NOTA DE PESAR

                              



A ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA – ALITA registra com profundo pesar o falecimento da PROFª CONSUELO PONDÉ DE SENA, membro correspondente da instituição e amiga pessoal da presidente e de vários confrades e confreiras, deixando consternados os diversos segmentos culturais da Bahia.

CONSUELO PONDÉ DE SENA era membro da Academia  de Letras da Bahia e presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia onde desenvolveu profícua gestão por longo período. Professora da Universidade Federal da Bahia destacou-se como educadora, escritora e cidadã, emprestando às diversas atividades que desenvolveu a marca da sua liderança firme e entusiasta.

Nossa academia reverencia, agora, a confreira que enriqueceu a atividade cultural na Bahia com sua inteligência, simpatia e brilhantismo, transmitindo aos seus familiares e filhos Mayra, Maria Luiza, Maurício e Eduardo o melhor da nossa solidariedade e carinho.

                  Itabuna, 14 de maio de 2015
             Sônia Carvalho de Almeida Maron

                         Presidente


Pranto da Madrugada


Por Consuelo Pondé de Sena
Desde que passei a conviver com essa “pulmonite”, comecei a experimentar novas e desagradáveis emoções, antes jamais por mim sentidas. Doença terrível que me tolhe o tônus vital, deixando-me diferente do que sou, ou fui.
Não tenho certeza de que voltarei a ser a mesma, porque senti na pele a fragilidade da nossa condição humana e me sinto outra pessoa.
São esquisitos estados d’alma, que me deixam aturdida, porquanto não os identificava   como próprios do meu espírito. São situações muito novas, jamais pressentidas. Mesmo porque, não é fácil se imaginar o desconhecido.
Que está havendo? O que está se passando? Confesso que não sei responder o que, de novo, se introduziu na minha vida, deixando-me com uma sensação de que sou outra criatura.
Mudei o couro? Penso que, de certa forma, sim. O camaleão não passa por esse processo? Transfigura-se para ser confundido? Sei lá! Dentre milhares de pensamentos desordenados, que povoam meu cérebro está a referida festa, que me deu tanta alegria. Vesti um lindo traje vermelho, que foi muito apreciado por homens e mulheres. É que a cor me fica bem e todos gostam quando a uso.  Este ano, a festa vai acontecer na quarta-feira. Bom dia, porque no meio de semana.
Realmente, estou recordando que a festa do aniversário do IGHB, no ano passado, foi uma beleza. Muitos convidados, sócios, visitantes, homenageados, condecorados com a Medalha Bernardino de Souza. Como sou “pidona” vou pedir uma ajuda em dinheiro para ajudar nas despesas, que não são muitas, mas oneram a Casa, ora em processo de mudança de rede elétrica, que o IGHB ganhou, da Coelba, no “Faz Cultura”.
A Casa da Bahia completou 120 anos. Quis o acadêmico Cajazeira Ramos, da ALB, fazer-lhe uma oferta muito especial. Arrecadou dinheiro, no que foi criticado por algumas pessoas, incapazes de gesto semelhante. Obteve o dinheiro para encomendar o bolo, como era do seu desejo. Um bolo de nozes gigante, que ocupou o mármore inteiro da mesinha redonda antiga. Nem meus médicos podem fazer previsões.
Penso que esse fato, relacionado com outras preocupações pessoais, fazem com que, em plena madrugada, diria mesmo dormindo, acordo chorando sentidamente.
Branca, a moça que me assiste, no período noturno, tenta me consolar, usando palavras carinhosas de alento.
Aos poucos, vou respirando fundo, tentando debelar o choro reparador. Choro que me alivia a alma e desafoga a mente, livrando-a de outras interferências. Espero que as autoridades oficiais compareçam ou mandem seus representantes. A festa dos 121 anos da instituição cultural mais antiga do Estado deve merecer o apoio de todos os baianos. Por outro lado, no seu último pronunciamento no IGHB, o representante do governador Jaques Wagner, Ubiratan Castro de Araújo, declamou enfático ser a instituição “o verdadeiro Museu da História da Bahia”.
Assim, serenamente, aquietada dos meus temores, vou, aos poucos, retomando o sono e dragando a emoção.
Na manhã seguinte, acordo lépida e não parece que senti algo diferente durante a noite de tristeza.  Emoções genuínas são eficazes para a alma cansada, cheia de sentimentos.
Quem me conhece sabe que sou um vulcão em erupção. As lavas que derramo são águas escaldantes da minha “caldeira” interior. Pois, apesar de ser do “grito” de Terra, Capricórnio, sou ígnea. Gosto do fogo e de suas vibrações. Fazer o que se nasci assim?
O pranto da madrugada é uma válvula de escape. Penso ser necessário para restabelecer o que foi “mexido”, bem fundo, bem dentro de mim. Traz de volta tudo que tentei disfarçar, dissimular, para não fazer flutuar os meus desapontamentos, as minhas decepções, as minhas frustrações.
Esse “pranto da madrugada” é algo que apareceu, há pouco tempo, no curso dessa enfermidade. Se vai permanecer comigo, não sei responder. No momento atual me traz muito alívio, disso tenho plena noção. Que fique, portanto, comigo neste momento de tanto sofrimento e de dor. 
Texto Publicado no Jornal A TARDE;



Posse da nova Diretoria da Academia de Letras de Itabuna



Membros da Academia de Letra de Itabuna na Cerimônia de Posse da Nova Diretoria no dia 15 de maio do ano de 2015.







