Eduardo Portella: Pensador da Cultura brasileira

Eduardo Portella: Pensador da Cultura brasileira
por  Cyro de Mattos
                                                          
                                                                                           News Sarapegbe 26 maggio 2017

Eduardo Portella  era um desses intelectuais atuantes que argumentava com lucidez sobre assuntos de nossas letras e cultura. Graduado pela Faculdade de Ciências Sociais e Jurídicas da Universidade Federal de Pernambuco. Professor Emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro,  lecionou até os últimos dias de vida. Ministro da Educação no  governo do Presidente João Figueiredo, lutou pela anistia, foi demitido por ter  dado apoio à greve dos professores  universitários.

Seu discurso de vida dirigiu-se para os parâmetros de um humanismo solidário com base na ordem da verdade. Foi interditado por aqueles que pensam ser suficiente para valer na dotação humana   o poder que você exerce com o cargo. Dele é a célebre frase: “Não sou ministro, estou ministro”, para afirmar com isso, no tácito entendimento da palavra enunciada, que tudo é transitório ante o eterno que fica.

Crítico, pesquisador, conferencista, editor, advogado e político brasileiro. Ocupou a presidência da Conferência Mundial da UNESCO. Foi  diretor das  Edições Tempo Brasileiro, divulgando Heidegger no Brasil e o Formalismo russo de Yuri Tynianov.  Membro titular da Academia Brasileira de Letras, recebido por Afrânio Coutinho.  Naquela instituição recebeu Alfredo Bosi, Cândido Mendes de Almeida, Carlos Nejar, Celso Furtado, Ivan Junqueira, João Ubaldo Ribeiro, Lígia Fagundes Telles, Merval Pereira e Zélia Gattai. 

Propôs um método crítico de base hermenêutica, teórica e filosófica. Sem inclinações para a interpretação da obra literária com base na inserção de autor e obra nos  períodos históricos, nem decorrente de gratuitas impressões sobre a massa do que foi escrito,  mas em função do estilo em que o autor se funda e marca sua obra  na expressividade da escrita, tanto na forma  como no conteúdo.

Esteve  à frente dos níveis usuais,  sendo o responsável pela introdução da análise estilística nas letras brasileiras. Filtrou os pressupostos, métodos  e ferramentas dos espanhóis Carlos Bousoño  e Dámaso Alonso, propondo  o julgamento como ato final na análise  literária   após a captura do fundamento  que transita  entre linguagem e uso da lingua,  responsável pela literariedade. Este fundamento é a visualização do entretexto.  Sua tese de doutorado foi  publicada sob o título Fundamento da Investigação Literária (1973), refundida em 1974. 

Deixou um legado constituído de 23 obras e, entre elas, Dimensões I (1958), Dimensões II (1959), África colonos e cúmplices (1961), Literatura e realidade nacional (1963), Dimensões III (1965),  Teoria da comunicação literária (1970), Vanguarda e cultura de massa (1978) e A Sabedoria da Fábula (2011). Recebeu prêmios literários  e títulos honoríficos de muito prestígio, como Gran Cruz de la Orden del Mérito Civil, Madri (2001), Doutor Honoris-Causa, Universidade Federal da Bahia (1983), Gran-Cruz de la Orden Civil de Alfonso X, el Sabio, Madri (1980), Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco, Brasília (1979).       

Aprendi muito com ele.  Acompanhou  minha carreira literária desde o nascimento, há cinqüenta anos. Prestigiava-me. Prefaciou meu livro Cancioneiro do Cacau, que me deu  quando inédito o Prêmio Nacional  de Poesia Ribeiro Couto da União  Brasileira de Escritores (Rio) e, quando   publicado,  o Segundo Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália,  o Terceiro Prêmio Nacional de Poesia Emílio Moura da Academia Mineira de Letras e foi finalista do Jabuti.

É dele essa observação sobre o livro: “ Mas o seu poema  não irrompe de qualquer abalo sísmico, ou de qualquer intempérie facilmente previsível. Ele eclode da história revigorada, nasce do fundo do homem  e das coisas, da sua raiz em curso, da origem protegida  do menor sedentarismo... Cyro de Mattos se compraz em revalorizar a raiz, e reverenciar a origem, em reconhecer  o fundamento   radicalmente imune  ao fundamentalismo. O poeta enraizado e, no caso, porque enraizado, generoso, recorda para a frente.  Como quem retira dos filtros do passado,  e dos detectores de metais do presente, lições,  mesmo que enviesadas, para a construção do amanhã.” 

Que melhor prêmio poderia receber autor e obra do que essa opinião do enorme ensaísta? Humanista, leal, elegante, sóbrio, companheiro, intelectual de primeira grandeza. A última vez que estive com ele, na Academia Brasileira de Letras, quando fui proferir  palestra sobre os mares trágicos de Adonias Filho, disse-me que estava escrevendo um livro sobre Adonias Filho e outro sobre Jorge Amado.                

Baiano de Salvador,  nascido em 8 de outubro de 1932, Eduardo Portella passou desse plano terrestre para outra dimensão no  dia 2 de maio deste ano.
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Bibliografia 
a cura di Antonella Rita Roscilli
                                                                                    Critica
50 Anos do Dimensões I. (org. Cláudio Murilo Leal / PEN Clube do Brasil e Leodegário de Azevedo Filho / Academia Brasileira de Filologia e o Editor José Mário Pereira). Rio de Janeiro, 2008).
Homenagem a Eduardo Portella (pelos seus 70 anos). Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras, 2003. 
NEJAR, Carlos [...et al.]. Eduardo Portella: ação e argumentação. Márcio Tavares d'Amaral (Org.) Rio de Janeiro: Antares, 1985.
SEPÚLVEDA, Carlos Alberto . Eduardo Portella: a Linguagem solidária. Rio de Janeiro: Topbooks, 2003.

                                                                   Opere di Eduardo Portella 
Aspectos de la poesia brasileña contemporánea.  Madrid, Guadalupe, 1953.
Dimensões I (crítica literária). Rio de Janeiro, José Olympio, 1958; 2a. edição, Agir, 1959.
José de Anchieta (poesia). Rio de Janeiro, Agir, 1959.
Dimensões II (crítica literária). Rio de Janeiro, Agir, 1959.
Política externa e povo livre. São Paulo, Fulgor, 1961.
Nota prévia a Cruz e Sousa. Rio de Janeiro, Anuário Brasileiro de Literatura, 1961.
África: colonos e cúmplices.  Rio de Janeiro, Prado, 1961.
Dimensões III.  Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1965.
Literatura e realidade nacional. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1963; 2a. edição, 1971.
Teoria da Comunicação Literária.  Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1970; 2a. edição, 1973.
Fundamento da investigação literária.  Rio de Janeiro, Edição do Autor, 1970; 2a. edição, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1974.
Teoria Literária (planejamento, coordenação e co-autoria). Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1975; 2a. edição, 1976.
O paradoxo romântico.  Rio de Janeiro, edição do autor, 1976.
Vanguarda e cultura de massa.  Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1976.
A letra viva da universidade.  Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1978.
Educação brasileira: opção social.  Rio de Janeiro, Escola Superior de Guerra, 1980.
Educação e Estado.  Brasília, Ministério de Educação (MEC), 1980.
Retrato falado da educação brasileira.  Brasília, MEC, 1980.
Universidade, agente de qualidade.  Fortaleza, Universidade Federal do Ceará (UFCE), 1980.
Participação e espírito público.  Rio de Janeiro, Academia Brasileirade Letras (ABL), 1981.
Democracia transitiva.  Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1983.
Confluências: manifestações da consciência comunicativa.  Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1983.
O intelectual e o poder.  Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1983.
Brasil à vista.  Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1985.
Ação cultural e diferença nacional.  Rio de Janeiro, Conselho Federal de Cultura, 1987.
Un autre partage (et alii.).  Paris, Erès, 1992.
People, cities, nature: culture today (et alii.).  Paris, UNESCO, 1992.
Entre savoirs. Interdisciplinarité en acte: enjeux, obstacles, résultats (et al.).  Paris, Erès, 1992.
México: Guerra e paz. Ed. Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro: 2001.
Jorge Amado: a sabedoria da fábula. Ed. Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro: 2011



