Resistência Santa de Firmino Rocha. Por Cyro de Mattos

 

                                    

O épico apresenta, o lírico lembra, o dramático articula mundos interiores que resultam de atritos e conflitos na cadência crítica da vida. O lirismo e o sentimento do amor andam juntos, como podem ser vistos na tradição da poesia ibérica. Na sua maneira íntima, de permanente emotividade, o lírico procede como quem recorda ou irrompe dos estados puros da paixão. O ouvido está atento para captar situações, auscultar seres e coisas, pulsações e frêmitos que correm no rio da vida. A mensagem é endereçada em muitos casos mais aos ouvidos do que aos olhos. Não pretende deixar nada na escuridão e frieza. Seu estro murmura nos acordes da tristeza, adeus, agonia, lamento e grito.  Passado e presente são auscultados no presente para a sugestão r muitas vezes de um sentimento único: o amor.

Em Firmino Rocha, poeta de expressão fácil, verso de tonalidades leves, um canto de amor emerge do eu lírico, ingênuo no modo de sentir o mundo. Ao fugir do real circundante, recheado de horas doloridas, que os olhos não chegam a compreender, o transe imposto ao poeta o impele para outra paisagem, de aflição que atua como âncora. Provoca uma poesia que, mesmo dolorida na captura da vida, flui com ternura. Acontece com forte apelo naqueles poemas em que o fluxo lírico traduz   a angústia de ser  ante o mundo: os pesares permanecem em companhia  dos recônditos  por quem se vê ilha  em seu estar no mundo.

De tendência intimista, no seu verso tão somente pulsa a emoção, que acontece pelas arestas do coração, ofendido pelo mundo áspero que fere. Os olhos tentam colocá-lo distante, mas não conseguem. A dor e a saudade, no seu banimento impossível,    irrompem num facho de luz repentino para externar  a solidão, tornada queixa  no gesto que é uma profusão enorme  entre o dramático,  com seus delírios, e o lirismo,  com a  sua pureza incrementada na verdade.

  O som como elemento necessário forma o ritmo, que emana suave e flui do verso com espontaneidade. Associada ao som, sua poesia tem assim entonação musical, embora nem sempre a intuição compareça no texto verbal com bons resultados. É ausente de síntese na reflexão crítica, sem tendência conceitual, emotiva por excelência submete-se aos instantes do  eu profundo. É como o ar que o próprio poeta respira, nesses encontros inevitáveis da solidão de quem, perturbado na alma, sofre e sente, resiste e chora.

A poesia tomada nessa latitude não deixa de ser comoção, tornada   em linguagem condensada, intensa e plural no seu significado.  Há quem afirme que nessa postura do sensível, com suas formas calcadas no eu lírico, a poesia obedeça ao ritual simbólico da escrita para revelar uma ideia. Argumente contra os que acham que é a razão que faz o outro se sentir bem, conhecer o inexplicável, esclarecendo que a poesia através de emotiva pulsação interior traduz murmúrios que estremecem, encantam e comovem. Consegue demonstrar, em sua linguagem aparentemente prosaica, que um poeta nem sempre se apoia em formas frias, não é um operador de modelos reflexivos que buscam unir o ser humano, contraditório, finito, a momentos da palavra tomada emprestada à razão para pronunciar os indícios históricos da existência.

                   Poeta que marca a palavra com o abraço da paz e a lágrima do amor, Firmino Rocha é mais um caso de resistência da poesia. Do homem que, ilhado na cidade do interior, de ambiência literária incipiente à sua época, assume em sua feição heroica e santa o lado do sonho, da loucura iluminada. Expressa por meio de intuições e emoções a solidão solidária que encontrou como maneira de exercer a dialética do silêncio para não sucumbir ante a opressiva lei da vida.

Para esse poeta de Itabuna, o poema é sangue e ar, calvário e canto que redime, pilastra que sustenta a dor de si e de muitos, ponte de inquietudes que se estende “prenhe das águas encobertas e das ramagens emudecidas.” Dostoiewsky disse que a Arte salvaria os homens, o poeta Firmino Rocha acredita que só o poema pode trazer-lhe o sonho da amada e salvá-lo, como numa prece, das paragens cegas da noite sem beijos e canções.

 Era sua crença:

 

Só um poema pode

esta angústia afugentar

esta tristeza exilar

esta escuridão espantar

 

Defensor dos valores eternos, como a liberdade e a paz, em versos que se vestem com auroras e vertem estrelas, tem como um de seus temas preferidos o da inocência que se escondeu com a infância. A sua lira, que sobe “o manto azul da lua cheia” e se desperta na janela pela voz de três baladas, canta a saudade, o amor, a  infância, o mistério que cerca seres e coisas nesse velho mundo impossível de ser elucidado nas  propostas íntimas de  uma canção constante. Firmino Rocha canta os mares pressentidos de angústia e pranto, o eu lírico livre e sereno aparece no verso espontâneo “colhendo do amanhecer os seus milagres.” Canta a morte do desesperado negro Stanley, que na terra de Tio Sam cometeu o pecado de amar uma mulher branca.

Ânsia, lágrima, o beijo perdido para sempre, paixão, lembrança, tudo isso está na poesia de Firmino Rocha, com seus vícios e virtudes.  Nela há sempre a necessidade de amparar a solidão na companhia de sons e na magia de sonhos. Poesia feita de recados, desejos impossíveis, indagações sem resposta, pranto e distância. Filho do chão cacaueiro baiano, descendente de família pioneira na conquista da terra, sua poesia não  tem o som épico e dramático que impõe o tema urdido  num contexto que  ao longo do tempo implantou  uma civilização singular, portadora de valores materiais, tipos e costumes com bases na lavra dos frutos cor de ouro.    