Carta de Rilvan Santana em ocasião da posse da nova diretoria da ALITA



Senhores confrades e digníssimas confreiras:

No dia 20 de abril de 2011, registrei no “Saber-Literário” o nascimento da ALITA:
ALITA foi parida, veio à luz, numa das salas da FICC, às 9:00h, no dia 19 do mês de abril do ano cristão de 2011, e, acalentada nos braços dos preclaros Cyro de Mattos, Dinalva Melo, Ruy Póvoas, Antônio Laranjeira Barbosa, Marcos Bandeira, Geny Xavier e outras mulheres e homens de expressão literária da terra do cacau.

Este “escrevinhador”, o segundo filho de dona Leonor, também, estava lá, não com a mesma competência obstétrica dos demais confrades, mas com o mesmo desejo de vê-la nascer com saúde para daqui alguns anos, ela perambule e troque ideias com suas irmãs gêmeas neste país de Drummond, Cora Coralina, Aluísio de Azevedo, Adonias Filho, Amado Jorge (perdoe-me o trocadilho), João Ubaldo Ribeiro, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Guimarães Rosa e o mulato Lima Barreto, dentre outros, e, o nosso mais louvado escritor, jornalista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, poeta e crítico literário, o mulato, Joaquim Maria Machado de Assis de registro de nascimento e “Machado de Assis” para o povão”.
           
Hoje, estamos aqui para posse de mais uma diretoria sob a batuta da competente confreira Sônia Carvalho de Almeida Maron, coadjuvada pelo brilhante professor Ruy do Carmo Póvoas, intelectuais de escol da nossa terra do cacau, que dispensam loas e comentários airosos, pois fazem parte dos homens e mulheres que dignificam a história deste pedaço da Bahia e do Brasil.
         Porém, urge a necessidade desta nova diretoria implementar algumas ações para que a nossa academia cumpra o papel que lhe foi destinado: salvaguardar a memória cultural do passado e  promover  novos valores morais e intelectuais no presente,  para isto, a condição sine qua non, é que tenha autonomia financeira,  que seja reconhecida de utilidade pública e tenha sede própria, sem estes suportes primários, a ALITA irá capengar sempre e jamais andará com desenvoltura.
         Não é urgente, mas não é menos importante, completar a quantidade de membros da ALITA de acordo o modelo Francês (40 membros efetivos, afora os correspondentes), não por indicação, oferecido, de bandeja, porque “Laranja madura na beira da estrada Tá bichada Zé ou tem marimbondo no pé”, mas através de edital veiculado pela mídia, em que os postulantes passem pelo crivo desta diretoria e se escolha aquele que preenche todos os requisitos.
         Saber agregar faz a diferença do administrador, se o gestor de qualquer entidade ou empresa não souber administrar os conflitos dos seus membros, suas divergências e os egos inflados, sua administração estará sujeita ao fracasso, portanto, a chave do sucesso de uma administração é saber juntar os diferentes e diminuir as dissensões.
         Com as bênçãos de Deus, desejo que esta diretoria faça um bom trabalho, cada diretor desempenhe com eficácia sua função para qual foi eleito, é sabido que alguns cargos existem, só no papel, mas para o homem arrojado, empreendedor, a ideia é que conta.

Rilvan Batista de Santana

Itabuna, 15 de maio de 2015.

Maria Pendanga


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Cyro de Mattos


Nunca conheceu os pais. Era lenhador o pai Salatiel, respeitado pelo povo da Vila do Pati como o melhor para derrubar árvore grande com o machado nas matas do Japará.  Certa vez tinha ido derrubar um jequitibá seco. No segundo golpe que desferiu com o machado no jequitibá seco, um galho grosso despencou lá do alto  e veio  bater  na cabeça dele.  Ali mesmo tombou estrebuchando, a cabeça com  os miolos de fora, os olhos graúdos não enxergando mais o mundo.

Quando o pai morreu, ela estava na barriga da mãe, fazia pouco mais de sete meses. A mãe Firmina ficou tão atordoada  quando soube da morte do lenhador Salatiel que desmaiou ali mesmo na porta do casebre. Teve as dores do parto  semana depois do enterro de seu homem, a criança  nasceu fora do peso de uma gestação normal.  

Tinha pouco mais de seis meses de nascida quando a mãe foi atacada da febre de impaludismo. A doença fez secar o leite, a mãe ficou sem poder amamentar a criança.  Acabou morrendo, depois de tremer algumas semanas com a febre do impaludismo, na cama de vara. Antes de morrer, ela  pediu a vô Isidro  que tomasse conta da criança. Não deixasse que a filha padecesse neste mundo bruto das terras do Japará onde o filho chora quando tem fome  e a mãe nada pode fazer para acabar com o choro.   