Cyro de Mattos. Nasceu em Itabuna, Sul da Bahia. Ficcionista,  poeta,  cronista, autor de livros para jovens e crianças, organizador de antologia e coletânea. Já publicou  mais de 40 livros individuais,  e,  entre eles, Os Brabos, contos,  Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, Os Ventos Gemedores, romance, Prêmio Pen Clube do Brasil,  e O Menino Camelô, poesia infantil, Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes.  Seu Cancioneiro do Cacau deu-lhe  o Segundo Prêmio Internacional de Literatura  Maestrale Marengo d’Oro,  Gênova, Itália, para obra estrangeira publicada, e o Prêmio Nacional de Poesia  Ribeiro Couto da União Brasileira de Escritores (Rio). Menção Honrosa do Prêmio Jabuti, com Os Recuados, contos, classificado entre os quatro finalistas do  Concurso Internacional de Literatura Plural, no México, com a narrativa Coronel, Cacaueiro e Travessia. Jornalista e  advogado aposentado. Tem livros pessoais publicados em Portugal (4), Itália (3), Alemanha (1) e França (1).  Publicado com  poema e com to  nos Estados Unidos, Espanha, Portugal, Itália, Dinamarca,  México, Rússia   e França. Participou como convidado do III Encontro Internacional de Poetas da Universidade de Coimbra, Portugal,  em 1998, Feira do Livro de Frankfurt, em 2012, e XVI Encontro de Poetas Iberoamericanos, da Fundação  Salamanca Cidade de Cultura e Saberes, Espanha, em 2013. É membro da Ordem do Mérito da  Bahia, Acadermia de Letras da Bahia e  do Pen Clube do Brasil.  Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz, no Sul da Bahia.   

Publicado em:
 http://www.sarapegbe.net/articolo.php?quale=127&tabella=nuovi_percorsi#portoghese

O Mundo É Uma Criança Com Palhaço e Lambança



Cyro de Mattos


No domingo azul eu vou.
Vou ao circo do Perneta,
Sou um grande torcedor
Do palhaço Maçaneta
Que é chorão e domador,
Pugilista e trapezista,
Tem calombo na careca
E faz tram com a trombeta.
Vou vibrar com Baioneta,
O mais doido jogador
Que eu já vi neste planeta,
Com o canhão enganador
Ele acerta cada bola
Bem no alvo lá no alto
E aos gritos da galera
Marca mais de cem mil gols
Deixando mudo e trombudo
O elefante marcador.
Vou brincar com Mexe-Mexe,
Palhacinho bem legal,
É preciso ver pra crer
Do que ele é capaz
Quando pega o tamborete
E de jeito fulminante
Faz sumir da sua frente
O gigante Barrabás
Numa cena sem igual
E depois bem serelepe
Canta e dança e mexe-mexe
E com seu revólver Bum
Que dá um tremendo estampido
Quando ele aperta o gatilho
Adivinha o que faz?
Dispara para todo lado
Balas de mel e chiclete.







II FESTIVAL LITERÁRIO DE ILHÉUS, palestra de F. Mattos



Ilhéus: Florisvaldo Mattos e Tica Simões, escritora e professora da UESC,  falam sobre "Caligrafia Poética Sul-baiana"
II FESTIVAL LITERÁRIO DE ILHÉUS (26.04.2017)

