A Partida de Hélio Pólvora




A Academia de Letras de Itabuna  comunica o falecimento, na madrugada desta quinta-feira, 26 de março, do eminente escritor e crítico literário Hélio Pólvora, ocupante da Cadeira nº 17, que tem como patrono Machado de Assis.

Natural de Itabuna, sul da Bahia, onde nasceu em 1928,  Hélio é autor de 26 títulos de obras de ficção e crítica literária, além de uma atividade jornalística intensa. É considerado um dos mais importantes contistas brasileiros do século 20, com destaque para obras consagradas pela crítica e pelo público, a exemplo dos livros Os galos da aurora (1958), Estranhos e assustados (1966) e Mar de Azov (1986).

Doutor honoris causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz, atuou como editor (Edições Antares, Rio de Janeiro), crítico literário do Jornal do Brasil, Veja e Correio Braziliense, cronista e crítico de cinema do Jornal do Brasil, Shopping News e outros jornais e revistas. Fundador e editor dos jornais A Região e Cacau-Letras, foi também cronista do jornal A Tarde onde publicava um artigo semanal, na página Opinião e aos domingos.

Conquistou prêmios literários de nomeada, entre os quais os da Bienal Nestlé de Literatura, anos 1982 e 1986, para contos (1.º lugar), e mais os prêmios da Fundação Castro Maya, para o livro Estranhos e Assustados, e Jornal do Comércio, para Os Galos da Aurora. Assina cerca de oitenta traduções de livros de ficção (romances e contos) e ensaios. Como crítico literário é considerado um dos melhores analistas da obra de Machado de Assis. Pertenceu à geração dos escritores itabunenses  Telmo Padilha, Cyro de Mattos, Sonia Coutinho, Walker Luna, Firmino Rocha  e Valdelice Soares Pinheiro.

Sônia Carvalho de Almeida Maron
Presidente da Academia de Letras de Itabuna

Mulher



Cyro de Mattos


De onde vem o leite
Que alimenta a criação.
Afasta o sal da terra
Em forma de agonia.
Matriz que dá sentido
A essa reles sensação
De que a vida passa
E ao passar subjuga
Velha chama do ficar.
Com quadris, seios,
De alma movimentos,
Ilumina meu sorriso.
Força e vida da manhã
Sei no fruto sazonado.
Amante, amiga, mãe
Sem teus fluidos o mundo
Seria depósito de nadas.
Não dividiria as asas
No sonho de saber
Que houve um dia
A chegada, o outro
Virá para eu sair.
.


Romance “Os Ventos Gemedores” de Cyro de Mattos no Pravda de Moscou




Depois de ser publicado em vários sites importantes brasileiros, como Boqnews.com e Campograndenews, o  artigo “Os Ventos Gemedores: Saga  do Brasil Arcaico”, do escritor Adelto Gonçalves, Doutor em Letras pela USP,  sobre o romance “Os Ventos Gemedores”, de  nossa autoria,  foi divulgado  no Pravda de Moscou, na edição em português,  em 8/02/2015, (Port.pravda.ru).


De ritmo ágil, com uma narrativa labiríntica, o romance  “Os Ventos Gemedores” conta a história das dominações de Vulcano Brás, dono de muitas terras no território do Japará, um condado imaginado pelo autor, e a busca da vida livre e justa, representada pelo vaqueiro Genaro. Sobressaem ainda  no conflito, que acontece em ambiente bárbaro, forjado pela  terra hostil,  personagens como Almirinha, Amadeu, Abelardo Pança-Farta, Edivirgem, os irmãos Olindo e Olívio.

O professor e Doutor em Letras pela USP, Adelto Gonçalves, debruça-se sobre o romance e empreende uma análise de natureza  histórico-social, concluindo que “o final deste livro conta a batalha corpo a corpo entre os jagunços de Vulcano Brás e os homens de vaqueiro Genaro e – ao contrário do que normalmente se dá na vida real – a vitória dos explorados, apesar das baixas de lado a lado. A vitória maior, porém, que se registra é da Literatura Brasileira que sai desse romance mais enriquecida.”

