Escritor Cyro de Mattos Participará do Seminário de Cordel, Midias e Cultura Popular na UESC dia 26


 

O escritor Cyro de Mattos estará participando no dia 26, a partir das 8,30 horas, do Seminário de Cordel, Mídias e Cultura Popular, na Universidade Estadual de Santa Cruz, auditório do DCET, evento que é promovido pelos alunos do oitavo Curso de Letras, sob a coordenação da Professora Doutora Reheniglei Rehem.

O escritor e poeta Cyro de Mattos abrirá o seminário com a palestra “O Trovador Minelvino ou Do jeito que o povo gosta”. O Seminário contará ainda com a participação de  Guilherme Almeida, Marcelo Pires, professores da UESC, Ana Maria Rocha, do CISO, e da cordelista Janete Lainha.  

Contista, poeta, cronista, romancista, autor de literatura infantojuvenil, com prêmios expressivos, no Brasil e exterior,  mais de 50 livros publicados, Cyro de Mattos tem livros pessoais editados em Portugal, Itália, França e Alemanha. Pertence às Academias de Letras da Bahia, de  Ilhéus e de  Itabuna (ALITA), Pen Clube do Brasil, Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e Ordem do Mérito da Bahia, no grau de Comendador.

Viagem pela Escravidão


                                  

Cyro de Mattos            

           O Sul da Bahia vem se prestando ultimamente a estudos de historiadores, geógrafos, sociólogos e escritores conceituados, já se notando, nessa altura, uma bibliografia significativa, que preenche lacunas e amplia o conhecimento sobre a história da Bahia. A historiografia baiana sempre privilegiou Salvador e o Recôncavo com estudos históricos, sociais, de antropologia e culturais, não dando a importância merecida aos acontecimentos, fatos, episódios, capítulos e manifestações que marcaram o desenvolvimento de uma região rica com suas  características próprias.  

         Entre os estudos que abordam fatos históricos, sociais e culturais, contextualizados no sul da Bahia, cito aqui Os coronéis do cacau, de Gustavo Falcón, Bahia cacaueira: um estudo de história recente, de Angelina Rolim Garcez e Antonio Fernando Guerreiro de Freitas, Um lugar na história: a capitania e comarca de  Ilhéus antes   do cacau, de  Marcelo Henrique Dias e  Ângelo Alves Carrrara (organizadores),  A memória do feminino no candomblé,  Da porteira para fora: mundo de preto em terra de branco, Mexigã e o contexto da escravidão, de Ruy Póvoas.  Antes  da  publicação das obras mencionadas,  devemos considerar, como livros necessários aos que se interessam pelos assuntos da história regional,  Mato Virgem, do Príncipe Ferdinand Maximiliano von Habsburg,  tradução de Moema Augel, Crônica da Capitania de São Jorge dos Ilhéus, de Silva Campos, Sul da Bahia: chão de cacau, de Adonias Filho, e a antologia Memória de Ilhéus, organizada por Fernando Sales, reunindo textos históricos.

            Como estudo da Geografia Humana inserida na memória citadina, ressalte-se O centro da cidade de Itabuna: trajetória, signos e significados, de Lurdes Bertol Rocha. Esta autora, em A Região Cacaueira da Bahia – dos coronéis à vassoura-de-bruxa,  contribui para a  compreensão ampla de uma civilização  com sua maneira singular de vida, ocupando vasta área do território baiano.  A reflexão sobre as desigualdades sociais e culturais, o autoritarismo político, a capacidade e persistência dos que estão na parte inferior da sociedade, a impulsionar com dificuldades sua história, servem de argumento nos escritos de história social no sul da Bahia, reunidos  no livro Entre o fruto e o ouro, organizado por Philipe Murillo Santana de Carvalho e Erahsto Felício de Sousa.   

         O livro Viagem ao engenho de Santana (1), de Teresinha Marcis, é outro  estudo importante da história regional situada no sul da Bahia, resultando essa incursão, juntamente com um filme, de projeto elaborado pelo laboratório de História e Geografia da Universidade Estadual de Santa Cruz para as comemorações dos 500 Anos de Descobrimento do Brasil. Centrado no Engenho de Santana, localizado  no povoado do Rio de Engenho, sítio remanescente  dos mais importantes no  Brasil Colônia,  o estudo revela aspectos e eventos poucos conhecidos da formação histórica da Região Cacaueira. Reconstitui um passado que permaneceu ao longo dos anos numa nebulosa, em razão da carência de material e pesquisas sobre o assunto. 

         A estrutura de Viagem ao engenho de Santana obedece ao desenvolvimento cronológico dos acontecimentos, ligados direta ou indiretamente ao engenho. O estudo faz a abordagem da chegada dos colonizadores com  a ocupação das terras, o modelo de colonização adotado. Revela a relação entre colonos e nativos, a estratégia imposta para a dominação. Detecta a presença do elemento indígena, a descaracterização cultural, resistência, fugas e levantes. Destaca a transcrição de Mem de Sá sobre a Batalha dos Nadadores, na qual foi dizimada no mar uma grande quantidade de nativos.