Palestra de Florisvaldo Mattos

Nesta navegação de longo curso para uns e curto para outros, que é o ato de publicar livros, acabo de lançar o meu oitavo livro de poesia, portando 97 inéditas elocuções de fundo lírico e outras tinturas que namoram afoitamente o épico. Embora a idade não me justifique, sou de publicar livros minimamente, quase esporádicos. Depois de Poesia Reunida e Inéditos, em 2011, e Sonetos elementais, em 2012, resolvi invocar novamente a paciência dos meus raros leitores com novo volume de versos, intitulado Estuário dos dias e outros poemas, fruto dessa longa, porém magra aventura editorial.
Há poucos meses, postando eu alguns inéditos na internet, o poeta Antônio Brasileiro, um dos astros da geração posterior à minha, externando a cordialidade e a generosidade que lhe favorece o recanto bucólico onde vive, em Feira de Santana, sua pátria sertaneja, dizia-se surpreso de meu desígnio em não me afastar por completo da poesia.
- “Oitentão que é, isso é mais que admirável” - espantava-se ele.
Perdoando-lhe o excesso, curvei-me, sensibilizado, diante da bem-humorada gentileza, ao ver ali quase repetir-se atitude benigna de Jorge Amado, 61 anos antes, quando publiquei Reverdor, meu primeiro livro, ao confessar, em comentário lido durante sessão da Academia Brasileira de Letras, quão contente se sentira com a descoberta, segundo ele, de um poeta e uma poesia, num tempo “de tanta facilidade e tamanho engano de rapazes tão sem verdade e sem força de criar”.
Não sei se o futuro absolveu a opinião do grande romancista, para muita honra meu conterrâneo grapiúna. A sorte fora lançada.
Ao longo da vida, tenho sido mesmo um tanto avaro em publicar, tanto quanto em escrever literatura. Se cuidadoso na poesia, ainda mais o fui em relação a outros gêneros literários, pois, em prosa, só escrevi e publiquei um conto e uma peça de teatro, esta levada em 1974, no Teatro Vila Velha, em Salvador, pelo saudoso diretor Sóstrates Gentil, versando um tema alojado justamente na remota atmosfera de lutas de coronéis e jagunços em terras do cacau. Abri uma exceção, assim mesmo parca, apenas para a ensaística em literatura, arte e questões sociais.
Ultimamente, tenho me fixado mais na poesia, e em leituras e releituras do que me agrada. Ao longo do tempo, fui para com ela um tanto adúltero, escudado e insuflado por duas razões básicas: a primeira teve como marca indevassável o grau de autocrítica de que desde jovem me tomei, diante da ânsia de escrever o que pensava e sentia. Repetindo o argentino Jorge Luís Borges, creio que a poesia e o poema se apresentam ao poeta e ao mundo como uma forma de magia. Como ambos dependem da linguagem, casam-se pensamento e imagem por meio da palavra para alcançar a emoção, que é, por fim, o que aguarda o leitor, sem que com isso se despreze a forma.
Dizia Ezra Pound que a técnica é a prova da sinceridade de um poeta. Concordando com ele, tenho para mim que sinceridade e qualidade se completam no fazer poético.
A outra razão que me pôs a poesia em plano secundário foi o absorvente mergulho de 53 anos no exercício cônscio e fiel do jornalismo profissional, desde que, no mesmo dia da solene formatura em Direito, frustrando os sonhos de meu saudoso pai, um denodado comerciante rural que exercia seu oficio no fundo de matas e roças de Itacaré, eu já compunha a redação de um novo jornal, que surgira em Salvador, o Jornal da Bahia, optando por ser jornalista, como uma fatalidade, para toda a vida.
Por fidelidade a uma profissão, optei por ser, assim, durante anos, em matéria de poesia e literatura, embora persistente leitor, um quase criador secreto, desses que levam a vida esmerando-se em guardar o que escrevem, elegendo uma gaveta como o seu mais paciente e fidedigno leitor, ou como outros que se conformam, resignadamente, em publicar um único livro em vida, como foi o caso de um de nossos maiores poetas, nascido em Belmonte, mas por muitas décadas vivendo em Ilhéus, o saudoso Sosígenes Costa. Pronuncio esse nome e me vejo compelido a abrir um parêntese, para evocar e registrar quão proveitosa foi para mim, ainda jovem, a relação de admiração, aprendizagem e amizade que travei com Sosígenes Costa, nesta cidade, que, para ele, brilhava “qual grande búfalo fosfóreo”.
Completado o curso de ginásio, vinha eu de Itabuna, para atender a duas imposições do momento: prosseguir nos estudos e cumprir o serviço militar obrigatório. Foi quando, já escrevendo e publicando poemas, em jornais, mas de fundamento romântico e rabiscos parnasianos, colegas e amigos me advertiram da existência em Ilhéus de um dos maiores poetas da Bahia e, logo, me emprestaram uma antologia de poesia baiana, editada no bojo das comemorações do quarto centenário de fundação da Cidade da Bahia, que trazia poemas dele. Lendo-o, fiquei curioso e empolgado e, logo, também, ansioso por conhecê-lo.
Quero aqui apenas relembrar o que foram essas amenas tardes de frequência na plácida sala de trabalho de Sosígenes Costa, como secretário da Associação Comercial de Ilhéus, abrindo-me os horizontes não só para outras esferas da poesia nacional, especialmente o modernismo, como para a poesia em si, e quanto disso dependeram as minhas opções futuras, dele auferindo um rico e vasto cabedal de experiência e saber que me chegava por meio de lúcidas palavras.
Esses momentos de tranquila conversação com o bardo de Belmonte foram resumidos em um capítulo de meu livro Travessia de oásis - A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa, publicado em 2004. A título de reminiscência, aqui transcrevo parte dessa convivência, mostrando fielmente o que significou para mim dialogar com um grande poeta em carne e osso.

“Tímido, penetrava eu naquele edifício de sóbria arquitetura e arremedos neoclássicos da veneranda Praça Eustáquio Bastos, para visita-lo, e lá permanecia seguidas horas. Mostrava-lhe poemas que escrevera ou publicara no Diário da Tarde, onde me acolhia a generosidade quase paternal do jornalista Octávio Moura, então diretor do órgão que ajudou a construir e propagar o prestígio da região do cacau. Ouvia seus comentários, suas ponderações, transmitindo-me conhecimento da arte da poesia e, principalmente, fazendo-me perceber maneiras de como melhor trabalhar com o verso.”
“Alto, aprumado e hígido, sempre de terno e gravata, em sua poltrona, tranquilo e reservado, nessas ocasiões, Sosígenes mais parecia um sacerdote em trajes profanos, a discorrer pausadamente sobre literatura e poesia. Por uma janela, à minha esquerda, o frescor da brisa que vinha do mar em direção à praça invadia a sala, com os perfumes de um pequeno jardim, onde eu supunha cultivasse ele as rosas, os crótons e os antúrios que minha vista alcançava.”
“De quando em vez, animado pelo clima da conversa, meu interlocutor abaixava-se, abria uma gaveta à direita de sua escrivaninha e de lá arrancava maços de papel amarelecido e gasta datilografia, alguns em manuscrito, e lia belos sonetos, todos àquela altura inteiramente inéditos em livro, embora andasse o poeta beirando, em 1951, já então os 50 anos. E, com alento, completava a leitura, levantando-se e dirigindo-se à biblioteca que organizara para a entidade, mas, no fundo, sempre supus, para si próprio, e de lá vinha sobraçando dois ou três livros de arte ou história da arte, em cujas páginas se detinha, comentando reproduções de obras de artistas de diferentes estilos, escolas e épocas.”
“Perplexo e enlevado, com os poemas que ouvia e lia, em manuscritos ou datilografados, auferindo sua linguagem e força imagética, e, também, com os livros de arte, cujo conteúdo e aparência eram para mim novidade. Apreciava e dali saía convencido dos rumos que deveria seguir doravante, em matéria de poesia e literatura, bem diversos das oportunidades de leitura e estudo, que, até bem pouco tempo antes, tivera, a apenas trinta quilômetros de distância, na cidade de Itabuna, de prósperos comércio e vida rural, porém de quase nenhuma ilustração estética. Afora o esporte, presidindo ao princípio do mens sana in corpore sano, a arte deveria ser algo estranho àquelas plagas de hábitos e costumes ainda rústicos.”

Aproveito para ler aqui um dos poemas dele, que constavam da antologia, justamente um dos emblemas de sua lavra poética, com a reiteração de versos, que é uma das marcas de sua criatividade, sem em nada prejudicar a expressão lírica, segundo o crítico José Paulo Paes, que editou sua obra completa, postumamente.

CREPÚSCULO DE MIRRA

Sosígenes Costa (1901-1968)

A tarde fecha a cintilante umbela.
Vêm os aromas como uma grinalda
ornar a sombra arroxeada e bela
e ungir os nossos sonhos de esmeralda.

Nuvens de mirra e oriental canela
formam na sombra a singular grinalda.
A tarde fecha a cintilante umbela
e o vento as asas do dragão desfralda.

A própria lua vem lançando aroma.
Nasce vermelha como a flor de um cardo
e sobre a mirra dos vergéis assoma.

E a noite chega no seu grifo pardo,
cheirando a incenso como o rei de Roma
e como Herodes recendendo a nardo.

