A Literatura e a Internet



R. Santana


        A escola ensina literatura, mas não faz literatura. O poeta e o romancista podem prescindir de algumas técnicas de redação e verso sem prejuízo da poesia e da prosa. Literatura se aprende na escola, mas fazê-la é um dom de poucos. Jamais se forjará nos bancos escolares, poetas e romancistas da grandeza de Homero, Shakespeare, Camões, Machado de Assis, Dostoievsky, Hemingway, Goethe, Fernando Pessoa, Julio Verne, e tantos outros que as páginas literárias registram e de conhecimento do leitor bem informado.

            Porém, potenciais poetas e escritores foram apagados pela ação do tempo e dificuldade de acesso ao reduzidíssimo meio de comunicação em tempos remotos.  Hoje, existe facilidade de divulgação para o autor, independente da boa ou má qualidade de sua obra.

Com o advento da tecnologia Internet nos anos 70, durante a Guerra Fria e popularizada nos anos 90, nas escolas, nas universidades, nas pesquisas, nas empresas, nas residências e nas redes sociais, o processo divulgação de uma obra literária deixou de ser uma atividade hercúlea. 

Um livro de poesias ou um romance, por exemplo, não faz muito tempo, levaria anos pra ser impresso, editado, divulgado, distribuído nos pontos de venda e lido. Atualmente, com os programas computadorizados de Word e PDF, o texto é digitado, processado, armazenado e enviado para milhões de pessoas em tempo recorde. 

            Por outro lado, a enorme quantidade de informação e a escassez de tempo de nossos leitores contribuem para que obras-primas sejam jogadas no lixo eletrônico enquanto textos fúteis, apelativos, oportunistas, mas de interesses imediatos, tomem lugar na literatura e no gosto das pessoas.

            Ninguém pode negar os benefícios e a democratização dos meios de comunicação em todos os segmentos da atividade humana, entretanto, ninguém pode negar a saturação da atividade literária de autores e obras.  Hoje, existe na literatura brasileira e estrangeira, uma enxurrada de autores de verso e prosa, geralmente, qualificados nas técnicas da língua, mas sem vocação e criatividade. Poetas e escritores tupiniquins, canastrões da arte com fumos de intelectuais brilhantes, que devem ser considerados mais pelo esforço e vontade de escrever do que pelo uso correto da palavra e a capacidade de transformá-la em prosa e verso. 

            Claro que a tecnologia da Internet não dispensa o talento, a boa ideia, a imaginação, a ficção, a criatividade, além da capacidade do escritor colocar tudo no papel e transformar a palavra em literatura. O acesso às bibliotecas virtuais, aos dicionários digitais, á gramática digital e aos sites de conteúdos específicos, contribui e facilita a vida e o desempenho do escritor, mas o acesso às novas tecnologias, somente, não dá vida ao texto se o escritor não tem vocação e talento, se ele não possui percepção diferenciada do mundo e sensibilidade aflorada.

            Tecnicamente se define Internet: “...qualquer conjunto de redes de computadores ligadas entre si por roteadores e  gateways, de âmbito mundial, descentralizada e de acesso público, cujos principais serviços oferecidos são o correio eletrônico (e-mail), o chat e a Web etc.”, portanto, é condição sine qua non para explicar as novas tecnologias da escrita que se mencione o computador. A Internet não teria razão de ser se não houvesse o computador nas mais diferentes formas - a recíproca é verdadeira.

            O computador é uma máquina diferente da antiga máquina de escrever, “recebe informação, armazena, envia dados, faz sobre estes, sequências previamente programadas de operações de aritmética (cálculos), de lógica (comparações), com o objetivo de resolver problemas”, portanto, lamenta-se que alguns escritores resistam usar essa tecnologia, o caso mais notório é do imortal da ABL, Gilberto Freyre, que se recusava aprender a nova tecnologia da informática e escreveu sua extensa obra social e antropológica a bico-de-pena.

            Faz-se necessário dizer, agora, que não houve deste autor, nenhuma pretensão de censurar, julgar, criticar, classificar esta ou aquela obra, apenas, chamar a atenção para proliferação desordenada duma cultura fútil e sem significado, em cadeia, que inunda os meios intelectuais e confunde a cabeça de crianças, jovens e adultos malformados, a Internet peca, somente, por não possuir mecanismos para separar o joio do trigo e coloca tudo no mesmo saco da literatura.