Não precisava fazer aquele pedido, Vô Isidro era quem  abrigava em seu casebre as crianças que ficavam sem pai e mãe na Vila do Pati.  Alguns dos  meninos criados pelo velho curandeiro foram tentar ganhar a vida na cidade distante quando cresceram e a sombra do bigode começava a aparecer no lábio superior. Dois deles levavam a vida  em Belmontina como  carregador de bagagem dos passageiros que desembarcavam do trem na estação ferroviária. O filho do arrieiro Lalau teve mais sorte. Aprendeu o ofício de sapateiro e abriu sua tenda num beco próximo  da feira.  Mas  a maioria daqueles meninos criados pelo vô Iisidro sabe Deus como  ficava ali mesmo trabalhando nos pertences de Vulcano Brás quando já estavam com as feições de homem.

Devia ter uns dez anos de idade Maria Pendanga  quando  Abelardo Pança-Farta entregou a filha dele  para que vô Isidro cuidasse dela. Ela se afeiçoou tanto à filha de Abelardo Pança-Farta  que parecia  uma irmã mais velha, cuidando da mais nova com todo o zelo. Pegou um periquito na visgueira que armou no  pé de jaca e disse que era pra Nininha brincar com ele pelo casebre quando estivesse manso, como se o bichinho fosse um brinquedo vivo.
Maria Pendanga cresceu com jeito de homem, chamando a atenção dos que moravam na vila  do Pati. O buço sombreava o lábio superior, os braços fortes, os quadris firmes. Tinha uma inflexão impositiva na  voz um pouco grossa para uma moça de sua idade. Encarava os homens da vila sempre de rosto fechado. Aparava os cabelos,    deixando-os no corte rente. De mulher o corpo mostrava-se nos seios e no sexo como Deus tinha dado a cada fêmea no mundo. 

Manejava  o machado como um homem. Cortava o mato com o facão melhor que um homem. Melhor do que ela para pegar o boi no laço só mesmo o vaqueiro Genaro. Tiradeira de leite das vacas para  fazer inveja a qualquer homem. Amansava burro brabo causando espanto a quem visse. Aprendeu a atirar com espingarda, em pouco tempo  não errava um tiro ao abater a caça. Quando soube da maldade  que Vulcano Brás tinha feito com Nininha, tirando os tampos da virgindade dela  na casa-sede da fazenda Boa Vista,  Maria Pendanga perdeu a fala, o sono e a fome. Mordia os lábios com raiva, endurecia os punhos como se fosse esmurrar alguém que ela jurava espancar  um dia.  E mais jurava nos pensamentos  que um dia ia tirar a desforra em Vulcano Brás pelo mal-feito que tinha cometido em Nininha.

Foi a única mulher da vila  que o vaqueiro Genaro consentiu que participasse do levante. Quando os homens de Vaqueiro Genaro  lutaram no corpo a corpo com os jagunços de Vulcano Brás, ela foi a primeira a sair do esconderijo por trás de uma pedra grande. Correu em disparada, mais veloz que o vento,  empunhando o facão amolado, que alumiava com os raios de sol resvalando na lâmina. Saltou no meio dos jagunços como se fosse uma onça das mais enfezadas. Feriu e matou vários jagunços, não se cansava em desferir golpes sucessivos com o facão. Até que rodopiou e caiu, sem largar o facão,  com  o tiro que lhe deram no pescoço. A bala atravessou a garganta.  


NOTA. . O texto Maria Pendanga é um capítulo do romance Os ventos gemedores, de Cyro de Mattos, publicado pela Editora Letra Selvagem, de São Paulo. A pesquisadora e analista Nelly  Novaes Coelho, doutora em letras, da USP, observa sobre a obra do autor do romance:  “Obra que se revela em continuado processo de recriação estilística e de escavação existencial, a de Cyro de Mattos, enraizada em sua  terra e sua gente, expressa a constante busca de uma sintonia cada vez maior com a acelerada mutação do nosso tempo.” (In: Escritores brasileiros do século xx , Editora Letra Selvagem, São Paulo, 2013).


LetraSelvagem Lança Novo Romance de Carlos Nejar



A Associação Cultural LetraSelvagem lançará, em junho de 2015, o mais novo romance do imortal Carlos Nejar. Dentre os autores da editora de São Paulo LetraSelvagem, aparecem grandes nomes nacionais como Álvaro Alves de Faria, Olga Savary, Nelly Novaes Coelho, Cyro de Mattos, Hernani Donato e Fábio Lucas.

Para o poeta Diego Mendes de Sousa, a escrita de Carlos Nejar pertence à alma dos tempos. O FEROZ CÍRCULO DO HOMEM (2015) sela, em palavras, o brilhantismo desse pensador de mundos: outras fomes, outras amplidões humanas.

Carlos Nejar é poeta dos mais expressivos da poesia brasileira no século XX, com uma vintena de livros publicados. Lançou recentemente uma monumental história da literatura brasileira. É membro efetivo da Academia Brasileira de Letras. 