(1927)

Após as obrigações de estudo e serviço militar, parti para Salvador com a mente prenhe de novas ideias e aspirações, e o corpo tomado de ânimos. E foi quando, após algum tempo, já na universidade, me engajei nas aspirações estéticas e vivenciais do grupo que iria depois chamar-se Geração Mapa, publicando poemas inicialmente na então aclamada revista Ângulos, produto das lucubrações estéticas do que restava do movimento Caderno da Bahia (1948-1955), que vigorara na década anterior, e também em jornais.
Esse movimento, cujo nome advinha da revista intitulada Mapa, que passou a editar, tinha como proposta básica consolidar o que não conseguira a geração anterior, que era, além de romper com a inércia cultural, cevada na renitência do conservadorismo, varrer, de uma vez por todas, o bolodório e o preconceito vigente contra a arte moderna, tendo como baliza a nova realidade nacional e internacional, defrontada com o esmaecimento dos reflexos do pós-guerra mundial e surgimento de um novo patamar na condução dos conflitos entre países. O mundo se pautava agora pela Guerra Fria, no confronto entre Estados Unidos e União Soviética.
Diferentemente de movimentos anteriores, o grupo de Mapa se abria também, sob a liderança de Glauber Rocha, para outras amplitudes, pois, além de poesia, literatura, artes plásticas e jornalismo, cultivava outras linguagens artísticas, como cinema, teatro, dança, editoração e arquitetura, e com esse fôlego firmou-se no cenário cultural baiano, mergulhando, com ações, criações e posturas, na caudal impelida pelas reformas que a administração do reitor Edgar Santos, então, fins dos anos 50, inícios dos 60, imprimia na Universidade da Bahia, possuindo contornos de uma verdadeira revolução cultural.
Atuando em várias frentes, além da revista Mapa, o grupo criou seu próprio selo editorial, as Edições Macunaíma, que publicava livros, álbuns e plaquetas;  fundou uma companhia cinematográfica, a Iemanjá Filmes, que abriria caminho ao movimento do Cinema Novo, projetando-o nacionalmente, em ousado e fecundo processo que desaguaria na realização de filmes paradigmáticos, como Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade e o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha, já antes autor do longa Barravento e do curta O Pátio; assim como outras realizações de destaque neste segmento cultural, entre as quais o documentário Memória do Cangaço, de Paulo Gil Soares, que escreveu também uma peça de teatro, Evangelho de Couro, versando sobre a tragédia de Canudos, marco e exemplo do apoio e incentivo do grupo ao pioneirismo vitorioso da Escola de Teatro da Universidade da Bahia. No campo das artes plásticas, organizou exposições de pintura, escultura e gravura, não só de seus próprios artistas, como de outros, contribuindo para o incremento não só do mercado de arte como para o surgimento de várias galerias de arte em Salvador.
Hoje, confesso sentir imenso orgulho por pertencer a esta geração, cujo início de atividades dentro da cena cultural baiana completa redondos sessenta anos, neste 2017, com os espetáculos de poesia teatralizada levados no auditório do Colégio da Bahia, as chamadas Jogralescas, que açularam os ânimos, tanto de progressistas, como também os de espíritos ainda presos a um passado, que desejavam jamais devesse passar.

Direi algumas palavras sobre esta minha magra trajetória editorial.
Meu primeiro livro, Reverdor, publicado em 1965, por incentivo e empenho de companheiros de geração compreendia uma coletânea de poemas em que eu advertia de entrada que tinham sido reunidos para publicação, “tendo em vista uma unidade temática de base agrária”, querendo com isso transmitir a ideia de que a poesia deveria se distanciar das angústias, tormentos e atribulações urbanas, buscando purificar-se com o que emanava da vida rural e atividades agrárias. Estava imbuído da ideia de que a vida urbana começava então a ser fonte de perturbações mentais, mais apropriadas ao tratamento psicanalítico. As palavras deveriam transmitir um estado de pureza na formulação do poema. Com isso, deixei de fora poemas de produção anterior, que só iriam aparecer como parte de um terceiro livro, sob o título de Noticiário da aurora.
Leio um poema deste primeiro livro.

A CABRA

Talvez um lírio. Máquina de alvura
sonora ao sopro neutro dos olvidos.
Perco-te. Cabra que és já me tortura
guardar-te, olhos pascendo-me vencidos.

Máquina e jarro. Luar contraditório
sobre lajedo o casco azul polindo,
dominas suave clima em promontório;
cabra: o capim ao sonho preferindo.

Sulca-me perdurando nos ouvidos,
laborado em marfim – luz e presença
de reinos pastoris antes servidos –

teu pelo residência da ternura
onde fulguras na manhã suspensa:
flor animal, sonora arquitetura.

(1965)

No segundo livro, Fábula civil, de 1975, opera-se um salto, impulsionado pelo cenário de trevas e opressão que se estabelecera no país, sob o guante da ditadura, instalada em 1964. Não havia então outra saída. Espelho de uma realidade pulsante, mas embebida no martírio, a poesia irá refletir o que a censura permitiria perceber-se, pela voz da mídia e pelo trânsito dos assombros, projetado eficazmente no espaço urbano, prevalecendo uma entonação entre o dramático e o épico, mas sem perder de vista a pulsão lírica, em versos medidos e formas fixas. E, como em todos esses casos, a construção poética se funda mais no alusivo do que no descritivo, num jogo de equivalências intuitivas, por se tornar o poeta uma soma das contingências em que se misturam o tempo, a terra e as gentes.
Leio o poema que inicia Fábula civil.

CLARO
           
Pelas tardes de fogo homens
pedras movem com capacetes
de sombra mergulhados
em ruas de verão e sal.

Nada me diz que as coisas
se passam como me dizem
além
da parede de vidro que nos divide
aquém
das algemas de sono que nos unem.

Sou como posso fiel
a meu projeto mesmo
que de pronto não o achem
meus olhos – anônimos
minhas mãos – rachadas
meus lábios – rebeldes

nos espaços burocráticos
nas relações de amizade
nos desertos duros da fome.

Liberdade é meu ser
e tempo. É o meu nome.
Razão – o meu sobrenome.

(1975)


O terceiro livro, A caligrafia do soluço e poesia anterior, só aparecerá quase 20 anos depois, em 1996, sem perder de vista a memória de tempos sombrios e as experiências amargas, mas com a inclusão de poemas publicados anteriormente que lhe conferiam uma atmosfera de animação e esperança.
Mares anoitecidos, meu quarto livro de versos, cuja publicação em 2000 integrou a série de iniciativas editoriais voltadas para os 500 anos do Descobrimento, reúne poemas de conotação dramática e histórica, centrados no princípio de inspiração clássica de que há mais poesia na história dos vencidos, isto é, na tessitura de um malogro, do que nas alegrias e fosforescências dos vencedores. Então, preferi ver o episódio que marcou dramaticamente a história da Bahia, nos anos 1624 e 1625, mais pelos olhos dos derrotados e expulsos holandeses que dos vitoriosos portugueses, situação que, a meu ver, na época, não apresentava diferença, desde que os portugueses, antes, tinham sido também invasores da chamada Terra Brazilis.
Leio um poema de Mares Anoitecidos.