         Prosseguindo na viagem em torno de um engenho de grande porte, pertencente a Mem de Sá, terceiro Governador Geral do Brasil, que o implantou na capitania de São Jorge dos Ilhéus, em 1537, o estudo alcança o período em que  o referido sítio  foi propriedade dos padres jesuítas. Descreve a sua reconstituição no dia-a-dia com a presença dos escravos, sua histórica rebelião quando ocupavam  o engenho em 1789 e escreveram uma carta de reivindicação para negociar o retorno ao trabalho. O escravo apresenta-se neste documento como agente de resistência e transformador da história,  querendo ser menos objeto, buscando melhores condições de vida, não aceitando a exploração na prestação desumana de serviços. Vale lembrar que de mil escravos um sabia escrever       na época da escravatura como forma de propriedade e produção no Brasil.                         

         Movido a energia hidráulica, servindo de modelo aos fazendeiros regionais, que utilizavam extensa mão-de-obra escrava, a produção do Engenho de Santana chegava a 10 mil arrobas de açúcar anuais, comprovando-se dessa maneira um período de boa fase do produto na Capitania. O engenho representava uma verdadeira povoação. O local onde funcionou todo o complexo do engenho, com a casa de purgar e das moendas, a roda d’água, senzalas e outras instalações, constitui atualmente um pequeno povoado, habitado por famílias de gente humilde, trabalhadores rurais, pescadores, lavadeiras e aposentados. Permanece em bom estado de conservação a Igreja de Santana, uma das mais antigas do Brasil e que foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico da Bahia. Ruínas, histórias e lendas perduram no imaginário dos moradores, principalmente no que dizem respeito à existência da escravidão.

         Baseado em documentação criteriosa, com imagens que contribuem para ilustrar e enriquecer o texto, Viagem ao Engenho de Santana, de Teresinha Marcis, demonstra mais uma vez como Ilhéus tem a ver com o Brasil nascendo como nação. Frisa  a autora que a conclusão desse estudo apresenta-se como desafio a novas investigações, capazes de  aprofundar com outro olhar a leitura crítica dos acontecimentos ali registrados.

 

 

         1 – Viagem ao engenho de Santana, Teresinha Marcis, Editus, editora da UESC, Ilhéus, 86 páginas, 2000.

 

 

CARTA DE MEM DE SÁ AO REI DE PORTUGAL RELATANDO OS ACONTECIMENTOS QUE CULMINARAM COM A BATALHA DOS NADADORES

 

“Neste tempo veio recado ao governador como o gentio Tupiniquim da Capitania de Ilhéus se alevantava e tinha morto muitos cristãos e destruído e queimado todos os engenhos dos lugares e os moradores estão cercados e não comiam já senão laranjas e logo o pus em conselhos e posto que muitos eram que não fosse por ter poder para lhes resistir nem o poder do Imperador fui com pouco gente que me seguiu e na noite que entrei em Ilhéus fui a pé dar em uma aldeia que estava a sete léguas da vila em alto pequeno toda cercada de água ao redor de lagoas e as passamos com muito trabalho e antes da manhã de duas horas dei na aldeia e a destruí e matei todos os que quiseram resistir e a vinda vim queimando e destruindo todas as aldeias que ficaram atrás e porque o gentio se ajuntou e me veio seguindo ao longo da praia lhes fiz algumas ciladas e onde os cerquei e lhes foi forçado deitarem a nado no mar da costa brava. Mandei outros índios atrás deles e gente solta que os seguiram perto de duas léguas e lá no mar pelejaram de maneira que nenhum Tupiniquim ficou vivo, e todos trouxeram e os puseram ao longo da praia por ordem que tomavam os corpos perto de meia légua... ¨ (No livro ¨Viagem ao Engenho de Santana¨, transcrito de Varnhagen, 1956, Tomo I, p.315).

 

CARTA ESCRITA PELOS ESCRAVOS DO ENGENHO DE SANTANA

 

“Meu senhor, nós queremos paz e não queremos guerra; se meu senhor quiser paz, há de ser nessa conformidade, se quiser estar pelo que nós quisermos a saber.

Em cada semana nos há de dar os dias de sexta-feira e de Sábado para trabalharmos para nós não tirando um destes dias por causa de dia santo.

Para podermos viver nos há de dar rede, tarrafa e canoas.

Não nos há de obrigar a fazer camboas, nem a mariscar, e quando quiser fazer camboas e mariscar mandes os seus pretos Minas.

Para o seu sustento tenha lancha de pescaria ou canoas do alto, e quando quiser comer mariscos Mandes os seus pretos Minas.

Faça uma barca grande para quando for para a Bahia nós metermos as nossas cargas para não pagarmos frete.

Na planta da mandioca, os homens queremos que só tenham tarefa de duas mãos e meia e as mulheres de duas mãos.

A farinha há de ser de cinco alqueires rasos, pondo arrancadores bastantes para estes servirem de pendurarem os tapetes. A madeira que serrar com serra de mão, embaixo hão de serrar três, e um em cima. A medida de lenha há de ser como aqui se praticava, para cada medida um cortador, e uma mulher para carregadeira.

A tarefa de cana há de ser de cinco mãos e não de seis, e a dez canas em cada freixe.

No barco há de por quatro varas, e um para o leme, e um no leme puxa muito por nós.