Abaixo transcrevemos o artigo “Os Ventos Gemedores:  Saga do Brasil Arcaico”, de Adelto Gonçalves, publicado no Pravda  de Moscou:


'Os ventos gemedores': saga do Brasil arcaico
08.02.2015

Adelto Gonçalves
I
No Brasil, sempre foi assim: a luta pela terra invariavelmente produziu heróis falsos e mártires verdadeiros. E o Estado sempre esteve ao lado dos mais fortes, aqueles que conseguiam pela força subjugar os demais. Para aqueles que venciam, nunca faltou a falsa pena dos escribas para legalizar suas conquistas nos papéis dos cartórios e incensá-los na História. Ainda hoje é assim: os mandões do sertão ganham placas e viram nome de fundações ou de ruas, avenidas ou rodovias. Já para os derrotados sobram - quando muito - uma vala sem lápide e o esquecimento eterno.
Sempre foi assim, desde os tempos dos chamados bandeirantes, homens mestiços, filhos de mães indígenas ou miscigenadas, que largavam tudo na cidade de São Paulo ou em vilas como Santana do Parnaíba e Taubaté para, a partir de Araritaguaba (hoje Porto Feliz), seguirem em canoas à frente de uma legião de índios carijós, mulatos e negros em busca de indígenas que pudessem ser escravizados, de ouro e pedras preciosas e mais terras. Como arrastaram as fronteiras do Brasil para além do Tratado de Tordesilhas, hoje, alguns desses régulos são homenageados com estátuas e monumentos em que aparecem como homens de feições brancas, bem trajados. Provavelmente, seguiam para os sertões descalços e quase semi-nus, como os indígenas  e africanos que comandavam.
  Ainda hoje é assim. Volta e meia, algum parlamentar é acusado de manter trabalhadores sob regime escravo em suas fazendas. De outros dizem que, em suas terras, ninguém entra sem autorização: se alguém entrar, ainda que involuntariamente, será recebido à bala por modernos jagunços bem armados, enquanto o mandão desfila sua onipotência em Brasília ou mesmo em congressos lusófonos em Lisboa. Os mandões modernos já não são grosseiros como os de outros tempos: afáveis, conquistam o interlocutor com muita simpatia e salamaleques.
E, assim, o mundo arcaico convive com o Brasil moderno sem maiores sobressaltos. É esse Brasil arcaico que o leitor vai encontrar no romance Os ventos gemedores, de Cyro de Mattos (1939), que acaba de ser lançado pela editora LetraSelvagem, de Taubaté-SP, em sua coleção Gente Pobre (narrativas). Ambientada nas terras do Sul da Bahia em época que se supõe que seja a de meados do século 20, a trama se dá no condado imaginário de Japará, à la WilliamFaulkner (1897-1962), região onde a mata até então impenetrável começa a dar lugar às primeiras roças de cacau e pastos para bois e vacas. É o cenário de Terras do Sem Fim (1943), clássico romance de Jorge Amado (1912-2001), que, a rigor, inaugura a saga cacaueira do Sul da Bahia.
 