ROCHEDOS

Meu coração agora te pertence
lua que vaga sobre esses rochedos,
eles mesmos reflexos de longínquos
muros, agora esfinges a espreitar
distâncias, a arrimar arquitetura
nostálgica de cercos, a exumar
brasão latino ou artifício mouro.
Meu coração agora vos pertence,
graves rochedos, arsenal de fúrias,
que são artes do tempo, vosso algoz:
em quieta hora da tarde ou noite morna,
decreto imemorial que a espuma lavra,
a ruína e morte, e a solidão, alude
o som da água que ruge a vossos pés.

(2000)

Em 2001, publiquei uma antologia intitulada Galope amarelo e novos poemas, para em 2011 dar a público Poesia Reunida e Inéditos, em volume de quase 400 páginas, a que se seguiu o de Sonetos elementais – Uma antologia, em 2012, e, por fim, agora, Estuário dos dias e outros poemas.

Creio que devo referir-me um pouco a esses meus exercícios de magia verbal. Sempre escrevi poesia, além das cogitações que me são próprias, à luz de grandiosos exemplos, na presunção de que, manejando com palavras, o poeta não pode dispensar o som e o ritmo, que lhes são próprios; e por isso ainda vejo como não superada a recomendação de Ezra Pound de que o poeta, além da obrigação de ir direto ao objeto cogitado, deve inundar seu enunciado de palavras carregadas de significado, eliminando todo e qualquer elemento supérfluo, sem descuidar-se da cadência musical. Isto é, para mim, a ressonância de advertência contida em verso famoso do francês Verlaine, - “de la musique avant toute chose” (“a música antes de tudo”). Dentro dessa moldura, ouso defender que a elocução em poesia é basicamente rítmica, com uma inclinação para o musical, no encadeamento e na entonação das palavras.

Em relação a meu último livro, Estuário dos dias e outros poemas, constituído em grande parte de poemas lavrados em versos decassílabos, gostaria de transcrever palavras da apresentação, que lhe fiz, em muito justificadoras de meu processo criativo, que consiste em escrever versos sempre levando em conta o som e o ritmo das palavras.

“Embora possa a muitos parecer uma excentricidade ou, talvez, uma nostalgia de abominado rastro parnasiano-simbolista, considero-o uma espécie de tributo à forma, pois alimento intimamente a convicção de que, originário da Itália, foi o verso decassílabo que civilizou a poesia, não apenas a portuguesa ou a hispânica, mas ocidental. Dentro do universo lusófono, este verso possui extraordinária longevidade, desde o momento em que Sá de Miranda, numa época de sagas cavalheirescas, voltando de uma temporada na Itália (1521-1526), introduziu a forma do soneto em Portugal e trouxe o decassílabo como seu leal escudeiro.”
A esse respeito, subscrevo o que diz o excelente jornalista e ensaísta João Carlos Teixeira Gomes, meu companheiro de geração e confrade na Academia de Letras de Bahia, por sinal, também poeta e exemplar sonetista, que classifica, em recente livro, este consagrado verso como “um operador poético poderoso”, pelo tanto que possui de “harmonioso e melódico”. E assim o justifica: “No restrito espaço das dez sílabas, o decassílabo se expande na direção de um universo de modulações rítmicas e melódicas que parecem infindáveis”.

No encerramento desta minha fala, quero ler um poema ainda inédito, que, no fundo, é o modo com que procuro me redimir de, tendo escrito poemas de fundo memorialístico em homenagem a Uruçuca e a Itabuna, jamais ter escrito um que reverenciasse a cidade de Ilhéus, onde vivi e tive momentos de alegria e felicidade juvenil. Pode parecer um chiste, mas o fato é que, lendo eu um poema de Ruy Espinheira Filho, deparei-me com uma estrofe em que ele invocava a sua memória juvenil, lamentando nunca ter ido à praia, nem tampouco visto o mar. Tão íntima confissão me tocou e, então, escrevi um poema celebrando o momento em que Ilhéus me proporcionou ver pela primeira vez o mar, aos 12 anos de idade.
Ei-lo, construído em sétimas e versos de sete sílabas.

A DESCOBERTA DO MAR

                              Não, não íamos à praia.
                                    (...)
                                    Pois é, também não víamos o mar
                                    E as lagoas não compensavam.
                                                           (Ruy Espinheira Filho)

Eu também não via o mar.
Via o ribeirão e o brejo.
Vi depois um manso rio,
Onde aprendi a nadar.
Sonhava noites a fio.
No fundo havia o desejo
De sair e ver o mar.

Foi graças ao trem-de-ferro,
Que um dia parou na praça,
Com intenção de me lançar
Por um caminho sem erro,
E me levou para o mar.
Até me dava de graça
O contrário de um desterro.

Falam mais alto o meu sonho
E toda a minha alegria,
Com gosto de navegar.
Levei um susto medonho,
Tamanho mesmo do mar;
Com cores de epifania,
Era maior que o meu sonho.

Meu pai levou-me a um bar,
Que não comporta miçanga
(Ardente nome: Vesúvio!),
Um éden diante do mar.
Corre pelo ar um eflúvio,
Traço um sorvete de manga,
Satisfaz-me o bom-mirar.

Vastidão de azul e verde,
A se perder no horizonte,
No rastro de branca espuma!
Quanta alegria em se ver
De longe o quanto se esfuma,
Qual doce correr de fonte!
Na vida quanto se perde...

Um dia escrevi louronda,
Palavra de amor concreto,
Em folha depois sumida,
Na esteira de doida onda.
Uma lição para a vida:
Hoje sei em que dialeto
Um dia escrevi louronda.

Água, terra, fogo e ar,
Trouxe ao menino a ciência,
E muito mais. Quando busco
Uma rima para mar,
Seja aurora ou lusco-fusco,
Cá me diz a experiência:
Não há melhor do que bar.

MUITO OBRIGADO.


Ilhéus: vista parcial,  em destaque a praça central, Catedral, o Bar Vesúvio, o Teatro Municipal e o Hotel Ilhéus Palace
Palestra pronunciada, na noite de 26.04.2017, no Teatro Municipal de Ilhéus, na abertura do II Festival Literário de Ilhéus, ao qual o palestrante compareceu, na condição de convidado e homenageado, seguindo-se uma mesa de debates sobre o tema “Caligrafia Poética Sul-baiana”, da qual também participou.

Posse de Silmara Oliveira- Nova Presidente da Alita
























SÔNIA MARON- DISCURSO

SôniaPosse de Silmara Santos Oliveira
                Câmara de Vereadores de Itajuipe
                          Biênio 2017/2019 – 19.04.2017

Exmo. Sr. Vereador Mateus Mattos, representando o Presidente desta casa de legisladores que nos recebe generosamente; Exmo. Sr. Vice-Prefeito de Itajuípe, Leandro Junquilho Cunha; autoridades presentes e representadas desta acolhedora cidade; Ilma. Sra. Profª Zélia Possidônio, representando o presidente da Academia Grapiúna de Letras, Ramiro Soares de Aquino; senhores convidados, meus queridos confrades e confreiras, meus conterrâneos de Itajuípe.