Os marinheiros que andam na lancha além de camisa de baeta que se lhe dá, hão de ter gibão de baeta, e todo vestuário necessário.

Os atuais feitores não os queremos, faça eleição de outros com a nossa aprovação.

Nas moendas há de de por quatro moedeiras, e duas guindas e carcanha.

Em cada caldeira há de haver botador de fogo, e em cada terno de faixas o mesmo, e no dia d e Sábado há de haver remediavelmente peija no Engenho.

O Canavial do Jabirú o iremos aproveitar por esta vez, e depois há de ficar para pasto porque não podemos andar tirando canas por entre mangues.

Poderemos plantar nosso arroz onde quisermos e em qualquer brejo sem que para isso peçamos licença, e poderemos cada um tirar jacarandás ou qualquer pau sem darmos parte para isso.

A estar por todos os artigos acima, e conceder-se estar sempre de posse da ferramenta, estamos prontos para o servimos com dantes, porque não queremos seguir os maus costumes dos mais Engenhos.

Poderemos brincar, folgar, e cantar em todos os tempos que quisermos sem que nos empeça e nem seja preciso licença.” ( No livro “Viagem ao Engenho de Santana”, transcrição do texto original in: REIS, João José e SILVA, Eduardo. Negociação e Conflito: A resistência negra no Brasil escravista, 1989).

 

SOBRE OS VENTOS GEMEDORES

                            
                                                      Ricardo Cruz*


Li recentemente um livro de Ismail Kadaré: Dossiê H. Nos confins da Albânia, início do século XX, dois estudiosos para lá se dirigem com o propósito de pesquisar os cânticos épicos dos trovadores, em busca das raízes ou chaves para decifração de Homero. Tal presença causa impacto aos habitantes, que tomam os dois pesquisadores como espiões a serviço de alguma potência estrangeira, cuja missão seria a de perturbar-lhes a vida, expondo as raízes, não as de Homero, mas dos conflitos e tragédias que lhes atormentam a existência desde sempre. Entre outras preciosidades os dois “espiões” ouvem a fala de um poeta albanês: “Na cólera entre nós nascemos”. E logo vem a descoberta: cólera: mênin, a mesma palavra encontrada no início da Ilíada...

Li Os Ventos Gemedores sem pressa, aos poucos, às vezes voltando ao capítulo anterior, deslumbrado com a poética de cada frase, em como você conseguiu criar um romance/poesia inspirando-se nos brutos, nos brabos. Nos tempos selvagens que ainda existem. Esse novo território grapiúna de sua invenção – Japará –, a cada página me fez relembrar o território de guerras e tragédias grapiúnas, território também de Kadaré. Porque é mesmo a partir do pequeno território de nossas invenções que levamos ao mundo em forma lírica, ou em prosa, as tragédias ou conflitos que testemunhamos, às vezes compartilhamos. Revisitei páginas de Os Brabos, buscando as raízes para Os Ventos Gemedores, e tive uma certeza, você o engrandeceu com a extensão de sua prosa, de sua poética.

Em Os Ventos Gemedores, logo no prólogo você bem que nos dá aviso do que se trata: romance de compromisso, com sabor (e saber) de poesia, escrito com a força de quem sabe tirar mel das pedras, a nos lembrar da trágica e brutal existência humana nas brenhas selvagens dos cacauais de antanho. De antanho? Nem tanto, vivemos outros tempos. Há outras formas de violência, da exploração do homem pelo homem.  E de contá-las. O tirano Vulcano Brás, a submissa Edvina, seus filhos Olívio e Olindo, Vaqueiro Genaro, Almira, Aparício Pança-Farta, são personagens marcantes que nos introduz no mundo hostil, por vezes pueril e sem dúvida encantatório. Personagens esses a se desesperarem ante a infâmia, cansados de desavenças, exploração e sofrimento, tendo como cenário a natureza exuberante e dadivosa do Sul Baiano. Fartos, decidem-se e declaram guerra ao clã dos Braz. O escritor Cyro de Mattos, na melhor tradição dos contadores de histórias, indo além, neste Os Ventos Gemedores, nos dá notícia dessa guerra, também exerce, como os rapsodos dos tempos do Amor Cortês, e no melhor de sua criação, entremeia a narrativa com o som de sua poesia, que no final comparece ao modo do coro grego, numa ciranda, como Homero:

Que faça sol ou faça chuva/
Viva a vida boa e justa /
Tendo sempre a seu favor /
Tanto o amor como a flor pura.
Que faça sol ou faça chuva /
Viva a vida boa e justa /
Inocente na sua dor /
Mas sobrada de valor.


·         *Ricardo Cruz é médico psiquiatra. Contista e romancista.


PARA LER CYRO DE MATTOS


Cleberton Santos



Acabo de ler “Vinte e um poemas de amor”, o mais novo livro do baiano Cyro de Mattos. Sem dúvida, trata-se de um harmonioso projeto editorial em que dialogam os poemas de Cyro de Mattos e as ilustrações da artista plástica baiana Edsoleda Santos. Poema que se projeta na imagem, imagem ecoando poema. Um livro gostoso de ver e de ler.