FALTA DE POESIA E OUTRAS FALTAS


                                  RUY ESPINHEIRA FILHO
         
De vez em quando o Brasil se toma especialmente de amores pela falta de qualidade, e 2014 foi um dos anos que mais se destacaram neste aspecto. No caso da poesia, por exemplo, foi fenomenal. Entenda-se: no caso da falsa poesia – e até, com brilhantismo, da não-poesia. Não vou citar nomes, não é necessário, quem acompanha o movimento editorial sabe do que estou falando. Sim, porque todas as livrarias do país receberam e expuseram em destaque essa infame mercadoria.
         Belos e vastos volumes, precedidos de muita propagada e aparato “crítico”. Ponho esta palavra entre aspas porque é o que ela, no caso, merece. Aliás, o que há no país é ruindade crítica, tanto na mídia quanto nas produções universitárias. Quando não é ruindade por falta de talento, é ruindade por falta de caráter – que forma igrejinhas, máfias e similares, nas quais vigora o elogio recíproco de seus componentes.
         A crítica, na verdade, mesmo a melhor, sempre deixa algo a desejar. Certa vez escreveu Jorge Luís Borges: “Sempre que folheava livros de estética, tinha a desconfortável sensação de estar lendo as obras de astrônomos que nunca contemplavam as estrelas. Quero dizer, eles escreviam sobre poesia como se a poesia fosse uma tarefa, e não o que é em realidade: uma paixão e um prazer.” Lendo isto, percebi,  aliviado, que havia lido bem minhas estéticas – sempre achando que ficavam distante da arte. Aliás, lembro-me agora de que Rilke dizia que nada está mais distante da poesia do que a crítica.
         E, no caso das tais publicações de 2014, essas “tarefas” foram particularmente infelizes. Os que não percebem que a poesia é uma paixão e um prazer aproveitaram-se para babar suas tolices recheadas de citações falsamente eruditas (porque, como não chegavam à poesia, igualmente não chegavam ao verdadeiro sentido daquilo que tanto citavam). E aqueles falsos poetas – e até não-poetas – foram atirados aos berros aos mais influenciáveis, que os compraram aos milhares. E, claro, se tornaram leitores ainda piores.
         Crítica boa existe, mas não tem espaço. Se a jogada é vender subliteratura, para que estragar o negócio expondo-o à boa crítica? Citei Borges, vejamos Paul Valéry: “Entre esses homens sem grande apetite de poesia, que não sentem necessidade dela e que não a teriam inventado, quer a má sorte que se inclua um grande número daqueles cujo fardo ou destino é julgá-la, discorrer sobre ela, estimular e cultivar o gosto por ela; e, em suma, conceder o que não têm. Frequentemente, eles dedicam a isso toda sua inteligência e todo seu zelo: o que nos faz temer pelas consequências.”
         Não há como não lembrar Borges e Valéry ao ler certas coisas que vemos na imprensa, assim como certos estudos universitários. Porque o que se dá de equívoco, de incompatibilidade com a poesia, não é brincadeira. E, assim, a poesia digna deste nome, produzida por poetas verdadeiros, é marginalizada, esquecida. E surgem nomes badaladíssimos que na verdade são, em termos de poesia, autêntica escória. Resta-nos esperar que o presente ano não nos traga tal tsunami de “poesia” e péssima e abominável “crítica”. Porque já nos basta todo o resto que é tão desonesto, ai de nós!...
        

·         Ruy Espinheira é um poeta dono de um lirismo que encanta e dá prazer em ser lido.  Doutor em Letras, cronista, ensaísta, contista, romancista, membro  da Academia de Letras da Bahia.  Premiado em concursos de expressão nacional. Com As sombras luminosas venceu o Prêmio Nacional de Poesia Cruz e Sousa, da Fundação Catarinense de Cultura. E com Memória da chuva conquistou o Prêmio Nacional de Poesia Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores (Rio).  


Meu São João

Por Cyro de Mattos



Não queria ficar olhando os outros meninos soltando fogos no São João, lá em nossa rua ou em qualquer canto da cidade. Teria que arranjar uma maneira de ganhar algum dinheiro para comprar os fogos. Pensei em vender revistas e jornais velhos aos donos de armazém na Rua da Lama. Sabia que jornal velho servia para enrolar certas coisas que os donos de armazém vendiam. Tinha observado um dia seu Júlio Sergipano enrolando sabão no balcão do armazém com uma folha de jornal velho. Pensei também em vender garrafas ao dono de uma pequena fábrica de vinagre perto da nossa casa.
Ia de casa em casa, procurando por jornais e revistas velhos, garrafas grandes e pequenas. Com o dinheiro que ganhava, vendendo garrafa, revistas e jornais velhos, ia comprando os fogos para soltar no São João. Guardava-os numa caixa de sapato, que escondia debaixo da cama para que meu pai não os descobrisse.  Se ele descobrisse que eu estava comprando fogos para soltar no São João, certamente ia argumentar zangado:
- Do menino se faz o homem, tenha juízo. Guarde seu dinheiro para usar com as coisas sérias e não para queimá-lo com fogos no São João. É uma grande besteira o que você quer fazer, muitas vezes já lhe disse isso. Finalizava: - Soltar fogos é queimar dinheiro.
Esperava meu pai dormir no quarto ao lado e, quando percebia que ele estava ferrado no sono, apanhava debaixo da cama a caixa de sapato com os fogos que vinha juntando para soltar no São João. Ficava examinando pacientemente os fogos que tinha comprado com dificuldade. Passava e repassava-os diante de meus olhos encantados, mesmo sabendo que ainda eram poucos: chuva de prata, chuva de ouro, cobrinha, estrelinha, fósforo de cor, traques e vulcão.
Os dias demoravam de passar até chegar o mês de São João, embora desejasse que voassem o mais rápido possível. De vez em quando ia olhar na folhinha quantos dias faltavam para chegar o dia tão esperado.  Fazia as contas e via que faltavam quase três meses para a chegada da festa do santo que tinha um carneirinho, como uma vez tinha visto a imagem no quadro emoldurado da Vidraçaria Santo Antonio, pendurado na parede.
Quando percebi no mês de maio que não estava mais conseguindo garrafas para vender, nem revistas e jornais velhos, chegou-me aquela ideia de vender minhas revistas em quadrinhos, além dos dois álbuns de figurinhas, um com os jogadores de futebol dos times do Rio e o outro com os artistas do cinema americano.
Não seria difícil vender meus álbuns de figurinhas entre os meninos lá da rua. Tanto o álbum de jogadores de futebol como o de artistas de cinema eram cobiçados por muitos meninos da cidade. Ambos estavam completos,  tinha conseguido preenchê-los com as figurinhas mais difíceis, que ainda faltavam. E as revistas em quadrinhos? Tinha  minhas dúvidas se ia conseguir vender algumas delas, qualquer menino lá da rua já havia lido todas elas.
Depois de resistir uns dias, vendi os dois álbuns de figurinhas ao filho do juiz por um bom preço. E, sem esperança, fui vender depois minhas revistas em quadrinhos no passeio do Cine Itabuna. Para a minha satisfação, vendi todas elas nos quatro domingos do mês de maio. Espalhados no passeio do cinema,  sempre vendia meus gibis e guris velhos aos outros meninos antes de começar a primeira sessão da matinê.
Tive então um susto esplêndido quando chegou o mês de junho e percebi que possuía agora seis caixas de sapato cheias de fogos, podendo naquele ano de inverno frio soltá-los  nos dias de São João e em São Pedro.
Enquanto fui menino nunca deixei de soltar fogos no São João e São Pedro. Sempre dava um jeito para arranjar o dinheiro e  comprar os fogos. Soltava-os e queria soltar mais. Nunca estava satisfeito. Lá pras nove horas da noite  lembrava de ir com a turma de amigos soltar balõezinhos na beira do rio. Era uma sensação de vitória quando acendíamos  o balão e víamos o vento levá-lo vagaroso acima do rio. Tínhamos certeza que os balõezinhos que subiam, às vezes oscilando, conquistavam as estrelas e a lua, lá no alto do céu.
Ah, aquelas noites de junho, o coração tanto queria. Crepitavam dentro de mim antes que chegassem com as fogueiras acesas nas ruas. Pipocavam com bombas e foguetes. Esbanjavam com licor e canjica.










