Confraternização da Academia de Letras de Itabuna- ALITA


Nota publicada no Jornal Diário Bahia
Coluna de Betânia Macedo 
Em 16-01-2015




“Je pense, donc je suis Charlie!”

                                                 
Sônia Carvalho de Almeida Maron*


         A manifestação realizada pelos franceses com a presença de cinquenta chefes de Estado à frente da passeata que saiu da praça da República, em Paris, foi extraordinária. Em verdade, extraordinária e única,  é a Cidade Luz reconhecida acertadamente como a capital do mundo. Entre os milhares de faixas e cartazes que os franceses agitavam, uma foi destaque especial : “Je pense, donc je suis Charlie”, ou melhor, “Eu penso, portanto eu sou Charlie”. Observa-se que o cidadão francês, mesmo nos momentos de dor, não esquece a erudição, o verniz cultural, e busca inspiração na conhecida frase de René Descartes: “Cogito, ergo sum” (Penso, logo existo).
         É claro que a França pensa e a França existe. Não foi por acaso que os princípios democráticos proclamados no Iluminismo nasceram no país que festejou a queda da Bastilha em 4 de julho de 1789 e a entrada triunfal das tropas aliadas, em 25 de agosto de 1945, libertando Paris da ocupação nazista. Agora, no século XXI, os franceses reúnem  os estadistas do mundo no desfile que consagrou a união de etnias, culturas e religiões para proclamar o repúdio ao terrorismo, acompanhados pela multidão estimada em três milhões de pessoas, movidas pelo sentimento de verdadeiros “enfants de la patrie”. Sob o comando das vozes que entoavam a  Marseillaise, de forma ordeira e civilizada, desfilaram François Hollande ao lado de Angela Merkel, Benjamin Netanyahu e Mahmoud Abbas, seguindo-se  os demais chefes  de Estado da Europa, África e Oriente Médio que caminhavam lentamente, de braços dados. A disciplina, a ordem, o respeito mútuo e a fraternidade prevaleceram no monumental desfile, provando que a violência ditada pelo terrorismo terá uma resposta do mundo civilizado.
         Terrorismo e totalitarismo são gêmeos siameses, ligados ao desejo doentio de dominação presente nas páginas mais vergonhosas que a humanidade já escreveu. A distorção de uma filosofia religiosa tem por objetivo único o poder, ainda que seja banhado de sangue e são muitos os exemplos desde o passado mais remoto. A França do século XVIII já proclamava a liberdade de expressão no art. 11 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, consagrando “a livre comunicação das ideias e opiniões como um dos mais preciosos direitos do homem” e o século XXI não pode ser o palco do retrocesso e da covardia.
         A linha satírica do jornal francês, apesar da irreverência apontada por alguns, encerra através do humor, a alegria que a liberdade simboliza. Sendo um veículo de comunicação laico, nunca deixou escapar ninguém que estivesse sob os refletores da fama e o Papa Bento XVI já serviu de inspiração para as críticas do Charlie Hebdo, por ocasião das denúncias dos casos de pedofilia na igreja católica; não consta que o Vaticano tenha revidado o “ataque” irreverente ou que os cartunistas tenham sofrido a pena da excomunhão. Em verdade, o fanatismo religioso sempre serviu de cortina de fumaça para ocultar os planos políticos de dominação e perpetuação de um grupo espúrio que planeja perpetuar-se no poder a qualquer custo: basta lembrar o suposto ideal religioso que inspirou a própria igreja católica no século XIII, representado pela Inquisição e seus Tribunais do Santo Ofício.
         Enquanto os mais sensíveis lamentam o clima de terror instalado na França, nós, “deitados eternamente em berço esplêndido”, esperamos placidamente acontecer o momento em que a pátria brasileira decida “erguer da justiça a clava forte”. Afinal, somos “brasileiros com muito orgulho e muito amor”. Já viramos muitas páginas tristes e vergonhosas e temos nosso terrorismo tupiniquim, pacífico e inofensivo, sob o comando de Babaus, Sininhos, Black blocs, MSTs e congêneres, tudo na mais santa paz.
Ficamos no prende e solta ditado pela leniência e estímulo à impunidade, sob a rigorosa observância dos direitos humanos como todo país civilizado que se preze. Até mesmo o novelão da Petrobras, atualmente em cartaz, segue em frente sendo ignorado por nossos cartunistas; talvez não desperte o interesse de Ziraldo, Caruso e seus colegas porque o elenco é composto de personagens principais tão feios, feios de assustar, naturalmente hilários pela aparência, a ponto de provocarem comentários bem humorados quando mostram o rosto. Sorrir ainda é e sempre será o melhor remédio.
         E já que falamos em nosso último novelão, vale encerrar com a frase da primeira página da edição especial do Charlie Hebdo, circulando hoje no mundo: Tout est pardoneé ( Tudo está perdoado). E acrescentaria: em nosso caso, perdoados pela feiúra, não pelos crimes.