  
(O FEROZ CÍRCULO DO HOMEM - Posfácio de Diego Mendes Sousa)

FONTE:  http://www.letraselvagem.com.br/index.asp


Amiga de ontem, amiga de sempre




                        
      Sônia Carvalho de Almeida Maron*

         
        Sem desmerecer os amigos conquistados depois de adultos, quando a maturidade começa a imprimir um caráter seletivo às relações afetivas, nossos amigos de infância são especiais. Aquela amiga que caminhou ao nosso lado para o colégio, dividiu o lanche, posou para retratos em preto e branco na máquina fotográfica Kodak, cantou de mãos dadas as cantigas de roda é única, como únicos são os momentos vividos e divididos nas confidências referentes ao primeiro namorado, à primeira festa, à dor do primeiro amor desfeito. O sentimento puro e incondicional à prova de desentendimentos, inveja ou disputas, marcou minhas amizades de infância e alcançou os cabelos brancos e as rugas, continuando igual em intensidade até o momento das lágrimas da despedida supostamente final.

         Talvez a dúvida quanto à despedida imposta pela morte – se é final ou temporária – seja um meio de defesa eficaz para o sofrimento da perda. A verdade é que o lenço enxuga a lágrima que teima em cair, o tempo mitiga a dor, mas o vazio permanece quando um amigo de ontem, de hoje e de sempre se vai. Sei que vou conviver, cada vez mais, com espaços vazios em minha vida à medida que os anos avançam e vão levando os entes queridos, mas não consigo evitar a dor de mais uma despedida.

 Surgiu um novo vazio em minha  vida, símbolo do  melhor que a colônia libanesa emprestou ao sul da Bahia definindo o perfil diferenciado e único da nossa região. As famílias libanesas que povoaram a terra grapiúna, integrando-se e amando nosso chão como seu próprio Líbano, conhecidas pelos apelidos de família Hage, Midlej, Maron, Haun, Atallah, Rihan, Habib, Kalid e tantos outros, deixaram marca indelével nos costumes, na culinária, nas práticas comerciais, nos exemplos de generosidade, retidão de caráter e coragem de verdadeiros desbravadores da região do cacau, sem falar na beleza das mulheres. É preciso registrar, como representante de tantos conterrâneos, a amiga querida que se despediu: Abla Atallah Haun.

         A garota loura, alta, com jeito de candidata a títulos de beleza - tão prestigiados naquela época - tinha traços de Lady Diana e temperamento sereno e dócil; discreta, Abla pertencia ao grupo das  adolescentes que estavam sempre juntas: Najla e Mary Kalid, Rosa Rihan, Marilene Dantas e eu. Todas, à exceção de Rosa, residiam na rua Ruy Barbosa.  Éramos as meninas do Ginásio Divina Providência, o que contribuía para estreitar os laços de amizade e os interesses comuns.
Abla tinha o perfil de “boa moça”e não somente na aparência: não recordo uma atitude sua na convivência social ou na intimidade das amigas que merecesse censura ou crítica. Até mesmo meu pai, intolerante e fiscalizador incansável das minhas amizades, tinha uma afeição especial pela filha de “seu” José Atallah e Dona Pequinita, julgada por ele a  mais “ajuizada” do grupo. O que meu pai não sabia é que a amizade dos adolescentes do século passado era “pra valer”; justamente na casa de Abla, quando aumentava a vigilância do meu pai, aconteciam os encontros com meu primeiro namorado, sob a proteção da “amiga de fé” que escondia o casal na sala de visitas por achar injusta a oposição ferrenha ao namoro porque o rapaz, “mauricinho” e de boa família, era capoeirista famoso na academia de Mestre Bimba, em Salvador, onde estudava. Segundo meu pai, capoeira era “coisa de bandido ou quilombola”. Imagine se o coroa ranzinza soubesse, na outra dimensão onde se encontra,  que  a capoeira virou patrimônio da humanidade !

Residindo em Salvador, há mais de três décadas, Abla sempre voltava no verão para sua Olivença tão amada que conheceu antes da Ponte Ilhéus/Pontal e estrada asfaltada, quando a vila vivia em paz, livre das mazelas da modernidade. Vale registrar que minha amiga, sem publicidade ou alarde, reuniu um grupo de itabunenses residentes na capital e todos os anos, sob sua coordenação, festejava-se o aniversário de Itabuna, dia 28 de julho, com missa em ação de graças celebrada na Igreja da Vitória; na oportunidade, os convidados ofereciam donativos para o orfanato de Irmã Catarina, religiosa que conduziu  um trabalho voluntário conhecido por todos os itabunenses.

Minha amiga Abla Atallah Haun  representará sempre o melhor da fase dourada da minha adolescência. Nossos caminhos diferentes não foram obstáculo para a continuidade da afeição, renovada a cada reencontro. Sem a certeza de encontrá-la em Olivença, no próximo verão, minha vida fica mais triste.

 


         

Lançamento do livro A CASA VERDE- de Cyro de Mattos






O livro A casa verde  e outros poemas, de Cyro de Mattos, com tradução para o inglês do  Professor Emérito Doutor Luiz Angélico, compõe-se de duas partes, como o próprio título indica. No primeiro momento,  o poeta baiano  Cyro de Mattos inspira-se na Casa Verde, que serviu   de residência  a Henrique Alves dos Reis (1861-1942), coronel do cacau, e sua esposa, dona  Cordolina Loup dos Reis, a filha Elvira e o genro Miguel Moreira, que foi prefeito de Itabuna. Com versos despojados, de lirismo puro.
          