PROJETO "UM LUGAR PARA LER" DA UESC RECEBE DOAÇÕES DE LIVROS DE CYRO DE MATTOS





                 O projeto "Um lugar para ler", criado pela Editus, editora da Universidade Estadual de Santa cruz,  como uma proposta de incentivo à leitura e valorização das produções regionais no Campus da instituição, recebeu doações de livros do escritor    Cyro de Mattos. Os livros doados da autoria do escritor e poeta foram Poemas escolhidos/Poesie scelte,  português-italiano, Vinte e Um Poemas de Amor, Os Ventos Gemedores, romance, Os Brabos, novelas, O Velho Campo da Desportiva , memória e crônica, Um Grapiúna em Frankfurt e Outras Crônicas, O que eu vi por aí, infantil, Histórias do mundo que se foi, Onde estou e sou/Donde estoy y soy, português espanhol, antologia poética, e Oratório de Natal, poesia infantojuvenil. .
           Com o  projeto "Um lugar para ler",  alunos, professores e servidores passaram a ter mais motivos para aproveitar os espaços da Universidade. A ideia é proporcionar o acesso a bons livros de uma forma compartilhada. Para isso, a Editora disponibiliza armários personalizados em pontos estratégicos do Campus, onde o leitor pode escolher um dos diversos títulos publicados por ela ou livros doados pela comunidade acadêmica, a qualquer hora, e curtir uma boa leitura. O único compromisso é devolvê-lo ao armário após a leitura. 
         Os títulos ficavam disponíveis inicialmente em armários personalizados localizados em três pontos do campus: térreo dos pavilhões Adonias Filho e Jorge Amado e térreo da Torre Administrativa. Neste ano, dois novos pontos ganharam armários: o Hospital Veterinário e o Complexo Desportivo. Mais de 600 livros já foram disponibilizados.   E para que outras pessoas também possam desfrutar da iniciativa, a Editora lembra a necessidade do cuidado em conservar os livros, destacando que o apoio de todos é fundamental.

         DOAÇÕES
         O projeto ainda contempla a doação de livros. No início deste ano foi realizada pela Editora uma campanha entre os calouros, mas que mobilizou toda a comunidade acadêmica.  Foram muitos livros recebidos por funcionários, professores e por interessados em contribuir com a iniciativa. Neste ano, os 5 armários do Campus receberam livros, a maioria fruto destas doações.
         Sobre elas, a Editus lembra que todos aqueles que têm interesse em doar, podem procurar a Editus no 3º pavilhão da Torre Administrativa. Os livros devem estar em bom estado de conservação. Para mais informações, basta entrar em contato com a Editora pelo 3680-5173.
        
CONSERVAÇÃO        

         Também como parte do projeto, cerca de 35 mesas e 65 banquinhos, usados para o bate-papo entre amigos e para momentos de estudo, ganharam um colorido especial, tornando a Uesc um espaço ainda mais agradável para a leitura. Eles receberam uma adesivação especial alusiva ao projeto.
         Sobre isso, a Editus tem trabalhado no sentido de sensibilizar a comunidade acadêmica para que outras pessoas também possam desfrutar da iniciativa. Ela destaca a importância do cuidado com o manuseio dos livros e a conservação dos adesivos que deram uma nova cara para os bancos e mesas do Campus.
         A Editora vem reforçando ainda a necessidade de conscientização do leitor para que os livros disponibilizados sejam devolvidos aos armários para que outras pessoas também tenham acesso a ele, uma vez que esta é uma iniciativa que visa a educação e a cultura do compartilhamento, sem um controle direto e coercitivo. Alguns dos livros já voltaram!