  *Ex-aluna do Ginásio  Divina Providência
Profª Msc aposentada da UESC
 Juiza aposentada do TJBA
Presidente da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

        
                                    



TV e Rádio Arte Al Dia, de Salamanca elogiam Livros de Cyro de Mattos

     Assinada pelo poeta Alfredo Pérez Alencart, professor da Universidade de Salamanca, a TV e Rádio de Salamanca, na  Espanha, comentou quatro livros de Cyro de Mattos publicados no ano passado: Os Brabos, novelas, Orátório de Natal, infantil, A Casa Verde e Outros Poemas e  Os Ventos Gemedores, romance.

     Abaixo transcrevemos a matéria de Alfredo Pérez Alencart que foi divulgada na TV e Rádio de Salamanca, programa Arte Al Dia:

 
Buena cosecha de Cyro de Mattos
 
 
Un escritor completo resulta el brasileño Cyro de Mattos (Itabuna, Bahía, 1939), una personalidad de esas tierras del Nordeste tan próximas a la parte materna de mis genes.

Tiene mi aprecio como buena persona que es, sencilla en su humilde grandeza, y tiene, también, mi alta estima como autor de novelas, relatos, crónicas, piezas dramáticas, artículos… Pero es en la Poesía donde se le puede encontrar en su mejor dimensión: tiene múltiples registros, desde el cántico erótico hasta la ofrenda a lo Divino, pasando por lo telúrico, por el paisaje que lo trasvasa a la infancia como paraíso primero.

Poeta que en su libro ‘La Casa Verde y Otros Poemas’ (3ª edición bilingüe portugués-inglés, Mondrongo, 2014) confiesa: “Extraño vértigo/ de ser aroma/ en medio del círculo”. Así, desde su sereno estar en la tierra, el escriba de Itabuna no deja sosiego a la creación, razón por la cual la cosecha de estos meses precedentes ha sido copiosa y de excelente calidad, atractivo aroma de poemas y prosas que portan emoción y pensamiento, gratitud y preocupación a partes iguales. Más siempre el sello de Poesía que dice mucho: “En cada cosa que toco,/ en cada voz que escucho,/ en cada sombra que adivino,/ hay un gesto lejano/ de cierto pájaro presente/ que canta en mi oído/ e invisible conquista el silencio”.

Estos días he recibido cuatro libros de Cyro de Mattos. El ya citado ‘La Casa Verde…”, donde memora las figuras de dos antiguos residentes de su ciudad, Henrique Alves dos Reis, nacido en 1981, y de su esposa Carolina, dueños de una casa que tenía y tiene ese color, y donde ahora funciona el Museo Casa Verde. La segunda parte del libro contiene nueve poemas, uno de los cuales ahora traduzco por vez primera. La traducción al inglés es Luiz Angélico, catedrático ya fallecido, mientras que la ilustraciones son del artista Ângelo Roberto.:

LA RUEDA DEL TIEMPO

 
Crié luciérnagas

Para verlas de noche

Brillando en el cuarto.

