Mario Albiani lança livro em Itabuna


Academia de Letras de Itabuna fecha ano com 2ª “Guriatã”




A revista destaca a produção de integrantes da ALITA, além de outros nomes da literatura regional

      A Academia de Letras de Itabuna (ALITA) encerra as atividades do ano de 2016 colocando à disposição da comunidade a 2ª edição da revista Guriatã. Editada pelo escritor Cyro de Mattos, a publicação reúne textos (artigos, poesias, ensaios, crônicas etc) assinados por integrantes da instituição, além de discursos, fotografias e matérias alusivos à trajetória da Academia.
       Nas palavras do editor, “uma academia de letras serve para interagir com a comunidade na promoção e defesa da liberdade de expressão. O ideal que lhe dá suficiência deve consistir na valorização da humanidade nas letras”. Ele ressalta o papel da ALITA – e de instituições afins – para cultivar a importância da língua, da literatura e da comunicação como manifestações voltadas para o conhecimento.
       A segunda edição da “Guriatã”, que contou com o apoio cultural do Grupo Chaves, traz textos assinados pelos seguintes membros da Academia: Aramis Ribeiro Costa, Cyro de Mattos, Carlos Valder do Nascimento, Renato Prata, Aleilton Fonseca, Sônia Carvalho de Almeida Maron, Ruy Póvoas, Ceres Marylise Rebouças, Rilvan Santana, Jorge Luiz Batista dos Santos, Lurdes Bertol, Delile Oliveira, Raquel Rocha, João Otávio, Celina Santos, Margarida Fahel e Carlos Eduardo Passos. Entre os poemas, versos de Firmino Rocha, Telmo Padilha e Valdelice Pinheiro.

Ruy Póvoas é destaque em prêmio nacional de literatura




O escritor Ruy do Carmo Póvoas, vice-presidente da Academia de Letras de Itabuna (ALITA), foi destaque no prêmio ABEU 2016, entregue na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. O livro “A Viagem de Orixalá: estrada de Sagitário, caminhos de Orunmilá” conquistou o 3º lugar na categoria Ciências Sociais da Expressão.
Publicada pela Editus – editora da Uesc (Universidade Estadual de Santa Cruz) –, a obra mistura realidade com ficção, propondo ao leitor uma imersão em heranças culturais africanas. A narrativa, que envolve 16 personagens, transcorre em quatro partes, batizadas pelo autor como flechas: a viagem, a estrada, a caminhada e a chegada.
O caminho percorrido pelo autor e seus parentes se cruza com tantos outros, mostrando a possibilidade de o indivíduo se encontrar com outras crenças. Assim, é permitida a troca de conhecimentos, abrindo novos caminhos para outras experiências, seja no âmbito do real, seja do imaginário.
A referida premiação, organizada pela Associação Brasileira das Editoras Universitárias, é voltada para publicações deste segmento. O curador do ABEU é o professor José Castilho Marques Neto, Secretário Executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura e há 20 anos ligado ao setor editorial universitário.


A Viagem de Orixalá: entre texto e paratextos


 Maria de Lourdes Netto Simões
           
 O título  A Viagem de Orixalá:  estrada de Sagitário, caminhos de Orunmilá instiga à leitura; especialmente instiga a alguém como eu, agnóstica, mas respeitadora de crenças e caminhos (entendendo-os como linguagens). E, pelo que o título suscita, a  pergunta se impõe: será um texto de  ficção? de resultados de pesquisa? de ensinamentos?. Tal dúvida se fortalece  com a epígrafe de abertura: ”Tudo isso [...] será a vida imitando a arte”. 
De saída, debruço-me sobre o belo projeto gráfico e a estrutura do livro. Ilustrado, com inventivas gráficas (inclusive páginas manuscritas)  e inúmeros paratextos: dedicatória, epígrafes, agradecimento, sumário, ilustrações, orelhas,  chamadas de advertência ao leitor, notas de rodapé, glossário.
O Sumário refere, além de um texto introdutório – Ficção e Oralidade- , quatro partes ficcionais;  mais um texto denominado “Cerração”  e  um Glossário.  Mas, antes do sumário, um paratexto põe a questão da autoria, onde Ruy Póvoas afirma que o livro ficcional será escrito por um personagem, criado por ele, de nome Leonam. Em verdade, nesse esclarecimento de autoria, RP afirma: ”eu fico com o papel daquele  que providenciou condições para ele atuar” ( p. 15). Insinua ao leitor as regras do jogo da escrita e o tema sobreposto em várias intenções: “Ao focalizar a viagem de Orixalá, na verdade, é ele [Leonam] quem viaja em busca de si mesmo” (p. 13). 
Será somente isso? –   a dúvida se impõe. Mas notemos: ele escolheu um agnóstico para Narrador=Personagem-escritor.  Com que autoridade esse N=Pe falará de astrologia ou de candomblé?  Ao afirmar que terá de admitir que o seu N=Pe crie, por sua vez, “criaturas ficcionadas”,  estará estabelecendo um álibi relacionado à verossimilhança ficcional? Como diz, “caberia ao escritor apenas oferecer condições para revestir os  personagens com roupagens especiais que lhes dão vida , vigor e vitalidade” (p. 15). E fica a pergunta: quais roupagens?
Em verdade,  parece ser o autor,  Ruy Póvoas,  o maestro que se vale da ficção para o seu propósito de escrita e suplementa essa narração com uma estrutura que se encontra nos limites do texto principal da obra, os  paratextos.  Tudo isso, numa primeira impressão, provoca a ideia de deslimite de gênero, integração de saberes, fronteiras derrubadas entre a vida e a arte.
Para verificação de tal hipótese, tomo o  conceito de paratextos de Gerárd Genette, que os considera como  editoriais e autorais. Para estas considerações, interessa o paratexto autoral (in: Seuils. éditions du Seuil, coll. "Poétique", 1987, p. 8),  visando evidenciar a importância e contribuição do recurso paratextual para o nível de significação da obra.  Genette  refere a paratextualidade  como uma forma de  transcendência textual, “aquilo por meio de que um texto se torna livro e se propõe como tal a seus leitores, e de maneira mais geral ao público” (in: Paratextos Editoriais. São Paulo: Ateliê editorial, 2009, p.9). Tal conceito compreende o texto em íntima ligação com uma estrutura que o envolve e contribui para que tome forma e produza sentidos.
Senão, vejamos.
1.    A gênese do texto ficcional
Ficção e Oralidade são os dois recursos básicos da inventiva de A Viagem de Orixalá. Já  sinalizado no título do capítulo, complementa-se metaforicamente:  viagem,  estrada, caminhos. Aí, como introdução geral da ficção, os processos ficcionais são discutidos  pelo N=Pe: a criação de mais 15 personagens, além dele mesmo; a escolha da Astrologia, dos Odu de Ifá e dos saberes do terreiro do candomblé, como forma de lidar com o conhecimento.
O insight para a escrita do livro fica, para o leitor, entre a realidade (o livro como um todo na sua inventiva) e a ficção (o narrado pelo personagem Leonam). Agora, é o N=Pe quem fala sobre os quatro acontecimentos que provocaram a criação ficcional: a comemoração dos  70 anos, um sonho com a constelação de Sagitário,  a visita à festa do Pilão de Orixalá e a eleição de um mito africano (p. 23).  Esses são os disparadores dos insights para os personagens.
Como RP havia anunciado em Uma questão de Autoria, o escritor  se “descolaria” do personagem recém-criado. Tanto é que, já agora, é Leonam quem afirma:  “É a ficção criando a realidade” (p.24).  Na tentativa de explicação desse processo criador, no entanto, esse N=Pe encontra-se ainda imiscuído com RP em muitos momentos do seu “outrar”,  até mesmo na reflexão (p. 25)  sobre outros escritores e processos de dar vida a personagens.  Sobre o ato da escrita, Leonam afirma que a viagem  “não começa por um projeto, mas por arrebatamento” (p26). Mas, gradativamente, o leitor não terá dificuldade em perceber, por trás,  a orientação autoral de Ruy Póvoas, ao  identificar  reflexões que ultrapassam o perfil do personagem Leonam. Assim é que refere a “estrada”,  os “caminhos”. Conforme afirma: “ a estrada é a intuição que se anima na oralidade [...] e passa também  pela memória “ (p.27);  e acrescenta: “a viagem é compulsiva, mas os caminhos se constituem escolhas” (p.26)
A dúvida sobre a legitimidade de o N=Pe fazer essas reflexões sobre o processo criador  instala-se no próprio texto: “se ele não passa de um ser de ficção, como ousa descrever o processo criador?” (p.27) e provoca a inquietação: essa é voz do leitor? voz de RP, buscando salvaguardar a verossimilhança?  Pela boca de  Leonam, a ambiguidade dá resposta aos céticos: “eu também escrevo” (p. 27).  
Leonam anuncia que “o download está começando” (p.27) e indica um ponto de referência e partida: A festa do Pilão, num terreiro de candomblé.  Diz da estratégia de recorrer ao mito nagô como “espinha dorsal”  dos textos dos 16 participantes (mas não fala de “um caminho diferente”, referido no sumário, e que se encontra à p. 327). Sustentando  a tese de que “escreve quem realmente tem o quê dizer” (31), agradece aos seus inspiradores. Assinando como organizador do livro, Leonam Navarro deixa  claro ao leitor que acaba de escrever a introdução do texto ficcional.  No entanto, a ambiguidade autoral não se esvai;  subsistem por trás do nível do relato ficcional,  algumas “pegadas” do escritor RP: “não sei se ainda terei oportunidade de aparecer por aqui [...] que também seja uma despedida” (p.32).  Despedida de quem??  Leonam certamente aparecerá, pois será o personagem principal do texto ficcional que se estrutura em quatro partes. 
2.   A viagem:  o pensar
 Download da memória? Do projeto articulado? A epígrafe que abre a Parte I anuncia a sua palavra-chave: o pensar. Eis que tem início A viagem de Orixalá, estrada de Sagitário, caminhos de Orunmilá. Astrologia e ensinamentos das crenças do candomblé  são a base do pensar.  Mas por que escrever?: “Eis aqui uma sequela da viagem na existência: necessidade de explicação”  (p.36).
“Chegar aos 70 foi para mim a viagem das viagens” (p. 40), tal é declarado  pelo personagem-escritor Leonam. Indiretamente, também por  Ruy Póvoas quando revela os seus 70 anos, ao informar o  ano do seu  nascimento (1943),  através do paratexto autoral,  segunda ‘orelha’ do livro.  A virada para os 70  parece ter sido  motivação de mudança, o “gatilho” para a escrita das memórias.
A visão do Sagitário criou  o sonho, ordenou a narrativa a partir das 4 flechas   e recomendou:  “Não esqueça dos Odu de Ifá...” (p.49).  Depois, A Luz de Orunmilá  explica os princípios do candomblé; traz o mito, a fonte que faz a espinha dorsal da narrativa; o desencadeador do processo do autoconhecimento,  dos ensinamentos.
Vale ressalvar que a estratégia autoral de o N=Pe ser agnóstico possibilita ao leitor, leigo sobre o mundo do candomblé,  assenhorear-se de conhecimentos básicos para a compreensão do  significado mais profundo da narrativa.  Estudando Leonam, aprende também o leitor: “Agora eu tinha as falas [...] além das leituras, pesquisas e estudos sobre Astrologia, Sagitário e sobre os Odu de Ifá” (p.76).  Ou seja, oralidade e pesquisa;  o corpus teórico do trabalho é dessa forma definido.
Na formulação do pensar dessa  Parte I, o recurso paratextual   das notas de rodapé alia esclarecimentos científicos à  ficção. Referenciam, iluminam e esclarecem  o ensinamento; e, ficcionalmente, contribuem para a verossimilhança do personagem.  Ainda, fortalecem e dão legitimidade ao pensar, como dão sustentação ao projeto.