                                               II
Aqui, a luta pela terra coloca, de um lado, Vulcano Brás, um régulo do sertão acostumado a mandar bater e até matar; de outro, o vaqueiro Genaro, escolhido como líder pelos explorados, gente envelhecida precocemente que traz a pele engelhada pelo trabalho de sol a sol. Como Almira, moradora de um casebre, que procura entender, numa espécie de monólogo interior, como o vaqueiro Genaro encontrou coragem para chefiar os homens no levante:
"(...) Ele havia dito que os homens estavam dispostos a enfrentar o despotismo de Vulcano Brás, "não tenha medo, dessa vez, a gente vai tirar o freio da boca, a argola da venta, o chicote das costas e a espora da barriga". Deu-lhe em seguida a notícia de que os homens queriam ele como chefe do levante, ela então teve medo, pensou na morte a espreitar pelos cantos todos eles, de dia e de noite".
Depois, Almira questiona: "Que adianta fazer esta revolta, Genaro? O lado de Vulcano Brás sempre foi mais forte". Mas ele responde "A pior derrota é daquele que não luta", acrescentando que "onde ninguém faz nada contra Vulcano Brás só a vontade dele é a única que impera, e os que se agacham permanecem assim mesmo o tempo inteiro, trabalhando, trabalhando, sem nunca ter nada na vida".
Ainda hoje é assim não só Sul da Bahia, mas em todo o Brasil: aqueles que trabalham na terra só costumam se aposentar aos 65 anos de idade, isso quando conseguem apresentar papelada reconhecida pelos sindicatos rurais que comprove o tempo de trabalho na roça. Para ganhar salário mínimo.
O final deste livro conta a batalha corpo a corpo entre os jagunços de Vulcano Brás e os homens de vaqueiro Genaro e - ao contrário do que normalmente se dá na vida real - a vitória dos explorados, apesar das baixas de lado a lado. A vitória maior, porém, que se registra é da Literatura Brasileira que sai desse romance mais enriquecida.
                                  
                                               III

Nascido em Itabuna, ao Sul da Bahia, Cyro de Mattos conhece bem a região que retratou em seu romance. Foi ali que fez os primeiros estudos, concluindo o curso ginasial no Colégio dos Maristas, em Salvador. Depois, fez o curso de Direito na Universidade Federal da Bahia, concluindo-o em 1962. Hoje, é advogado aposentado, depois de militar durante mais de quatro décadas nas comarcas da região cacaueira na Bahia. Antes, atuou como jornalista no Rio de Janeiro, passando pelas redações do Diário de NotíciasJornal do Comércio e O Jornal.
Contista, ensaísta, cronista e poeta, é autor também de livros de literatura infanto-juvenil e organizador de várias antologias. Já publicou mais de 50 livros e obteve numerosos prêmios literários. O principal foi o Prêmio Nacional de Ficção Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, para o livro Os Brabos (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1979), romance elogiado por Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Alceu Amoroso Lima (1893-1983).  
Sua estréia, porém, ocorreu em 1966 com o livro Berro de fogo e outras histórias, em que já se anuncia a sua preocupação em denunciar "a decadente engrenagem econômica cacaueira dominada pelo coronelismo", como observa Nelly Novaes Coelho, professora titular de Literatura Portuguesa da Universidade de São Paulo (USP), autora do posfácio que constitui um texto-homenagem aos 40 anos (1966-2006) da carreira literária do autor. Para a professora, "a obra de Cyro de Mattos já conquistou seu lugar nos quadros da Literatura Brasileira contemporânea".
Cyro de Mattos está incluído na antologia Narradores da América Latina, publicada na Rússia, ao lado do argentino Julio Cortázar (194-1984) e do uruguaio Mario Benedetti (1920-2009), entre outros. Seus poemas foram incluídos na antologia Poesia do Mundo 3, organizada por Maria Irene Ramalho de Sousa Santos, da Universidade de Coimbra, publicada em Portugal, que teve tradução para o inglês.
Em 2010, participou da Feira Internacional do Livro de Frankfurt, quando autografou a antologia poética Zwanzig von Rio und andere Gedichte, publicada pela Projekte-Verlag, de Halle, com tradução de Curt Meyer-Clason, tradutor de Guimarães Rosa (1908-1967). E em 2013, esteve presente ao XVI Encontro de Poetas Iberoamericanos da Fundação Cultural de Salamanca, na Espanha. Tem livros publicados em Portugal, França, Alemanha e Itália.
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Os ventos gemedores, de Cyro de Mattos. Taubaté-SP: Editora LetraSelvagem, 208 págs., R$ 30,00, 2014. Site:www.letraselvagem.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage - o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros. E-mail:marilizadelto@uol.com.br



COMUNICADO DE CYRO DE MATTOS



O escritor e poeta Cyro de Mattos comunica que foi cancelado o lançamento de seu livro A Casa Verde e Outros Poemas, programado para o dia 19, a partir das 19 horas, na Livraria Nobel, em Itabuna. Agradece a compreensão dos leitores e amigos, comunicando, também, que o evento será agendado para outra data.