 

Nadé como un ágil pez

En las aguas más claras

Del Río de Agua Dulce.

 

Como un pájaro

Tuve cada vuelo

Con el viento más alto.

 

Anduve como animal suelto

Sin tener miedo de nada

En los senderos del bosque.

 

Pero la infancia tiene el sabor

De una fruta que termina

En la edad de los hombres.

 

 

Hace dos años, con motivo del XVI Encuentro de Poetas Iberoamericanos, traduje una porción de poemas de Cyro de Mattos, los cuales se incluyeron en la antología ‘Decíamos ayer’, dedicada a Fray Luis de León. Pero también en dicha oportunidad presentamos una amplia antología poética de su obra, por mí traducida y publicada bajo el titulo de ‘Donde Estoy y Soy’. Entre los poemas allí traducido hay varios de su libro ‘Oratório de Natal’. Pues bien, con motivos de la reciente Navidad, la editorial Duna Dueto, de Sao Paulo, ha publicado una nueva edición del mismo, esta vez con atractivas ilustraciones  de Ângelo Roberto.

 


NAVIDAD DE LOS NIÑOS NEGROS
 
Vieron al viejo gordo
Con la barba blanca
En el televisor de la tienda.
 
Vivían en el cerro,
El hermano quería un avión,
Una muñeca la hermana quería.
 
Dejaron las sandalias
En la ventana al sereno.
Nada vieron al otro día.
 
Del punto más alto
Miraban las nubes blancas,
Quietas en el azul del cielo.
 
La ciudad a sus pies,
Y en los jardines cada niño
Su juguete mostraba.
 
Ahí entonces supieron
Cómo el mundo se escondía
De Jesús, María y José.
 
La Navidad era la lágrima
Que descendía del rostro
Y una canción deshacía.
 

Cyro de Mattos es poeta, narrador, periodista, abogado,  miembro de la Academia de Letras de Bahía y ha obtenido varios galardones,  como el Premio Nacional Ribeiro Couto, el Premio Afonso Arinos, el Premio Centenario Emílio Mora o el Premio Internacional de Literatura Maestrale Marengo D’oro (Génova). Tiene obra publicada en Alemania, Francia, Portugal, Rusia, Estados Unidos, México, Dinamarca, Suiza e Italia. Entre sus libros de poesía están Vinte Poemas do Rio, Cancioneiro do Cacau, Ecológico, Vinte e Um Poemas de Amor, Devoto do Campo y Oratório de Natal.

 

Los otros dos libros que me acaban de llegar son de narrativa: ‘Los Brabos’ (LER Editora, Brasilia, 2013, ilustraciones de Calasans Neto), cuatro historias atractivas por las cuales el autor obtuvo el Premio Afonso Arinos de la Academia Brasileña de Letras.  Y la novela ‘Os Ventos Gemedores’  (Letra Salvagem, Taubaté, 2014, pp. 207). Las leeré con la calma que se merecen, pero no quería dejar pasar la oportunidad para dar noticia reciente de estas ‘criaturas’ del destacado escritor de Itauba que tiene en la Poesía buena fuente de su narrativa, como es el caso de ‘Los Vientos Gimientes’, título de un poema suyo publicado en el libro ‘Devoto del Campo’.

 

Les dejo con unos versos eróticos de Cyro de Mattos:

 

Juzgué que ésta sería mi suerte,

Disfrutar de mi trabajo en el anillo

Generoso de tus ramas. De la miel

Gozar todo el placer hasta la muerte.

 

 




 

Os Velhos São Boa Gente

Cyro de Mattos 

Condenados à inutilidade, os velhos estão sempre pesando. Sofrem rejeição  sob vários  aspectos.  Saber  que a vaga já está preenchida por outro em razão da idade mais  moça,  não é nada agradável.