Erotismo e afetividade são as tônicas primordiais que perpassam este livro. Claramente, percebemos durante toda a leitura, a presença de um poeta maduro que atingiu tanto na linguagem quanto no conteúdo o domínio perceptível das sensações amorosas e o apuro formal das técnicas criativas. É, sobretudo, um livro enxuto, que respeita o tempo do leitor. O curto tempo das vidas urbanas. O curto tempo das vidas parceladas em cartões de crédito. O tempo dos que ainda acreditam que a leitura de poesia harmoniza nossa alma, reacende nossas paixões. O tempo, acima de tudo, em que precisamos dizer apenas o necessário, pois o silêncio muitas vezes é mais sábio que os barulhos caudalosos de textos angustiados de falsos profetas estéticos. A poesia em carne, delírios, afagos, desejos e muitas metáforas sensuais. A poesia do nosso tempo!
A poesia de Cyro de Mattos emana aquela força lírica que nos alcança no mais profundo abismo de esquecimento e solidão. Poesia que sacia nossa eterna sede de Beleza!

III
Sede dos teus seios,
Meu corpo no teu corpo
É uma única boca,
Lambe os pontos
Mais longínquos.
Numa urna alaranjada,
Vermelha, branca,
Chovida de procuras.
Como é possível o amor
Vazar tanto vinho?
(p.21)
MATTOS, Cyro de. Vinte e um poemas de amor. São Paulo: Dobra Editorial, 2011.


Cleberton Santos – poeta e professor do IFBA. Publicou os livros de poemas Ópera urbana (2000), Lucidez silenciosa (2005), Cantares de roda (2011).


SECULT BA VAI LANÇAR 2º VOLUME DE LIVRO “AUTORES BAIANOS:UM PANORAMA”,


Neste número, o livro Autores Baianos: Um Panorama reunirá 12 autores da Bahia
A Secretaria de Cultura do Governo do Estado da Bahia (SecultBA), através da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB), da Fundação Pedro Calmon (FPC) e de sua Assessoria de Relações Internacionais, investindo na internacionalização e difusão da literatura baiana, está iniciando a produção do 2º volume do livro Autores Baianos: Um Panorama, uma publicação trilíngue (inglês, alemão e espanhol) que, neste novo número, apresentará mais 12 nomes que representam a atual produção literária da Bahia.
A proposta é de que a obra seja utilizada em iniciativas de difusão em feiras e eventos literários internacionais, com distribuição estratégica, direcionada a agentes literários e editoras. A lista de autores participantes, de distintas gerações, perfis e gêneros, vai ser formada por Antonio Brasileiro, Cyro de Mattos, José Carlos Limeira, Marcus Vinicius Rodrigues, Maria da Conceição Paranhos, Narlan Matos Teixeira e outros. Eles foram indicados por uma comissão especializada, que está também selecionando mostras dos trabalhos dos artistas para compor a publicação. Os textos serão acompanhados por uma minibiografia.
A comissão de seleção foi formada por Aleilton Fonseca, Florentina da Silva Souza, Jailma dos Santos Pedreira Moreira, João Vanderlei de Moraes Filho, José Castello, Kelvin dos Santos Falcão Klein, Milena Britto e Rachel Esteves Lima.
Sobre o 1º volume do livro Autores Baianos: Um Panorama – Em outubro de 2013, o Brasil foi o país homenageado na Feira do Livro de Frankfurt. Esta ocasião foi palco do lançamento do 1º volume do livro, que reuniu 18 autores: Adelice Souza, Aleilton Fonseca, Állex Leilla, Antonio Risério, Carlos Ribeiro, Daniela Galdino, Florisvaldo Mattos, Hélio Pólvora, João Filho, Karina Rabinovitz, Kátia Borges, Lima Trindade, Luís Antonio Cajazeira Ramos, Mayrant Gallo, Myriam Fraga, Roberval Pereyr, Ruy Espinheira Filho e Ruy Tapioca. Eles foram indicados por uma comissão de seleção formada por Antonio Carlos Secchin, Antonio Marcos Pereira, Jorge Araújo, Josélia Aguiar, Milena Britto e Nancy Vieira.


LETRA SELVAGEM & CASA DAS ROSAS convidam para o LANÇAMENTO de 3 livros:

Edições LETRA SELVAGEM & CASA DAS ROSAS convidam para o LANÇAMENTO de 3 livros:

1º) Os Ventos Gemedores, de Cyro de Matos (romance)
2º) Uma Garça no Asfalto, de Clauder Arcanjo (crônica)
3º) Rainhas da Antiguidade: Sedução e Majestade, de Dirce Lorimier Fernandes (biografia)

Data: 12 de novembro de 2013 (quarta-feira), às 19 horas.
Local: CASA DAS ROSAS (Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura). Av. Paulista, 37 (Metrô Brigadeiro) - São Paulo/SP. - Brasil. Entrada franca.

Abrindo o evento, o jornalista e escritor Joaquim Maria Botelho apresentará os três autores ao público presente, que poderá fazer perguntas.