            Tradicionalmente o ritual das academias de letras é laico, dispensando a invocação  a Deus como costumam fazer alguns clubes de serviço, a exemplo do LIONS, ao qual pertenço e coincidentemente celebra este ano o centenário mundial. Vou ferir o protocolo acadêmico  neste momento em que transmito o comando da nossa instituição a uma confreira exemplar, invocando a proteção de Deus  ou que outro nome possamos dar à força superior que nos conduziu até este momento, com ânimo renovado, confiança no futuro e esperança de um convívio fraterno, leal e harmonioso, para que abençoe e proteja o biênio que hoje tem início e a trajetória de nossa academia e seus dirigentes.
            Cumpre esclarecer a escolha da cidade de Itajuípe  para a posse da terceira presidente da Academia de Letras de Itabuna, conhecida pela sigla ALITA. A decisão surpreendeu algumas pessoas menos avisadas e desligadas da memória da nossa região. Bastaria um único argumento para justificar a escolha: Adonias Filho, patrono da nossa academia, nasceu, viveu e amou Itajuípe como poucos dos seus filhos. Seria o suficiente se não tivéssemos outros poderosos argumentos: a presidente eleita, Silmara Santos Oliveira, é filha de Itajuípe e uma das referências intelectuais da cidade, como educadora e escritora. É ainda uma das maiores estudiosas da obra do escritor festejado no país e além fronteiras, devendo-se a ela a preservação da memória do seu conterrâneo mais ilustre. Assegurando a legalidade da escolha, o nosso estatuto, no art. 4º, in fine, amplia o alcance da ALITA na preservação da memória “da cultura de Itabuna e de toda a região Sul da Bahia”. E a presidente que ora se despede é também filha de Itajuípe, podendo apresentar a prova material da certidão de nascimento lavrada por Ottoni José da Silva e afirmar que o obstetra Montival Lucas cuidou para que chegasse ao mundo sã e salva.
            Esta reunião festiva tem a finalidade de transmitir o cargo de Presidente da Academia de Letras de Itabuna, que exerci por dois biênios, à Profª Silmara Santos Oliveira e legitimar a escolha dos confrades e confreiras que integram a Mesa Diretora da chapa eleita por aclamação no último dia 15 de março do corrente ano. Reza a tradição das instituições congêneres que a dirigente que se despede ofereça uma prestação de contas sumária, dando conhecimento aos membros da academia e à sociedade que os acolhe das realizações e eventos próprios da entidade no curso da gestão, no plano administrativo e cultural.
            Permitam-me assinalar que é espinhoso o caminho de uma associação civil de direito privado, sem fim lucrativo, notadamente quando o objetivo é o “cultivo da língua portuguesa e a promoção da literatura, das artes e das ciências humanas, em suas diversas manifestações”, como determina o art. 4º do nosso Estatuto. Nascida em 19 de abril de 2011, graças ao pequeno grupo de sonhadores que figuram como membros fundadores, tentamos sobreviver em uma fase de transformações sociais e enfrentando a crise econômica que assola nossa região, dificultando  a existência e crescimento de iniciativas voltadas para projetos culturais e incentivo à literatura, ciências humanas e artes.
            Por ocasião do meu discurso de posse, no biênio 2013/2014, declarei que tinha o sonho de reinventar a noção de uma academia de letras e a idéia continua viva e vibrante. Não é fácil ajustar o pensamento plural conseguindo harmonizar um colegiado. Os primeiros passos são difíceis, claudicantes e sofridos. Muitas vezes pedras ferem nossos pés na caminhada e o desânimo ameaça e reduz  o entusiasmo. São fases que já vencemos com coragem e determinação, conseguindo a união necessária para a concretização do ideal que reuniu um grupo de amigos estreitamente ligados ao verdadeiro sentimento de fraternidade.
            São consideráveis as dificuldades materiais enfrentadas. Nossa sede, ainda em duas salas ocupadas em regime de comodato, na rua Ruffo Galvão, em Itabuna, continuam acomodando nossas reuniões e abrigando a biblioteca que vem crescendo graças às doações dos próprios membros e à generosidade dos amigos. Cadeiras e bancada, estante e equipamento de computação decorreram de doações; as mensalidades dos membros são destinadas ao pagamento do condomínio e pequenas despesas; quando o saldo permite, alguma necessidade premente é atendida, como foi o caso da aquisição de uma mesa para a sala de espera. Graças à generosidade de empresários amigos e à parceria da FTC, Montepio dos Artistas, Associação Comercial e Hospital Beira Rio realizamos os eventos em auditórios confortáveis. São dados superficiais vividos pelo pequeno grupo que decidiu enfrentar as dificuldades e aceitar o desafio de reagir, superando crises e conflitos e acreditando  no fortalecimento da instituição.