Não existe imagem única sobre a velhice. Cada pessoa envelhece como viveu. Existem maneiras de envelhecer. De todos os males que chegam com a velhice, a falta  do que fazer parece ser  o  pior, o  mais  temido  inimigo. Conheci uma criatura que teve de parar de repente, depois de quarenta anos de atividade ininterrupta. Foi como uma morte. Ficava em estado lastimável. Vagava pela casa, de péssimo humor, implicante e deprimido. Só venceu a crise depois que encontrou uma atividade. Mas sabemos que    essa alternativa nem sempre ocorre.

Num mundo dirigido e  feito  para  jovens,  onde se vê forte obsessão pela sensualidade, sendo supervalorizadas a beleza física e a juventude,  o que fazer com essa gente velha? Cumprida a função na família, peso inútil na comunidade,  mais  nada  a esperar da vida, de  repente cada um  se vê  sozinho. A família  em  geral  repugna  a solução de um asilo de velhos,  sinônimo de abandono e solidão. Alguns povos do passado costumavam abandonar  gente idosa da comunidade num lugar deserto. Entre nós, hoje, o que devemos fazer com os nossos velhinhos?
 
O  ideal  seria  a  criação de um  centro  comunitário, onde  eles  se  sentissem  em  família,  tivessem  ali  todo  o conforto e assistência. Fosse então erguida a vila,  construída de preferência  para  o nascente , talvez  numa colina onde a vista desse para o mar. Receberiam o espetáculo do nascer do  sol  ou  da  lua  cheia  derramando prata  nas  ondas  do mar. Não   faltariam na  vil a árvores frondosas e frutíferas, passarinhos que em alarido viriam saudar os hóspedes todas as manhãs. Não poderiam deixar de faltar jardins com flores. O perfume  serviria para  suavizar  o  coração acordado  na lembrança. 

A  vila  seria um  pedaço  do  céu. Não  haveria  lugar para a tristeza, música lá só alegre, aconselhável que fos¬se  entoada  pelos  hóspedes.  Ninguém  teria  vergonha  de mostrar  o seu talento  nessas horas.  Quem    soubesse tocar algum instrumento tocava. Com o maior prazer seriam atendidos  os pedidos de bis que a plateia entusiasmada reclamasse. Quem fosse poeta,  querendo declamar seus versos queridos, declamava. 

A v i l a teria quartos com janelas de claridade e vento amigo. Refeitório amplo, salas de televisão,  para reuniões, capela e um pequeno teatro. O horário para as re¬feições seria flexível. Os hóspedes seriam livres para agir como quisessem durante o dia. Quem não quisesse sair, poderia ficar conversando no papo amigo ou se ocupando em fazer algum trabalho manual que lhe desse prazer. Os aniversários seriam comemorados como um momento especial, muito doce, naquele tom afetivo que costuma acontecer em família. A vida passaria sem que se desse conta, no enlace dos dias com amor. E o que você e acha desse lugar idealizado assim para esses bons velhinhos seja chamado A Barca Boa da Felicidade?

POETA RENATO PRATA PREMIADO PELO SELO JOÃO UBALDO RIBEIRO Edição 2014

Publicada no Diário Oficial do Município a lista das obras literárias selecionadas para o Selo João Ubaldo Ribeiro, na qual se destacou Renato de Oliveira Prata, como vencedor na categoria Poesia, com o livro"Mar Interior".

Além do premiado “Mar interior”, em vias de publicação pela Coleção  do Selo João Ubaldo Ribeiro da  FGM - Fundação Gregório de Matos, Renato Prata teve publicados os livros:
 Sob o cerco de muros e pássaros, Poesia, Prêmio Braskem Cultura e Arte. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado; Braskem, 2003;
 A Quinta Estação. Salvador : Ed. do Autor, 2007;
 A Pulseira do tempo. Ilhéus, BA: Mondrongo, 2012.