 
1º) “OS VENTOS GEMEDORES” – romance de CYRO DE MATTOS.
Obra e Autor
Nesse romance de ritmo ágil, o leitor irá escutar a fúria de ventos compulsivos, que assim abalam e deixam-nos perplexos, de tal sorte os gestos de criaturas primitivas, de anseios tão densos e chocantes, em meio a situações de desespero. Também encontrará gente de sentimentos inocentes, que está na vida para mostrar os seus instantes de ternura numa paisagem rústica, caracterizada pela natureza bárbara do ambiente e de seus viventes.  
Personagens de papel transmudam-se em gente com sangue quente a correr nas veias neste romance com seus dramas, ambições, opressões e misérias da terra. O autor revela com eles que é dotado de outra virtude: a de estar isento do tom panfletário, da ideologia extrema que contamina o estético e reprime a criação. Sua escrita está como que moldada na linguagem simples das histórias contadas pelos ancestrais, ao redor da fogueira no terreiro ou no alpendre da casa tosca, iluminada à luz de candeeiro. 
A narrativa desses ventos gemedores transmuda as terras do sul da Bahia, no condado imaginário do Japará, região onde a mata recuada, hostil e impenetrável, vai dando lugar às primeiras e tateantes roças de cacau e campos de pecuária. Resulta de um imaginário que ultrapassa os limites conhecidos do real no território sul baiano, das outrora ricas plantações de cacau e pioneiras fazendas de gado nas zonas do capinzal. A narrativa segura, que devassa lugares brasileiros onde a ação de personagens se desenvolve no conflito movido pelo mandonismo de Vulcano Brás e pela busca da vida livre e justa, representada pelo vaqueiro Genaro, confere permanência ao romance, depois do ato de leitura.
O leitor voltará a remoer os acontecimentos do universo ficcional projetado pelo autor e perceberá a marca de um narrador dramático, que funde o real e o fantástico com maestria, dentro da metamorfose rítmica do relato, girando no seu eixo através dos novos significados recolhidos de outras passagens.
Nos episódios de Os Ventos Gemedores latejam brutalidades dum homem sedento e faminto pelos domínios da terra, que avilta outros homens indefesos com seu egoísmo impiedoso. Na mensagem que se expressa no texto vigoroso, revestido de brasilidade e humanismo, emerge uma fabulação interior que confere vida psíquica aos personagens, não apenas como tipos interessantes, agentes populares desempenhando seu papel no cenário dos conflitos sociais. Nesses personagens primitivos, sabe o autor imprimir, como poucos, uma dimensão interior enraizada na explosão dos dramas e das misérias coletivas. No que toca a este jogo psíquico e o drama, como observa o crítico Cid Seixas, doutor em Letras pela USP (Universidade de São Paulo), em comentário ao livro Berro de Fogo e outras histórias: “Quando um destes personagens se deixa surpreender na intimidade da vida é que se percebem os desvãos da sua alma”.
Cyro de Mattos nasceu em Itabuna, cidade do sul da Bahia, em 31 de janeiro de 1939. Diplomado em advocacia pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, em 1962. Advogado e jornalista com passagem na imprensa do Rio de Janeiro, onde foi redator do “Diário de Notícias”, “Jornal do Comércio” e “O Jornal”.
Contista, poeta, cronista, novelista, ensaísta, autor de livros infantis, organizador de antologia. Já publicou 50 livros e possui inúmeros prêmios literários, entre eles, o Prêmio Nacional de Ficção Afonso Arinos, concedido pela Academia Brasileira de Letras para o livro Os Brabos; Prêmio Jabuti (menção honrosa) para Os Recuados; Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) para O Menino Camelô, poesia infantil; com o Cancioneiro do Cacau, Prêmio Nacional Ribeiro Couto da União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro; Prêmio Internacional de Poesia Maestrale Marengo d’Oro, Gênova, Itália. Participa em várias antologias internacionais do conto, como Visões da América Latina, publicada na Dinamarca, na qual estão inclusos, entre outros, Jorge Luís Borges, Alejo Carpentier, Miguel Angel Astúrias, Juan José Arreola, Julio Cortázar, José Donoso, Mario Vargas Llosa, Juan Carlos Onetti, Juan Rulfo, Mário de Andrade, Aníbal Machado e Clarice Lispector, e Narradores da América Latina, editada na Rússia, na qual  figuram, entre outros, Julio Cortázar, Mario Benedetti, René Marques e Rosário Castellanos. Poemas seus foram incluídos na antologia Poesia do Mundo 3, organizada por Maria Irene Ramalho de Sousa Santos, da Universidade de Coimbra, publicada em Portugal, com tradução de Manuel Portela para o inglês, reunindo poetas de dezesseis países.
O nome de Cyro de Mattos figura em obras como Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Dicionário Literário Brasileiro, de Raimundo de Menezes, Enciclopédia de Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho, Literatura e Linguagem, de Nelly Novaes Coelho, Navegação de Cabotagem, de Jorge Amado, Bibliografia Crítica do Conto Brasileiro, de Celuta Moreira Gomes e Theresa da Silva Aguiar, e Enciclopédia Barsa. Sua obra vem recebendo estudos nas universidades. Participou como convidado do III Encontro Internacional de Poetas da Universidade de Coimbra, Portugal, em 1998. Da Feira Internacional do Livro de Frankfurt em 2010 quando autografou a antologia poética Zwanzig von Rio und andere Gedichte, publicada pela Projekte-Verlag, de Halle, com tradução de  Curt Meyer Clason. E do XVI Encontro de Poetas Iberoamericanos da Fundação Cultural de Salamanca, Espanha, em 2013. Possui livros publicados em Portugal, França, Alemanha e Itália. A obra de Cyro de Mattos tem sido reconhecida pelos críticos como significativa e já faz parte da literatura brasileira contemporânea. Seus contos e poemas participam de mais de 50 antologias, no Brasil e exterior. Pertence à Academia de Letras da Bahia e é Membro Titular do Pen Clube do Brasil.