3.   A escolha de estradas.
Na vida, a escolha da estrada a percorrer é fundamental para o caminhar.  Assim também na ficção; a estrada se define através de opções e possibilidades do andar, os caminhos. E o mesmo  podemos  dizer em relação a um projeto de pesquisa; a escolha da “estrada” a percorrer implica na metodologia a ser desenvolvida.
A epígrafe que abre a Parte II adverte a possibilidade de outros olhares sobre a sociedade, além daqueles oferecidos pelas Ciências Sociais (p77). A ficção de Leonam, por ordem do Sagitário,  elege Os Odus de Ifá como orientação para o caminho a percorrer. A linguagem a ser usada na busca de si mesmo, é também escolha. Como afirma Leonam: “Apenas preferi não me sentar no divã. [...] Escrever, então, para mim, seria caminhar em busca de mim mesmo” (p.79).
É o  N=Pe quem diz: “Esse prólogo parece que nunca mais vai terminar. [..] Não é comum escritores fazerem making-of e, além do mais, fazê-lo integrante da obra escrita” (p.79). Mas a verdade é que o making-of  já fora iniciado por Ruy Póvoas, em “uma questão de autoria” (p. 13).   Agora, a paratextualidade autoral é  admitida na afirmação do making-of  e ratifica  parte da metodologia definida para a escrita do livro.
As reflexões sobre estrada (sentido literal e figurado)  evidenciam a necessidade do conhecimento de alicerce, “o chão teórico-metodológico que me possibilitará tal empreendimento” (p.82). Como reconhece Leonam: “Daí,  minha tenacidade de entender ao máximo possível sobre assuntos da Astrologia e dos Odu de Ifá” (p.80).  A decisão de estrada é também a do suporte que sustentará a caminhada: “Tomar os Signos do Zodíaco e os dezesseis  Odu-meji como possibilidade de acesso ao inconsciente”  (p. 81). Os paratextos – especialmente as notas de rodapé – dão a sustentação teórico-metodológica que Leonam busca e precisa. Também nesse caso, a presença de RP subjaz, através da  experiência do babalorixá (oralidade) e do pesquisador (as informações científicas trazidas pelas notas).  O texto introdutório da Parte II assenta a decisão do N=Pe: “As quatro flechas que Sagitário me deu vão se transformar em quatro partes do livro” (p.92).
Essa conclusão de Leonam não estará extemporânea, considerando que ele já está escrevendo a Parte II? Ou toda a reflexão teórico-metodológica não seria do texto maior, assinado por Ruy Póvoas?  Fica a dúvida para o leitor. E  o próprio Leonam responde: “Dormientibus non siccurrit jus”  (p. 92,   embora a tradução, no rodapé, seja um paratexto autoral de RP).   A certeza  de que “a lei não socorre aos que dormem”  leva-o  [-os] à promessa da sua vigilância total  sobre o processo da escrita.
Ficcionalmente, do encontro no Terreiro ocorre o conhecimento do mito, pelos 16 personagens-escritores. A estratégia de os Pe não serem gente do candomblé justifica a necessidade de esclarecimento do ritual (para a ficção; para a pesquisa). Mais uma vez, ganham os leitores... O encontro no terreiro é a descrição-narrativa  do ritual, com o didatismo de uma aula. (p.100).  O ensinamento pela oralidade é, no enunciado, apresentado em letra cursiva. Dessa forma, é contado  o mito da Viagem de Orixalá, cuja lição será retomada por cada personagem-narrador, como fonte para as respectivas  autorreflexões. E o mito é concluído com uma sentença: “A glória cabe apenas a quem se dispõe enfrentar a si mesmo” (p.106).
Dessa “afirmação”,  é selado  o Pacto entre os amigos: “a história vai ser a espinha dorsal do livro” (p.121). Fragmentos do mito serão  epígrafes desencadeadoras de cada caminho. Assim, cada N=Pe escreverá a partir das respectivas autorreflexões provocadas pelo  mito, em “enfrentamento de si mesmo” (p.121). Nesse ponto, o projeto é  ficcional e a sua metodologia  é  traçada pelos personagens em reuniões sucessivas. Dentre as conclusões, uma coisa fica assentada: “a fé é independente das peias da religião” (p.121).  Essa afirmação ficcional tem repercussão de ensinamento e alcança a perspectiva  de multiculturalidade, de respeito às diferenças, subliminarmente proposta por  RP ao conceder  liberdade ao narrador da ficção.
Nesse mister do ensinar, os paratextos autorais ganham cada vez mais ressalto, complementando e suplementando a ficção, em função do objetivo comum (da pesquisa e da ficção)  quanto às “ferramentas” para o  processo do autoconhecimento.  Pari passu, a metodologia para a elaboração da ficção se define, fluindo das conversas entre os do grupo. Simultaneamente, tem visibilidade a metodologia da pesquisa/ do processo ficcional. A  estratégia dos paratextos dão os subsídios referencias de conhecimento ao grupo de personagens e ao leitor. E fortalecem a verossimilhança ficcional.  Acentuam o deslimite de gênero que o livro suscita.