Este último, trata-se de obra que recupera a tópica clássica da mudança, contextualizada na particular relação com a linguagem que forja beleza em horas amargas de abertura à consolidada existência do autor: o poema a sobrepor-se à nossa condição de seres no tempo. Neste seu terceiro livro o poeta confirma a sua sensibilidade nunca se entregando aos modismos que apenas fazem com que a poesia, em certos casos, não seja mais que o resultado de uma liberdade que beira o vulgarismo. Dessa forma, o poeta edifica poemas de múltiplas configurações, partindo do verso livre, passando pelas redondilhas, até chegar ao decassílabo com enorme desenvoltura.

Já em 2007, quando da recepção da sua segunda coletânea de poesia, Cyro de Matos assim se expressou:

De novo percebo  as qualidades  de um discurso  que vaza lucidez,  já antes revelada em "Sob o cerco de muros e pássaros". Pulsando por várias extensões do eu lírico, em procedimentos de teor  filosófico,  para não se falar nas incursões expressionais metalinguísticas, manifesta-se com imagens  que se ajustam  a uma inventiva formal que só os bons poetas dominam. Contra o silêncio emerge penetrante  do que importa deixar-se ficar, sentir e decifrar. Revela, em sua legítima impressão digital,  sinais que verberam solidões, estados de alma por entre cenas do cotidiano, transes e memórias de quem  sabe ser isso a veia e o veio para dialogar com o outro neste difícil gesto do existir. (MATOS, 2007, Acervo autor).

OUTRAS PARTICIPAÇÕES LITERÁRIAS DO AUTOR:

Painel Brasileiro de Novos Talentos - 20 (Rio de Janeiro, Câmara Brasileira de Jovens Escritores, 2ªed. 2003); Poetas da Bahia - II (Salvador, Ed. Expogeo, 2003); Outros Riscos, coletânea dos 40 selecionados Livro do Prêmio Damário DaCruz de Poesia. Salvador : Fundação Pedro Calmon/ SecultBA e Quarteto Editora, 2013. 

Poema inédito, presente no livro premiado:
                          

OCEANÁRIO

Não o barco de casco transparente
Nem a piscina natural e rasa
Menos o parque aquático
Com sua estrutura de ruídos.
Bastava um tanque de vidro
Ou silencioso e bastante aquário
Simples miniatura desse mar interior
Onde, a seco, possa atingir-me
Em surpresa de memória submersa.
Eis a metáfora, a mais próxima
Que me afunda o olhar
Errante e pesquisador
Ora insciente de meus limites
Nesse abismo cristalino.
(PRATA, Mar Interior. Selo João Ubaldo Ribeiro, 2014) 

O ESCRITOR nasceu em Itabuna, BA, no ano de 1937. Na idade que atingiu acredita que a poesia sempre foi uma dimensão presente em toda a sua existência, não obstante uma certa timidez o mantivesse reverentemente distanciado da expressão poética. Durante a mocidade, achava-se destinado à prosa: sua mais alta pretensão. Assim é que colaborou como ensaísta naRevista Afirmação (nº 2, 3,4), dirigida pelo professor Hélio Rocha, no início dos anos 60, em Salvador. Jubilado de seus encargos profissionais, lançou-se a fazer poesia, seguindo instâncias de inspiração, que se diria represada por um longo tempo. Finalmente, logrou produzir uma obra poética que se encontra à espera de divulgação, apenas iniciada. Frequentou a Oficina de Criação Literária, conduzida pela escritora Maria da Conceição Paranhos. Participou de Antologias para as quais teve poemas selecionados: Sob o cerco de muros e pássaros, Poesia, Prêmio Braskem Cultura e Arte. Salvador : Fundação Casa de Jorge Amado; Braskem, 2003; A Quinta Estação. Salvador: Ed. do Autor, 2007; A Pulseira do tempo. Ilhéus, BA: Mondrongo, 2012.
 Renato Prata é Bacharel em Direito e pertence à Academia de Letras de Itabuna – ALITA,cadeira nº20.