2º) “UMA GARÇA NO ASFALTO” - crônicas de CLAUDER ARCANJO.
Obra e Autor
O título Uma Garça no Asfalto remete ao tema das coisas “fora do lugar”. E ao absurdo que está na base de toda boa literatura e, também, parece rondar a vida do autor Clauder Arcanjo, que nasceu em Santana do Acaraú (CE), aos 3 de março de 1963, mas se radicou em Mossoró (RN), onde assina uma crônica semanal no jornal “Gazeta do Oeste”.
Assentado sobre o chão do seu sofrido Nordeste, professor, engenheiro da PETROBRAS e gerente de plataforma, dividido entre a terra e o mar, Clauder poderia alegar contra si fatores desfavoráveis ao pleno desenvolvimento do artista, mas, apesar disso, consegue florescer inteligência e beleza no solo mais improvável, e realiza o prodígio de fazer da Literatura o leitmotiv de sua existência, provando que “o Brasil não é só litoral”, como canta o poeta.
Fez sua estreia literária em 2007, com os contos de Licânia. Dois anos depois, surpreende-nos com a prosa poética dos minicontos de Lápis nas Veias. Em 2011, reaparece com a poesia de Novenário de Espinhos, que mereceu elogios do poeta Ivan Junqueira, da Academia Brasileira de Letras. Poesia que, em alguns momentos, nos faz lembrar — até porque Clauder jamais se afastou do ambiente de sua infância (a mítica “Licânia”) — do poeta Carlos Drummond de Andrade, que, em busca de si mesmo, partiu para o “vasto mundo”, mas emocionalmente nunca deixou para trás a sua amada (e também mítica) Itabira, o seu “mapa sumido no fundo do mar” (verso de sua amiga Olga Savary).
Para homenagear o inigualável Carlos Drummond de Andrade, de cuja obra Boca de Luar a LETRASELVAGEM emprestou o título para a sua nova coleção, nada mais oportuno do que publicar, como 1º volume da coleção, este sensível e certeiro livro de Clauder Arcanjo, no qual reaparecem com força e plasticidade os seres socialmente invisíveis que Drummond soube tratar tão bem em suas crônicas e que já haviam marcado a literatura brasileira com as inesquecíveis figuras dos “retirantes” de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e também inspirou o chileno Gonzalez Vera a escrever a novela Vidas Mínimas (1923), na qual retrata a sua experiência de vida num cortiço de Santiago, o que nos remete a O Cortiço, de Aluízio de Azevedo. Dificilmente os “humilhados e ofendidos”, de que se ocupou o russo Dostoievski, encontrarão melhor tratamento, em língua portuguesa, do que nessas crônicas de Clauder Arcanjo, sepultando-se a ideia de que a crônica é um gênero literário menor.
Da vida para a literatura, saltam tipos e figuras surpreendentes, como aquela jovem que, de joelhos, com a cabeça de encontro a uma cruz na beira da estrada, reza pela mãe morta. Ou a mãe e seu filho caídos na calçada da cidade grande, atrapalhando a passagem do Ano. Ou Antonio Francisco, de pequena estatura, “entroncado feito saco socado, mas ligeiro das pernas que só vendo”, que, apesar das pernas curtas, tornou-se o campeão das corridas de bicicleta, até que um dia foi atropelado e, com a mesma teimosia com que se tronou “atleta”, tornou-se poeta. Ou as duas velhas damas apaixonadas pelas letras, que “plantavam” (deixavam) jornais nos bancos das praças, a fim de que os jovens levassem e os lessem.
Nessas e noutras situações, o leitor se deparará com um observador arguto e sonhador, que não admite que o cotidiano alienador vença a surda batalha que se trava em seu peito.

