A ESQUECIDA JACINTA PASSOS


Escritora nascida em Cruz das Almas, Bahia, em 1914, Jacinta Passos foi autora de quatro livros de poemas — Momentos de poesia (1941), Canção da partida (1945), Poemas políticos (1951) e A Coluna (1958) —, elogiados por críticos do porte de Antonio Candido, Mário de Andrade, Aníbal Machado e Roger Bastide, entre outros. Seu livro mais importante, Canção da partida, foi ilustrado pelo artista Lasar Segall.

Jacinta tornou-se uma das mais ativas jornalistas da Bahia na década de 40, escrevendo sobre os assuntos que mais a interessavam, pelos quais lutava: política, transformações sociais e posição da mulher na sociedade. Colaborou também com jornais e revistas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Militante do Partido Comunista Brasileiro de 1945 até a morte, em 1973, dedicou grande parte da vida ao trabalho penoso, clandestino e cotidiano de luta por um Brasil menos injusto.

Jacinta Passos foi casada com o escritor e jornalista James Amado, com quem teve uma filha, Janaína. A partir de 1951, sofreu crises nervosas periódicas, com delírios persecutórios, tendo recebido o diagnóstico de esquizofrenia paranóide, doença considerada progressiva e incurável. Apesar de internada em diversos sanatórios, jamais deixou de escrever, tanto poesia quanto prosa. Sua obra poética, fundada nas tradições populares da Bahia, contém fortes componentes líricos e apelo ao público contemporâneo, mas permanece pouco conhecida, pois seus livros, publicados por editoras de pequeno porte, tiveram tiragens muito reduzidas, sendo que apenas um deles, Canção da partida, foi reeditado, isso em 1990.

Ao lado do projeto de publicação da obra completa da escritora, incluindo a parte inédita, um site oficial foi  criado com vistas a tirar da obscuridade a obra e a trajetória de uma das mais originais escritoras do seu tempo, colocando-a no lugar onde deve estar, ao alcance do público, para que possa ser conhecida, estudada, discutida, admirada.

[ PASSOS, Jacinta ] Jacinta Passos, coração militante: poesia, prosa, biografia, fortuna críticaOrg. Janaína Amado.  Prefácio José Mindlin.  Salvador: EDUFBA; Corrupio, 2010.   673 p.  19,5x27 cm.  ISBN 978-85-232-0683-3  Projeto gráfico e capa: Angela Garcia Rosa. Inclui fotografias da vida da poeta oriundas de diversos acervos.  Inclui poemas inéditos e dos livros publicados pela autora: Momentos de poesia, Canção de partida, Poemas políticos, A Coluna [  Prestes ].  Reproduz os desenhos de Lasar Segall  que ilustraram a obra “Canção da Partida”.  Col. A.M. 


Centenário de Adonias Filho



 Cyro de Mattos

Comemora-se neste ano o Centenário de Adonias Filho, escritor baiano aclamado pela crítica nacional, nascido em Itajuípe, antigo Pirangi, distrito de Ilhéus, em 27 de novembro de 1915. Deixou  em sua obra de contista e romancista  cinco livros que têm como cenário o Sul da Bahia na época da conquista da terra: Os Servos da morte (1946), Memórias de Lázaro (1952), Corpo vivo (1962), Léguas da promissão (1968), e As velhas  (1975).

Adonias Filho é um autor de livros de ficção que engrandece  a região cacaueira baiana no corpo das letras brasileiras. Legítimo homem da civilização cacaueira baiana sustentou pela vida afora um amor de perdição por suas raízes e histórias de sua gente. Nos últimos anos de vida,  mudou-se do Rio de Janeiro  e foi morar com a esposa  na sua fazenda  Aliança, em Inema. Depois de muito caminhar pela cidade grande, por entre edifícios e gente vinda de todos os lados, retornava aquele homem de voz mansa, cordial, ao chão de seus ancestrais. 

            É sabido que a obra literária motivada por certa região enfoca o peculiar de determinada cultura, tendo por fundo um cenário típico, cujas condições são refletidas no conteúdo da narrativa, conferindo-lhe nota especial. Os estudiosos dizem que o que faz uma obra regional é o fato de mostrar-se presa, em sua matéria narrativa, a um contexto cultural  específico,  que se propõe a retratar e de onde vai haurir a sua substância. Mas isso não a impede de adquirir sentido universal, em função de seu significado portador de humanidades, mensagem  profunda da existência, fazendo com que ultrapasse as fronteiras da região retratada.

