelam o  cotidiano dos terreiros de candomblé,  sua organização; a maneira da educação; a oralidade (p.279), onde “o mais velho enfatiza para o mais novo um conhecimento que ele precisa aprender” (p.282);  ou,  no  observar e escutar atitudes e rituais, na linguagem do silêncio (a expressão  é de Marialda Silveira, 2004).  Por trás, na enunciação, o escritor RP vai deixando registrada uma memória de experiência e ensinamentos. A ambiguidade entre o sujeito do enunciado e o da enunciação toma o leitor. Sob a fala de Leonam,  subjaz a de RP: “Quem  me leu até aqui, na certa já deve ter tirado suas conclusões sobre minha parte nesse latifúndio de Iká.” (p.288)
Como foi dito, cada caminho uma faceta; cada faceta um conhecimento sobre o candomblé - desde a explicação de ritos e rituais, à organização do terreiro e formas e concepções de riqueza. Este livro é orientação para o autoconhecimento, sim;  além disso,  é também revelação, compartilhamento de uma cultura, de um estar  no mundo e do conviver com os orixás.
5.   A chegada – o sonho realizado
Por que sonho realizado?  Será pela jornada da vida vivida até aos 70 anos, tanto pelo autor, como pelo personagem? : “Já no limite das minhas forças, pensei que minha viagem chegara ao fim.” (p. 349).  Na textualidade, a afirmação de que a chegada é o sonho realizado se faz também pela observação do projeto relacionado. A chegada é do narrador Leonam, personagem organizador dos relatos ficcionais; mas também é do autor  Ruy Póvoas que, com esse livro, ultrapassa a oralidade. Valendo-se dela, dá-lhe forma escrita para deixar ensinamento a leitores de dentro e fora da “porteira” (a expressão é de Póvoas, 2007, quando se refere  ao limite cultural do  terreiro do candomblé).
Sujeito ficcional (enunciado) e sujeito pesquisador (enunciação) se unem para a chegada: “É  percorrendo a estrada do sonho, no entanto,  que se pode entender a diferença entre ele e a dureza da realidade [...]  Quanta realidade  necessitando do sonho! Muitos são os caminhos, eterno convite para a compreensão mais larga” (p. 349).   A  estratégia de recorrer à ficcionalização para  dar o seu recado oportunizou a RP, pesquisador  e babalorixá, “expandir as fronteiras  de  estudos consagrados, sem conflitos com o quê está estabelecido pela tradição científica” (p.351),  finalizando com o convite de viagem para o leitor. Mas antes, para atender aos de dentro e fora da  porteira, indica o Glossário, paratexto autoral que fecha o livro.
E o sonho (e tb o texto ficcional, que é o sonho) cerra o livro. A Cerração (p. 355) é do sonho e é da vida? Ao leitor intrigado, fica a pista: “no início já estão as marcas do fim” (p. 356). E, retomando: ”Tudo isso [...] será a vida imitando a arte” (p. 9). A vida não é mesmo uma viagem que um dia se apaga? “assim,  assi  ass as a...” (p. 356).

6.   Conclusão:
Paratextos e significação – os níveis de leitura
De início, ao explicar sobre a questão de autoria, Ruy Póvoas  declara a sua intenção de criação do texto ficcional e admite que a narrativa do personagem- narrador é “interrompida em várias  passagens por fragmentações” (p. 13). Acrescenta ainda  que “tais fraturas, no entanto, poderão levar o leitor muito mais longe” (p.13). 
Da articulação entre textos e paratextos,  resulta a maior singularidade da inventiva transgressora: o  texto ficcional se apresenta reforçado por certo número de produções, sejam elas verbais ou não-verbais (traduzidas da oralidade da linguagem) e, que, de certa forma,  o prolonga e suplementa; especialmente é de ressaltar o mito (espinha dorsal da ficção) e as notas de rodapé (que acrescentam a fundamentação teórica ao texto). O livro, por tais recursos, se acrescenta, buscando garantir a sua comunicabilidade, sua recepção e seu consumo.