3º) “RAINHAS DA ANTIGUIDADE – ELISA, CLEÓPATRA, ZENÓBIA”, ensaio histórico da Profª Dirce Lorimier Fernandes.
Obra e Autora
Dirce Lorimier Fernandes é doutora em História Social pela USP, professora, escritora, crítica literária, membro do júri da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA). Escreveu, entre outros, A Inquisição nas Américas (Ed. Arké) e A Literatura Infantil (Ed. Loyola). Em Rainhas da Antiguidade: Sedução e Majestade, se detém sobre três mulheres que marcaram a História por sua sagacidade e inteligência.
A primeira, Elisa, é Dido, a imortal musa de Virgílio, aquele mesmo que Dante Alighieri escolheu para ir consigo aos infernos, em A Divina Comédia. No livro II de A Eneida, Dido acolhe Enéias em Cartago e lhe pede que conte a tragédia da derrocada de Troia. Tornam-se amantes e o idílio ocupa até o livro V, quando o inexorável destino, tecido pelas Moiras, obriga Enéias a seguir viagem para fundar a Itália. Agoniada, a rainha africana sucumbe à amargura e se atira em uma pira funerária. Goethe também menciona Elisa, e Bernard Shaw dá o mesmo nome à sua florista, em Pigmaleão. Dido tem um irmão, Pigmalião, mas é outro, não aquele rei de Chipre que protagoniza as Metamorfoses, de Ovídio.
A segunda, Cleópatra, subjugou pela paixão os imperadores romanos César e Marco Antônio. Era descendente de Ptolomeu, general de Alexandre, o Grande, que depois da morte do comandante macedônio resolveu criar um império no Egito. Essa mulher não desempenhou apenas o papel de princesa romântica, lasciva e pérfida que as lendas lhe impuseram. Ao contrário, foi uma efetiva militante política, obcecada pela restauração do reinado ptolomaico. Não morreu de pena; morreu de raiva.
A terceira, Zenóbia, três séculos adiante de suas duas companheiras citadas neste livro, ergueu-se habilmente à condição de rainha absoluta da pequena Síria, então reino de Palmira. Representante de uma nova era, do ponto de vista religioso, social e cultural, apoiou o judaísmo, financiou poetas e pesquisadores. Mas, ambiciosa, lançou-se à fúria expansionista. Imprudente, desafiou Roma. Proclamando-se parente de Cleópatra, conquistou o Egito pelas armas. Sucumbiu diante do exército de Aureliano. 
São três mulheres que alcançaram destaque social e poder num tempo em que a mulher era subalterna, objeto, possessão apenas. Em comum, isto: afrontaram Roma, no mais augusto dos seus lauréis, que eram os seus generais (César, Marco Antônio, Cipião e Aureliano). Que maior demonstração de força a história conseguiria reservar para essas jovens?
A escolha dessas três personagens, para este livro, mostra a admiração de Dirce, a historiadora, pelas mulheres fortes – mesmo as que pereceram vitimadas pelas próprias fraquezas. Foram, todas, mães zelosas na defesa dos filhos e herdeiros. Este livro é algo como a historiadora realizar a pesquisa com um olho no espelho, buscando as fontes consagradas, sem descartar as lendas e as variantes, porque toda lenda tem base real. Este livro é uma composição narrativa de verdades e mitos, descortinando informações que ultrapassam a frieza da pesquisa histórica.
OBS: Em anexo, a arte do convite.





As Nuvens



                              Cyro de Mattos




Quando era o verão, no meu tempo de menino, gostava de olhar as nuvens trafegando no céu azul. Vinham das lonjuras do mar não muito longe da cidade. Da balaustrada do jardim, observava seus movimentos vagarosos, ora  como grandes rochas brancas, ora como enormes cogumelos, ora como colchões brancos e macios.  Às vezes estendiam lençóis compridos que flutuavam acima do rio. Faziam descer do céu suas figuras esboçadas, que  ficavam sombreando o espelho das águas aqui embaixo..

Afastavam-se da cidade pela tarde em suas embarcações pesadas, provavelmente transportando gente e carga. Antes que as sombras da noite chegassem, ocultando a tarde abafada,  elas contornavam  um dos bairros populares da cidade,  situado  no outro lado do rio  com suas casas acanhadas, construídas por gente humilde nas inclinações  do morro. Lá se iam empurradas pelo vento mais alto, rumo às serras azuis que cercavam uma das partes da cidade.

Um dia vi o arco-íris descer de uma nuvem gorda acima da ilha e, lentamente,   entrar  no meio do rio. A seguir ele caminhou  com as suas sete cores e ficou limpando o lodo das águas. Depois  bebeu a  água limpa na corredeira; certamente brincou com os peixinhos ariscos no leito raso, feito de areia brilhante,  pedrinhas lisas e redondas.

         De vez em quando elas inventavam gigantes que sumiam por trás dos morros.. Desenhavam carneirinhos que subiam as ladeiras do céu. Mostravam velho de  barba e cabelos longos,  sentado no tapete  que voava. Deixavam sair de um  barco encalhado uns  bichos feios, que desapareciam rápidos. No fim da tarde ofereciam-me flores, que de repente viravam pássaros  luminosos de prata, numa mágica que somente elas sabiam fazer.

 Rendilhadas, onduladas ou achatadas, convidavam-me a viagens imaginárias pelo azul do céu. Maravilhosas travessias em que eu sobrevoava continentes, mares, quintais e jardins de outras cidades. Sentia-me, nesses momentos,  que somente eu era o  cavaleiro rico entre os meninos de minha rua. Dono de castelos, que elas me davam de graça, ninguém duvidasse disso.

         Mas não era somente da balaustrada do jardim o local em que eu ficava olhando paras as nuvens no céu límpido do verão. De  calção e peito nu, deitava-me no pátio, e,  com o rosto para o céu, demorava-me vendo elas passarem cheias de luz, em suas viagens diárias ao redor da terra. 