O Que Sou


                        
                              Por Cyro de Mattos 

             Nasci em Itabuna, sul da Bahia. Naquela cidade com cerca de trinta mil habitantes, em uma região outrora rica com suas plantações de cacau, tive uma infância diferente de hoje na qual os jogos eletrônicos transmitem o prazer decorrente de automação da máquina no tempo computadorizado. No meu tempo de menino, os momentos de prazer de cada  aventura eram vividos por mim mesmo com  meus queridos amigos. Éramos criadores, produtores e atores de nossas diversões no palco da vida. Roubar fruta madura no quintal do  vizinho, jogar futebol em  campinhos improvisados nos terrenos baldios, brincar de mocinho e bandido com balas de mamona na atiradeira, disputar quem tinha mais fôlego quando   mergulhávamos no rio de águas claras rendiam  sustos esplêndidos na aventura de cada dia. Foi naquela cidade com estações temperadas de sol e chuva que   tive a primeira escola, a primeira comunhão,  a primeira namorada, o primeiro carnaval, a primeira gravata, o primeiro banho de rio, o primeiro São João. Joguei a primeira partida de futebol com os  meninos da rua onde morava.

          Fiz o curso primário em minha cidade natal. Minhas primeiras leituras foram em revistas de quadrinhos, os meninos de meu tempo chamavam de gibi e guri. Nem sabia que com meus heróis inesquecíveis, Mandrake, Homem-Morcego, Tarzan, Capitão Marvel, Super-Homem, Tocha Humana, O Fantasma, Flash Gordon,  Príncipe Submarino, Durango Kid e outros – estava entrando na morada dos sonhos para nunca mais sair.  Os primeiros livros que  li foram da coleção O tesouro da juventude, de Júlio Verne; a seguir alguns de Edgard Allan Poe, Charles Dickens e Monteiro Lobato.

         O menino do interior foi para Salvador,   como o pai queria,  para se tornar advogado. Na cidade de todos os santos e orixás, concluí o curso ginasial  no Colégio Nossa Senhora da Vitória, dos Irmãos Maristas.  Fiz o curso clássico no Colégio Estadual da Bahia (Central). Tive nessa fase as descobertas de Machado de Assis, Camões, Euclides da Cunha, Eça de Queiroz, Lima Barreto, Kafka, Hemingway, Sartre e de outros autores importantes.                  

          O meu primeiro conto, “A Corrida”, eu publiquei quando cursava a Faculdade de Direito, em 1959. Saiu no suplemento literário do Jornal da Bahia, dirigido por meu amigo, colega de faculdade e companheiro de geração,  João Ubaldo Ribeiro, que depois viria ser um romancista de fôlego nas letras brasileiras.  De leitor passava pela primeira vez para autor de uma história.  A sensação dessa passagem foi de pura alegria. Não parei mais de andar nesse caminho de dar palavra ao sonho.

          Anos mais tarde, publiquei volumes de contos e novelas, até que  migrei da prosa para a poesia. De repente, de uns anos para cá surgiu de dentro de mim aquele menino franzino e esperto, pedindo que escrevesse também para crianças. Tenho grande prazer quando escrevo para o leitor infantil e juvenil. Quero que esse menino escritor para outros meninos leitores nunca mais se afaste de meu pequeno coração,  que um dia foi trancado na alma com pedaços de infância pelo mundo dos homens. E assim as coisas passaram a ter o gosto de uma fruta que acaba. Fiz até um poema em que falo disso, e que está em um dos meus livros inéditos,  “A Poesia É Um Mar - Venha Comigo Navegar”.

         Mostro agora esse poema para vocês.   A Estrelinha - Achei uma estrelinha/ Que caiu no mar/ E veio dar na praia./ Perguntei pra ela:/ - O que vale mais,/Brilhar no céu/ Ou no vaivém das ondas?/ Ela então respondeu:/ - O mundo me encanta/ Quando brilho lá dentro/ E nunca se apaga/ Seu coração de criança.