            De 2013 até a presente data, graças à mensalidade de alguns membros e generosidade de alguns amigos que assumiram o patrocínio, além do evento de posse realizado no auditório da FTC, três outros foram realizados no mesmo local, para formalizar a posse de novos membros, lançamento do livro da poetisa Valdelice Pinheiro e lançamento do primeiro número da revista Guriatã: festejamos o centenário de Jorge Amado com palestras em faculdades particulares e colégios de ensino médio; festejamos o Dia da Consciência Negra na comunidade religiosa de tradição afro-brasileira Ilê Axé Ijexá, dirigida pelo Babalorixá, Prof. e escritor Ruy do Carmo Póvoas, vice-presidente do Biênio que encerramos e comemoramos a mesma data, no ano seguinte, no Montepio dos Artistas; prestamos uma homenagem póstuma à maior poeta da região, Valdelice Soares Pinheiro, editando uma coletânea dos seus poemas, organizada pelo confrade Cyro de Mattos; participamos do lançamento de livros de vários confrades e confreiras, a exemplo de Lurdes Bertol (na Biblioteca Municipal), Sione Porto (no Hotel Tarik), Ceres Marylise Rebouças  (em Ubaitaba, sua terra natal), Cyro de Mattos (na Livraria Nobel), Maria Delile Miranda Oliveira (na casa de eventos Maison Marie), Silmara Oliveira (em Itajuípe); estivemos ao lado da confreira Silmara Oliveira  em todas as festividades do centenário de Adonias Filho, inclusive em mesa redonda na UESC; a ALITA esteve presente em eventos da Academia de Letras da Bahia; lançamos a revista da academia, Guriatã, dois anos seguidos e já se avizinha o projeto do terceiro número; participamos de duas feiras de livros na Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (FICC); no moderno auditório do Hospital Beira Rio, realizamos uma sessão solene homenageando o confrade Cyro de Mattos por ocasião do seu ingresso na Academia de Letras da Bahia, ocasião em que foi lançado o segundo número da revista; celebramos parcerias com a Associação  Comercial de Itabuna e Montepio dos Artistas; nosso site, inicialmente implantado pela confreira Ceres Marylise Rebouças, atualmente residindo em Salvador, passou à administração  da confreira Raquel Rocha que segue o projeto original, publicando as contribuições de todos os membros que nos honrem com sua produção literária, com acesso através de um link no espaço próprio e a primeira página para registrar notícias diversas, bem como artigos,  crônicas e poemas com o timbre da atualidade. No ensejo, é imperioso registrar nosso agradecimento aos empresários Helenilson Jorge Chaves, José Carvalho Peixoto e José Dantas Melo Neto, patrocinadores do livro e revistas que foram nossa marca no período.
            No âmbito financeiro, não temos contas a pagar. Ao contrário, o pequeno saldo em nossa conta bancária é suficiente para atender às despesas com o condomínio, compromisso assumido em razão do comodato que nos exime do aluguel, assinalando que a conta de luz das salas que ocupamos é assumida pelo proprietário, filho da atual presidente.
            Em rápida visão pelo caminho já percorrido, nada mais peço porque tenho somente agradecimentos a Deus pelos  empecilhos  que  consegui superar em todas as fases da minha vida. Alcancei o milagre de não conservar nenhuma cicatriz dos ferimentos sofridos na estrada já bastante longa que percorri. Nesses agradecimentos registro com louvor a solidariedade, carinho e apoio dos meus queridos confrades e confreiras da Mesa Diretora, a dedicação da ex-secretária e ex-vice-presidente Ceres Marylise, atualmente em Salvador, pela inestimável contribuição ao fortalecimento da instituição. Alguns foram mais que amigos, mais que irmãos e não vou citá-los porque a grandeza e generosidade de caráter que ostentam prescinde de publicidade. Eles e elas estão presentes e sabem o que significam para mim e para a instituição, o pequeno grupo de pessoas determinadas, otimistas, corajosas e idealistas que honram e fortalecem a ALITA como intelectuais e como cidadãos.
            Muito existe a sonhar, planejar e construir. As instituições de qualquer espécie passam por dificuldades, crises, altos e baixos, a depender das circunstâncias por vezes estranhas à vontade dos dirigentes. A ALITA não foge à regra. Nossa academia tem enfrentado desafios com altivez e determinação e nada vai impedir nossa trajetória ditada pelo propósito de promover a produção literária, criação artística e pesquisa cultural, transmitindo aos jovens valores mais éticos e mais justos.
            Gostaríamos de dizer a Silmara,  confreira muito querida, que uma instituição sem problemas estaria esperando sua competente e profícua gestão. Se o fizesse estaria delirando, ocultando a verdade. Nenhuma instituição consegue alcançar a perfeição e escoimar todos os problemas, vez que sua existência e atuação ocorre no plano material e humano, com erros, imperfeições, defeitos próprios dos seres humanos e não deuses, que compõem o quadro dos participantes. O que posso oferecer à minha querida amiga, com a chave da nossa modesta sede, é a afirmação de que os “cirineus” que me deram apoio continuarão ao seu lado, na proposta inscrita em nosso brasão: LITERIS AMPLECTI, a  expressão latina que pode ser traduzida como “abraço das letras”. Nosso abraço não é somente às letras: é o abraço fraterno e sincero que transmite congraçamento, união de propósitos, determinação e lealdade entre os membros. Irmanados, defenderemos a idéia original manifestada na fundação da nossa academia, de defesa da cultura em nossa região no sentido mais amplo.
            O brasão da nossa academia de letras encerra uma proposta de fraternidade e união, vale repetir. Aceitamos o desafio de reagir ao sentimento de desalento e desesperança que se apossou de uma região que se apresenta sem alma, sem passado, sem memória e vislumbrando o futuro com temor. Acreditando em nosso amanhã e exorcizando o pessimismo e a crítica destrutiva, afirmamos que o futuro não é oferecido de antemão e cabe a todos nós recriá-lo a todo momento. Estaremos ao seu lado, Silmara, recriando o futuro, reinventando a Academia de Letras de Itabuna para que possamos atrair os jovens que irão continuar nossa tarefa e aprender a sonhar os nossos sonhos.