É confirmada a hipótese de que os elementos paratextuais autorais acrescentam o texto que o envolvem. Isso porque não somente ocorre uma complementariedade através dos elementos pretextais (dedicatória, epígrafes gerais, capa, ilustrações) e os pós-textuais (glossário) que o ampliam; mas também, como referido, pelo mito-epígrafes e pelas notas de rodapé, que integram o texto ficcional e, ultrapassando-o, suplementam-no, e oportunizam outro nível de leitura. A relação interdiscursiva, que ocorre, prolonga a obra.  Ainda a conclusão de que as fronteiras do texto se situam na instância do enunciado e as intervenções paratextuais são de natureza enunciativa favorece a afirmação de que, entre a escrita e o livro como presentificação, a dimensão comunicacional da textualidade se consubstancia. Realmente, em A Viagem de Orixalá, por sua particular suplementariedade, é possível afirmar que o paratexto tem aquela estatura de lugar privilegiado de uma pragmática textual e de uma estratégia, que resultam em ação sobre os leitores. Tais procedimentos, como antes afirmado, longe de obscurecerem a compreensão geral do trabalho, iluminam questões específicas da interpretação, aprofundam as digressões do leitor, funcionam como mediadores entre o leitor e o texto; levam o leitor “muito mais longe” (idem).

Em aprofundamento de níveis interpretativos, os  limiares do texto exigem, assim,   a convergência em torno de uma análise textual atenta às mediações entre o mundo social e o ato de leitura. Sobretudo o conceito de recepção deve ser requalificado, abarcando não apenas a distância do horizonte social e das leituras partilhadas por comunidades interpretativas;  mas, também, o nível mais concreto e imediato desse conjunto de textos “menores”  que, no entanto, constitui a dimensão material da própria obra.
Linguagens diversas  e lugares de conhecimento diversos resultam no projeto/ficção bem articulado, onde a inventiva passa por  fazer o sujeito do enunciado e o sujeito da enunciação andarem de  mãos dadas. O interesse deste livro passa, portanto, pelo olhar a sua concepção e montagem. Projeto de criação e  pesquisa, cuidadosamente pensado e justificado,  “casando” as linguagens científica e ficcional. Ciência e Arte! Pesquisa e Ficção. Estratégia singular de salvaguardar memória, oferecer ferramentas para o autoconhecimento,  registrar uma caminhada,  marcando o especial lugar da cultura do candomblé. Tudo isso, expondo a ideia de diversidade, sintetiza  o  propósito de preservar e compartilhar ensinamentos de heranças culturais africanas.

                                                           Julho de 2016

A Voz do Autor entrevista Cyro de Mattos

Entrevista em A Voz do Autor da Associação Brasileira  de Editoras Universitárias Brasileiras