Heloísa Prazeres

(Professora do Instituto de Letras da UFBA, aposentada. Ensaísta, publicou Temas e Teimas em narrativas baianas do Centro-Sul. Salvador:  Secult/ Unifacs/ FCJA, 2000. Neste ano, publicou o livro de poemas  Pequena história. Salvador: Quarteto. Consultora editorial, revisora e tradutora. Membro efetivo daABRATES).

OS CULPADOS E AS CERTEZAS


Por João Cesar de Melo
 
Como um delinquente bêbado, pouco mais da metade da população decidiu continuar acelerando inconsequentemente na mesma curva que seus vizinhos capotaram. Capotará também, porém, levando consigo a outra metade da população que o acompanha sentada à sua direita, no banco do carona.

Devemos ter pena dessa outra metade? Devemos vê-la como inocente? *Não.* Apesar de sua lucidez e honestidade, ela sempre foi passiva, tanto, que virou cúmplice de sua própria tragédia. Foi covarde. Teve medo de impor limites àqueles que pediram e depois assumiram o volante.
Os culpados pela reeleição de Dilma:

Fernando Henrique Cardoso por sua tolerância com as sabotagens, ofensas e calúnias que sofreu durante seu governo, o que soou aos ouvidos do PT como uma permissão para continuar com aquela estratégia de se chegar ao poder.
 
Qual foi sua atitude diante dos falsos dossiês sobre sua vida? Nenhuma.
 
Qual foi sua atitude com aqueles que invadiram, depredaram e saquearam (com apoio de Lula) a fazenda de sua família? Nenhuma.
 
Fernando Henrique Cardoso não foi homem nem para defender sua esposa (quem dedicou sua vida a projetos sociais) das calúnias que sofreu.
 
Nas três eleições seguintes, José Serra e Geraldo Alckmin concorreram à presidência sem bater no PT afundado em casos de corrupção e permitindo que Lula e Dilma pejorassem as privatizações de FHC.
 
Nesses 12 anos de governo petista, o PSDB não apenas fez uma oposição frouxa, mas assistiu passivo o PT promovendo uma massiva campanha de desconstrução do governo de Fernando Henrique Cardoso.
 
Enquanto os tucanos tentavam conquistar votos exibindo a beleza de suas penas, a imprensa e a Justiça também se continham diante dos desvios e afrontas da esquerda liderada pelo PT.
 
Temendo serem vistos como a continuidade da postura antidemocrática do regime militar, a maior parte dos jornalistas, dos meios de comunicação, dos promotores e dos juízes deram espaço e liberdade para o movimento socialista divulgar suas ideias, por mais absurdas que fossem Lula construiu carreira pregando a espoliação do capital e da propriedade privada.
 
Viram, passivos, o PT sendo preenchido por aqueles que defendiam o alinhamento do Brasil com todos os líderes da extrema esquerda latino-americana.
 
Ignoraram o Foro de São Paulo.
 
Assistiram o PT acolhendo e projetando politicamente ex-guerrilheiros e comunistas declarados.
Livraram muitas e muitas vezes o PT e sua militância do peso da lei para evitar serem taxados de repressores.
 
Obviamente, artistas e intelectuais também passaram a endossar todas as ações de Lula e do PT por vê-los como um poema revolucionário que levaria progresso ao país.
Sustentando esta tolerância irresponsável estavam pequenos empresários, profissionais autônomos e assalariados comuns que tentavam construir suas vidas por si mesmos, por meio de seus esforços e talentos.
 
Mesmo sentindo a faca estatal lhe cutucando o pescoço com cada vez mais força por meio de impostos e burocracias, mantiveram-se indiferentes aos absurdos do governo por... não gostar de se manifestar sobre essas coisas de política; covardia que permitiu aos cretinos e canalhas ditarem o caminho que o Brasil seguiria.
 