           Numa manhã em que o sol resvalava seus raios mornos por todos os cantos de nossa casa, o  rosto de minha mãe apareceu na janela da cozinha. Depois de me perguntar se já tinha feito os deveres da escola e  receber de mim a resposta afirmativa,  ela se mostrou  interessada em saber o que era que eu estava conversando com as nuvens daquela vez. Disse que  estava querendo saber delas se quando crescesse e me tornasse um homem poderia retornar ao mundo da infância para brincar com os meus amigos nas aventuras mais empolgantes.  Fazer essa viagem de volta, como elas que  desapareciam e apareciam por onde sempre passavam, como se o tempo fosse um só, sem que houvesse a sua passagem através dos dias, semanas e meses. Espantada com o que tinha acabado de ouvir, minha mãe,  sorridente, falou  que só existia uma maneira de se voltar ao passado distante quando a gente se torna uma pessoa adulta.

- De que jeito? – perguntei-lhe, curioso.

 - Sonhando acordado como se o homem, que um dia você vai ser,  ainda  fosse um menino.   

PAUSA PARA MEDITAÇÃO

                                                                                                                            

                      Sônia Carvalho de Almeida Maron*

          Meditar, refletir, avaliar, ou qualquer outra expressão que signifique pausa, trégua, deve ser a palavra de ordem para os brasileiros azuis ou vermelhos. O País que tem “palmeiras onde canta o sabiá” é único no mundo. A milagrosa miscigenação que reuniu tantas etnias como irmãs não pode fugir à sua destinação de um povo avesso a conflitos e lutas fratricidas. O exemplo maldito dos países que convivem com o terrorismo da Isis e Al Quaeda deve continuar ignorado pelas crianças mulatas de olhos verdes, brancas de cabelos crespos, brancas de cabelos louros, pretos ou castanhos, lisos ou cacheados. O negro do luto e o vermelho do sangue não são cores usadas em nossa aquarela. A guerrilha e o terrorismo são lembranças dolorosas de um passado sepultado e a democracia brasileira foi gestada em vinte anos, fortalecida com as crises e amadurecida graças ao bom senso e equilíbrio de um povo que tem uma trajetória a cumprir de paz,  fraternidade e liberdade.

         O País foi induzido a transformar uma eleição em guerra e na última batalha saiu dividido.  Não se trata do resultado da eleição especificamente: é uma crise de credibilidade. Ninguém confia em ninguém. A incerteza que atormenta o País espalhou-se como uma epidemia, envolvendo poderes constituídos, instituições, governo e oposição. Na opinião manifestada por Pedro Simon, na reunião para comemoração da vitória do seu candidato ao governo do Rio Grande do Sul, “o Brasil perdeu a disposição de acreditar.”

         É compreensível que a sucessão de escândalos, operações policiais e impunidade, uma sequência de atentados à lei, à ética, à moral, à privacidade, ao patrimônio público e privado, à integridade física e à vida, conduza o cidadão ao desespero ou à descrença no presente e no futuro do País.

 O que mais assusta é a naturalidade com que os tipos penais são avaliados e os julgamentos definitivos ridicularizados. Dizendo melhor, o que assusta é a banalização do crime. Os aplicadores da lei são expostos e criticados por não reconhecerem que, sendo a lei igual para todos,  a leniência deve seguir o mesmo caminho se a competência do órgão julgador foi definida por prerrogativa de função. Exemplificando de forma singela: o ladrão de galinhas  é julgado pelo juiz da cidade; o crime do prefeito é julgado pelo tribunal do Estado; crimes de presidentes e sua corte pelo Supremo Tribunal Federal. Assim, no código dos políticos, quanto mais elevado o cargo, menor a pena, maior a leniência. Nesse passo, é melhor trocar o Código Penal e a Lei de Execuções Penais  pelo Auto da Compadecida.

         A violência, um dos dramas atuais da população brasileira, contribui para aumentar a angústia e a crise de credibilidade. Não se trata de dar asas à imaginação ou fantasiar. São processos e mais processos, CPIs para todos os gostos e esferas de poder; não há nada  surpreendente  para acontecer, como não há mais ninguém em quem confiar. Ganhamos o campeonato de escândalos nos poderes públicos nos últimos anos, fato tão evidente como os sete gols da  Alemanha na Copa do Mundo.

O cidadão que trabalha, paga impostos, administra empresas, produz riqueza e mantém o PIB não é o algoz do seu conterrâneo catador de lixo, gari, índio, quilombola ou nordestino vitimado pela estiagem. Ao contrário. Trabalhando e produzindo mantém as bolsas e assegura as casas da vida. Recomenda-se a releitura cuidadosa de Luiz Gonzaga, em “Vozes da Seca”, cinquenta anos atrás. Ele, o Gonzagão, amava o Nordeste.

         Nisso tudo, onde fica o cidadão brasileiro? Resta-lhe a comparação.  Nixon amargou um impeachment em razão de uma “inocente” escuta; Clinton, coitado, não sabia o que fazer para explicar a relação com a secretária. Aqui, no País do Carnaval e do samba, nada é censurável, tudo é normal. O resto é intriga da oposição ou calúnia veiculada pela imprensa: a imprensa azul calunia a vermelha e a vermelha calunia a azul. E tudo termina em muito riso e alegria. Afinal, em fevereiro tem Carnaval. Ocorre que não sou Flamengo e nem tenho uma nêga chamada Tereza. Mas sou brasileira, sou vascaína, caminhando contra o vento e remando contra a maré. A camisa que eu visto  tem quatro cores: verde, amarelo, azul e branco.