O crime do pastor Silas Petrov


R. Santana

Ali está o cadáver no caixão sobre a bancada de mármore. Cadáver que ontem foi uma linda jovem de 21 anos de vida.  A família Petrov já não tinha mais lágrimas para chorar a morte de sua filha Raissa, se o casal não fosse religioso, a dor seria maior, pois é lancinante a perda de um filho, ainda mais quando o filho é único e boa índole.  Larissa era o mimo da família Petrov, bonita por fora e por dentro, estudiosa, líder de nascença, amiga de todos e admirada por todos. Ultimamente, estagiava num escritório de advocacia, estudava pra ser advogada, sonhava um dia ser juíza.
Silas Petrov a encontrou estirada na cama, com marcas de esganadura, esgoelada, e nua abaixo da cintura.  Não havia sinal de arrombamento na casa, a porta da frente estava fechada no trinco. Afora a desordem no quarto da vítima, a televisão ligada e alguns livros espalhados no tapete da sala, tudo estava em ordem. O assassino não simulou roubo nem deixou vestígio aparente de sua identidade. A polícia técnica periciou e vasculhou a residência e o corpo da moça levado para o IML para exames mais apurados.
Raissa tinha muitos admiradores. Namorado nenhum! Ela brincava que não queria problema afetivo em sua vida, que as relações conjugais quase sempre são conflituosas: o amor é arrebatado na juventude, acomodado na maturidade e esquecido na velhice. Ela prezava a amizade dos amigos, das amigas, dos parentes e o amor infinito dos pais.
Não era de curtição, festas somente as de sua igreja, seu gosto musical era gospel. Seu hobby principal era a leitura. Quando ela tinha um bom livro, trancava-se no quarto e não saía de lá enquanto não o lesse da primeira à última página, por isto, a turma da faculdade apelidaram-na carinhosamente: “Lepisma Saccharina” que é a traça de livros.
            Foi de grande comoção o crime de Raissa, de revolta, e, difícil de solucionar, porque não havia suspeito imediato, todos de sua intimidade eram suspeitos. Ela não possuía inimigos declarados, foi grande o número de amigos, conhecidos e não conhecidos no velório e no seu sepultamento, todos consternados, todos com grande pesar.
Silas e Natasha, os pais da vítima, estavam absorvidos em seus pensamentos ao lado do caixão, de quando em vez, passavam a mão no rosto e nos cabelos da filha e resmungavam palavras ininteligíveis, mas para o dotado de agudeza de espírito, lia nos lábios que eles clamavam por justiça e queriam entender o motivo de tanta maldade, de tanta brutalidade, de tanta desumanidade.
20 dias depois:
- Eu não matei sua filha!!! – gritava o jovem Marcelo com as mãos e os pés amarrados no meio da noite em lugar deserto.
- A polícia diz que sim!
- É mentira! – recebeu um safanão na cara, mas continuou:
- Fui liberado pelo juiz por insuficiência de provas ou não?
- O seu advogado foi convincente. A polícia está no caminho... – começou enumerar as provas:
- As marcas de suas digitais estavam em vários lugares lá em casa, seu RG dentro de um dos livros de Raissa, o registro pelas câmaras da rua de sua entrada e saída de minha residência. Mais provas do que essas?
- Não nego que estive em sua casa naquele dia. Nós éramos colegas de faculdade, do curso de direito, fui lá para Raissa me orientar numa prova de Direito Penal, portanto, as minhas digitais estavam espalhadas por alguns lugares da casa, só não soube explicar para polícia o paradeiro do meu documento de identidade, quanto às câmaras, elas registraram a minha entrada em sua casa às 20 horas e minha saída antes das 22 horas, Raissa foi assassinada na madrugada daquele dia... – foi interrompido por Dimitri, irmão mais novo de Silas:
- Atire logo neste falastrão, Silas!
- Calma Dimitri, eu quero vê-lo bufar de medo, implorar pra não morrer, confessar por que matou minha filha, antes de seu último respiro!
- Não vou lhe implorar... Sou inocente!
- Não vai confessar nem pedir perdão!?
- Não! – levou uma bofetada de Dimitri.
- Assassinos! – selou sua morte.
Naquela noite:
- Como entrou aqui?
- Pela porta, claro!
- Nesta hora!?
- Vim pra te proteger!
- Deus é meu protetor!
- Mas, Ele não está aqui!
- Não blasfeme!
- Você não gosta de mim, não é?
- Não!
- Por quê?
- Você sabe a razão!
- Que tal unirmos os nossos corações?
- Saia daqui, filho do incesto!
- Se eu não saí?
- Chamo a polícia!
- Tu tens coragem?...
- Claro!
- Tu me dás um beijo antes da polícia chegar?...
- Verme! – Raissa pegou o celular, mas foi agarrada...
30 dias depois:
A polícia civil e a polícia militar prenderam Silas e Dimitri numa operação conjunta, em suas residências, às 8 horas, em uma sexta feira 13, do mês de Janeiro de 2012, à Rua “X”, Brotas, cidade de Salvador. Não esboçaram resistência, o aparato policial foi uma satisfação para comunidade que rico, também, é punido.
Diz a sabedoria popular que não existe crime perfeito, mas investigação ruim. A polícia descobriu o criminoso de Raissa pelo DNA de uma bituca de cigarro, algumas imagens distorcidas de uma câmara vizinha, mas o desfecho foi o depoimento de um casal do prédio em frente à casa do pastor que conhecia Dimitri desde rapaz. Na casa do sem jeito, ele destrinchou toda história e justificou que a matou sem querer, algo tomou conta do seu corpo e o deixou insensato, fora de si.
Silas não tomou como surpresa sua prisão. Fazia algum tempo que a polícia rondava discretamente sua casa. A morte de Marcelo deixou a sociedade soteropolitana revoltada! O rapaz era muito querido, o povo baiano clamava justiça, só a prisão do assassino ou dos assassinos, arrefecia os ânimos exaltados.
Surpresa e revolta foi quando Silas soube do verdadeiro assassino de sua filha.  Chorou como criança na delegacia. Jamais perdoaria seu irmão nem se perdoaria, pois sujou as mãos de sangue inocente.
Nada justificaria sua barbárie, mas a morte brutal da filha deixou Silas Petrov cheio de ódio e desejo de vingança. Dimitri usou esse ódio para destruí-lo mais uma vez, primeiro a morte da filha, depois foi decisivo na morte de Marcelo. Silas não se deu conta que justiça feita ao arrepio da lei, pelas próprias mãos, deixa o justiceiro refém da ilegalidade, ele não é menos criminoso do que aquele que cometeu crueldade e perversidade intoleráveis.
A justiça é a saída para todos os males da conduta humana, sem a prática da justiça, o homem é primitivo.