O premiado poeta baiano (de Itabuna) faz uma viagem no tempo perdido e busca recuperar sua alma através do diálogo que estabelece entre  a poesia e a memória, que é o lugar de onde emerge a história com as pessoas, fatos e coisas. Local de importantes decisões políticas do município,  reuniões sociais e festivas, a Casa Verde tornou-se cenário de luxo e requinte nos anos 30. Preserva até hoje em seu acervo  o passado da conquista e do domínio  dos coronéis do cacau. O  poeta recria com suficiência  um  tempo áureo da civilização cacaueira baiana,   sugerido pelas  peças e indumentárias dos séculos XIX e XX, pertencentes  à família de  Henrique Alves Reis.   

Em  cada coisa que toca,  em cada voz que escuta, no aroma que  flui nos cômodos,  na solidão de Dona Elvira,   que não teve o herdeiro para prosseguir o ciclo, usa os referenciais  como signos identificáveis  do homem e a vida. E filtra com densidade poética o mando e a  solidão,  o fausto e o triste,    o efêmero e o eterno onde tudo se esconde.  O segundo momento do livro é formado  pelos poemas “Canto a Nossa Senhora das Matas”, “Um Poema Todo Verde”, “Morcego”, “Boi”, “Galos”, “A Roda do Tempo”, “A Árvore e a Poesia”, “Passarinhos” e “Devastação” (I,II). São poemas de vibrante força telúrica, puros como o  chão de quem possui um modo próprio de fazer poesia universal  sem perder de vistas os muros da aldeia, ou seja, por meio de  seu  timbre nativo  da   origem  tornada linguagem, como bem sublinhou o crítico e poeta Ledo Ivo. 

Há que ressaltar em A casa verde e outros poemas  a tradução primorosa  para o inglês realizada pelo poeta, ensaísta e Professor Emérito Doutor Luiz Angélico. Homem erudito, simples e fraterno,  de uma atuação admirável como professor de inglês no curso de Letras da Universidade Federal da Bahia, tradutor renomado, sua tradução para a língua inglesa de  A casa verde e outros poemas é possivelmente um de seus últimos trabalhos no setor. O poeta Cyro de Mattos ao dedicar-lhe o livro não só celebra a amizade e o apreço  que tinha por ele mas presta justa homenagem a quem tanto se dedicou ao ensino do  inglês na UFBA e à arte da tradução, desvendando com competência  seus limites e modos  para que  muitos  possam conhecer a linguagem de outros povos,  com sua alma, seus costumes, seu cotidiano, suas dores e sonhos.  

A ESQUECIDA JACINTA PASSOS


Escritora nascida em Cruz das Almas, Bahia, em 1914, Jacinta Passos foi autora de quatro livros de poemas — Momentos de poesia (1941), Canção da partida (1945), Poemas políticos (1951) e A Coluna (1958) —, elogiados por críticos do porte de Antonio Candido, Mário de Andrade, Aníbal Machado e Roger Bastide, entre outros. Seu livro mais importante, Canção da partida, foi ilustrado pelo artista Lasar Segall.

Jacinta tornou-se uma das mais ativas jornalistas da Bahia na década de 40, escrevendo sobre os assuntos que mais a interessavam, pelos quais lutava: política, transformações sociais e posição da mulher na sociedade. Colaborou também com jornais e revistas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Militante do Partido Comunista Brasileiro de 1945 até a morte, em 1973, dedicou grande parte da vida ao trabalho penoso, clandestino e cotidiano de luta por um Brasil menos injusto.

Jacinta Passos foi casada com o escritor e jornalista James Amado, com quem teve uma filha, Janaína. A partir de 1951, sofreu crises nervosas periódicas, com delírios persecutórios, tendo recebido o diagnóstico de esquizofrenia paranóide, doença considerada progressiva e incurável. Apesar de internada em diversos sanatórios, jamais deixou de escrever, tanto poesia quanto prosa. Sua obra poética, fundada nas tradições populares da Bahia, contém fortes componentes líricos e apelo ao público contemporâneo, mas permanece pouco conhecida, pois seus livros, publicados por editoras de pequeno porte, tiveram tiragens muito reduzidas, sendo que apenas um deles, Canção da partida, foi reeditado, isso em 1990.

Ao lado do projeto de publicação da obra completa da escritora, incluindo a parte inédita, um site oficial foi  criado com vistas a tirar da obscuridade a obra e a trajetória de uma das mais originais escritoras do seu tempo, colocando-a no lugar onde deve estar, ao alcance do público, para que possa ser conhecida, estudada, discutida, admirada.

[ PASSOS, Jacinta ] Jacinta Passos, coração militante: poesia, prosa, biografia, fortuna críticaOrg. Janaína Amado.  Prefácio José Mindlin.  Salvador: EDUFBA; Corrupio, 2010.   673 p.  19,5x27 cm.  ISBN 978-85-232-0683-3  Projeto gráfico e capa: Angela Garcia Rosa. Inclui fotografias da vida da poeta oriundas de diversos acervos.  Inclui poemas inéditos e dos livros publicados pela autora: Momentos de poesia, Canção de partida, Poemas políticos, A Coluna [  Prestes ].  Reproduz os desenhos de Lasar Segall  que ilustraram a obra “Canção da Partida”.  Col. A.M. 