                        Sônia Carvalho de Almeida Maron
                Presidente dos biênios 2013/2015 – 2015/2017                



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SILMARA OLIVEIRA- DISCURSO

Discurso da Acadêmica Silmara Oliveira ao tomar posse na presidência da Academia de Letras de Itabuna em 19 de abril de 2017

Silmara Santos Oliveira/ cadeira 02/ patrono: Sosígenes Costa
Agradecimentos

Meu trato com os livros e a leitura está de braços dados com a disposição de imaginar, de ter tempo livre para divagações, sonhos e assombros... Tempos da infância e adolescência quando compactuamos com o passar das horas vagarosas, muito bem colocadas, na observação de formigas e borboletas, como diz Manoel de Barros; tempo das abstrações e de sermos esquecidos pelos adultos ocupados.  
Mais adiante, esse trato está ligado ao meu ofício de professora, neste campo, ampliei leituras iniciais de estudante, adquiri a consciência da preservação e respeito a Língua Portuguesa, base da literatura e compromisso dos homens e mulheres que empunham lápis e papel, modernamente computadores, glorificando o que há de mais sagrado para uma nação e sua unidade – a Língua. Neste particular, o Brasil, país de proporção continental, com bastantes variações lingüísticas, mantém como língua única o Português, idioma amado em declaração e escrita pela ucraniana, Clarice Lispector, naturalizada brasileira.
Construí o que chamo de sensibilidade nacional pela causa do nordeste que tem uma literatura forjada nas senzalas e engenhos, bem como, as questões da política, de mandos e desmandos. Adocei meu olhar, sentindo a vida dos personagens que nada mais são que representações do cotidiano humano, passadas a ferro e fogo e, assim, o reconhecimento de que esta mesma nação brasileira habita dentro das páginas de Euclides da cunha, no assombro da pobreza e da fé. Do desespero e da força a empurrando para o front homens mulheres, crianças e velhos orientados pela liderança de Antônio Conselheiro. Na angústia de um Graciliano Ramos, a dureza mesmo, das impossibilidades humanas flagradas em Daltro Trevizan, saindo já do nordeste.
Anterior a isso, no plano da aproximação com o aspecto social, o poeta Castro Alves, alinhando-me aos que o consideram Príncipe da poesia nacional, poeta em tom maior no sentimento da paixão e, na condição de homem apaixonado, sofrendo e fazendo sofrer, como demosntrado no livro Leonídia, a musa infeliz do poeta Castro Alves, de Myrian Fraga.  No veio  pela liberdade,  imbatível nas declamações em púlpito, nos dias e noites ásperos da escravidão. Em tempos mais atuais, a prosa e o verso de Drummond, de Manuel Bandeira, poeta da indesejada e de balões juninos. Um sem-número de escritores nacionais tem emprestado ao nosso idioma seus nomes e obras de grande alcance, de inestimável valor, humanidade e humor. Acadêmicos e não acadêmicos.
Dentre os nossos augustos escritores sulbaianos, foi-me dado o prazer de aprofundar um pouco mais na obra do ficcionista Adonias Filho, ter contato com sua percepção desse mundo de fazendas de cacau e da natureza de homens brabos, Adonias aproximou a tragédia grega tanto dos personagens de um nordeste incrustado na Mata Atlântica rica e poderosa, tanto nos aspectos naturais – dada a elevada produção do cacau – quanto na formação dessa região a qual ele denominou Região Grapiúna. Além do estudo da obra, tive também a oportunidade de gerir a montagem da exposição e do Memorial Adonias Filho aqui em Itajuípe.
É doce e angustiante o contato com a ficção adoniana, e, hoje dia 19 de abril, data reservada à lembrança do habitante primeiro desta terra – o índio – me ocorre a trama do livro Fora da Pista, no qual trata da desumana e desleal conquista dos homens que aqui se assentaram em detrimento dos que já existiam os índios. Sempre oportuno, Adonias fez referência à sabedoria do índio no trato com o viver conforme a disposição do que a natureza lhe punha nas mãos.  Não pintou o índio com a paleta da ingenuidade, antes mostrou como foi dura e sangrenta a luta entre estes e plantadores de cacau ou caçadores. De todo modo, façamos nós a reflexão do que significa dizimar um povo com mais de três mil anos habitando essas terras. Membro de Academia Brasileira de Letras, Adonias Filho honra esta região e a ALITA, com seu trabalho de amplitude universal em sua forma e conteúdo.
E como a noite é de Academia, a primeira das academias do Brasil foi a Academia Brasileira de Letras fundada, a 20 de julho de 1897, Tendo Machado de Assis Presidente, Joaquim Nabuco Secretário-Geral, Rodrigo Octávio Primeiro secretário, Silva Ramos Segundo Secretário e Inglês de Souza Tesoureiro. Seu objeto primeiro: a cultura da língua e da literatura nacional. Cem anos depois, foi uma mulher Nélida Piñon a presidir a ABL indicando os sinais de mudança ao longo do tempo.
Na Academia de Letras de Itabuna – ALITA – ainda em idade tenra, – com apenas seis anos de fundação – há de caber também, além da missão da cultura da Língua e literatura nacional, o desígnio de exaltar a literatura Sulbaiana, ou Literatura do Cacau, lutar com vigor pela longevidade desta, que não diferente das outras, trabalha a memória de modo especial, recoloca o homem e a sua luz, com no poema de Sosígenes Costa, a literatura regional dispõe da vida dos nossos antepassados para o leitor. Todos os acordes são postos à mostra, com veias abertas, por diferentes e variados autores; dias e noites, madrugadas e amanheceres, nas matas ou em águas dos mares desta costa.
 Em muitos casos, é o regime da memória que norteia as páginas dos autores regionais, e sabemos que a memória não se curva às linhas do esquecimento, antes, reflete como espelho e, então, é que revisitamos os rios as estradas, ruas em calçamentos rudimentares, lavadeiras, homens na cabruca, o corte, a secagem do cacau, seu perfume in natura. Mulheres que se dão ou são tomadas. É a vida que se vai tecendo num vasto painel de cores ora fortes, ora esmaecidas, cheiros e texturas em infinitas nuances.
Compõem o cenário ficcional e não-ficcional desta academia nomes que a tem enriquecido, trinta e seis membros, sete correspondentes, entretanto, me eximo de citá-los nominalmente, por conveniência do tempo corrido.  Peço licença aos confrades e confreiras que aqui estão para prestar homenagem especial, às letras do ficcionista Cyro de Mattos, confrade a quem estimo e agradeço a minha presença nesta Casa. Quero dividir com vocês as sensações da leitura de três contos do livro em 2ª edição Berro de fogo e outras histórias.
Este livro é como se um mundo ido, retornasse com suas aflições de começo que se cria.  Entrevemos pastagens, estradas de pedras, rios limpos, natureza semi intocada, esperança nas mãos e sonhos nos olhos, destinos que se tramam para o de sempre, os pobres mais pobres.
 Nessa escrita, que se faz ler em um fôlego, sem que queiramos despregar os olhos, a vida corre em seu tom normal, e o normal se acerca das lidas diárias, impregnada do sofrimento como indelével. Sobrepesa nessas histórias, três contos aos quais me detenho, uma carga de expressiva impotência, seja no homem que mata um seu igual, um amigo, um inocente, e, perceba que o indivíduo mata, e nesse caso, é potente, mas não pode se livrar desse ofício de matar, que até entende como natural da vida. Seja a impotência da moça que engravida do patrão, à semelhança de Trevisan quando as moças têm um subalterno fim predestinado do sexo violado como no romance A Polaquinha. 
Mais ainda, impressiona o silêncio impotente e urdido na dificuldade e tristeza de uma criança a quem não é dado o direito de ter um animal de estimação, sucessivos bichos desaparecem pelas mãos do seu genitor. É a mesma marca de impotência. Somente o contato do leitor com o texto para ter conta do peso no ombro do filho, na sua solidão febril pelo desejo de ter um animal. E como um gato estendido nas mão,  abatido aos golpes do pai, essa criança enlouquece dada a sua miudez de criança que nada pode.  É como se o escritor tivesse sido esse menino porque transpõe de tal modo a sua dor que o leitor ela se estreita e se comove.
A literatura do companheiro Cyro, é essa mão invisível que nos humaniza dentro da dor sentida e, quando o texto assume essa humanização, suavizando o olhar para o outro, aproximasse do universal, do excelso.
À guisa de curiosidades, informo que ontem foi aniversário de nascimento de Monteiro Lobato 18 /04/1882, hoje, nascimento de Lygia Fagundes Telles, 1923 e amanhã data do nascimento de Augusto dos Anjos 1884.
Assumo, pois, esta Presidência sob o resguardo da honra, do trabalho e zelo pela Língua Portuguesa e pela literatura regional, pela vida comunitária e, conclamo os nobres confrades ao congraçamento que nos possibilite aconchego da boa convivência,  e ações que alcem voos ao encontro da juventude para que tomem gosto pela leitura e que seja reduzida a distância entre as letras e e os mais moços.  Que esta Casa ambicione inspirar nos jovens o gosto pela arte, leitura e exemplo de intelectualidade.
Neste momento, dou posse aos ilustres acadêmicos e confrades Lurdes Bertol Rocha Vice-Presidente; Sônia Carvalho de Almeida Maron, Primeira Secretária;  Sione Porto, Segunda Secretária; João Otávio Macedo; Primeiro Tesoureiro; Janete Ruiz Macedo Segunda Tesoureira; Cyro de Mattos Editor da Revista Guriatã; Ruy do Carmo Póvoas Diretor da Biblioteca; Raimunda Assis, Diretora de Arquivo; Raquel Rocha Diretora de Informática; Celina Santos, Diretora de Comunicação; Marcos Bandeira Diretor de Pesquisa e Assuntos Culturais.
É como mulher, estudiosa, cidadã brasileira, produtora cultural, que hoje com a graça de Deus e Bdos membros desta casa que confiaram na minha condição de trabalho, assumo a Presidência da Academia de Letras de Itabuna, agradecida e honrada pela fé em mim depositada.