          É o caso do consagrado narrador Adonias Filho. Um criador de histórias que tem como cenário a região cacaueira baiana na época da infância quando a selva era impenetrável e hostil. Percebe-se nesse artesão da linguagem uma moderna forma de ser contada a história, harmonizada com a representação das essencialidades da criatura, as quais são retiradas do ambiente onde habitam.   

         Ressalte-se que atrás do homem de determinada região, com sua típica problemática existencial do indivíduo,  seus falares e maneiras próprias de relacionar-se com o mundo,  há  o que é próprio de qualquer ser humano onde quer que esteja. Razão e emoção, pensamento e sentimento. O pensamento e o sentimento dos personagens de Adonias Filho obedecem às forças cegas do destino, que resultam  de solidões e desesperos impostos pelo ambiente de natureza bárbara. Como seres embrutecidos, primitivos, possuem os sentimentos reprimidos. São índios, negros, tropeiros,  caçadores,  pequenos agricultores arruinados.

           Esse narrador de estilo sincopado e poético é uma das vozes fundamentais da melhor literatura de todos os tempos. Influenciado pelos dramaturgos gregos, Shakespeare, o cinema, do fundo trágico de seus romances, novelas e contos emanam personagens marcantes, em cujos passos e travessias ressoam  os sortilégios da morte através de entonações bíblicas.

Homem culto, simples, ocupou cargos públicos importantes. Foi diretor da Biblioteca Nacional, Editora A Noite, Serviço Nacional de Teatro e pertenceu à Academia Brasileira de Letras. Conquistou o Prêmio Nacional da Fundação Educacional do Paraná, Instituto Nacional do Livro, Jabuti, Pen Club do Brasil  e  Fundação Cultural do Distrito Federal pelo conjunto da obra. Seus romances foram publicados nos Estados Unidos, Portugal, Alemanha, Venezuela e Bratislava. É tão importante  o seu trajeto de vida para o Sul da Bahia que foi instalado em Itajuípe  o Memorial Adonias Filho para preservar sua obra e acervo. O Centro Cultural de Itabuna, da Fundação Cultural da Bahia, leva o seu nome. Ele é o patrono da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

 Depois que a esposa Rosita  morreu em 1990, Adonias Filho caiu em grande tristeza. Ficava deprimido, em seus vagares pela casa-sede da fazenda. Dizem os conterrâneos  que morreu de amor, em 2 de agosto daquele mesmo ano, na casa-sede de sua fazenda, em Inema. O homem criador de romances pujantes e densos não conseguiu suportar a solidão com a perda da mulher amada e companheira.

Agora, no reencontro do legítimo homem do cacau  com a sua paisagem, no seu regresso às origens, o bem vence  o mal. Ultrapassa a morte  pelas mãos do amor  vivido entre Adonias e Rosita.


*Cyro de Mattos é contista, romancista, poeta e cronista. Organizou e prefaciou a coletânea  Histórias Dispersas de Adonias Filho.  



Referências Críticas a O Canto Contido de Valdelice Soares Pinheiro



Kleber Torres 

O lançamento do livro  O Canto Contido, 22 anos após a morte de Valdelice Pinheiro, numa edição limitada patrocinada pela Academia de Letras de Itabuna (Alita) e coordenada pelo escritor Cyro de Mattos, não apenas resgata os trabalhos publicados em vida pela autora, que nos legou os livros De Dentro de Mim e Pacto, como também outros 16 poemas esparsos publicados em jornais e revistas, bem como gravados num CD. O livro também nos permite uma revisão critica da poeta, que foi professora da Faculdade de Filosofia da atual Universidade Estadual de Santa Cruz e que era considerada pelo imortal Adonias Filho, da Academia Brasileira de Letras, como “uma poeta já identificada com a melhor poesia brasileira”.
Em seu ensaio, Adonias Filho, considera que com o livro Pacto, Valdelice Pinheiro aparece como uma poeta maior, e a coloca no mesmo patamar de autores como Carlos Nejar, de Telmo Padilha – que conquistou um Prêmio Nacional de Literatura-, de Miriam Fraga e João Carlos Teixeira Gomes, que surgiram em plena fase clássica do modernismo.
Ele considera o livro como resultado e um exemplo da sua poesia salientando que “não importa a variação no tema ou na forma –e por vezes a contenção é tamanha que se evoca o haikai, mas na composição do verso e no artesanato modelar, o que realmente se afirma é a excepcional preocupação com  a condição humana”.
Cyro de Mattos nos lembra que na antologia do crítico Assis Brasil que fez um mapeamento da poesia brasileira, indicou entre os autores baianos Telmo Padilha, Valdelice Pinheiro, destacando a sua linguagem despojada e com um texto fluindo como uma mundivisão focada na preocupação com a condição humana. A relação incluía ainda os nomes de Walker Luna, Carlos Roberto Santos Araújo e Firmino Rocha.
Como crítico, ele destaca ainda que “a poesia de Valdelice Soares Pinheiro não precisa de abonos para ser reconhecida, tem em si mesma o seu valor intrínseco, no qual se mostra com equilíbrio e expressividade”.  Ele lembra que ela publicou em vida apenas dois pequenos livros, numa edição particular e limitada, por isso mesmo corria o risco de ser mais um dos poetas de província cuja tendência poderia ser a de se perpetuar no anonimato.
O critico e coordenador da reedição das obras da poeta itabunense salienta como suas características a linguagem despojada, e um discurso sintético que recorre ao verso breve: “Seu canto contido propõe que a imagem do mundo seja alimentada com amor, esperança, leituras apropriadas de uma flor cósmica geradas pela mão do eterno para ser poeira e vento”.
            