Centenário de Adonias Filho



 Cyro de Mattos

Comemora-se neste ano o Centenário de Adonias Filho, escritor baiano aclamado pela crítica nacional, nascido em Itajuípe, antigo Pirangi, distrito de Ilhéus, em 27 de novembro de 1915. Deixou  em sua obra de contista e romancista  cinco livros que têm como cenário o Sul da Bahia na época da conquista da terra: Os Servos da morte (1946), Memórias de Lázaro (1952), Corpo vivo (1962), Léguas da promissão (1968), e As velhas  (1975).

Adonias Filho é um autor de livros de ficção que engrandece  a região cacaueira baiana no corpo das letras brasileiras. Legítimo homem da civilização cacaueira baiana sustentou pela vida afora um amor de perdição por suas raízes e histórias de sua gente. Nos últimos anos de vida,  mudou-se do Rio de Janeiro  e foi morar com a esposa  na sua fazenda  Aliança, em Inema. Depois de muito caminhar pela cidade grande, por entre edifícios e gente vinda de todos os lados, retornava aquele homem de voz mansa, cordial, ao chão de seus ancestrais. 

            É sabido que a obra literária motivada por certa região enfoca o peculiar de determinada cultura, tendo por fundo um cenário típico, cujas condições são refletidas no conteúdo da narrativa, conferindo-lhe nota especial. Os estudiosos dizem que o que faz uma obra regional é o fato de mostrar-se presa, em sua matéria narrativa, a um contexto cultural  específico,  que se propõe a retratar e de onde vai haurir a sua substância. Mas isso não a impede de adquirir sentido universal, em função de seu significado portador de humanidades, mensagem  profunda da existência, fazendo com que ultrapasse as fronteiras da região retratada.

          É o caso do consagrado narrador Adonias Filho. Um criador de histórias que tem como cenário a região cacaueira baiana na época da infância quando a selva era impenetrável e hostil. Percebe-se nesse artesão da linguagem uma moderna forma de ser contada a história, harmonizada com a representação das essencialidades da criatura, as quais são retiradas do ambiente onde habitam.   

         Ressalte-se que atrás do homem de determinada região, com sua típica problemática existencial do indivíduo,  seus falares e maneiras próprias de relacionar-se com o mundo,  há  o que é próprio de qualquer ser humano onde quer que esteja. Razão e emoção, pensamento e sentimento. O pensamento e o sentimento dos personagens de Adonias Filho obedecem às forças cegas do destino, que resultam  de solidões e desesperos impostos pelo ambiente de natureza bárbara. Como seres embrutecidos, primitivos, possuem os sentimentos reprimidos. São índios, negros, tropeiros,  caçadores,  pequenos agricultores arruinados.

           Esse narrador de estilo sincopado e poético é uma das vozes fundamentais da melhor literatura de todos os tempos. Influenciado pelos dramaturgos gregos, Shakespeare, o cinema, do fundo trágico de seus romances, novelas e contos emanam personagens marcantes, em cujos passos e travessias ressoam  os sortilégios da morte através de entonações bíblicas.

Homem culto, simples, ocupou cargos públicos importantes. Foi diretor da Biblioteca Nacional, Editora A Noite, Serviço Nacional de Teatro e pertenceu à Academia Brasileira de Letras. Conquistou o Prêmio Nacional da Fundação Educacional do Paraná, Instituto Nacional do Livro, Jabuti, Pen Club do Brasil  e  Fundação Cultural do Distrito Federal pelo conjunto da obra. Seus romances foram publicados nos Estados Unidos, Portugal, Alemanha, Venezuela e Bratislava. É tão importante  o seu trajeto de vida para o Sul da Bahia que foi instalado em Itajuípe  o Memorial Adonias Filho para preservar sua obra e acervo. O Centro Cultural de Itabuna, da Fundação Cultural da Bahia, leva o seu nome. Ele é o patrono da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

 Depois que a esposa Rosita  morreu em 1990, Adonias Filho caiu em grande tristeza. Ficava deprimido, em seus vagares pela casa-sede da fazenda. Dizem os conterrâneos  que morreu de amor, em 2 de agosto daquele mesmo ano, na casa-sede de sua fazenda, em Inema. O homem criador de romances pujantes e densos não conseguiu suportar a solidão com a perda da mulher amada e companheira.

Agora, no reencontro do legítimo homem do cacau  com a sua paisagem, no seu regresso às origens, o bem vence  o mal. Ultrapassa a morte  pelas mãos do amor  vivido entre Adonias e Rosita.


*Cyro de Mattos é contista, romancista, poeta e cronista. Organizou e prefaciou a coletânea  Histórias Dispersas de Adonias Filho.  