O poema “Deram um fuzil ao menino, pungente canto de ternura feito como protesto contra a guerra (1939-1945), tem arrebatado o brilho de toda a poesia do autor de O canto do dia novo (1968). Há forte versão entre os conterrâneos de que esse poema está gravado, em bronze, na sede da ONU, em Nova Iorque. Figura em antologia de poetas do mundo todo, editada pela Organização das Nações Unidas. Mas não existem provas de que tais fatos sejam verdadeiros. Pode ser uma lenda, criada pelos seus conterrâneos e admiradores, para que o mito ganhe circulação internacional nos  ares locais,  com meros propósitos ufanistas.

A poesia reunida de Firmino Rocha foi publicada numa co-edição da Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz, e Fundação Itabunense de Cultura, na gestão do professor Flávio Simões. Iniciativa louvável porque até aquele momento, inclusive entre seus conterrâneos, o poeta continuava inédito. Falava-se mais de Firmino Rocha como autor do poema “Deram um fuzil ao menino” e pouco se tinha  conhecimento  do seu legado poético.

 Certamente a publicação de sua obra, reunindo diversos poemas esparsos por  jornais e oferecidos a amigos em mesa de bar, é uma forma de perpetuar esse poeta sul baiano,  resgatar e  preservar  a memória cultural do sul  da Bahia  Poderia ser  uma boa oportunidade para inserir documentos e iconografia pertinente  no livro Firmino Rocha – Poemas escolhidos e inéditos (2008) e fazer a comprovação  em definitivo  que o poema “ Deram Um Fuzil ao Menino” encontra-se realmente   gravado na ONU, em  bronze, além de participar  de antologia importante no exterior.

Os comentários continuarão em torno do assunto informando que os fatos que envolvem o poema famoso com possível repercussão na ONU são verdadeiros.   Pelo sim, pelo não, com a palavra os estudiosos de literatura, pesquisadores e historiadores da terra do poeta.

           Um adendo. Solicitei ao meu tradutor nos Estados Unidos, Fred Ellison, professor emérito da Universidade de Austin, no Texas, para verificar se o poema “Deram um fuzil ao menino” achava-se gravado em bronze na ONU. E se pertencia a uma antologia da paz publicada pela ONU com poetas do mundo. A busca exaustiva foi realizada por um parente de Fred Ellison, funcionário da ONU. E nada foi encontrado que comprovasse estar gravado na ONU o célebre poema do poeta itabunense. Nem antologia nem nada. Até que prove o contrário, para mim é lenda este assunto que os aligeirados gostam de propagar como verdade. 

 

Referência

 

ROCHA, Firmino. Poemas escolhidos e inéditos, Via Litterarum Editora, Itabuna, Bahia, 2008.

 

 

 

Academia de Letras da Bahia e Eletrogóes concedem Prêmio ao Escritor Cyro de Mattos


A Academia de Letras da Bahia e a Eletrogóes  concederam o Prêmio Conjunto de Obra deste ano ao escritor Cyro de Mattos, autor baiano (de Itabuna), com cerca de 50 livros pessoais publicados, de diversos gêneros,  organizador de dez antologias, também editado em Portugal, Itália, França, Espanha, Alemanha, Dinamarca e Estados Unidos, além de participar de dezenas antologias no Brasil e exterior. Neste ano, Cyro de Mattos publicou os livros Prosa e Poesia no Sul da Bahia, ensaios, Infância com Bicho e Pesadelo, contos, na Coleção Mestres da Literatura Baiana, e O Discurso do Rio, poesia, em Portugal.

 O Prêmio Conjunto de Obra Academia de Letras da Bahia e Eletrogóes consiste em uma placa alusiva à obra do escritor homenageado e valor em espécie, que serão entregues ao agraciado em sessão online, na festa de confraternização natalina da Academia de Letras da Bahia, em data a ser designada neste mês de dezembro. Este prêmio é o mais elevado da Academia de Letras da Bahia e já foi conquistado nas edições anteriores pela poeta Myriam Fraga, escritor Hélio Pólvora,  educador Edvaldo Boaventura, historiador João José Reis e romancista Gláucia Lemos.  


105 anos de Adonias Filho


A Academia de Letras de Itabuna – ALITA comemora o aniversário dos 105 anos de nascimento do escritor Adonias Filho – patrono da instituição. Esta será uma celebração, por meio virtual, na plataforma do You tube academia de letras de itabuna, sexta-feira, dia 27 do corrente mês, às 16 horas. É imperativo lembrar o nome do literato, saudá-lo, preservar sua memória, enriquecer horizontes para leitores iniciantes e, prover para os habilidosos e mais experientes, o prazer do reencontro com refinada obra Adoniana.

A homenagem acontecerá no formato de mesa para falas, no mesmo dia em que se comemora o aniversário do autor, e terá como participantes: o escritor Cyro de Mattos membro das Academias de Letras da Bahia de Ilhéus e Itabuna; a jornalista Ludmila Bertié – sobrinha-neta do escritor Adonias Filho; Roberto Sávio Rosa prof. de filosofia da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC; Marcus Mota professor de teatro da Universidade de Brasília e Silmara Oliveira presidenta da ALITA prof. e mestra graduada na UESC.