Mostra ainda que a professora de Estética e Ontologia da Universidade Estadual de Santa Cruz, deixou um rico legado poético, além de anotações pessoais e 63 poemas que foram publicados postumamente pela Editus, com um amplo estudo critico em A Expressão Poética de Valdelice Pinheiro, reunindo estudos acadêmicos num trabalho coordenado pela  doutora Maria de Lourdes Netto Simões.
Para Hélio Nunes, que organizou a edição De Dentro de Mim, em 1961, o livro foi escrito “com muita ternura do mundo, dos homens e das coisas. É uma mensagem humanista. A autora nos transmite com lirismo tranquilo a luta intima que alguns poetas travam frente à realidade agressiva do meio social”.
Ele considera Valdelice Pinheiro como uma artista sintonizada com o seu tempo e que sentia as angústia da geração do pós-guerra e que conviveu ao mesmo tempo com a guerra fria e as suas dimensões escatológicas. “Desta geração que não aceita a hecatombe, nem tampouco se conforma com a eternidade do sofrimento dos homens”, concluindo que De Dentro de Mim é um livro para ser lido e compreendido.
Telmo Padilha, destacou na sua apresentação de Pacto, em 1977, que Valdelice Pinheiro estava dialeticamente colocada no epicentro das questões do seu tempo e apresenta no seu segundo livro, uma poesia enxuta, em que o discurso e visível e perceptível através de indagações lançadas, mas ainda não respondidas,”sobre o imenso vazio, o vazio do homem contemporâneo”, um dos sintomas e consequências  das pós modernidade num universo liquido e de relações impessoais.
Para ele, a autora trabalha seus poemas como se quisesse retirar deles todo o supérfluo. “Não existe a palavra que enfeita, mas a palavra exata, única, a fotografar o fato. O ritmo é às vezes arbitrário e verdadeiro e a metáfora compõe um léxico de profundidade, no qual as relações semânticas mantém estrita fidelidade com o texto”.
Padilha conclui que sem ser uma formalista, Valdelice Pinheiro conseguiu alcançar um nível de elaboração de texto e poética que a coloca ao lado dos melhores vanguardistas não ortodoxos da sua geração, num livro construído  segundo um plano de dialética e reflexão.
Em sua essência, a artista se revela uma minimalista, integrante daquele grupo de artistas para quem o mínimo está em lugar do máximo, tornando a palavra no seu excesso supérflua e desnecessária. Em Medo, ela nos fala de um olho enorme e paranóico sobre o mundo “espiando a hora de chorar”.
Ao falar do meio ambiente, em Rio Cachoeira, vê “um rio torto, rio magro, rio triste”, que assume uma dimensão humana e chora, sente dor e fala do lamento dos afogados que engoliu. No  poema Triste,  constrói com gosto e a cor branca do sal os versos para todos os mortos, mas que ao mesmo tempo falem de todos os vivos, os quais inutilmente também vão morrer na sua finitude.
Como humanista, Valdelice Pinheiro dedica um poema para um poeta bêbado, que fazia versos para uma mulher que se foi e nunca voltou, mas o qual deveras existiu. Em Instante conclui com dois versos suaves e sublimes sobre uma saudade enorme e que desmancha a solidão.
A economia de palavras se manifesta  em poemas como História, Cristo – esse outro (prego na mão,/ os olhos iluminando/ a solda elétrica.) – ou ainda em Comunhão, Batismo em que se compromete em abrir o sorriso para uma nova primavera  e em África, que foi esquartejada e explorada pelos colonialistas num grande roubo e numa grande apropriação indébita de terras e pessoas.
Se é parciminiosa e contida na maioria dos poemas, Valdelice Pinheiro também assume o engajamento social e político em no Testamento, em que deixa seu legado para o mundo ou em  Maria da Vida, dedicado a uma Maria perdida, doída, caída da vida e por quem ela chora, um conjunto de poemas que culmina em Pacto ou Como São Francisco, onde propõe:
“Poeta, vamos fazer um pacto?
Vamos praticar o gesto que traduz o poema.
que tira o poema da palavra
e o coloca no ato, e o faz na pedra,

ou faz da palavra o gesto e o ato?”  