Autor: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons


Dicionário de Escritores Contemporâneos da Bahia Será Lançado na Biblioteca Pública

  
Com o apoio da União Baiana de Escritores - UBESC e o Círculo de Estudo, Pensamento e Ação – CEPA, será lançado no dia 12 de junho (sexta-feira), às 18h, na Biblioteca Pública do Estado da Bahia (Salão Nobre Kátia Mattoso), nos Barris, em Salvador, o “Dicionário de Escritores Contemporâneos da Bahia”, organizado por Carlos Souza Yeshua, que apresenta 206 verbetes de autores baianos. A obra é publicada pela Editora CEPA e tem prefácio do professor Germano Machado.
        O trabalho de catalogação e preparação das notas biobibliográficas durou aproximadamente dois anos e, embora não registre todos os artistas da palavra em atividade no estado, nomes importantes do cenário literário figuram  em suas páginas, como Antônio Torres (Academia Brasileira de Letras); Aleilton Fonseca, Antônio Brasileiro, Aramis Ribeiro Costa, Carlos Ribeiro, Florisvaldo Mattos, Ruy Espinheira Filho, Cyro de Mattos (Academia de Letras da Bahia); José Inácio Vieira de Melo, Adelice Souza, Állex Leilla, César Romero, Renato Prata, João de Souza Moraes e José Carlos Limeira.
     Os escritores Cyro de Mattos, Aleilton Fonseca, Aramis Ribeiro Costa e Renato Prata pertencem à Academia de Letras de Itabuna (ALITA).


"Crônica do Rio" e poema "Agonia do Rio"




Crônica do Rio

Cyro de Mattos

E dizer que esse rio já forneceu água de suas fontes puríssimas para que todos matassem a sede no bebedouro da vida. Isso foi há muito tempo, a cidade tinha uma população pequena. Talvez nem chegasse a vinte mil habitantes. Ainda não havia sido instalado o sistema de abastecimento de água encanada para servir à população. O aguadeiro trazia a água do rio nos carotes, pequenos barris feitos com madeira de putumuju, que eram carregados pelos jumentos. Cada jumento carregava quatro carotes, dois de cada lado, pendurados na cangalha. O homem anunciava na rua: “Água do Mutucugê! Água boa do Mutucugê! Água fresca do Mutucugê! Quem vai querer?”
Muita gente vivia graças à  bondade do rio. Lavadeiras, aguadeiros, pescadores e tiradores de areia, usada nas construções residenciais,  armazéns e lojas.  Uma gente das camadas pobres da cidade tirava o sustento da família com o que o rio lhe fornecia, de janeiro a janeiro. O rio era  tido como o  pai dos pobres.
Tinha muito peixe miúdo  no raso, piaba, moreia, jundiá e beré. Muito peixe graúdo no fundo, robalo, pratibu, traíra,  piau e bagre. E outros pescados: pitu, camarão e acari. Pela manhã, o pescador passava com as fieiras de peixe, batia na porta e oferecia os pescados à dona da casa. “Peixe fresco do Rio Cachoeira!” Na semana, de casa em casa, a cena se repetia. Na feira, aos sábados, o litro cheio de camarões era vendido por um preço barato na banca de peixe do pescador mais velho do rio.  
Certamente o rio era uma canção de noite e dia. De uns tempos para cá foi forçado a esconder a face clara de antigamente nas camadas obscuras de hoje. Transpira e geme cheio de baronesas porque não consegue se libertar do impiedoso fardo de detritos, que os humanos diariamente  despejam e travam a sua descida nas águas.
Esse é o preço que o velho rio paga por ter a cidade crescida sem controle, chegando hoje a mais de 250 mil habitantes, comentam os moradores. Afoga-se na agonia pelo descaso dos que se submetem à paisagem de cores insensatas formada por bocas enormes dos esgotos, que despejam nas águas  sem parar o que não presta. Cachoeira é o nome de um rio que chora água: anoitece e amanhece sem que nada seja feito para que seja liberado de seu  pesadelo ou pelo menos amenizado nessa agonia,  que  não faz qualquer sentido, de tão absurda.                           
Quando a cidade era pequena, latejava nas veias a vontade visível de como ela  queria crescer através do trabalho de seu povo. Movia-se com a riqueza de poucos abastados e o esforço da maioria pobre, mas sem miséria.  Havia  pouco movimento de carro na rua, os primeiros sobrados começavam a ser erguidos no local onde moravam as famílias ricas. Entrava e saía  verão, chovia  no dorso do rio. A cidade esbanjava ardor com seu povo trabalhador e progressista debaixo dos azuis do céu e por entre os verdes que gramavam os barrancos do rio.
Podia haver dia melhor para tomar banho com os amigos nas águas do Poço da Pedra do Gelo? O rosto agitado, os gritos rasgando fendas no silêncio da natureza. Era quando eu mais sorria,  vestido de sonho no reino da infância.  Evidente que isso só podia acontecer quando o rio, pleno de frescores  e purezas, tinha peixe em abundância.[1]




                      
 Agonia do Rio

Cyro de Mattos        
          
 Eu não me canso de dizer que estou morrendo.
Gente, já não somos amigos de mãos dadas?
Tenho sede, tenho fome, tenho de tudo
Saudade. Do tempo em que generosas ondas

Participavam das estações temperadas
Com sol e chuva. De peixes que dei pra tantas
Bocas, água, areia de minhas moradas,
Da lua que me banhava com sua prata.