Atenciosamente,


Cyro de Mattos  

Para Lembrar valdelice

Por Cyro de Mattos
Valdelice Pineiro, em pé a terceira, da direita para esquerda, com as colegas na turma de professoras diplomadas pelo Instituto Normal de Eucação, em Ilhéus. O paraninfo da turma foi o professor Osvaldo Ramos.

Ao fazer o mapeamento da poesia brasileira no século XX, o crítico e romancista Assis Brasil solicitou-me nomes da região cacaueira para figurar na antologia que estava organizando, dedicada à Bahia. Indiquei Telmo Padilha, Valdelice Soares Pinheiro, Walker Luna, Carlos Roberto Santos Araújo e Firmino Rocha. Na antologia A Poesia Baiana no Século XX (1999),  Assis Brasil transcreveu trecho do comentário que lhe enviei sobre a poesia de Valdelice Soares Pinheiro. “Trata-se de uma poeta que elabora sua poesia com uma linguagem  despojada”, eu disse, “projetando no texto contido uma visão de mundo preocupada com a condição humana. Poesia que só um poeta questionador, dotado de instrumental filosófico plasmado numa alma sensível, poderia compor”. 
Em Itabuna, chão de minhas raízes (1996), antologia por mim organizada, reuni  poetas e prosadores itabunenses e, na breve nota biobibliográfica de Valdelice Soares Pinheiro, chamei a atenção para essa poeta. Anos depois, a poeta de Itabuna seria inserida como verbete no monumental Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras (Editora Escrituras, São Paulo, 2001), de Nelly Novaes Coelho, por recomendação nossa.
A poesia de Valdelice Soares Pinheiro não precisa de abonos para ser reconhecida, tem em si mesma seu valor, no qual ela se mostra com equilíbrio e expressividade. O motivo que me levou a aboná-la nas situações mencionadas é porque tive a oportunidade de fazê-lo, levando-se principalmente em conta o fato  de que a poeta publicou em vida apenas dois pequenos livros, em edição particular e limitada, e por isso  estava destinada a ser  mais um dos inúmeros poetas da província cuja tendência  poderia ser a de continuar no anonimato.
No começo da década de 1990, em texto divulgado no jornal A Tarde, lembrei-me de reverenciar a memória de Valdelice Soares Pinheiro e de outros poetas nascidos na região cacaueira baiana, como Telmo Padilha, Florisvaldo Mattos e Firmino Rocha, apresentando-os naquela antologia de Itabuna, editada em 1996.
Filha de Vital Alves Pinheiro e Mariana Soares Pinheiro, desbravadores da região cacaueira baiana, Valdelice Soares Pinheiro nasceu em Itabuna, Bahia, no dia 24 de janeiro de 1929, e desde pequena teve educação esmerada. O curso primário  fez nos colégios  Ateneu e Saraiva, em Itabuna. Mudando-se para Ilhéus, vai cursar o ginasial e o magistério no Colégio Nossa Senhora da Piedade e Colégio Municipal, respectivamente. O licenciamento em Filosofia obtém na Universidade Católica do Rio Grande do Sul. De volta à Bahia,  começa a lecionar Estética e Ontologia na Universidade  de Santa Cruz, no sul do Estado.
Deixou um rico legado poético, e uma parte dele, constituída de  anotações e sessenta e três poemas,  teve publicação crítica pela Universidade Estadual de Santa Cruz, no livro A expressão poética de Valdelice Soares Pinheiro, em 2002, reunindo  estudos de alunos, sob a  coordenação da Professora Doutora Maria de Lourdes Netto Simões.   
         Este livro motivou  o artigo  A Expressão Poética de Valdelice Pinheiro em Resgate - Simplicidade: Liberdade de Ser, da professora universitária  Mari Guimarães Sousa, apresentado no VIII Seminário Nacional: Mulher e Literatura, Anais, Instituto de Letras e Núcleo de Estudos Interdisciplinares Sobre a Mulher, na Universidade Federal da Bahia - Salvador, BA, 2000, e a dissertação de mestrado O  Canto da Cigarra: A Poesia Cósmica e Existencialista de Valdelice Pinheiro, de Nayanara Tavares Moreira, apresentada na Universidade Estadual de Feira de Santana, Bahia, em 2007.
Coma coletânea O Canto Contido,  que reúne os dois livros De dentro de mim e Pacto, publicados em vida pela poeta,   poemas esparsosinseridos em antologias e  dois CDs,  pretende-se contribuir  para que a poesia de Valdelice Soares Pinheiro em sua primeira fase seja mais conhecida por um número maior de leitores, pois se trata de um  poeta de verdade. 
 Vadelice Soares Pinheiro  faleceu em Itabuna, no dia  29 de agosto de 1993.