Uma luz no fundo do túnel

                        


 Sônia Carvalho de Almeida Maron*

    
Será que a mensagem transmitida pelas manifestações acordaram a senhora que governa o Brasil? Será que o Cristo Redentor voltou os olhos para o seu povo? Será que o Senhor do Bonfim decidiu provar que não existe “senhor do bom princípio”? Por quê? Ora, se um professor titular de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo (USP), Renato Janine Ribeiro, doutor em Filosofia pela USP, com mestrado em filosofia pela Sorbonne, educador independente, ficha limpa, sem filiação a partidos políticos, autor de dezoito livros, Prêmio Jabuti em 2001 na categoria de ensaios, assume o Ministério da Educação ocupando o lugar antes confiado a um Cid Gomes qualquer, ainda brilha uma luz na “pátria educadora”.

         Tudo indica que a presidente, ao perder muitos quilos de peso, vai recuperando aos poucos o bom senso e construindo um lastro de proteção que afasta a ideia do impeachment. Por sinal, a expressão cunhada pelos ingleses incorporada sem tradução ao nosso ordenamento jurídico, na situação que vivenciamos seria um remédio amargo se fosse ministrado ao país; teria efeitos colaterais imprevisíveis e poderia a emenda ser pior  que o soneto.

         Aplausos à senhora presidente. Pouco importa que desagrade aos radicais do seu partido. Começou a entender que foi eleita presidente do Brasil e não dirigente de um partido que é julgado como responsável pela banalização dos crimes contra a administração pública em geral (um capítulo do CP) e outros crimes comuns, afrontando valores morais e éticos essenciais à soberania de um povo. Se continuar empunhando uma lanterna no fundo do poço onde mergulhou para agradar seus “cumpanheros”, terá ao seu lado metade mais um do povo ao qual deve respeito e fidelidade e possivelmente a outra metade. Vale lembrar que as etapas de um processo de impeachment criará, com certeza, novo “mensalão”.

         A esta altura não importa saber quem teve a ideia de convidar um educador para a pasta da educação: importa saber que ele aceitou e não tem desgaste, é um nome novinho em folha, sem vícios aparentes ou compromissos assumidos. E o que é melhor, tem um nome a zelar. 

         Considerando que a ciência política no Brasil assumiu a feição de um jogo sujo de cartas marcadas, o povo decidiu que se a Constituição proclama “o poder emana do povo” (art. 1º, parágrafo único), este mesmo povo pode “virar a mesa” e “pagar para ver” com duas cartas novas: Joaquim Levy e Renato Janine. Não são milagreiros, são técnicos e vão pedir sacrifícios necessários. A sangria do “mensalão” e do “petrolão” provavelmente não voltará aos cofres públicos, principalmente as vultosas quantias destinadas às campanhas vitoriosas do PT. Nós vamos pagar a conta, é o jeito. A diferença é que surge a esperança do pagamento ser manipulado por mãos honestas, até prova em contrário.

         Acredito que todos os brasileiros de bom senso e capazes de pensar torcem pelo novo ministro, como já estão torcendo por Joaquim Levy. Com um educador de verdade será mais fácil repensar e reinventar caminhos e soluções possíveis para o soerguimento da dignidade de um país que teve a educação, seu alicerce mais importante, contaminado e enfraquecido por projetos de poder, vitimada pelo populismo irresponsável que tem destruído até a formação de novos líderes em nossa juventude. Ganha novo alento o ideal daqueles que acreditam na renovação de um país que volte a conferir ao Ensino Fundamental o timbre de excelência. Os demais passos no caminho do conhecimento seguirão a trilha naturalmente, é uma consequência.

         Estamos “pagando para ver”, confiando nas cartas em poder dos novos ministros. Certo tipo de jogo não é para qualquer um que desconheça regras e jogue sujo. Afinal, não devemos descartar a hipótese da sorte que acompanha o bom jogador: eles podem esconder na mão, discretamente, um “royal straight flush”, melhor dizendo, um naipe de cinco  cartas iguais (10, J, Q, K, A). O jogo vai começar. Façam o jogo, senhores!