Adonias Filho é um dos grandes porta-vozes da região em termos de literatura regional e nacional, imortalizado pela Academia Brasileira de Letras, é traduzido, em várias línguas, tem um trabalho intelectual de fôlego intenso, atuando como jornalista, romancista, novelista, ensaísta, tradutor e crítico literário. Intelectual de ampla atuação no âmbito governamental, foi Diretor da Biblioteca Nacional, Diretor do Conselho Nacional de Cultura, Diretor do Serviço Nacional de Teatro, entre outros. Viajou pelo mundo, mas esteve sempre com o coração nas matas cacaueira.

No campo da escrita, a sua é conceituada como escorreita e precisa, tendo o dom de aprofundar temas e personagens sem preencher páginas desnecessárias em repetições. Inscreveu a região no plano do trágico pelos homens e histórias de violência e ações bárbaras. Foi um gigante compondo uma narrativa com forma e conteúdo denso e humano. Inseriu a mulher no plano da heroína dando voz ao gênero feminino, num cenário de pouca sensualidade, a mulher governa e define em muitos de seus romances e novelas. Há muitos estudos sobre sua obra, principalmente, chama a atenção o drama da morte, presente nos seus livros tanto ou mais quanto a própria vida.

E neste contexto de realidade e ficção da arte literária, a ALITA tem realizado, desde agosto, o Sábado Liter–ALITA, sempre às 17 horas, com atividades virtuais, respeitando os parâmetros atuais de comportamento desde que se iniciou a pandemia do corona vírus. Recebemos convidados para falar de literatura nas plataformas digitais de forma proveitosa.  Excepcionalmente, nesta sexta feira, 27 de novembro às 16 horas, reafirmamos o convite: venha participar conosco do aniversário dos 105 anos do escritor Adonias Filho.


Carolina de Jesus


 

105 anos do escritor Adonias Filho, Patrono da Academia de Letras de Itabuna - ALITA







 

Centenário de Clarice Lispector

XV COLÓQUIO DE LITERATURA BAIANA - POESIA CONTEMPORÂNEA (1a etapa) - VENHA CONHECER:

CADEMIA DE LETRAS DA BAHIA
Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários /UEFS
Projeto Crítica Literária e Identidade Cultural/ UNEB
XV COLÓQUIO DE LITERATURA BAIANA

A POESIA CONTEMPORÂNEA


 XV COLÓQUIO DE LITERATURA BAIANA - POESIA CONTEMPORÂNEA (1a etapa) - VENHA CONHECER:

Inscreva-se gratuitamente ao entrar no YouTube para assistir a cada mesa. Você receberá um certificado das horas assistidas.
De 24 a 26 de novembro, serão 6 mesas, duas por dia.
São 36 poetas abordados por 13 críticos e pesquisadores.
VEJA ABAIXO A PROGRAMAÇÃO
DIVULGUE A COLEGAS, AMIGOS E POSSÍVEIS INTERESSADOS.
Muito Gratos.
MESA 1 - DIA 24/11 às 14h30 – Canal Progel/UEFS -https://www.youtube.com/watch?v=sPX4ZAukSf4 
MESA 2 - DIA 24/11 às 19h30 – Canal Universidade da Gente -https://www.youtube.com/watch?v=GfxRuWVS1T8 
Mesa 3 - DIA 25/11 às 14h30 - Canal Progel/UEFS 
Mesa 4 - DIA 25/11 às 19h30 – Canal Universidade da Gente
Mesa 5 - DIA 26/11 às 14h30 - Canal Progel/UEFS https://www.youtube.com/watch?v=Ktz_IS3339I
MESA 6 - DIA 26/11 às 19h30 -  Canal Universidade da Gente   https://www.youtube.com/watch?v=D0eOXRZ0aeQ


Canto de Firmino Rocha- Por Cyro de Mattos

 


            Tuas penas feridas

 com o fuzil

                 que deram ao menino

                         teus ventos companheiros

                  redimindo as calçadas

            no gesto de estrela

                 um novo dia anuncias

                   dos longes comovidos

               nas águas dormindo

              onde o ouro vegetal

                  flora como flama eleita

                   os fragmentos colhidos

                     nos seios da madrugada

                o discurso elementar

                 de sol com borboletas

                     em tua metáfora solitária

                       ciranda de todas as relvas

                               ébria de amor por nós mesmos

                     enquanto durou a cantiga

                       nos becos o esgar dos dias

               o comentário esquivo

                    nenhum rancor ouvimos

        como conseguias

             permanecer menino?

                teu pássaro puro reluz

         nesse canto sereno

               agora legiões de anjos

                 te escutam em silêncio

                      tua hora de no eterno voar.

 

 

(Do livro Os Enganos Cativantes, poemas)

 

Novo Livro de Poesia de Cyro de Mattos é Publicado em Portugal

 



A Editora Palimage, de Coimbra, Portugal, acaba de publicar O Discurso do Rio, novo livro do baiano (de Itabuna) Cyro de Mattos, reunindo trinta sonetos, com prefácio da professora doutora Graça Capinha, da Universidade de Coimbra. O livro integra a coleção Palavra Imagem, e seus poemas foram motivados pela situação atual do rio Cachoeira,  que divide a cidade natal do autor em duas partes, com suas águas poluídas hoje, como se fosse um esgoto a céu aberto, comparado ao tempo de antigamente quando havia um ambiente de beleza que habitava as suas correntes puríssimas.