Aqui estamos, assistindo uma ex-guerrilheira comunista sendo reeleita Presidente da República, ovacionada por uma militância que prefere ostentar bandeiras do PT em vez de bandeiras do Brasil.
 
Aécio Neves e seus eleitores foram bravos, porém, tardios. Levantaram-se apenas quando o PT já estava com a maior parte da máquina estatal trabalhando para si. Depois de tantos anos sendo complacentes com as boas intenções e com os métodos petistas, agora sentem o amarguíssimo gosto de se verem condenados a serem meros financiadores de um projeto ideológico.
 
Gabeira, Gullar e outros intelectuais demoraram demais para se posicionar contra os absurdos do PT.
 
Como símbolo da covardia da metade não corrompida do Brasil, aponto Joaquim Barbosa. Mesmo sendo reconhecido pela população como um herói por seu posicionamento no processo do Mensalão, retirou-se covardemente de cena logo quando a sociedade mais precisava dele. Foi ameaçado e caluniado de todas as maneiras pelo PT, mesmo assim se manteve distante do processo eleitoral. Teriam bastado duas ou três manifestações públicas dele em apoio ao candidato do PSDB para Dilma perder muitos votos. Mas não... Joaquim Barbosa não quis se meter na política. Prezou sua imagem. Foi covarde.
 
Infelizmente, foram em vão os esforços e a coragem das poucas pessoas que nestes anos todos denunciaram os absurdos do PT. A certeza que tenho é que a metade não corrompida da sociedade voltará à sua covarde e histórica reclusão enquanto o PT acelerará a concretização de seu projeto de poder; e ninguém poderá acusá-lo de ter nos enganado.
 
Todos os seus objetivos sempre foram muito claros. Suas ações, seus pronunciamentos, suas alianças... Nada foi escondido.
 
Dilma Rousseff deixou bem claro que não mudará a condução da economia, que não enxugará a máquina pública, que não tirará nenhum companheiro das estatais, que não deixará de financiar projetos em Cuba e na Venezuela. O Brasil vai quebrar, pois o PT precisa que quebre.
Quanto pior for a situação do país, Dilma terá mais justificativas para intervir na economia, na justiça, na imprensa e na liberdade das pessoas.
 
O PT quer tirar o poder político e econômico da classe média para torná-la dependente do Estado. Os ricos que não forem embora se aliarão ao partido. Anotem:
 
1.   Dilma forçará sua reforma política para transferir poder do Legislativo
para o Executivo e para os movimentos sociais ligados ao PT;
2.   Perseguirá, sem pudor, toda a Justiça e imprensa não alinhadas ao PT,
anulando os processos que estão em curso, blindando Lula de toda e qualquer acusação;
3.   Remodelará a constituição de modo que preserve o PT no poder;
4.   Colocará sua militância na rua para intimidar qualquer manifestação da
sociedade independente;5.   Efetivará as diretrizes do Foro de São Paulo, institucionalizando um
bloco socialista de ajuda mútua entre Cuba, Venezuela, Bolívia e Argentina.
 
Adorarei reconhecer, daqui uns anos, que minhas projeções estão erradas mas, hoje, não me é possível enxergar como processos distintos o que acontece aqui e o que aconteceu na Venezuela, aonde a maior parte das pessoas que agora vão às ruas protestar contra o governo foram às ruas apoiá-lo anos atrás. Arrependeram-se tarde demais.

Arrependeram-se não como um delinquente depois da capotagem.
 
Arrependeram-se como um carona que permitiu ser conduzido por um bêbado irresponsável.

Agora, lá estão os venezuelanos, presos a uma maca e sobrevivendo de soro.
 
Logo, o Brasil será um *"país de arrependidos."

Sobre o autor: João Cesar De Melo - Arquiteto, artista plástico e escritor. Escreveu o livro “Natureza Capital”.