4.   O cerne temático - A Caminhada, em execução do projeto ficcional  e da autorreflexão.
 A epígrafe de W Borges que abre a Parte III afirma que “No rio da vida, as águas do tempo curam tudo, pois diluem no eterno as coisas passageiras” (p.137). Tal ideia pode se relacionar à ficção e à vida que imita a  ficção, como sinaliza a já referida epígrafe que abre o livro: “qualquer fato semelhante,  acontecido, será a vida imitando a arte.” (p.9).
Na proposta ficcional de Leonam  são eleitas  três orientações: “o orixá, o odu e  signo” (p. 201).  Assim, os focos evidenciam a diversidade: filosófico, antropológico,  psicanalítico, religioso,  social, identitário...,... E, pensando no inquietante deslimite de gênero,  a ideia é a de que RP  insubordinou-se. Ele, o pesquisador, valeu-se da ficção criando personagens que legitimassem o seu falar. Transgressões poéticas?  Cientificismo tangencial?? Álibis?  
Ficcionalmente, a caminhada é de cada Personagem-escritor que,  trabalhando com um fragmento do mito, visa a autorreflexão e o autoconhecimento. Além disso, cada  um traça a sua  metodologia de abordagem. Os focos são aqueles que dizem respeito às respectivas vidas. Assim, os ensinamentos  vão sendo apresentados, absorvidos pelo leitor, homeopaticamente.  Inclusive com o inesperado Caminho Diferente, que faz com que sejam 17 caminhos e  não 16. Opira! Com esse, haverá a intensão autoral de deixar ao leitor a reflexão sobre a sua  possibilidade de mudar o próprio destino?  E a epígrafe desse Caminho 17,  induz a essa conclusão: ”A glória cabe apenas a quem se dispõe enfrentar  a si mesmo”  (p.327, negritado pelo autor).
Suplementarmente, os paratextos referenciais (notas de rodapé) tornam-se mais intensos, dando substância às reflexões de cada personagem, situados em áreas de conhecimento diversas.  Nesse proceder, por vezes, ocorre a impressão de que o paratexto autoral das referências científicas, que suplementa a reflexão ou narrativa,  se sobrepõe à ficção (p.141). Se, por um lado, as referências complementam as lacunas de conhecimento dos personagens, por outro, proporcionam ao leitor, também, uma informação suplementar.  O leque de  focos  abrange as humanidades em perspectivas existenciais que sinalizam as possibilidades de multiplicidade de caminhos para o autoconhecimento.
Dessa forma, o texto enunciativo  se resolve em três níveis de escritura: o do planejamento do autor RP, do planejamento do Narrador Leonam, do planejamento de cada personagem-narrador, em função do fragmento do mito  a cada um destinado (p.221). Como conclui o próprio personagem, “o mito de A Viagem é  de profunda generosidade no  que diz respeito ao ensinamento de princípios éticos e morais” (p.226). Do mito, ao rito, ao ritual, prossegue a viagem, transportado pela linguagem do candomblé.
Se os Caminhos são vários, não cabe ao leitor, no entanto, juízo de valor. A intencionalidade autoral se justifica pela convicção de que “a ciência, a religião, as artes possibilitam [...] opções as mais variadas” (p.207). A diversidade é respeitada e aí também reside um dos ensinamentos: cada um tem o seu caminho; é  preciso aprender a trilhá-lo conforme o seu perfil;  pois “nenhum caminho [é] melhor do que o outro” (p.207). 
Assim, “costurando”  os vários focos,  a cada Parte, é traçada progressivamente  a metodologia de cada etapa da “viagem”. Na instância do enunciado, o leitor recebe orientações  sobre maneiras de autoconhecimento,  inclusive sobre o jogo de búzios, que explica a “trama de Sombra e Luz, através da qual o humano é construído e se constrói” (p.253). Os focos também revelam o  cotidiano dos terreiros de candomblé,  sua organização; a maneira da educação; a oralidade (p.279), onde “o mais velho enfatiza para o mais novo um conhecimento que ele precisa aprender” (p.282);  ou,  no  observar e escutar atitudes e rituais, na linguagem do silêncio (a expressão  é de Marialda Silveira, 2004).  Por trás, na enunciação, o escritor RP vai deixando registrada uma memória de experiência e ensinamentos. A ambiguidade entre o sujeito do enunciado e o da enunciação toma o leitor. Sob a fala de Leonam,  subjaz a de RP: “Quem  me leu até aqui, na certa já deve ter tirado suas conclusões sobre minha parte nesse latifúndio de Iká.” (p.288)
Como foi dito, cada caminho uma faceta; cada faceta um conhecimento sobre o candomblé - desde a explicação de ritos e rituais, à organização do terreiro e formas e concepções de riqueza. Este livro é orientação para o autoconhecimento, sim;  além disso,  é também revelação, compartilhamento de uma cultura, de um estar  no mundo e do conviver com os orixás.
5.   A chegada – o sonho realizado
Por que sonho realizado?  Será pela jornada da vida vivida até aos 70 anos, tanto pelo autor, como pelo personagem? : “Já no limite das minhas forças, pensei que minha viagem chegara ao fim.” (p. 349).  Na textualidade, a afirmação de que a chegada é o sonho realizado se faz também pela observação do projeto relacionado. A chegada é do narrador Leonam, personagem organizador dos relatos ficcionais; mas também é do autor  Ruy Póvoas que, com esse livro, ultrapassa a oralidade. Valendo-se dela, dá-lhe forma escrita para deixar ensinamento a leitores de dentro e fora da “porteira” (a expressão é de Póvoas, 2007, quando se refere  ao limite cultural do  terreiro do candomblé).
Sujeito ficcional (enunciado) e sujeito pesquisador (enunciação) se unem para a chegada: “É  percorrendo a estrada do sonho, no entanto,  que se pode entender a diferença entre ele e a dureza da realidade [...]  Quanta realidade  necessitando do sonho! Muitos são os caminhos, eterno convite para a compreensão mais larga” (p. 349).   A  estratégia de recorrer à ficcionalização para  dar o seu recado oportunizou a RP, pesquisador  e babalorixá, “expandir as fronteiras  de  estudos consagrados, sem conflitos com o quê está estabelecido pela tradição científica” (p.351),  finalizando com o convite de viagem para o leitor. Mas antes, para atender aos de dentro e fora da  porteira, indica o Glossário, paratexto autoral que fecha o livro.
E o sonho (e tb o texto ficcional, que é o sonho) cerra o livro. A Cerração (p. 355) é do sonho e é da vida? Ao leitor intrigado, fica a pista: “no início já estão as marcas do fim” (p. 356). E, retomando: ”Tudo isso [...] será a vida imitando a arte” (p. 9). A vida não é mesmo uma viagem que um dia se apaga? “assim,  assi  ass as a...” (p. 356).