Este é o quinto livro de poemas que a Editora Palimage publica de Cyro de Mattos na Coleção Palavra Imagem, que reúne poetas representativos da poesia contemporânea portuguesa.  Membro de instituições culturais importantes, como a Academia de Letras da Bahia, os outros livros desse autor baiano publicados pela Editora Palimage são Vinte Poemas do Rio, inglês-português, Ecológico, Vinte e Um Poemas de Amor e Poemas Ibero-Americanos. 

        A professora Graça Capinha observa que “alguns poetas brasileiros têm a capacidade extraordinária de conseguir regressar às coisas primeiras, como se, de fato, abrir uma janela e olhar o mundo pela vez primeira fosse possível”. Acrescenta que olham com as palavras, é certo, mas, mesmo essas, parecem trazer-lhes (-nos) os primeiros sons.” Mostra assim que “Cyro de Mattos é um desses poetas e não será certamente por mero acaso que, além de poeta e ficcionista, este seja também um autor de livros para crianças. Digamos que, tratando-se de escrever sobre um rio, este só poderia assim ser: um autor-menino, de olhos lavados e bem abertos”.


           



          

PEN CLUBE DO BRASIL SAÚDA BIDEN POR EVITAR CENSURA ÀS URNAS E PELO RESPEITO ÀS LIBERDADES INDIVIDUAIS DOS VOTANTES

 NOTA OFICIAL

 
 

Escritores, jornalistas e intelectuais associados ao PEN Clube Internacional, Seção Brasil, cuja finalidade de essência é defender a liberdade de expressão e a livre veiculação das ideias de quem escreve, cumprimentam o Presidente Joe Biden, cujo atuação pessoal acabou  por as segurar dignidade  e equilíbrio para manter as bases da democracia no país de Lincoln e Washington, afastando qualquer tentativa de censura à livre manifestação  das  urnas.    

Ricardo Cravo Albin
Presidente do PEN Clube do Brasil

Rio de Janeiro, 7 de novembro de 2020.

Nota de Pesar



É com muita consternação que soubemos do falecimento de Dra. Zina Barbosa Lima Oliveira Macedo, consorte do nosso estimado confrade Dr. Otávio Macedo, ocorrido há poucos instantes, neste dia 12 de novembro.

Rogamos a Deus bênçãos ao nosso afável amigo “Otavinho” referido assim, carinhosamente, pela nossa querida Sonia Maron. Que os familiares possam ser confortados, na esperança de que sua amorável companheira seja recebida em outro plano por entes de sua estima e de seu amor enquanto esteve aqui na terra.

Nossos sentimentos, em nome de todos os membros da Academia de Letras de Itabuna – ALITA. 

Coleção Mestres da Literatura Baiana Inclui Cyro de Mattos


 


As Edições da Assembleia Legislativa da Bahia – ALBA acabam de publicar o livro Infância com Bicho e Pesadelo, do baiano Cyro de Mattos, uma reunião de contos e novelas, incluindo a obra na Coleção Mestres da Literatura Baiana,  da qual fazem parte livros dos autores Hildegardes Viana, Vasconcelos Maia, Hélio Pólvora, Wilson Lins, Afonso Manta, Ruy Espinheira Filho, Guido Guerra, Osório Alves de Castro, Gláucia Lemos e outros.  

             A Coleção Mestres da Literatura Baiana representa um esforço conjunto da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia e da Academia de Letras da Bahia para publicar obras fundamentais da literatura baiana, e dessa forma contribuir para o maior conhecimento e a preservação do valioso trabalho dos mestres das nossas letras.  Obras de grande valor literário e de enorme importância para a cultura baiana e brasileira tiveram público limitado e hoje se encontram esgotadas.

          Escritor premiado, publicado em oito idiomas,  membro da Academia de Letras da Bahia, Cyro de Mattos reúne no livro Infância com Bicho e Pesadelo as histórias seguintes: Infância com Bicho e  Pesadelo, Ladainha nas Pedras, Inocentes e Selvagens, Coronel, Cacaueiro e Travessia, O  Cavaleiro Vingador contra o Mandão da Crueldade, Restos da Mata, Pelas Águas, Os Recuados, Pai, Filha, Berro de  Fogo, As Ligações do Padre com a Vizinha e Todo o Peso Terrestre.

 

Discurso do Herói de Palmares. Por Cyro de Mattos

 

 

Ao receber a Medalha Zumbi dos Palmares da Câmara de Vereadores de Salvador, em sessão solene, online, às 20 horas, no dia 3 de novembro de 2020.

 

Boa noite a todos.

           Ilustre jurista, vereador e confrade Edvaldo Brito.

Primeiro  quero agradecer esse momento a Deus, depois à  minha esposa Mariza, que tem sido minha base durante 52 anos de casados, aos meus três filhos André Luís, Josefina e Adriano, que tanto me  motivam para que eu seja um cidadão digno, e aos meus seis netos, Rafael, Pedro Henrique, Gabriel, Luís Fernando, Marizinha e Murilo, que me dão alegria e certeza de que quando eu estiver em outra dimensão continuarei ainda aqui, neste velho mundo, em cada um deles.