Autor de diversos títulos pela Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz, Cyro fala sobre seu último livro,  a antologia Histórias dos Mares da Bahia, premiações literárias e a projeção global que elas oferecem para o conteúdo de suas obras.
Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista, romancista, ensaísta e também autor de livros infantis. Já publicou mais de 40 livros no Brasil e 9 no exterior, sendo 9 deles com o selo editorial da Editus - Editora da UESC. Neste mês de setembro, o escritor foi agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela UESC. Em sua trajetória, ele já recebeu mais de 40 prêmios literários, e, entre eles, o Prêmio Vânia Souto Carvalho, concedido pela Academia Pernambucana de Letras, com o livro “Berro de Fogo e outras histórias”, que em 2013 ganhou nova edição pela Editora da UESC. Seu livro “Vinte Poemas do Rio”, português-inglês, foi indicado para o vestibular da Universidade Estadual de Santa Cruz, durante três anos, como também “O Conto em Vinte e Cinco Baianos”, antologia que ele organizou.
Recebeu, ainda, prêmios da Academia Brasileira de Letras, Pen Clube do Brasil, Associação Paulista de Críticos de Artes, Menção Honrosa no Prêmio Jabuti e Menção entre os quatro finalistas no Concurso Internacional Plural, México. Algumas de suas obras destacam a civilização cacaueira baiana como um dos espaços do seu imaginário fecundo, no qual retrata a paisagem, personagens, lugares, hábitos e histórias. Recentemente dois outros grandes acontecimentos marcaram a vida do escritor.  Foi eleito para a cadeira nº 22 da Academia de Letras da Bahia, que tem como fundador Rui Barbosa, e o seu mais recente livro, “Histórias dos Mares da Bahia”, foi lançado na 24ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no estande da Associação Brasileira de Editoras do Nordeste - ABEU. A obra faz parte da Coleção Nordestina, projeto editorial que reúne livros produzidos pelas editoras da ABEU Nordeste.  Essa coletânea reúne dezesseis escritores baianos, e, entre eles, João Ubaldo Ribeiro, Hélio Pólvora, Ruy Espinheira Filho, Guido Guerra, Gláucia Lemos e Aramis Ribeiro Costa. No ano passado, seu livro "Cancioneiro do Cacau", Prêmio Nacional Ribeiro Couto da União Brasileira de Escritores (Rio) e Segundo Prêmio Internacional Maestrale Marengo d’Oro, Gênova, Itália, foi lançado na Bienal Internacional do Livro do Rio, em segunda edição. 
1. As suas obras expressam muito da cultura do sul da Bahia, com destaque especial para a civilização nascida ao longo do tempo pela implantação da lavra cacaueira. Essas representações ganharam projeções internacionais e também importantes premiações no cenário nacional. Como é ver o local de suas criações ganhar uma projeção global? Como o senhor avalia pessoal e profissionalmente essas importantes premiações? 
Canta a tua aldeia e serás universal, disse o russo Tolstoi. Para Fernando Pessoa, o genial poeta português, o melhor rio não era o Tejo, mas o rio que passava ao pé de sua aldeia, porque era o rio de sua aldeia. Houve quem observasse que o homem faz o lugar e não o contrário. E o lugar é onde se registra a memória. O lugar tem sido motivação e símbolo para algumas de minhas criações. Minhas origens e vivências locais têm sido uma das vertentes de minhas produções em prosa e verso. Isso acontece quando às vezes, das germinações à execução da ideia, tomo como ponto de partida minhas vivências na infância, em outras vou buscar ou imaginar o assunto no cerne da história, aproveitando o que vi, colhi nos mais velhos ou até pesquisei.  Pode até mesmo acontecer que imagine um espaço sem localização geográfica, identificável com alguma parte do sul da Bahia, como no romance “Os Ventos Gemedores”, no qual criei o condado de Japará para desenvolver a trama, auscultar os personagens através de conflitos no drama.  Assim, desde que meu texto leve aos outros uma nova forma de conhecimento da vida, através da linguagem que poetiza a vida, situações e gente com nervos e sentimentos, tendo como resultado um alcance universal e reconhecimento, aqui na região e fora de nossas fronteiras, fico contente, torno-me menos incompleto na existência, que para nós humanos é falha, limitada, precária, vulnerável, não basta. É gratificante, um verdadeiro prêmio que é dado ao autor esse tipo de reconhecimento. Acho sensato ser reconhecido em vida pelo meu trabalho, depois de morto só serve para o orador, que passa como herói, ao ressaltar no sepultamento as qualidade de quem se foi para sempre, não está mais neste mundo, ficou submetido ao inexorável. 
2. O senhor foi eleito para ocupar a cadeira 22 da Academia de Letras da Bahia e recebeu o primeiro título de Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz pela sua contribuição à literatura e à cultura.  O que significam esses novos reconhecimentos na sua carreira literária?
São qualificações de meu trabalho no mais alto nível. Sinto-me honrado, fortalecido, incentivado para continuar a jornada nessa estrada solitária, a essa altura comprida.  Nela, paro às vezes, olho para trás, vejo à direita e à esquerda, sigo em frente com tantas vozes no peito, dos outros, mas que no fundo são também minhas. Vou formando com elas e a minha voz o diálogo necessário, o disfarce múltiplo que desfaz o real e projeta outra realidade com novos sentidos, externa outra linguagem através dos sinais visíveis da escrita, com seu poder metafórico intenso e de proliferação, que me ajuda a sobreviver e a conhecer um tanto mais do que sou, entre o alegre e o triste, o transitório e o permanente, o belo e o feio. Vou cumprindo uma missão, usando as palavras para explicar o inexplicável, mas que é belo, com suas verdades retiradas da vida, a ela devolvidas com razão e emoção, porque assim deve ser.
3. O seu último livro, “História dos Mares da Bahia”, foi lançado na 24ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no estande coletivo da ABEU pela Editus. A publicação traz 16 contos de importantes escritores baianos, que revelam um cenário de muitas histórias. Por que o mar como fonte de inspiração e ambientação? Como foi a escolha dos autores?
Como se vê sem esforço, trata-se de antologia temática. As histórias têm como foco o mar da Bahia, que entra como o cenário, ora interferindo no destino dos personagens, ora como elemento de composição da paisagem humana. O mar é assim a fonte de inspiração e ambientação de cada história. O mar sempre exerceu uma sedução e atração aos seres humanos. E, como temos ficcionistas na Bahia da melhor qualidade, que souberam focar o mar como fonte de suas criações, resolvi fazer uma antologia com o tema e com esses autores expressivos. O critério da escolha dos contistas se deu em função da qualidade do texto. Convenhamos que, como em toda a antologia, ocorre a omissão, mas os autores selecionados para a coletânea “Histórias dos Mares da Bahia” são os mais representativos do gênero na Bahia. Eu diria sem hesitar que são contistas brasileiros da Bahia, fortes no discurso coeso.  Com seus projetos estéticos e resultados positivos, todos eles vêm contribuindo para que as letras brasileiras operem como meio eficaz de comunicação humana em sua função social.