6.   Conclusão:
Paratextos e significação – os níveis de leitura
De início, ao explicar sobre a questão de autoria, Ruy Póvoas  declara a sua intenção de criação do texto ficcional e admite que a narrativa do personagem- narrador é “interrompida em várias  passagens por fragmentações” (p. 13). Acrescenta ainda  que “tais fraturas, no entanto, poderão levar o leitor muito mais longe” (p.13). 
Da articulação entre textos e paratextos,  resulta a maior singularidade da inventiva transgressora: o  texto ficcional se apresenta reforçado por certo número de produções, sejam elas verbais ou não-verbais (traduzidas da oralidade da linguagem) e, que, de certa forma,  o prolonga e suplementa; especialmente é de ressaltar o mito (espinha dorsal da ficção) e as notas de rodapé (que acrescentam a fundamentação teórica ao texto). O livro, por tais recursos, se acrescenta, buscando garantir a sua comunicabilidade, sua recepção e seu consumo.

É confirmada a hipótese de que os elementos paratextuais autorais acrescentam o texto que o envolvem. Isso porque não somente ocorre uma complementariedade através dos elementos pretextais (dedicatória, epígrafes gerais, capa, ilustrações) e os pós-textuais (glossário) que o ampliam; mas também, como referido, pelo mito-epígrafes e pelas notas de rodapé, que integram o texto ficcional e, ultrapassando-o, suplementam-no, e oportunizam outro nível de leitura. A relação interdiscursiva, que ocorre, prolonga a obra.  Ainda a conclusão de que as fronteiras do texto se situam na instância do enunciado e as intervenções paratextuais são de natureza enunciativa favorece a afirmação de que, entre a escrita e o livro como presentificação, a dimensão comunicacional da textualidade se consubstancia. Realmente, em A Viagem de Orixalá, por sua particular suplementariedade, é possível afirmar que o paratexto tem aquela estatura de lugar privilegiado de uma pragmática textual e de uma estratégia, que resultam em ação sobre os leitores. Tais procedimentos, como antes afirmado, longe de obscurecerem a compreensão geral do trabalho, iluminam questões específicas da interpretação, aprofundam as digressões do leitor, funcionam como mediadores entre o leitor e o texto; levam o leitor “muito mais longe” (idem).

Em aprofundamento de níveis interpretativos, os  limiares do texto exigem, assim,   a convergência em torno de uma análise textual atenta às mediações entre o mundo social e o ato de leitura. Sobretudo o conceito de recepção deve ser requalificado, abarcando não apenas a distância do horizonte social e das leituras partilhadas por comunidades interpretativas;  mas, também, o nível mais concreto e imediato desse conjunto de textos “menores”  que, no entanto, constitui a dimensão material da própria obra.
Linguagens diversas  e lugares de conhecimento diversos resultam no projeto/ficção bem articulado, onde a inventiva passa por  fazer o sujeito do enunciado e o sujeito da enunciação andarem de  mãos dadas. O interesse deste livro passa, portanto, pelo olhar a sua concepção e montagem. Projeto de criação e  pesquisa, cuidadosamente pensado e justificado,  “casando” as linguagens científica e ficcional. Ciência e Arte! Pesquisa e Ficção. Estratégia singular de salvaguardar memória, oferecer ferramentas para o autoconhecimento,  registrar uma caminhada,  marcando o especial lugar da cultura do candomblé. Tudo isso, expondo a ideia de diversidade, sintetiza  o  propósito de preservar e compartilhar ensinamentos de heranças culturais africanas.

                                                           Julho de 2016

A Voz do Autor entrevista Cyro de Mattos

Entrevista em A Voz do Autor da Associação Brasileira  de Editoras Universitárias Brasileiras