Faço um agradecimento especial ao professor emérito e jurista consagrado, vereador Edvaldo Brito, o autor do projeto para que esta Casa me concedesse a distinção. Muito me honra ter sido colega daquele estudante pobre na turma de 62 da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. Aquele rapaz de corpo comprido, que foi o orador da turma. Esse homem de cor, cidadão digno, um símbolo vitorioso da negritude na Bahia e no Brasil. Essa criatura rara, de cultura adquirida com esforço nos livros, brilho de sua inteligência, crença na força dos antepassados, e que se sabe herdeiro da fraternidade e compromissado com a verdade, portador do axé, que, como se diz no candomblé, é “a luz do dia”. É por sua iniciativa generosa que estou aqui sendo homenageado, apesar de surpreso até agora ao receber essa láurea, e comovido.  

Certa vez minha tetravó materna contou à minha trisavó que contou à minha bisavó que contou à minha avó que uma gente que vivia nas suas aldeias foi retirada da África como bicho, pior do que bicho, para a escravidão no Brasil Colonial.  Filho foi retirado da mãe, marido da mulher, irmão do irmão, acorrentados foram trazidos com os rostos tristes, até que se viram jogados para o embarque como um fardo deplorável no porão fétido do navio negreiro.  Longe, tão longe, foi ficando atrás na savana a lágrima de Deus.  No rumo desconhecido, seguia aquela gente na carga desgraçada, feita com vozes sofridas na cena lastimada. Uma pobre gente solitária vagando pela imensidão das ondas salgadas. Viajava marcada sem perdão, o corpo amassado, a fome e a sede nas horas de aflição, menos para o traficante branco, que conduzia o navio por entre as águas de cobiça e perversidade.

No poema “Navio Negreiro”, de meu livro Poemas de Terreiro e Orixás, dou minha versão dessa sinistra embarcação com sua carga sofrida numa rota dos infernos.  Eis o poema:  

 

Navio Negreiro

 

não adiantava

gemer

não adiantava

mugir

não adiantava

 viver

muito melhor

morrer

 

funda a ferida

amargo o ferrão

ardido o sal

aguda a solidão

negro negro negro

o mugido anuncia

a sede e a fome

 de boi em agonia

 

todo esse mar

é a desgraça

não branca

que até hoje

das entranhas

rola nas ondas

o seu mal-estar

 

o despejo na praia

diz de um tesouro

alimentado do pai

alimentado da mãe

do filho e do irmão

como ofensas no amor

do suor fabricado 

para a saborosa canção

do constante senhor

 

 

Na rota da desgraça foi submetida essa gente ao trabalho servil do Brasil colonial. Alguns negros inconformados fugiam da senzala em busca da liberdade na mata fechada. Não conseguiam reter o suor e a amargura que derramavam todos os dias para irrigar o canavial do senhor de engenho.  A fome do Brasil açucareiro era insaciável, nunca se satisfazia com o trabalho de graça dado pelo braço escravo. O feitor com os cachorros logo ia atrás do negro fujão, que terminava castigado com a sua afronta no pelourinho. Treze, trinta, cinquenta chibatadas. Muitos não suportavam o castigo, morriam esfacelados.  Tristes, os outros olhavam, não podiam fazer nada. Calados, lambiam o vento, que soprava no peito a sina feita de atrocidades, assim guardadas como ruínas dos dias nos gemidos mudos.  

Quem de novo fugisse e fosse apanhado, o remédio agora era cortar um pé, para que o exemplo fosse melhor disseminado.  Minha avó contava que em outros casos de insubmissão a língua era cortada daquele negro falador, inflamando os outros para fazer a revolta. Contou mais que minha tetravó tinha o seio farto, foi lambido, bebido como gostosura o seu leite puro para o anjinho do senhor não sucumbir.  Senhores bigodudos, sisudos doutores provaram do leite morno e doce, saindo ilesos das sombras da morte.  A paga daquele ofício era na roupa lavada, engomada, no fogão aceso e abanado, no asseio de inúmeros cômodos, no carrego de feixes de cana, em tudo que tinha o gosto amargo para que a vida continuasse no seu ritmo invariável de dor e solidão.

O mel da cabaça da negrinha era para servir a seu dono, que deixava o fel nas entranhas. Matava a sede do que batia os dentes, montava nela com todas as forças que pudesse reunir e perfurava, sem remorso, umas carnes tenras. Arrancava os tampos com sua flor guardada entre as pernas, olhe lá, não tens que gritar, é pra ficar abafada nos lamentos, entorpecida pelo som e a fúria dos meus punhos, o querer é só meu, ninguém se atreva a interromper.  Passava o inverno, passava o verão, o tempo e as dores essa gente desgraçada ia moendo, remoendo. Como devia ser, os céus ordenavam. As horas se resumiam na fome e na sede de animal em passividade e agonia. O final todos sabiam, uma coisa, que teve a vida toda em luto perpétuo, era enterrada na cova rasa, mais nada.   

E dizer que o Brasil foi carregado nos ombros dessa gente vítima de mazelas, violência e injustiça. De toda sorte de vilanias, preconceitos, desigualdades. Essa gente da qual também procedo, que deu o suor de sol a sol ao jugo do senhor branco e de volta recebeu a canga. O Brasil tem uma dívida com o negro que é impagável. Esquecido dessa dívida, ainda se vê hoje, em pleno século vinte e um, atos pusilânimes que alimentam a mancha que envergonha, essa chaga que subtrai e faz da vida um horror com fendas acumuladas de aversão, feridas que não curam.  