Referências Críticas a O Canto Contido de Valdelice Soares Pinheiro



Kleber Torres 

O lançamento do livro  O Canto Contido, 22 anos após a morte de Valdelice Pinheiro, numa edição limitada patrocinada pela Academia de Letras de Itabuna (Alita) e coordenada pelo escritor Cyro de Mattos, não apenas resgata os trabalhos publicados em vida pela autora, que nos legou os livros De Dentro de Mim e Pacto, como também outros 16 poemas esparsos publicados em jornais e revistas, bem como gravados num CD. O livro também nos permite uma revisão critica da poeta, que foi professora da Faculdade de Filosofia da atual Universidade Estadual de Santa Cruz e que era considerada pelo imortal Adonias Filho, da Academia Brasileira de Letras, como “uma poeta já identificada com a melhor poesia brasileira”.
Em seu ensaio, Adonias Filho, considera que com o livro Pacto, Valdelice Pinheiro aparece como uma poeta maior, e a coloca no mesmo patamar de autores como Carlos Nejar, de Telmo Padilha – que conquistou um Prêmio Nacional de Literatura-, de Miriam Fraga e João Carlos Teixeira Gomes, que surgiram em plena fase clássica do modernismo.
Ele considera o livro como resultado e um exemplo da sua poesia salientando que “não importa a variação no tema ou na forma –e por vezes a contenção é tamanha que se evoca o haikai, mas na composição do verso e no artesanato modelar, o que realmente se afirma é a excepcional preocupação com  a condição humana”.
Cyro de Mattos nos lembra que na antologia do crítico Assis Brasil que fez um mapeamento da poesia brasileira, indicou entre os autores baianos Telmo Padilha, Valdelice Pinheiro, destacando a sua linguagem despojada e com um texto fluindo como uma mundivisão focada na preocupação com a condição humana. A relação incluía ainda os nomes de Walker Luna, Carlos Roberto Santos Araújo e Firmino Rocha.
Como crítico, ele destaca ainda que “a poesia de Valdelice Soares Pinheiro não precisa de abonos para ser reconhecida, tem em si mesma o seu valor intrínseco, no qual se mostra com equilíbrio e expressividade”.  Ele lembra que ela publicou em vida apenas dois pequenos livros, numa edição particular e limitada, por isso mesmo corria o risco de ser mais um dos poetas de província cuja tendência poderia ser a de se perpetuar no anonimato.
O critico e coordenador da reedição das obras da poeta itabunense salienta como suas características a linguagem despojada, e um discurso sintético que recorre ao verso breve: “Seu canto contido propõe que a imagem do mundo seja alimentada com amor, esperança, leituras apropriadas de uma flor cósmica geradas pela mão do eterno para ser poeira e vento”.
            
Mostra ainda que a professora de Estética e Ontologia da Universidade Estadual de Santa Cruz, deixou um rico legado poético, além de anotações pessoais e 63 poemas que foram publicados postumamente pela Editus, com um amplo estudo critico em A Expressão Poética de Valdelice Pinheiro, reunindo estudos acadêmicos num trabalho coordenado pela  doutora Maria de Lourdes Netto Simões.
Para Hélio Nunes, que organizou a edição De Dentro de Mim, em 1961, o livro foi escrito “com muita ternura do mundo, dos homens e das coisas. É uma mensagem humanista. A autora nos transmite com lirismo tranquilo a luta intima que alguns poetas travam frente à realidade agressiva do meio social”.
Ele considera Valdelice Pinheiro como uma artista sintonizada com o seu tempo e que sentia as angústia da geração do pós-guerra e que conviveu ao mesmo tempo com a guerra fria e as suas dimensões escatológicas. “Desta geração que não aceita a hecatombe, nem tampouco se conforma com a eternidade do sofrimento dos homens”, concluindo que De Dentro de Mim é um livro para ser lido e compreendido.
Telmo Padilha, destacou na sua apresentação de Pacto, em 1977, que Valdelice Pinheiro estava dialeticamente colocada no epicentro das questões do seu tempo e apresenta no seu segundo livro, uma poesia enxuta, em que o discurso e visível e perceptível através de indagações lançadas, mas ainda não respondidas,”sobre o imenso vazio, o vazio do homem contemporâneo”, um dos sintomas e consequências  das pós modernidade num universo liquido e de relações impessoais.
Para ele, a autora trabalha seus poemas como se quisesse retirar deles todo o supérfluo. “Não existe a palavra que enfeita, mas a palavra exata, única, a fotografar o fato. O ritmo é às vezes arbitrário e verdadeiro e a metáfora compõe um léxico de profundidade, no qual as relações semânticas mantém estrita fidelidade com o texto”.
Padilha conclui que sem ser uma formalista, Valdelice Pinheiro conseguiu alcançar um nível de elaboração de texto e poética que a coloca ao lado dos melhores vanguardistas não ortodoxos da sua geração, num livro construído  segundo um plano de dialética e reflexão.
Em sua essência, a artista se revela uma minimalista, integrante daquele grupo de artistas para quem o mínimo está em lugar do máximo, tornando a palavra no seu excesso supérflua e desnecessária. Em Medo, ela nos fala de um olho enorme e paranóico sobre o mundo “espiando a hora de chorar”.
Ao falar do meio ambiente, em Rio Cachoeira, vê “um rio torto, rio magro, rio triste”, que assume uma dimensão humana e chora, sente dor e fala do lamento dos afogados que engoliu. No  poema Triste,  constrói com gosto e a cor branca do sal os versos para todos os mortos, mas que ao mesmo tempo falem de todos os vivos, os quais inutilmente também vão morrer na sua finitude.
Como humanista, Valdelice Pinheiro dedica um poema para um poeta bêbado, que fazia versos para uma mulher que se foi e nunca voltou, mas o qual deveras existiu. Em Instante conclui com dois versos suaves e sublimes sobre uma saudade enorme e que desmancha a solidão.
A economia de palavras se manifesta  em poemas como História, Cristo – esse outro (prego na mão,/ os olhos iluminando/ a solda elétrica.) – ou ainda em Comunhão, Batismo em que se compromete em abrir o sorriso para uma nova primavera  e em África, que foi esquartejada e explorada pelos colonialistas num grande roubo e numa grande apropriação indébita de terras e pessoas.
Se é parciminiosa e contida na maioria dos poemas, Valdelice Pinheiro também assume o engajamento social e político em no Testamento, em que deixa seu legado para o mundo ou em  Maria da Vida, dedicado a uma Maria perdida, doída, caída da vida e por quem ela chora, um conjunto de poemas que culmina em Pacto ou Como São Francisco, onde propõe:
“Poeta, vamos fazer um pacto?
Vamos praticar o gesto que traduz o poema.
que tira o poema da palavra
e o coloca no ato, e o faz na pedra,