Antologia com 75 Autores da UBE-SP



Lançamento do volume publicado pela Global Editora está programado para o dia 23 de março

A Antologia de Poesias, Contos e Crônicas da UBE está em processo de finalização gráfica e o lançamento já está programado. Será no dia 23 de março, no auditório da Academia Paulista de Letras, no Largo do Arouche, em São Paulo, às 19 horas. 
O evento será ao final da cerimônia de posse da nova Diretoria e Conselho Consultivo e Fiscal da UBE. O novo presidente, Durval de Noronha Goyos Jr., substitui a partir do dia 15 de março o atual presidente, Joaquim Maria Botelho.

Cada autor, pelo contrato assinado pela UBE com a Global Editora, teria direito a uma cota de 15 (quinze) livros, a título de direitos autorais, caso fossem publicados três volumes, como inicialmente planejado. No entanto, por medida de economia e agilidade, a editora decidiu pela publicação de um só volume, reunindo os três gêneros (contos, crônicas e poesias). Dessa forma, reviu o contrato e reduziu a cota para direitos autorais para 5 (cinco exemplares) para cada autor. No entanto, permanece a facilidade de aquisição, pelos autores, de exemplares com 50% (cinquenta por cento) de desconto sobre o preço de capa. 

Como noticiado, a seleção final foi realizada pela Global Editora a partir de uma lista inicial de 150 nomes, encaminhada pela UBE. Os autores contemplados no volume são os seguintes:

POESIA: Anderson Braga Horta, Antonio Ventura, Aricy Curvello, Beatriz Helena Ramos do Amaral, Betty Vidigal, Carlos Vogt, Cláudio Willer, Dalila Teles Veras, Djalma Allegro, Eros Grau, Eunice Arruda, Francisco Moura Campos, Gláucia Lemos, Hamilton Faria, Hélder Câmara, Luís Avelima, Moniz Bandeira, Mara Senna, Marco Aqueiva, Mariza Baur, Nei Lopes, Oleg Almeida, Péricles Prade, Renata Pallottini e Severino Antônio. CONTOS: Anna Maria Martins, Arine de Mello Júnior, Audálio Dantas,  Caio Porfírio Carneiro, Cyro de Mattos, Deonísio da Silva, Edmundo Carvalho, Edson Amâncio, Fábio Lucas, Frei Betto, Jean Pierre Chauvin, Jeanette Rozsas, João Batista de Andrade, Joaquim Maria Botelho, Levi Bucalem Ferrari, Lygia Fagundes Telles, Menalton Braff, Nicodemos Sena, Paulo Veiga, Regina Batista, Reivanil Ribeiro, Renato Modernell, Ricardo Ramos Filho, Ruth Guimarães e Suzana Montoro. CRÔNICAS: Alaor Barbosa, André Carlos Salzano Masini, Antonio Candido, Antonio Luceni, Antonio Possidônio Sampaio, Betty Milan, Betty Mindlin, Celso Lafer, Daniel Pereira, Dirce Lorimier Fernandes, Ely Vieitez Lisboa, Enéas Athanázio, Fernando Jorge, Gabriel Kwak, Leda Pereira, Luiz Cruz de Oliveira, Marcos Eduardo Neves, Moacir Japiassu, Mouzar Benedito, Regina Helena de Paiva Ramos, Ricardo Uhry, Rodolfo Konder, Ronaldo Costa Couto, Thereza Freire Vieira e Thiago Sogayar Bechara.