Ontem na televisão, diante do rosto da humanidade pasma, a notícia veio com a cena do negro que teve a vida esmagada pelo policial branco.  Tiros foram desfechados nas costas de outro, que, indefeso, tentou fugir da perseguição como fúria canina. É comum a rejeição ao negro, considerado ao longo dos séculos como um ser inferior, de gradações baixas, daí não ser nada de mais ser visto até hoje no semblante inocente dele o ladrão ou o assassino. 

Diante de tantas atitudes para alimentar o império do mal, destruir o espírito universal do bem, mais que nunca é preciso resistir, denunciar, lutar para desfazer a mentira e ao invés disso gritar a todos pulmões que a liberdade é o valor maior, a igualdade não é privilégio de ninguém, Deus fez todos nós com a mesma alma, o amor é o sentimento mais forte.

Devo lembrar que o Quilombo dos Palmares era formado por três aldeias. Aí por volta de 1640 viveram cerca de dez mil quilombolas. Eram fortes e contentes, plantavam de tudo e não se serviam da terra como fonte única de riqueza, através do açúcar. Cada família em Palmares ocupava um lote de terra, o que tirava dela era para o seu sustento. Em 1670, já inúmeros povoados cobriam muitos quilômetros de terra na serra do Barriga, em Alagoas.  Palmares havia se transformado em um Estado, situado na borda do litoral do mundo canavieiro. Tornava-se por isso mesmo em grave ameaça ao império do açúcar, com seu sistema fixo calcado no braço escravo, em benefício exclusivo do senhor de engenho.

         Tinha uma população de trinta mil almas quando sob o comando de Zumbi sucumbiu às investidas de Domingos Jorge Velho, chefe de um exército armado de canhões, constituído de nove mil homens. Sucessor do trono de Ganga Zumba, Zumbi mostrara ser um guerreiro implacável antes mesmo de ser derrotado por Domingos Jorge Velho. Há quem diga que ele se pareceu aos heróis de guerra Aníbal, Alexandre, Ciro e Napoleão. Diferente deles porque não combateu para conquistar territórios e glórias, mas para fazer de Palmares uma flecha a ser atirada para o coração da liberdade.

Muitos historiadores esconderam dos compêndios oficiais a grandeza do caráter de Zumbi dos Palmares, mas a verdade prevaleceu. Ele se tornou um verdadeiro herói do Brasil, símbolo da resistência negra perante o ferro do colono usurpador. De maneira que a essa altura só me resta dizer nesse momento de especial reconhecimento o quanto me dignifica receber da Câmara de Vereadores de Salvador, a mais antiga do Brasil, uma honraria com o nome desse herói negro. E assim terminar minha fala com um poema inspirado nessa figura, que por sua coragem e amor à liberdade, lealdade ao seu povo, tornou-se um marco elevado da tão esperada abolição.

 

Zumbi

 

Falo Zumbi,

digo Palmares,

ritmo da liberdade.

 

Falo Zumbi,

digo Palmares,

batuque da igualdade.

 

Falo Zumbi,

digo Palmares,

manual da fraternidade.

 

Falo Zumbi,

digo Palmares

sem o açúcar insaciável.

 

Falo Zumbi,

digo Palmares,

gente em grito indignada.

 

Falo Zumbi,

digo Palmares,

no abismo a África salta. 

 

Luzes da Manhã,

força do amor

pelo chão e nos ares.

 

Espero que minha voz como um grão nos ventos da resistência venha se juntar ao movimento que vem lutando nos anos pela sanidade da razão, expandindo-se para a valorização e conscientização do universo do negro.

A todos, o meu muito obrigado por esse momento gratificante em minha jornada de vida.

  

 









Literatura Infantil e Juvenil Baiana

 

Literatura Infantil e Juvenil Baiana

 Entrevista a Cyro de Mattos por Normeide  Rios, Professora da Universidade Estadual de Feira de Santana. 


 

Normeide Rios - Como o senhor se tornou escritor? O que o motivou a escrever para crianças e jovens?

Cyro de Mattos - Publiquei meu primeiro conto “A Corrida” no suplemento literário do Jornal da Bahia, editado por João Ubaldo Ribeiro, em 1960. Daí para cá nunca mais parei. Meu livro de estréia foi Berro de fogo, contos, em 1966. Está riscado de minha bibliografia porque seu texto envelheceu em pouco tempo. Pelo menos serviu para deflagrar meu processo criativo. Escrever começou assim na adolescência e se fez dentro de mim fundamental como o amanhecer. Ainda que seja um grão no deserto, escrever é a minha maneira de inaugurar sentidos, estar sozinho e solidário num só tempo, dizendo silêncios. Este é meu lugar onde arrisco tudo. Agradeço à ternura que herdei de minha mãe a inclinação para escrever livros infantojuvenis. Quando já tinha escrito uma vintena de livros para adultos, aconteceu no escritor idoso o menino acordar e pedir  que eu escrevesse para crianças e jovens. Tudo foi de repente, sem programar nada. Não sei explicar. De uns vinte anos para cá, tenho escrito para crianças e jovens.  Vem dando certo, com prêmios importantes e reedições sucessivas de livros.

 

Normeide Rios - Existem diferenças entre escrever para adultos e escrever para crianças e jovens?