Queima do Judas



               Cyro de Mattos

  
O sábado era o dia em que mais gostava na Semana Santa. Amanhecia alegre porque Jesus Cristo ressuscitava nesse dia. Já podia cantar marchinhas no banheiro lá em casa quando fosse escovar os dentes e tomar banho. Já podia  beber leite no café da manhã e comer carne de gado, porco, carneiro ou galinha na refeição do almoço. Podia jogar bola no campinho  da beira-rio, pescar, nadar e mergulhar no rio Cachoeira. Se quisesse, podia ir assistir ao último episódio do seriado de Flash Gordon na matinê do Cine Itabuna.

A cidade voltava a ter sua vida normal, os comerciantes abriam as portas de suas lojas, as pessoas caminhavam  na rua, ora apressadas, ora tranqüilas. A feira atrás da estação do trem voltava a fazer sua festa, com vozes que não paravam de falar, as pessoas comprando tudo que podia se imaginar. O padre Nestor celebrava a missa das sete com entusiasmo na igreja de Santo Antônio cheia de fiéis. Depois que dava a bênção final, bradava que Cristo estava vivo, era o verdadeiro e único  rei dos cristãos, reinou e sempre haveria de reinar, ressuscitava para o bem da vida,  aleluia!

A queima do Judas acontecia nos bairros populares. Para minha alegria e surpresa, dessa vez  o Judas  ia ser queimado lá na rua. Quem preparou o boneco de palha, cheio de bombas na cabeça, tronco e membros, foi seu Filó, o dono da casa que vendia ferro e alumínio na rua do comércio.  À noite, por volta das 19 horas, já havia muita gente diante  do Judas pendurado no poste.

Seu Filó começou a ler o testamento do Judas por volta das 20 horas.

A cabeça vai pra seu Ribeiro,
A dele nunca prestou mesmo,
A do burro vale mais dinheiro.
As mãos espertas e macias
Dou pro açougueiro Berilo
Roubar melhor no quilo,
Cada nádega  é pra seu Augusto
Comer gostoso e soltar arroto,
As pernas finas e compridas
Deixo pro João Monteiro
Andar pra frente e ligeiro,
O chapéu grande de palha
É pro prefeito usar sem as galhas,
A calça velha, a camisa rasgada,
O paletó com  a gravata preta
Vão vestir o Zeca Hemetério
Quando viajar pro cemitério,
Os sapatos furados sem cadarço
Dou pra Luís Bernardo calçar
Quando tiver são ou bêbado,
É da meninada minha barriga
Cheia de doces e lombriga,
O charutão é de seu Tonico,
Bom proveito quando for ao circo,
O dinheiro vai pro seu Aleixo
Gastar no jogo do bicho,
O par de meias  com chulé
É pro padre Nestor fazer rapé,
O que precisa Maria Padeira
É um bocado de pele grossa
Pra ela fazer uma peneira,
Já uma parte da peitaça
É pra Dona Maria Graça,
Se ainda sobrar algum osso
É pra dona Joanísia botar
Na sopa de seu Lindolfo.


Começava  a ser queimado pelos pés, aí o que se ouvia eram os estouros de cada bomba arrancando os pedaços do traidor de Jesus Cristo. Eram lançados para todos os lados. Os estouros das bombas misturavam-se com gaiatices, sorrisos,  gritaria de gente grande e pequena.

Alguns dos moradores da rua achavam graça quando tomavam conhecimento de que tinham figurado como herdeiros no testamento do Judas. Outros ficavam aborrecidos, evitando se encontrar com seu Filó na rua, durante algumas semanas. Seu Ribeiro, o agente dos correios,  exigiu que ele lhe pedisse desculpa, se ainda quisesse tê-lo como amigo e bom vizinho. O prefeito Nazário pensou até em processar seu Filó, velho companheiro de partido. Achava que sua fiel esposa Maria Santinha não merecia ser ofendida por tão  grande mentira, mesmo que se tratasse de uma brincadeira inventada por seu Filó no testamento de Judas. Não levou a idéia adiante porque as eleições municipais iam ocorrer naquele ano. Queria ser reeleito como prefeito. E ele bem sabia  que seu Filó era o seu melhor cabo eleitoral na cidade.  


  
Cyro de Mattos é autor premiado no Brasil e exterior.