Autor de diversos títulos pela Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz, Cyro fala sobre seu último livro,  a antologia Histórias dos Mares da Bahia, premiações literárias e a projeção global que elas oferecem para o conteúdo de suas obras.
Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista, romancista, ensaísta e também autor de livros infantis. Já publicou mais de 40 livros no Brasil e 9 no exterior, sendo 9 deles com o selo editorial da Editus - Editora da UESC. Neste mês de setembro, o escritor foi agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela UESC. Em sua trajetória, ele já recebeu mais de 40 prêmios literários, e, entre eles, o Prêmio Vânia Souto Carvalho, concedido pela Academia Pernambucana de Letras, com o livro “Berro de Fogo e outras histórias”, que em 2013 ganhou nova edição pela Editora da UESC. Seu livro “Vinte Poemas do Rio”, português-inglês, foi indicado para o vestibular da Universidade Estadual de Santa Cruz, durante três anos, como também “O Conto em Vinte e Cinco Baianos”, antologia que ele organizou.
Recebeu, ainda, prêmios da Academia Brasileira de Letras, Pen Clube do Brasil, Associação Paulista de Críticos de Artes, Menção Honrosa no Prêmio Jabuti e Menção entre os quatro finalistas no Concurso Internacional Plural, México. Algumas de suas obras destacam a civilização cacaueira baiana como um dos espaços do seu imaginário fecundo, no qual retrata a paisagem, personagens, lugares, hábitos e histórias. Recentemente dois outros grandes acontecimentos marcaram a vida do escritor.  Foi eleito para a cadeira nº 22 da Academia de Letras da Bahia, que tem como fundador Rui Barbosa, e o seu mais recente livro, “Histórias dos Mares da Bahia”, foi lançado na 24ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no estande da Associação Brasileira de Editoras do Nordeste - ABEU. A obra faz parte da Coleção Nordestina, projeto editorial que reúne livros produzidos pelas editoras da ABEU Nordeste.  Essa coletânea reúne dezesseis escritores baianos, e, entre eles, João Ubaldo Ribeiro, Hélio Pólvora, Ruy Espinheira Filho, Guido Guerra, Gláucia Lemos e Aramis Ribeiro Costa. No ano passado, seu livro "Cancioneiro do Cacau", Prêmio Nacional Ribeiro Couto da União Brasileira de Escritores (Rio) e Segundo Prêmio Internacional Maestrale Marengo d’Oro, Gênova, Itália, foi lançado na Bienal Internacional do Livro do Rio, em segunda edição. 
1. As suas obras expressam muito da cultura do sul da Bahia, com destaque especial para a civilização nascida ao longo do tempo pela implantação da lavra cacaueira. Essas representações ganharam projeções internacionais e também importantes premiações no cenário nacional. Como é ver o local de suas criações ganhar uma projeção global? Como o senhor avalia pessoal e profissionalmente essas importantes premiações? 
Canta a tua aldeia e serás universal, disse o russo Tolstoi. Para Fernando Pessoa, o genial poeta português, o melhor rio não era o Tejo, mas o rio que passava ao pé de sua aldeia, porque era o rio de sua aldeia. Houve quem observasse que o homem faz o lugar e não o contrário. E o lugar é onde se registra a memória. O lugar tem sido motivação e símbolo para algumas de minhas criações. Minhas origens e vivências locais têm sido uma das vertentes de minhas produções em prosa e verso. Isso acontece quando às vezes, das germinações à execução da ideia, tomo como ponto de partida minhas vivências na infância, em outras vou buscar ou imaginar o assunto no cerne da história, aproveitando o que vi, colhi nos mais velhos ou até pesquisei.  Pode até mesmo acontecer que imagine um espaço sem localização geográfica, identificável com alguma parte do sul da Bahia, como no romance “Os Ventos Gemedores”, no qual criei o condado de Japará para desenvolver a trama, auscultar os personagens através de conflitos no drama.  Assim, desde que meu texto leve aos outros uma nova forma de conhecimento da vida, através da linguagem que poetiza a vida, situações e gente com nervos e sentimentos, tendo como resultado um alcance universal e reconhecimento, aqui na região e fora de nossas fronteiras, fico contente, torno-me menos incompleto na existência, que para nós humanos é falha, limitada, precária, vulnerável, não basta. É gratificante, um verdadeiro prêmio que é dado ao autor esse tipo de reconhecimento. Acho sensato ser reconhecido em vida pelo meu trabalho, depois de morto só serve para o orador, que passa como herói, ao ressaltar no sepultamento as qualidade de quem se foi para sempre, não está mais neste mundo, ficou submetido ao inexorável. 
2. O senhor foi eleito para ocupar a cadeira 22 da Academia de Letras da Bahia e recebeu o primeiro título de Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz pela sua contribuição à literatura e à cultura.  O que significam esses novos reconhecimentos na sua carreira literária?
São qualificações de meu trabalho no mais alto nível. Sinto-me honrado, fortalecido, incentivado para continuar a jornada nessa estrada solitária, a essa altura comprida.  Nela, paro às vezes, olho para trás, vejo à direita e à esquerda, sigo em frente com tantas vozes no peito, dos outros, mas que no fundo são também minhas. Vou formando com elas e a minha voz o diálogo necessário, o disfarce múltiplo que desfaz o real e projeta outra realidade com novos sentidos, externa outra linguagem através dos sinais visíveis da escrita, com seu poder metafórico intenso e de proliferação, que me ajuda a sobreviver e a conhecer um tanto mais do que sou, entre o alegre e o triste, o transitório e o permanente, o belo e o feio. Vou cumprindo uma missão, usando as palavras para explicar o inexplicável, mas que é belo, com suas verdades retiradas da vida, a ela devolvidas com razão e emoção, porque assim deve ser.
3. O seu último livro, “História dos Mares da Bahia”, foi lançado na 24ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no estande coletivo da ABEU pela Editus. A publicação traz 16 contos de importantes escritores baianos, que revelam um cenário de muitas histórias. Por que o mar como fonte de inspiração e ambientação? Como foi a escolha dos autores?
Como se vê sem esforço, trata-se de antologia temática. As histórias têm como foco o mar da Bahia, que entra como o cenário, ora interferindo no destino dos personagens, ora como elemento de composição da paisagem humana. O mar é assim a fonte de inspiração e ambientação de cada história. O mar sempre exerceu uma sedução e atração aos seres humanos. E, como temos ficcionistas na Bahia da melhor qualidade, que souberam focar o mar como fonte de suas criações, resolvi fazer uma antologia com o tema e com esses autores expressivos. O critério da escolha dos contistas se deu em função da qualidade do texto. Convenhamos que, como em toda a antologia, ocorre a omissão, mas os autores selecionados para a coletânea “Histórias dos Mares da Bahia” são os mais representativos do gênero na Bahia. Eu diria sem hesitar que são contistas brasileiros da Bahia, fortes no discurso coeso.  Com seus projetos estéticos e resultados positivos, todos eles vêm contribuindo para que as letras brasileiras operem como meio eficaz de comunicação humana em sua função social.


Lançamento Histórias dos mares da Bahia


Cyro de Mattos Ingressa na Academia de Letras da Bahia Como Membro Titular da Cadeira 22

Em noite memorável, a Academia de Letras da Bahia  realizou, no dia 10 de novembro de 2016, no auditório do  salão nobre, em Salvador,  a posse do escritor e poeta Cyro de Mattos, que passou a ocupar a cadeira 22, que tem como patrono o Visconde do Rio Branco, como  fundador Rui Barbosa e foi seu último ocupante o cronista e poeta Clóvis Lima.  O escritor e poeta  foi recebido, na oportunidade,  pelo acadêmico e escritor Aramis Ribeiro Costa, que, ao terminar seu discurso primoroso,  foi aplaudido de pé. 
 Presidiu a sessão solene da posse, a professora doutora Evelina Hoisel, sendo que a mesa oficial esteve constituída de Zulu Araújo, presidente da Fundação Pedro Calmon, representante do governador  Rui Costa, o ex-governador Roberto Santos e a presidente da Academia de Letras de Itabuna, Juíza de Direito Sonia Maron. Compareceram ao evento com o auditório lotado os acadêmicos Florisvaldo Mattos, Gerana Damulakis, João Eurico Matta, Susana Cardozo, Aleilton Fonseca, Abade Emanuel, Urânia Tourinho e Carlos Ribeiro. 
No seu discurso, muito elogiado, o escritor e poeta Cyro de Mattos começou lendo um poema dedicado à  esposa Mariza,  transmitindo  a seguir  informações básicas sobre os ocupantes da cadeira 22. Discorreu sobre a condição do que é ser escritor, destacou a importância da região cacaueira baiana como uma civilização que vem contribuindo para o fortalecimento da identidade literária e cultural do Brasil, através de seus escritores e artistas,  ratificou sua crença na literatura como forma de conhecimento de vida e fez uma incursão poética desde às suas origens,  na infância e adolescência, em sua terra natal, até se tornar um homem idoso, lembrando  sua passagem como estudante na capital. Terminou sua fala com o poema Academia de Letras da Bahia, escrito em especial  para a noite festiva, revestida de  alegria e reconhecimento.
      
       Abaixo transcrevemos uma das partes do discurso de recepção a Cyro de Mattos pronunciado pelo acadêmico  e ficcionista Aramis Ribeiro Costa:

    “Além da crônica e do ensaio, a primeira posta em volumes, como naqueles ótimos O Mar na Rua Chile e Um Grapiúna em Frankfurt, e o segundo quase sempre em periódicos, como a Revista desta Academia, vossa prosa desdobra-se nos três pilares da criação ficcional: o romance, a novela e o conto.
O romance, Os Ventos Gemedores, na linha dos conflitos por posse de terra e liberdade, na tradição violenta e dramática do romance baiano do cacau, chega trazido pelo hábito de criar personagens intensos e pela experiência de narrar, capaz de provocar tempestade no território ficcional de Vulcano Brás, mas também na emoção do leitor. A tragédia dos inocentes em confronto com os poderosos, o abuso de poder, a valentia, o amor e a morte.
As novelas concentram-se particularmente no premiado volume Os Brabos, que nos traz quatro ficções de raízes fundas no cenário grapiúna, tão bem definido na paisagem, nos costumes e na linguagem. E os contos, finalmente, agrupam-se em vários volumes.
            Embora Os Recuados e Os Brabos tenham a sua importância histórica, e guardem a exclusividade de certas narrativas, o livro síntese de vossa ficção curta, porque relembra os anteriores, a levar o vosso nome pelos tempos adiante como um dos maiores desse gênero nas letras baianas, é, até o presente momento, a coletânea Berro de Fogo e outras histórias, 2ª. edição. Concordo com a crítica e acadêmica Gerana Damulakis, quando afirmou, no prefácio de Os Brabos, que aquele “volume de quatro narrativas simboliza a arte da ficção escrita no século XX, no Sul da Bahia”. E concordo com meu prezado amigo e crítico Cid Seixas, quando, em sua coluna de crítica no jornal A Tarde, afirmou, por ocasião do lançamento da coletânea aqui referida: “Esta coletânea, Berro de Fogo e outras histórias, traz mais de uma narrativa que pode ser incluída em qualquer antologia do conto brasileiro”.
Na verdade isso já vinha acontecendo e continuou a acontecer, e não apenas nas antologias do conto baiano e brasileiro. Vosso conto “Ladainha nas Pedras” participa de uma famosa antologia dinamarquesa ao lado de Mario Vargas Llosa, Jorge Luís Borges, Miguel Angel Astúrias, Júlio Cortázar, Juan Rulfo, Clarice Lispector, Aníbal Machado e vários outros notáveis da literatura universal e brasileira, mestres também na ficção curta. Participais de outra antologia de contos, na Rússia, que também coloca a vossa narrativa ao lado da de mestres de reconhecimento universal. A vossa participação em antologias nacionais é extensa, sendo praticamente obrigatória nas antologias baianas. Embora a inclusão em antologias já represente um reconhecimento e um destaque de mérito, vossos contos e novelas também arrebataram prêmios e distinções: o conto “Inocentes e Selvagens”, título que poderia abarcar toda a vossa obra de ficção, toda ela pontuada pelo confronto da inocência com a selvageria, conquistou o Prêmio Miguel de Cervantes, patrocinado pela Casa dos Quixotes, do Rio de Janeiro, para autores de Língua Portuguesa, em 1968; as quatro narrativas de Os Brabos conquistaram, dez anos depois, o Prêmio Nacional de Ficção Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras; e o conto “Coronel, Cacaueiro e Travessia” recebeu Menção Especial no Prêmio Internacional de Literatura da Revista Plural, do México, concorrendo com oitocentos e dezessete textos de ficção curta de seiscentos e doze autores da América, Europa e Ásia, em 1981.
            Nada disso surpreende os que conhecem vosso conto e vossa novela, narrativas fortes e bem urdidas, alicerçadas em linguagem correta, variada e rica, trespassadas do que a condição humana tem mais profundo, odioso ou comovente, movimentadas por personagens rudes ou sofridos, mas sempre convincentes. “Berro de Fogo”, onde a mágoa, o rancor, a opressão e o remorso se misturam para tecer situações impactantes e violentas; “Inocentes e Selvagens”, onde o amor de um menino por um porco é castigado com a morte, na duríssima contraposição da pureza da criança com a brutalidade dos homens; “O Velho e o Velho Rio”, “Ladainha nas Pedras”, “Coronel, Cacaueiro e Travessia”, “Velhinhos em Suas Notações de Amor”; qualquer dessas narrativas banhadas de sangue, ternura ou lágrima faria a nomeada de um contista, ainda que esse contista tenha nascido na cidade onde nasceu o grande Hélio Pólvora, e tão próximo de onde nasceu Adonias Filho...”




























ALEILTON FONSECA É ELEITO PARA A ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS


       O escritor Aleilton Fonseca, membro titular da Academia de Letras da Bahia e da Academia de Letras de Itabuna foi eleito, no último dia 4 de novembro de 2016, o mais novo membro da Academia de Letras de Ilhéus, para ocupar a cadeira 24, que pertenceu ao saudoso escritor Hélio Pólvora. Aleilton Santana da Fonseca nasceu em Itamirim, hoje Firmino Alves, Bahia, em 21.7.1959. Seu pai, Epaminondas, um pequeno agricultor; sua mãe, Lourdes,  uma professora primária. É casado há 32 anos com Rosana Ribeiro Patricio, e tem dois filhos: Diogo Ribeiro da Fonseca (31) e Raul Ribeiro da Fonseca (27). o academicos e declara ilheense por adoção pois residiu em Ilhéus desde os 4 anos de idade, onde a viveu a infância e adolescência. Em 1979 foi estudar em Salvador, onde fixou residência. A partir dos 17 anos, ainda em Ilhéus, passou a escrever e a publicar em jornais e revistas. Sua produção literária abrange romance, conto, poesia, crítica e ensaio. É graduado em Letras pela Universidade Federal da Bahia (1982), com mestrado pela Universidade Federal da Paraíba (1992) e doutorado pela Universidade São Paulo (1997). 
       Foi professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, em Vitória da Conquista, de 1984 a 1998.  A partir de 1999, passou a lecionar na Universidade Estadual de Feira de Santana, na qual é professor Pleno (Titular) de Literatura Brasileira na graduação em Letras e no Curso de pós-graduação Mestrado em Estudos Literários, desenvolvendo pesquisas sobre as relações entre literatura, imagens urbanas e ecologia. Foi professor convidado, na Université d’Artois, na França, em 2003. 
Participa de eventos literários e científicos no Brasil e no exterior, como conferencista, pesquisador e escritor.   Proferiu palestras em diversas universidades brasileiras e em instituições estrangeiras, como Sorbonne, Nanterre, Rennes, Tour, Toulouse e Nantes (França), na  Universidade de Budapeste (Hungria) e  Università del Salento (Lecce/Itália). Foi coeditor de Iararana - Revista de arte, crítica eliteratura, editada em Salvador, de 1998 a 2007. Faz parte da Comissão Editorial da Revista da Academia de Letras da Bahia e de outras revistas literárias e acadêmicas. Foi correspondente da revista francesa Latitudes: cahiers lusophones. Recebeu um dos Prêmios Culturais Fundação Cultural da Bahia – 3º lugar (1996), o Prêmio Luis Cotrim (ALJ, 1997), o Prêmio Herberto Sales (ALB, 2001) e o Prêmio Marcos Almir Madeira (UBE-RJ, 2005). Em 2013 recebeu o título de Professor de Honra de Humanidades, pela Universidad del Norte, em  Assunção, Paraguai. Em 2014, recebeu o Troféu Carlos Drummond de Andrade (Itabira-MG), a Medalha Luis Vaz de Camões (Núcleo Académico de Letras e Artes de Lisboa) e a Comenda do Mérito Cultural, da Secretaria da Cultura, do Governo do Estado da Bahia. Também recebeu a Medalha Pedro Calmon (ABI -Bahia, 2002), a Medalha Euclides da Cunha (Academia Brasileira de Letras, 2009) e a Medalha Arlindo Fragoso (Academia de Letras da Bahia, 2010).   Publicou poemas, contos e artigos em diversas revistas, como as francesas Latitudes: cahiers lusophones (Paris),  Autre Sud (Marselhe),  Crisol (Nanterre) e Plural/Pluriel  (Nanterre) e L'Ampoule  (Bordeaux). 
Aleilton Fonseca tem diversos livros e artigos publicados no Brasil, e em outros países como Portugal, França, Bélgica, Quebec/Canadá, Estados Unidos e Itália. Em 2009, ao completar 50 anos, foi homenageado pelo Lycée des Arènes (Toulouse, França), pelo Instituto de Letras da UFBA (Projeto o escritor e seus múltiplos) e pela ALB (mesa redonda).  Coordena o Curso Castro Alves/Colóquio de Literatura Baiana, da ALB (2005-2015). Tem cerca de 30 livros e diversos artigos publicados no Brasil, e alguns em outros países como França, Bélgica, Canadá, Estados Unidos, Itália, Portugal e Paraguai. Seu romance Nhô Guimarães foi adaptado para o teatro pela Companhia Baiana de Teatro, Grupo Criaturas Cênicas, em 2009. Em 2013 recebeu o título de Professor de Honra de Humanidades, pela Universidad del Norte, em Assunção, Paraguai. Em 2014, Recebeu o Troféu Carlos Drummond de Andrade (Itabira-MG), a Medalha Luis Vaz de Camões (Núcleo Académico de Letras e Artes de Lisboa) e a Comenda do Mérito Cultural, concedida pela Secretaria da Cultura, do Governo do Estado da Bahia. 
    O autor também recebeu as medalhas Pedro Calmon (Associação Baiana de Imprensa, 2002), Euclides da Cunha (Academia Brasileira de Letras, 2009) e Arlindo Fragoso (Academia de Letras da Bahia, 2010).  É membro da Academia de Letras da Bahia, da Academia de Letras de Itabuna, da União Brasileira de Escritores-SP e do PEN Clube do Brasil. Integra a Association Internationale de la Critique Littéraire, sediada na França, da qual foi vice-presidente para América do sul, em 2013-2014.  Seus livros mais recentes são: O desterro dos mortos, As marcas da cidade, Memorial dos corpos sutis, O pêndulo de Euclides (sobre a guerra de Canudos) e O Arlequim da Pauliceia  (sobre a poesia de Mário de Andrade). Recentemente organizou duas antologias da poesia de Sosígenes Costa e co-organizou cinco livros de ensaios sobre a obra de Jorge Amado e outros.
     O novo acadêmico irá ocupar a cadeira nº 24 que pertenceu ao saudoso escritor Hélio Pólvora. Sua posse está prevista para 9 de dezembro de 2016, às 19h, na sede da Academia de Letras de Ilhéus, quando será recebido pelo escritor e jornalista Antônio Lopes. 