ou faz da palavra o gesto e o ato?”  


Uma luz no fundo do túnel

                        


 Sônia Carvalho de Almeida Maron*

    
Será que a mensagem transmitida pelas manifestações acordaram a senhora que governa o Brasil? Será que o Cristo Redentor voltou os olhos para o seu povo? Será que o Senhor do Bonfim decidiu provar que não existe “senhor do bom princípio”? Por quê? Ora, se um professor titular de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo (USP), Renato Janine Ribeiro, doutor em Filosofia pela USP, com mestrado em filosofia pela Sorbonne, educador independente, ficha limpa, sem filiação a partidos políticos, autor de dezoito livros, Prêmio Jabuti em 2001 na categoria de ensaios, assume o Ministério da Educação ocupando o lugar antes confiado a um Cid Gomes qualquer, ainda brilha uma luz na “pátria educadora”.

         Tudo indica que a presidente, ao perder muitos quilos de peso, vai recuperando aos poucos o bom senso e construindo um lastro de proteção que afasta a ideia do impeachment. Por sinal, a expressão cunhada pelos ingleses incorporada sem tradução ao nosso ordenamento jurídico, na situação que vivenciamos seria um remédio amargo se fosse ministrado ao país; teria efeitos colaterais imprevisíveis e poderia a emenda ser pior  que o soneto.

         Aplausos à senhora presidente. Pouco importa que desagrade aos radicais do seu partido. Começou a entender que foi eleita presidente do Brasil e não dirigente de um partido que é julgado como responsável pela banalização dos crimes contra a administração pública em geral (um capítulo do CP) e outros crimes comuns, afrontando valores morais e éticos essenciais à soberania de um povo. Se continuar empunhando uma lanterna no fundo do poço onde mergulhou para agradar seus “cumpanheros”, terá ao seu lado metade mais um do povo ao qual deve respeito e fidelidade e possivelmente a outra metade. Vale lembrar que as etapas de um processo de impeachment criará, com certeza, novo “mensalão”.

         A esta altura não importa saber quem teve a ideia de convidar um educador para a pasta da educação: importa saber que ele aceitou e não tem desgaste, é um nome novinho em folha, sem vícios aparentes ou compromissos assumidos. E o que é melhor, tem um nome a zelar. 

         Considerando que a ciência política no Brasil assumiu a feição de um jogo sujo de cartas marcadas, o povo decidiu que se a Constituição proclama “o poder emana do povo” (art. 1º, parágrafo único), este mesmo povo pode “virar a mesa” e “pagar para ver” com duas cartas novas: Joaquim Levy e Renato Janine. Não são milagreiros, são técnicos e vão pedir sacrifícios necessários. A sangria do “mensalão” e do “petrolão” provavelmente não voltará aos cofres públicos, principalmente as vultosas quantias destinadas às campanhas vitoriosas do PT. Nós vamos pagar a conta, é o jeito. A diferença é que surge a esperança do pagamento ser manipulado por mãos honestas, até prova em contrário.

         Acredito que todos os brasileiros de bom senso e capazes de pensar torcem pelo novo ministro, como já estão torcendo por Joaquim Levy. Com um educador de verdade será mais fácil repensar e reinventar caminhos e soluções possíveis para o soerguimento da dignidade de um país que teve a educação, seu alicerce mais importante, contaminado e enfraquecido por projetos de poder, vitimada pelo populismo irresponsável que tem destruído até a formação de novos líderes em nossa juventude. Ganha novo alento o ideal daqueles que acreditam na renovação de um país que volte a conferir ao Ensino Fundamental o timbre de excelência. Os demais passos no caminho do conhecimento seguirão a trilha naturalmente, é uma consequência.

         Estamos “pagando para ver”, confiando nas cartas em poder dos novos ministros. Certo tipo de jogo não é para qualquer um que desconheça regras e jogue sujo. Afinal, não devemos descartar a hipótese da sorte que acompanha o bom jogador: eles podem esconder na mão, discretamente, um “royal straight flush”, melhor dizendo, um naipe de cinco  cartas iguais (10, J, Q, K, A). O jogo vai começar. Façam o jogo, senhores!