AINDA O SAUDOSO HÉLIO PÓLVORA

Florisvaldo Mattos

Como éramos amigos, e até por vezes companheiros de jornal, além de conterrâneos grapiúnas (ele, de Itabuna; eu, de Uruçuca), sempre tive por ele grande admiração, centrada na pessoa e, agradecido, no prodigioso escritor que era. Essa admiração se explicitou, além dos momentos agradáveis de convivência, por vezes boêmia, no poema que lhe dediquei, em 1996, impelido pela comoção geral - e em nós mesmos - que o fenômeno devastador da praga da vassoura de bruxa causara nos cacauais. Vai abaixo o poema, já publicado em livro, que transcrevo comovido.









SAFRA DE SOMBRAS 


That is no country for old men, the young
In one another’s arms, birds in the trees.
W.B.Yeats*


A HÉLIO PÓLVORA

Florisvaldo Mattos


É; foi-se o tempo de plantar cacau:
Não é mais um ofício para jovens.
Grandes nuvens de crinas esvoaçadas,
Esparramadas no azul – soltas setas –
Galoparam sedentas de outros mapas.
A terra agora espectro de agra face,
Paragens somente para ossos (frios),
Esqueletos que são aves em ramos,
E até bem pouco não era assim (saibam):
O chão se abria a sonhos e sussurros,
soluço (único) de água mensageira,
E lá vinham pérolas entre musgos,
ametistas suando ao verde sob chuva.
O sol gretou os seios da morena,
sinhá-moça que veio de Belmonte,
intumesceu os olhos generosos.
E fez mais: as almas ressecou,
E os antes desasselvajados rios,
(Mirai) hoje somente veias secas,
E semblantes que vagam nas estradas,
Safra de sombras, ai, dever de velhos.

*Terra aquela não é que sirva para ancião.
Os moços a abraçar-se, as aves a cantar
Nas árvores" (...)
Versos do poema de Yeats, "Velejando para Bizâncio" (Sailing to Byzantium), em tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos.


JOÃO UBALDO RIBEIRO: UMA REFERÊNCIA



Por Sione Porto

Não somos brancos, negros ou índios; somos baianos. Não pertencemos, no maior rigor da palavra, a nenhuma religião, nem mesmo somos ateus; somos baianos. Não pretendemos ser melhores que ninguém. Mas somos baianos. (Trecho do discurso de posse na Academia Baiana de Letras).

À exceção de Nélson Rodrigues, Fernando Sabino e Millôr Fernandes, o escritor e jornalista João Ubaldo Ribeiro foi um dos maiores cronistas, crítico/sátiro, da literatura brasileira.

Não queria ser lembrado com um mito, e sim companheiro de pessoas comuns e humildes, a exemplo dos velhos conhecidos com que se encontrava nas manhãs ensolaradas e nas tardes amenas na Ilha de Itaparica, Bahia, onde nasceu em 23 de janeiro de 1941, local em que se refugiava nas férias de janeiro e ali escreveu boa parte de uma das mais importantes obras: Viva o povo brasileiro (1984), considerada obra máxima, um clássico da literatura, romance histórico, conteúdo da ocupação portuguesa – Estado Novo e a Ditadura, trama passada também em outros cenários como o Rio de Janeiro, São Paulo e Lisboa, no período de 1647 a 1977.

Era comum ver o mago literário João Ubaldo Ribeiro no bar e restaurante Tio Sam, no Leblon, tomando o seu chope em tulipa, onde jogava fora conversa fiada e distraída, com velhos conhecidos daquele bairro carioca, onde residia, e seus admiradores, sempre solícito, com seu vasto bigode já grisalho e sorriso largo, idêntico ao seu pai, o ilustre professor Manoel Ribeiro, sempre aos sábados, domingos e feriados.

A influência do cotidiano brasileiro e do sociopolítico foi retratada em toda sua vasta produção literária, deixando um legado inexorável para os amantes da literatura e estudantes que tentam ingressar nas universidades brasileiras – uma referência.

O escritor baiano João Ubaldo Ribeiro revolucionou a literatura, com seu jeito crítico, sátiro, espirituoso, social e jornalístico.

O seu grande saber jurídico foi adquirido através do incentivo do seu pai Manoel Ribeiro, o qual era advogado, professor, jurista, político (deputado estadual em Sergipe, vereador e procurador de Salvador), além de ter feito parte da cúpula da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do estado baiano.

Não obstante bacharel em Direito, João Ubaldo lecionou Ciências Políticas em Salvador (BA), mas não quis seguir carreira de advogado, como o pai e o irmão Manoel Ribeiro Filho, renunciando a tudo para se tornar um escritor.