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: POESIA DA VIDA


RELOGINHO, RELOGINHO
Carlos Drummond de Andrade

Reloginho, reloginho
embora apenas suplente,
bate bate direitinho,
bate bem rapidamente
a hora de meu bem chegar.
Mas se é hora de partir,
atrasa o mais que puderes
e não deixes nunca ir
a mais doce das mulheres.

Reloginho, compreendido?
Sempre teu, agradecido.

Do livro Poesia errante


DEZOITO ANOS SEM DRUMMOND

Edmílson Caminha
Texto escrito em 2005

Faz 18 anos que se foi Drummond, em 17 de agosto de 1987, exatamente doze dias depois que morrera a filha amada, Maria Julieta. A propósito da data, vem-me à memória não o poeta, o cronista, mas o brasileiro Carlos, o cidadão comum, igual a tantos outros homens e mulheres do seu tempo. Servidor público, foi Drummond, de 1934 a 1945, chefe de gabinete do Ministro da Educação, seu amigo e conterrâneo Gustavo Capanema. Não nos esqueçamos de que o Presidente da República se chamava Getúlio Vargas, que mantinha o governo sob rédea curta e administrava o Brasil com mão de ferro.

Como vemos, Drummond esteve, por onze anos, muito perto do poder e a poucos passos dos poderosos, e disso não se aproveitou para usufruir privilégios nem para fazer fortuna: viveu honrada e parcimoniosamente, com os ganhos de funcionário público e de escritor que colaborava na imprensa. Deixou para a viúva, Dona Dolores, a pensão devida e um bom mas nada luxuoso apartamento, na Rua Conselheiro Lafaiete, entre Copacabana e Ipanema, em que hoje mora o neto Pedro Augusto e onde já estive muitas vezes.

Se há quem hoje diga, em meio ao escândalo de mensalões, que participou de falcatruas apenas para receber dívidas, Drummond poderia ter prevaricado sob a desculpa de que, para os mortais, é duro resistir quando se está tão perto do tesouro... Não o fez, pelos princípios morais e pelos valores éticos que lhe nortearam a existência. Já dissera Machado de Assis: "A ocasião não faz o ladrão: faz o furto. O ladrão já nasce feito."

Assim, tanto quanto uma admirável obra, Carlos Drummond de Andrade nos deixou uma lição e um exemplo: uma lição de vida e um exemplo de dignidade, com que honrou o Brasil e fez melhor o tempo que lhe foi dado viver.

Escritor e jornalista, Edmílson Caminha é o autor de Drummond: a lição do poeta (Brasília, Thesaurus, 2002).




VIOLA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Cyro de Mattos

Dos humanos desacordes
compuseste a tua viola
afinada atrás do tempo.
De tudo um pouco ensinas
na arte de ver a vida
além de tudo vinagre.
Esta pedra no meio
do caminho estrepa.
No que segue claro
me sinto menino, maior,
montanha, tamanho de José,
no que não se desvenda
oh, razão, mistério
ninguém acha escape.
E vozes mais das vezes
uma esperança perdida,
a morte do leiteiro,
um quadro na parede,
são alçapões do amor.
Ó da rosa radiante,
a que chamamos solitude,
palavra no ar, tuas mãos,
espantos, tantos espantos.

Do livro Os Enganos cativantes


Grafite de Drummond na entrada do Túnel Velho, Copacabana

PORQUE MEU BEM FAZ ANINHOS
Carlos Drummond de Andrade


Porque meu bem faz aninhos
um raio de sol dourado
entrelaçou mil carinhos
pelo céu, de lado a lado.

Um ramo de beijos ternos
balançava sobre os ninhos
entre miosótis eternos
porque meu bem faz aninhos.

Porque meu bem faz aninhos
o rei, o valete, a sota
mais a fada e os anõezinhos
dançaram samba e gavota.

A nuvem mais cor-de-rosa
enfeitiçou-se de gatinhos
de bigode à Rui Barbosa
porque meu bem faz aninhos.

Porque meu bem faz aninhos
eu ganhei um chocolate
que tinha sete gostinhos
todos do melhor quilate.

Hoje eu brinco, pulo, canto,
assim como os passarinhos,
e mais eu canto me encanto
porque meu bem faz aninhos.

Do livro Poesia errante (1988)


E AGORA, POESIA? (trecho de matéria da revista Veja de 26 de agosto de 1987)

Em apenas doze dias, o poeta Carlos Drummond de Andrade esteve duas vezes no Cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Na primeira, o poeta mineiro, de 84 anos, enterrou a pessoa que mais amava, a filha Maria Julieta, de 57, vítima de um câncer generalizado. Cabeça baixa, olhos secos e atônitos, Drummond (...) disse: “Não tenho mais futuro, acabou tudo para mim.”

Doze dias depois, o poeta morto [às 20h45 de 17 de agosto de 1987] percorreu a alameda, conduzido no caixão pelos seus três netos e amigos.

A PALAVRA, NO MEIO DO CAMINHO (trecho de um dos raros depoimentos do poeta, concedido em janeiro de 1984 a Edmílson Caminha e publicado no suplemento literário do Diário do Nordeste).

Edmílson: Seus versos já viraram letra de música, enredo de escola de samba e tema de campanha eleitoral. Partindo-se do debate em torno do que é nacional e do que é popular na cultura brasileira, você se considera um poeta popular?

Drummond: Não, eu não me considero um poeta popular, não tenho essa pretensão. Claro que eu gostaria de ser, mas o conceito de poeta popular é muito ligado aos meios de comunicação de massa. Eu não tenho acesso a eles, a televisão jamais me contrataria para fazer um programa semanal. (...) 0 escritor de papel perde longe para os compositores e para os poetas chamados populares. Acho até que o poeta popular de cordel tem mais divulgação do que o poeta brasileiro dito de elite.