 Cyro de Mattos - O livro para adultos tem suas características próprias, sua técnica, espaço, tempo, lugar e modo. Tratamento e abordagem que o diferem da obra escrita para crianças e jovens. O livro infantojuvenil possui  universo criativo específico, com suas nuances, linguagem, ritmo, psicologia. Mas livro bom é o rico de sentidos, servindo para idosos e pequenos. Convenhamos que Kafka, Pessoa, Jorge Luís Borges, Eça de Queiroz e Machado de Assis, entre outros, que eu saiba não escreveram seus livros importantes para crianças e adolescentes.  Não é o caso de Bartolomeu Campos Queirós, Ana Maria Machado, em parte Monteiro Lobato, esse que veio para encantar e morar no coração de crianças e jovens. Para não se falar em Cecília Meireles com o seu admirável Ou isso ou aquilo.

 

Normeide Rios - O que é preciso considerar para escrever para o público infantojuvenil?

 Cyro de Mattos - A psicologia do que se pretende dizer deve emergir e corresponder às razões e emoções da criança e do jovem. A linguagem ser clara, sem perder o poético. Ternura, graça, ritmo ágil, rima cativante. Na prosa uma história que prenda do princípio ao fim, como aprendi em minhas primeiras leituras das revistas em quadrinhos, os meninos de meu tempo chamavam guri e gibi. 

 

Normeide Rios - O conceito de literatura está sempre mudando, de acordo com o contexto histórico e cultural. Qual é a sua visão de literatura? O que é literatura?

Cyro de Mattos - Forma de conhecimento da vida através dos sinais visíveis da escrita. Não resolve os problemas econômicos, políticos, sociais e religiosos. Mas torna a vida viável e viver sem ela é impossível.  Meu livro de crônicas Alma mais que tudo traz esta epígrafe retirada de Drummond: Se procurar bem, você acaba encontrando/ Não a explicação (duvidosa) da vida/ Mas a poesia (inexplicável) da vida. Se quiserem, é como digo neste poema mínimo: Poesia. Meu amor. Minha dor. Ó flor.

 

Normeide Rios - O que é literatura infantojuvenil?

Cyro de Mattos - Caminhos da escrita que se abre para a formação de uma mentalidade em crescimento. Dá prazer, faz sorrir, viajar na infância ou juventude, enriquece e nada toma em troca. Como a que é feita para adultos, sua matéria são as palavras - o pensamento, a ideia, a imaginação – estando ligada diretamente a uma das atividades básicas do indivíduo em sociedade: a leitura.  Busca alcançar o leitor iniciante para uma formação integral, em que entra o eu mais o outro mais o mundo. Seu espaço, como se vê, é o da iniciação à vida, que cada um deve cumprir e viver em seu meio social.  

 

Normeide Rios - A literatura direcionada a crianças e jovens durante muito tempo foi marginalizada por ser considerada um gênero menor. Qual a sua opinião sobre isso?

Cyro de Mattos - Esta é uma visão que se ressente de perspectiva crítica. Um grande equívoco, preconceito calcado em uma ótica de que o que vale é o sujeito adulto, criança e jovem ainda não são gente, seu universo pouco tem a dizer, dado que superficial e inconseqüente.  Isso é um absurdo adotado pelos distraídos que ainda não perceberam que a verdadeira evolução de um povo se faz ao nível da consciência de mundo, situações e circunstâncias   que cada um vai armazenando desde a infância.  

 

Normeide Rios - Apenas recentemente a literatura infantojuvenil começou a abandonar o vínculo com a pedagogia, que a marcava desde o seu surgimento, e buscou se afirmar como arte literária. Como escritor de obras literárias para crianças e jovens, quais as suas considerações sobre a relação literatura infantojuvenil, pedagogia e arte?

Cyro de Mattos - O livro predisposto a fazer a cabeça da criança e do jovem revela deformações flagrantes. Tal predominância parece-nos sem sentido. Estamos com a professora doutora Nelly Novaes Coelho quando diz que a Literatura, em  especial a infantil, tem uma tarefa fundamental a cumprir nesta sociedade em transformação: a de servir como agente de formação, seja no espontâneo convívio leitor//livro, seja no diálogo leitor/texto estimulado pela escola.  A escola é hoje o espaço em que a relação entre o leitor e o livro mais se desenvolve na descoberta do eu mais o outro mais o mundo. Natural que os princípios ordenadores da vida neste espaço transmitidos contribuam para motivar o acontecimento de uma nova civilização. De outra parte, a literatura infantojuvenil é arte que se faz com engenho e linguagem sedutora.  As relações de aprendizagem e vivência são fundamentais nesta perspectiva que nos informa ser somente ela, como a que é feita para adultos, capaz de devolver à criatura humana o que é próprio da criatura humana: inteligência e sentimento.

 

Normeide Rios - E sobre a tríade autor-obra-leitor?

Cyro de Mattos - Ninguém escreve um livro para ficar no fundo da gaveta.  O autor  pretende com o livro transmitir uma experiência de vida e estabelecer uma dialética de tácito entendimento com o leitor pelas vias e arredios do ser, entre o  belo e o feio,  o alegre  e o triste , o riso e o rancor,  o amor e o ódio, a aventura e o risco, a vida e a morte.

 

Normeide Rios - Como autor, de que forma o senhor busca interagir com o seu leitor?

Cyro de Mattos - Comprometido com as verdades essenciais do ser humano. Cheio de sonho.

 

Normeide Rios - Como é o processo de criação de suas obras literárias infantojuvenis? Quais os elementos que o senhor considera essenciais para garantir a qualidade artística das produções?