Multifacetado, amante da liberdade e das coisas simples, obteve sucesso, tornando-se um grande romancista, além de escrever livros infantis, com sabedoria e ironia, estilo singular, encontrando também em sua obra o lado lírico, telúrico e pornográfico, como no romance A casa dos budas ditosos, publicado em 1999, que inclusive foi proibido em alguns estabelecimentos.

Conheci indiretamente João Ubaldo Ribeiro através de seu pai Manoel Ribeiro, quando tive a honra de ser sua aluna, em 1980, no curso de Direito Administrativo da UCSAL (Universidade Católica de Salvador). Embora mestre rígido, exigente e sério, apresentava um humor inigualável, causando uma empatia mútua entre professor e aluna.

Criado esse elo carinhoso com o mestre Manoel Ribeiro, fumante inveterado e apreciador de um bom uísque, passamos a manter conversas sobre literatura, filosofia, economia e história, daí o seu desejo que eu viesse a conhecer o filho João Ubaldo, o qual teria afirmado o desejo de conhecer esta então estudante, a quem seu pai dedicara um carinho diferenciado, em razão de, com membro do Diretório Acadêmico da UCSAL, em 1979, termos lançado a coletânea de poema Poejusto, como também de lhe ter ofertado o meu primeiro livro editado, Mulher: poesias inéditas (1979), cujo prefácio foi do professor de Direito Internacional Público, seu conterrâneo Jayme Messeder de Suárez, exemplar esse que vi carregando várias vezes e ter me dito, pessoalmente, que o poema de folhas 29, tinha muita identificação com o seu pensamento, o que me deixou muito feliz e lisonjeada, com a certeza que está bem guardada em sua biblioteca.

Nas conversas entre aulas, aconselhava-me a seguir na carreira literária e me orientava ao hábito da leitura como aprendizado.

O desejo de Manoel Ribeiro em que eu conhecesse seu filho não foi realizado por outras circunstâncias, além de o mesmo morar em outro estado, com várias viagens pelo mundo afora. Todavia, como o destino tem os seus desígnios, através do encontro de Tadeu Ribeiro, sobrinho de João Ubaldo, com meu filho Maurício Pimenta, no Colégio Anchieta, pude manter contato com a família Ribeiro.

Traduzir João Ubaldo Ribeiro como cidadão comum é muito simples. Trabalhou na Prefeitura de Salvador como office-boy, até chegar à vaga da cadeira 34 na Academia Brasileira de Letras (ABL), antes ocupada por Carlos Alberto Castelo Branco.

Do mesmo modo, citar suas obras é perda de tempo, porque todos as conhecem. Mas vale destacar que muitas delas inspiraram outras artes como o cinema (Sargento Getúlio, 1983; Tieta do Agreste, 1996; Deus é brasileiro, 2003), a televisão (O sorriso do lagarto, 1991).
Todas e quaisquer homenagens ao grande escritor são justas, como as feitas no carnaval carioca, pela escola de samba Império da Tijuca, no desfile do ano de 1987, e o Bloco Areia, ano passado, além de lhe ser concedidos prêmios de tamanha importância, como o Prêmio Camões, em 2008.


Por tudo isso, Viva o povo brasileiro na pessoa de João Ubaldo Ribeiro, o grande, senão o maior brasileiro em seu gênero.

TEXTO PRODUZIDO PELO ESCRITOR CYRO DE MATTOS SOBRE A ENTREVISTA DE HÉLIO PÓLVORA À CRÍTICA LITERÁRIA GERANA DAMULAKIS.

Carta do escritor Cyro de Mattos para a poetisa Eglê Machado

Cara Eglè


Não conhecia essa entrevista. A Gerana Damulakis, crítica conceituada na  Bahia,  tem escrito sempre sobre meus livros. Nunca me falou dessa entrevista. Por sinal, ela incluiu um conto meu, Inocentes e Selvagens, que me deu meu primeiro premio literário de expressão, o Internacional Miguel de Cervantes, para escritores brasileiros e portugueses, em 1966, na Antologia Panorâmica do Conto Baiano,  que ela organizou. E também prefaciou a segunda edição de meu livro Os Brabos, novelas, Prêmio Nacional Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras. 