Na triste descida, que dia e noite faço,
Em viscosas mágoas, pesadas de vômitos
Que me jogam, nesse volume de detritos

Contaminando-me a todo instante, no verso
Que me afoga, lembro, sem saber pra onde vou,
Manhãs e tardes naquelas vagas do amor.
             


Livros de Cyro de Mattos No Catálogo Digital da EDITUS





Ao lado das edições de livros impressos escritos pelos  professores da Universidade Estadual de Santa Cruz e autores regionais, a  EDITUS,  editora da instituição, vem adotando a política das publicações de obras em forma digital, atendendo com isso  aos tempos atuais, que se apresentam velozes com base em uma tecnologia moderna, de natureza  internética.

Ao lado de títulos dos diversos campos de conhecimento, os livros do escritor Cyro de Mattos que estão no catálogo digital da Editus são os seguintes:   O Triunfo de Sosígenes Costa, coletânea, de parceria com Aleilton Fonseca, da Coleção Nordestina,  O conto em  vinte e cinco baianos, antologia,  da Coleção Nordestina, Berro de Fogo e Outras histórias, Prêmio Vania Souto  Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras,  A Casa Verde e Outros Poemas, português-inglês, com tradução de Luiz Angélico, professor Emérito da UFBA, ilustrações de Ângelo Roberto,  e Histórias Dispersas de Adonias Filho, coletânea, ilustrações de Ângelo Roberto.

Para a leitura dos livros, acesse  WWW.uesc.br/editora


A Poesia Existencialista de Walker Luna

                                           Cyro de Mattos

     
    Nascido em Itabuna, no dia 6 de agosto de 1925, o poeta Walker Luna publicou  os seguintes livros de poesia: Estes Seres de  Mim (1969), Companheiro (1979), Estações dos Pés (1983) e Na Condição do Existir (1999). Deixou inédito   Onde Os Fogos Se Cruzam. Incluí esse poeta em minha antologia  Itabuna, Chão de Minhas Raízes (1966) e o indiquei para a de Assis Brasil,  A poesia baiana no século xx (1999),  como fiz com Valdelice Soares Pinheiro, Firmino Rocha e Carlos Roberto Santos Araújo.  Dotado de uma linguagem fluente, Walker Luna  move seu discurso num ritmo agudo dentro dos limites do existir. Expõe essa paisagem estranha e solitária que comporta o ser humano na dor do viver. Poesia vazada numa experiência humana vivida com intensidade, entre a amargura e a insônia, o sofrimento e a angústia.
         Oferece um testemunho de resistência luminosa, corajosa, de limitações  suportadas  com dignidade e altivez. Mas seus versos, de plena lucidez nas estações que comovem, trafegam também com acenos que nos descobrem livres, nos tons verdes que, transformados  em sumo vital, proliferam frutos.  
         É sobre seu último livro,  Na Condição do Existir,  publicado pela Secretaria da Cultura e Turismo,  Selo As Letras da Bahia, Salvador,  que faço  agora algumas anotações de leitura. O seu discurso nesse livro é marcado novamente  pelo enfoque de ressonâncias agudas na aventura precária comportada pelo  ser humano ao assumir a vida. Na corrente do existir o poeta estabelece o diálogo com o viver no ser. Aqui, neste encontro de alma e soluço, realidade e sonho, sinto o pulsar de espantos e indignações como elementos essenciais de uma condição interior, na qual as imagens são mitificadas,provocam ferimentos e ressoam com o seu tom vertiginoso, suas angústias, que são as de todos nós, de todos os tempos. De momentos vertiginosos que não se escondem através dos rumores de nossos sentidos.
          O poeta sabe que, mesmo quando protesta na coerência falha dos mortais,/ num aprendizado duro e sem termo/ na convergência de todo extravio, procede  nas dobras do pensamento  secreto e puro. Custa saber que na alquimia obscura da existência há o risco e o transe que são expostos através de situações estranhas, em um ritmo secreto de contágio e fogo, numa  canção onde as constantes influências tocam-se nos extremos. Elabora seu enigma feito de abismos.
         Emotivo sem ser lamurioso, porque consciente de que poesia é coisa séria, destituída de desabafos ingênuos, reflexivo, mas não conceitual no sentido estéril,  a poesia de Walker Luna resulta de uma experiência humana de natureza crítica do homem solitário. Cercado de sombras, indagações, fugas, depressões. Seus versos queimam como fogo,  sinalizam verdades na lucidez no sonho. Como na solidão passiva dos loucos descobrem-nos livres dos falsos ajustes/neste estágio maravilhoso/ entre a vida e a morte. Assim, o poeta implora esta ausência total, desconhecimento da própria matéria./ verdadeiros símbolos/ de pureza unânime.
       Em seu clima adensado de conflitos interiores permanentes, a poesia de Walker Luna está expressa nos limites do existir com a sua problemática subjetiva inserida na dor de viver, nesse estar do mundo das criaturas  como cúmplices do sofrer ante o transitório e o inevitável. Vida é dor, disse o poeta Jorge de Lima, logo se vivemos, onde todos os fogos se cruzam, é porque sofremos. A dor de viver com toda a sua carga terrestre, as estações sempre em chamas, o ontem e o hoje como uma unidade que lateja nas cordas mais agudas da condição humana, essa é a  matéria que nas visões contínuas propostas pelos golpes da  vida  o poeta Walker Luna transfigura nos sinais poéticos da escrita, na palavra trabalhada com fluência para atingir aquelas zonas da ilusão,  própria  do sonho, que nos acompanha desde não sei quando e comove.
            Poesia de homogeneidade temática e formal,  dá a impressão de um poema puxar o outro, como uma canção cheia de delírios, esta poesia mostra como o poeta deve usar a palavra com suas imagens e metáforas precisas  para alcançar aquele nível  expressivo, íntimo da boa fatura estética. Com a força dos que amam,  a poesia de Walker Luna dá um testemunho dos que sofrem com lucidez  quando então   buscam na tristeza, na angústia,  a alma de todos nós,  seres contraditórios e finitos na condição do existir.  
            Walker Luna faleceu em 3 de julho de 2007, em Jundiaí, São Paulo. É o patrono da cadeira 09 da Academia de Letras de Itabuna (ALITA), ocupada pelo professor e escritor Rlvan Santana, um dos fundadores da entidade.