Drummond e a Cow Parade (2011)

VISITA A DRUMMOND (do livro de Antonio Carlos Villaça, Os saltimbancos de Porciúncula).

Drummond não gostava de receber ninguém na sua casa. Muitas vezes, conversei com ele, no gabinete do MEC, uma espécie de furna com armários de aço, a isolá-lo do resto da sala.

Fui uma única vez ao seu apartamento, já no fim, dia 18 de setembro de 1985. E por motivos especiais. Maria Julieta, a filha única, fora eleita para o Pen Clube. E morava num minúsculo apartamento, na rua Barão da Torre. Seria impossível receber lá a diretoria do Pen Clube, para a comunicação oficial.

Drummond, solícito, resolveu que a reunião seria em sua casa, um sétimo andar na rua Conselheiro Lafaiete. (...)

Pois nos recebeu au grand complet, em grande estilo, um senhor coquetel, vários garçons, uísque, vinho, salgadinhos variados e até doces. Foi uma festa. O poeta caprichou. Amava tanto aquela filha, que morou longos anos em Buenos Aires.

O poeta estava feliz. Elegantíssimo, de camisa azul, paletó claro. Ia e vinha. como um perfeito anfitrião. Não propriamente à vontade, cerimonioso (como era seu feitio). Mas tão amável. (...)

Mais de meia-noite, Drummond acompanhou os visitantes até a calçada.

TRECHO SOBRE DRUMMOND na década de 1930 do 4o volume das memórias de Pedro Nava, Beira-mar

Era muito magro, mas extremamente desempenado, tinha o gauche que tornar-se-ia folclórico, um ar de orgulhosa modéstia (não sei se posso colocar juntas as duas palavras, entretanto não acho outras), aparência, à primeira vista, tímida, escondendo o homem dono de uma das maiores bravuras físicas e morais que já tenho visto juntas na mesma pessoa. Engana-se quem o julgar pela magreza e pelo franzino. Na realidade esse ser delgado é todo feito de tiras de aço, de couro, de juntas de ferro que servem o homem forte que ele é.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Poema de Manuel Bandeira em homenagem aos 60 anos de Drummond

Louvo o Padre, louvo o Filho,
O Espírito Santo louvo.
Isto feito, louvo aquele
Que ora chega aos sessent'anos
E no meio de seus pares
Prima pela qualidade:
O poeta lúcido e límpido
Que é Carlos Drummond de Andrade.

Prima em Alguma Poesia,
Prima no Brejo das Almas.
Prima na Rosa do Povo,
No Sentimento do Mundo.
(Lírico ou participante,
Sempre é poeta de verdade
Esse homem lépido e limpo
Que é Carlos Drummond de Andrade.)

Como é fazendeiro do ar,
O obscuro enigma dos astros
Intui, capta em claro enigma.
Claro, alto e raro. De resto
Ponteia em viola de bolso
Inteiramente à vontade
O poeta diverso e múltiplo
Que é Carlos Drummond de Andrade.

Louvo o Padre, o Filho, o Espírito.
Santo, e após outra Trindade
Louvo: o homem, o poeta, o amigo
Que é Carlos Drummond de Andrade.


VINTE ANOS SEM MARIA JULIETA E DRUMMOND
Texto de 2007 de Edmílson Caminha

Os vinte anos da morte de Maria Julieta — em 5 de agosto [de 1987] — e de Carlos Drummond de Andrade, apenas doze dias depois, são marcados pelo nascimento de um herdeiro e pela edição de um livro. A criança é Miguel, filho de Josiane e de Pedro Augusto, que vem ao mundo com a honra de ser neto de Maria Julieta e de Manuel Graña Etcheverry (grande intelectual argentino) e bisneto de Dolores e do poeta Carlos. O livro é Querida Favita, com mais de cem cartas (inéditas!) do itabirano famoso para a sobrinha Flávia — ou Favita, como carinhosamente a chamava. A edição, bem cuidada e elegante, é da Universidade Federal de Uberlândia, e já tem dois lançamentos confirmados: em Belo Horizonte, no dia 18, e em Brasília, no dia 23.

Que se homenageie Drummond, mas que não nos esqueçamos da grande escritora que foi Maria Julieta. Aí estão, para provar, Um buquê de alcachofras e Pombos & gatos. E, principalmente, A busca, admirável romance escrito por uma jovem de 17 anos, que impressiona pela força dos sentimentos e pela boa realização literária. É hora, já, de organizar em livro as centenas de crônicas escritas por Maria Julieta para O Globo, textos que a incluem, sem favor, entre os melhores nomes do gênero na literatura brasileira.

Certo dia, ao lhe dizer que algumas das suas crônicas, de tão primorosas, poderiam ser assinadas pelo pai, revelou-me ela um segredo: às vezes, por estar acamada, Drummond escrevia a crônica para O Globo; em troca, chegou a filha a mandar, para o Jornal do Brasil, crônicas suas como se fossem do pai. “E nunca ninguém reclamou, nem de um lado nem do outro...”, disse, ao confessar a jogada de cúmplices.

Desaparecidos há vinte anos, Maria Julieta e Carlos Drummond de Andrade continuam vivos, pela grandeza da obra com que fizeram o mundo melhor e a vida mais bela.


DRUMMOND PERMANENTE
Poema de Cyro de Mattos

Em meu ouvido um pássaro
Canta de tudo os instantes
Neste diálogo com o mundo
Como oferendas do amor.
Quantas vezes não mundo
Tão solidário enternece.
Por entre gestos de espanto
Nesta rosa dos eventos
Não sei o que mais comove,
Canto ao homem do povo,
Aquele quadro no deserto,
Sinais e expressões do tempo
Faminto de situações patéticas.
Apenas eu sei que tropeço
Nesta pedra no meio de tudo.
Ó de Itabira, se bem procuro,
Afinal termino encontrando
Não a explicação (relativa)
Da vida mas a beleza,
Sem explicação, da vida.



MÃOS DADAS
Carlos Drummond de Andrade

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,

não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.




O POEMA MAIS GENIAL DE DRUMMOND

No meio da jornada da vida, entre a primeira fase modernista de uma poesia vigorosa, incisiva, antilírica (prosaica por vezes), em suma, de ruptura com o passado, E agora José, No meio do caminho tinha uma pedra, e a fase madura de intenso lirismo, “sentimentalismo ginasiano, lirismo kitsch” acusa/exagera o polêmico Diogo Mainardi, Porque meu bem faz aninhos, Quero ser namorado a vida inteira, época em que conquistou um grande público como cronista de jornal, em meio a essas duas fases, dizíamos, Drummond publica um livro surpreendente, de grande elaboração formal, uma poesia "erudita", no nível dos grandes clássicos do vernáculo: Claro Enigma (1951). Ali figura o poema mais genial de Drummond, o melhor poema brasileiro de todos os tempos segundo alguns escritores e críticos: “A máquina do mundo”.

A MÁQUINA DO MUNDO

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade;

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.


JARDIM

Negro jardim onde violas soam
e o mal da vida em ecos se dispersa:
à toa uma canção envolve os ramos,
como a estátua indecisa se reflete

no lago há longos anos habitado
por peixes, não, matéria putrescível,
mas por pálidas contas de colares
que alguém vai desatando, olhos vazados

e mãos oferecidas e mecânicas,
de um vegetal segredo enfeitiçadas,
enquanto outras visões se delineiam

e logo se enovelam: mascarada,
que sei de sua essência (ou não a tem),
jardim apenas, pétalas, presságio.


"as janelas olham"

CIDADEZINHA QUALQUER

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.

Devagar... as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.




Fonte: http://sopanomel.blogspot.com.br/2015/04/carlos-drummond-de-andrade-poesia-da.html