Não se pode deixar de considerar que poucas  são as pessoas hoje  que gostam de ler a boa literatura. Pessoas que se dizem escritores nessa terra, por exemplo, deixando o pudor de lado,  pouco me leem. E os que estão começando nem sequer me enviam seus livros, com raríssima exceção.  Os escritores dessas bandas ou os que andam nessa praia das letras como tal  procuram mais encobrir ou agredir, sempre desfazer, excluir  para a afirmação pessoal. Usam a estratégia da omissão, de ocultar, torcer o nariz,  para relegar ao exílio ou ao esquecimento o autor aclamado pela crítica nacional, com várias reedições.   Não conhecem , também,  a valorosa escritora itabunense Sonia Coutinho, contista e romancista das melhores no século XX,  no mesmo nível do Hélio. Muitos não conhecem nem mesmo  o trabalho intenso e extenso do Hélio Pólvora. Muitos acionam o  alarme quando o héroi  está morto, assim é mais fácil pongar nas glórias do que partiu. 

Como é que um escritor da grandeza de Hélio Pólvora não ocupou uma cadeira na Academia Brasileira de Letras? Na sessão da saudade,   na Academia de Letras da Bahia, para homenagear a memória de João Ubaldo, no ano passado,  eu fiz essa  pergunta, finalizando minha fala. Sugeri que o nome do Hélio Pólvora fosse indicado para substiuir o de João Ubaldo na Academia Brasileira de Letras, antes que fosse tarde. Hélio partiu e não teve,sem fazer favor, o reconheimento e ser um  dos membros da Academia Brasileira de Letras. 

Você é uma exceção, cara Eglê.  Gosta de literatura, de bons autores, prestigia o que tem qualidade, divulgando no seu prestigioso blog.  Ao contrário, existem aqui e lá fora até os que tentam se apropiar da criação literária alheia,  na sanha de competir para sufocar e aparecer...

Sou admirador da obra de Hélio Pólvora, há muito tempo. Organizamos juntos a antologia Contos Brasileiros de Bichos, publicada em 1968, a única no Brasil até hoje sobre o assunto, pelo menos com o número extenso de excelentes contistas que escreveram sobre o assunto. Os três mil exmplares da tiragem pela editora Bloch esgotaram-se rapidamente.  Hélio prefaciou meu primeiro livro. Foi generoso. O livro meu de estreia tem mais baixos do que altos. Retirei-o há anos de minha bibliografia. Ele enxergou em excesso  as avançadas qualidades da obra do estreante. Ele soube que eu nunca perdoei esse gesto dele.  Esse tipo de gesto amigo às vezes prejudica porque ilude, não ajuda.

Quanto à entrevista da Gerana Damulakis com o Hélio, que você teve a delicadeza costumeira de enviar, é maravilhosa, cheia de substância, erudição, observações lúcidas sobre a vida e a literatura. Diria sem medo de exagerar que a literatura foi a crença do Hélio Pólvora. Assim a entrevista não me surpreende quando se trata de Hélio Pólvora. Apenas estranhei ele não citar Adonias Filho como um dos grandes de suas afinidades eletivas. Ele que já escreveu textos primorosos sobre esse escritor grandão de nossa região. Isso acontece. A pesquisadora Nelly Novaes Coelho, professora emérita da USP, escreveu um livro de mais de 900 páginas sobre os melhores autores do século passado, fruto de estudos em mais de vinte anos.  Seu monumental Escritores Brasileiros do Século XX, Editora Letra Selvagem, SP, 2014,  não traz uma linha sobre a boa literatura de Hélio Pólvora, sendo ela uma erudita, conhecedora profunda de nossa literatura, em todos os tempos. Estranhei. Dedicou mais de dez páginas sobre minha obra de contista e novelista no seu livro quando deveria se debruçar sobre a obra do escritor Hélio Pólvora, com mais volumes  e qualidades. Prova de que não somos completos e que a vida é falha. Escrevemos na tentativa de torná-la completa, inaugurar novos sentidos. E não conseguimos nesse mistério que é a vida, ficamos perdidos no labirinto de Orfeu  entre o primeiro vagido e o último suspiro.

Quando escrevo, morro; se não escrevo, morro também. (Gabriel Garcia Márquez)  

Se quiser pode publicar essa conversa que acabo de ter com você. Abraços, Cyro de Mattos


Memória de Hélio Pólvora


                     Cyro de Mattos

No sempre do vento,
No sem agora do silêncio,
Embarcado em solidão.
Ah, o mar misterioso
Quer me parecer destino.
Entre viver e partir,
Nunca mais reverter
Minha casa de sonhos
Onde no quintal  convivi
Com auroras e bichos.
E no alpendre divisei
Gente que inventei
Para oscilar nas vagas
Assustadas, estranhas.
Assim cheguei  neste mar
Que me torna secreto.
De estar nele para sempre
Como em alta onda vertido
Não sei se encalho ou sigo,
 Embora certo do que fiz
E deixo com mergulhos
Fundos, profundos,

Para inaugurar sentidos.