Crônica da Infância

Cyro de Mattos




 Depois de cortar com a tesoura o pano marrom, minha mãe ficou  na máquina de costura, fazendo aquela roupa, que parecia mais um vestido folgado de mulher.  Quando ficou pronta, ela me chamou para que fosse experimentá-la. Ela chamou de hábito aquela roupa que ela passou a manhã toda costurando na velha máquina de costura, marca Singer, que foi de minha avó.  Ora, toda menina vestia vestido, menino usava calça. Como era então que minha mãe foi arranjar aquela roupa de mulher para que eu vestisse no domingo quando fosse com ela  para a missa? Quando andava, a barra do hábito roçava nos meus pés. Meu  corpo ficava abafado quando estava vestido nele no domingo  azul de  verão.  O suor escorria do peito, as costas coçavam.
 A mãe cortou meu cabelo baixo, sem esquecer de fazer uma coroinha ali no meio da cabeça. Até alpercata de duas tiras ela mandou que calçasse.  Agora tinha que ir à missa aos domingos vestido como um frade. Durante um ano. Tinha que cumprir a promessa que ela fez porque não tinha morrido com o fundo de panela que fiquei arremessando para o alto como se fosse um disco.
Encontrei o fundo de panela na Praça Camacã, perto da beira do rio. Com dificuldade desenterrei-o da terra molhada com a chuva que caiu  durante a noite.  Várias vezes eu o lancei para o alto, tentando fazer com que chegasse cada vez mais longe, como uma vez vi um menino fazer no areal deixado pela cheia do rio Cachoeira. Era um menino maior do que eu. Mas tinha confiança em mim: aquela brincadeira de lançar fundo de panela para o alto eu também sabia fazer. Era só aparecer uma primeira oportunidade.
 Esperava que daquela vez o fundo da panela fosse subir mais alto. Quando o lancei como um disco bem para o alto, com todas as forças que pude reunir, mal tive tempo de vê-lo atravessar célere o espaço de cima, brilhando como um espelho na manhã com seus raios de sol que flechavam a terra. Voltou mais célere ainda e desceu como se quisesse me atingir.
Tudo foi bem rápido. Senti o corpo balançar quando ele me atingiu na testa. O sangue desceu pelo rosto, cambaleei e caí. Botei a boca no mundo, chamando por minha mãe. Soube depois que seu Isaías, que tinha uma oficina para consertar bicicleta no beco perto da padaria, foi quem me levou nos seus braços cabeludos para minha casa. Quando acordei, escutei a empregada dizendo que cheguei desmaiado, a cara toda melada de sangue. Minha mãe prometeu que, se eu escapasse daquela, ia fazer uma promessa para São Francisco.
O médico disse que  o fundo da panela não varou minha testa e atingiu o cérebro porque tive muita sorte. Era morte certa, se o cérebro fosse atingido pelo fundo da panela.  São Francisco não deixou que isso acontecesse, minha mãe observou. Achava que o santo de sua maior devoção havia escutado seus pedidos para que o filho não morresse.  Ela tinha certeza disso.
E o pior de tudo isso estava para acontecer. Ia ser motivo de mangação pelos amigos. Bastava que um deles descobrisse a novidade e corresse para dizer aos outros. Não demorou. Aconteceu isso no primeiro domingo quando então fui à missa vestido como um frade, o crucifixo de madeira no peito, pendurado na corrente, o cordão grosso amarrado em volta  da cintura.
 Duda, que só andava sorrindo se via alguma coisa engraçada nos outros amigos, não conteve o riso quando me descobriu  vestido de São Francisco na missa das oito. Não parava de sorrir quando olhava para mim, os olhos cintilando de contente. Foi ele quem me botou o apelido de Ciroca Fradeco, assim que contou aos amigos como tinha me encontrado na missa vestido de frade. Minha sorte foi  que a professora de português pegou Duda dormindo na aula. Como castigo, ela passou para ele fazer uma composição sobre o rio Cachoeira  com quinze linhas. Era para  trazer na próxima aula. Ele nunca tinha feito uma composição sobre qualquer assunto. Eu falei que ia ajudá-lo contanto que ele deixasse de me chatear,  chamando-me daquele apelido irritante, além de incentivar  os colegas para que também mangassem de mim.
 Fiz a composição sobre o rio para tirar o amigo do vexame.  Ele foi elogiado pela professora, que chegou a dizer que quando o aluno se entrega com interesse a um dever de aula  parecendo difícil  não existe tarefa que  ele não consiga fazer. Claro que ele cumpriu a sua parte no trato que fizemos. Os colegas prontamente deixaram de me chamar pelo apelido  de Ciroca Fradeco, o que não deixou de ser  um grande alívio para mim.