Cyro de Mattos - É uma viagem gratificante sob os instantes do menino e  do jovem. Retorno ao tempo colorido do antigamente, que já vai longe. Reúno pedaços da infância e adolescência que os homens trancaram na alma.  Noto que os componentes estruturais do texto resultante desta pulsação do coração devem corresponder ao mundo da criança ou do jovem. Tanto na forma como no fundo. Entra nisso como ingredientes importantes   a espontaneidade e a habilidade, que o autor deve possuir na criação de um livro de poesia ou prosa de ficção para crianças e jovens. A expressão deve se manifestar com simplicidade no aparentemente fácil.  

 

Normeide Rios - Como aconteceu o seu primeiro contato com livros literários? O que costumava ler na infância e adolescência?

Cyro de Mattos - Quando era pequeno comecei lendo revistas em quadrinhos. Descobri Júlio Verne, Monteiro Lobato, Érico Veríssimo, Poe e Dickens na biblioteca de seu Zeca Freire, o dono da farmácia em minha cidade natal, e também na livraria e papelaria A Agenciadora. Quase adolescente fui estudar interno em Salvador, e, na biblioteca do Colégio Maristas, foi a vez de ler Castro Alves, Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo, Fagundes Varela, José de Alencar, Humberto de Campos e Machado de Assis. Ingressei na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia e nesse tempo gostava de visitar pela tarde a Livraria Civilização Brasileira, na Rua Chile. Sedento, buscava ali o pote da leitura.  Foi o tempo do conhecimento  de Dostoiewski, Tolstoi, Checov, Katherine Mansfield, Sartre, Kafka, Pessoa, Brecht, Joyce, Faulkner,  Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Adonias Filho, Lúcio Cardoso, José Lins do Rego, Jorge Amado,  Autran Dourado, Aníbal Machado, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Mário de Andrade,  Drummond, Cecília  Meireles, Cassiano Ricardo, Jorge de Lima,  entre tantos admiráveis escritores  que me ensinaram a  ver melhor a vida,  equilibrar-me entre vazios,  crenças e verdades,  que se formavam  tecidas com  os fios eternos do imaginário. 

 

 Normeide Rios - Qual a sua opinião sobre a atual produção de obras para crianças e jovens?

Cyro de Mattos - Muita boa, digna de qualquer literatura no mundo. Lembro Bartolomeu Campos Queirós, Elias José, Ana Maria Machado, Lígia Bojunga, Sylvia Orthof, Mário Quintana  e outros. Entre nós baianos, gosto da literatura infantojuvenil de   Gláucia |Lemos.

 

Normeide Rios - No panorama nacional, como se posiciona a produção de escritores baianos?

Cyro de Mattos - Há quem diga que a melhor poesia brasileira está sendo feita hoje no Nordeste e, em especial, aqui na Bahia. Concordo. Ressalto que contistas e alguns romancistas daqui são também de qualidades insuspeitadas.  A literatura brasileira está entregue hoje em boas mãos aqui na Bahia. Não entendo por que ainda não se escreveu uma crítica e ampla   História da Literatura Baiana, de Gregório de Matos aos tempos atuais. Seria um projeto para ter o apoio do   Governo do Estado, executado por um corpo de professores universitários e autores expressivos, que preencheria certamente uma  omissão no mínimo lastimável.     

 

Normeide Rios - Suas obras infantojuvenis são produzidas tanto em verso quanto em prosa. Há predileção do autor entre essas duas formas de escritura?

Cyro de Mattos - Sinto-me à vontade na prosa como no verso. Quem determina se a preferência será prosa ou verso é o assunto, o momento, a inspiração ou seja lá o que for. 

 

Normeide Rios - Cyro de Mattos recorre a lembranças da infância e da adolescência para criar seu mundo ficcional? Pode-se dizer que Histórias do mundo que se foi é um livro de “memórias da infância”?

Cyro de Mattos - A infância é uma das vertentes de minha poesia para adultos, da prosa de ficção para crianças e jovens. Como acontece em Histórias do mundo que se foi, “memórias da infância” transfiguradas como ficção podem ser encontradas também em Roda da infância, novela que foi editada pela editora mineira  Dimensão, e Nada Era Melhor, romance da infância, no prelo da Editus, editora da UESC.  

 

Normeide Rios - O menino e o trio elétrico é a história de um sonho que se realiza, mas é também uma narrativa que aborda questões culturais e diferenças sociais. Houve o objetivo de fazer denúncia social? Qual o papel da literatura infantojuvenil frente aos problemas sociais e econômicos presentes na realidade do leitor?

Cyro de Mattos - Não tive intenção de fazer denúncia social na história triste do Chapinha com final feliz. Do texto escorre humanismo social entrelaçado com a poesia da vida. Não forcei nada. Simplesmente busquei representar o real com ternos sentimentos de mundo, ser coerente frente aos problemas e contradições do carnaval hoje em Salvador. Alguns críticos disseram que fui o primeiro a trazer a realidade aguda do carnaval de hoje, em Salvador, para a literatura infantil, numa história bem concebida, escrita com espontaneidade, solidariedade e amor.  

 

 

     * Entrevista concedida à professora Normeide Rios, da Universidade Estadual de Feira de Santana, incluída na tese de mestrado Os caminhos da literatura infantojuvenil baiana: em sintonia com o leitor, apresentada na Universidade Estadual de Feira de Santana, aprovada com distinção e louvor. A dissertação foi publicada como livro pela Editora da Universidade Estadual da Bahia – EDUFBA.