 Segue a íntegra da apresentação da antologia, de autoria do organizador:

NOSSO TEXTO E NOSSA VOZ

Em três volumes, a UBE – União Brasileira de Escritores, com o patrocínio da Global Editora, reúne 75 autores nesta antologia, cada qual dono de sua voz, cada qual dando voz a uma criação.

Gostaríamos que mais autores fossem contemplados. Nossa seleção inicial, aliás, era maior. Mas a dinâmica da publicação de livros tem seus custos. E tivemos que nos curvar à realidade.

Enfim, estamos celebrando a edição de 25 contos, 25 crônicas e 25 poemas de autores associados à nossa entidade, para que perdure, pelo tempo que durarem os livros, a voz dessa gente que vive da lida com a palavra, nem tão vã como vaticinou um dia o poeta. Não é vã, porque inspira vocações, acalenta imaginários, prepara espíritos e agiganta almas. A literatura é a irmã mais velha das artes, e, do fonema à sílaba, da voz ao texto, vem construindo a nossa história e a nossa identidade.

Nós, da UBE, vivemos para a literatura.

A UBE é a mais antiga associação de escritores do Brasil. Fundada em 17 de janeiro de 1958, deriva-se da fusão da Associação Brasileira de Escritores – SP e da Sociedade Paulista de Escritores, que, por sua vez, resultaram da divisão da antiga Sociedade de Escritores Brasileiros, criada em 1942 e que teve como mentores Mario de Andrade e Sérgio Milliet. Sediada na Capital paulista, a UBE é entidade nacional e conta em seus quadros com aproximadamente 3.800 associados, dos quais 1.600 ativos.

Sua missão é discutir políticas culturais que atendam aos interesses da categoria e representá-los em todas as manifestações literárias, em poesia e prosa. Também busca orientar seus associados em questões relacionadas a direitos autorais. Teve a presidi-la nomes como Paulo Duarte, Sérgio Buarque de Hollanda, Mário Donato, Afonso Schmidt, Abguar Bastos, Fabio Lucas, Cláudio Willer, Ricardo Ramos, Henrique L. Alves e Levi Bucalem Ferrari.

A UBE realizou quatro Congressos nacionais de escritores. Os dois mais recentes foram o de 1985, em São Paulo, e o de 2011, em Ribeirão Preto. Ambos foram prestigiados por mais de 1.000 representantes de todo o Brasil e do exterior.

A UBE também está representada nas Bienais do Livro, da Câmara Brasileira do Livro, expondo em seu estande livros de associados, promovendo lançamentos e recebendo escritores visitantes. Todos os anos envia comitiva representativa para dar palestras e oficinas na conceituada Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto. E foi uma das entidades que assinaram, em 2010, na Alemanha, o acordo com a direção da Feira Internacional do Livro de Frankfurt, para que o Brasil fosse o país homenageado no ano de 2013. Tive o orgulho de assinar o documento, ao lado de Levi Bucalem Ferrari. 

A UBE também realiza iniciativas culturais de tradição, como o movimento Mutirão Cultural, uma iniciativa que já ofereceu cursos de oratória e literatura a mais de 30.000 pessoas. Temos celebrado convênios com entidades de relevo no Brasil e no exterior, e temos sob nossa responsabilidade a publicação do jornal bimestral O Escritor, com colaborações, ensaios e resenhas assinadas por respeitados escritores, críticos e acadêmicos associados à entidade. Está representada em diversos órgãos e instituições, como o Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta.

Desde 1962, a UBE concede o Prêmio Juca Pato ao Intelectual do Ano que tenha produzido significativa obra literária publicada no ano anterior. Já foram agraciados com o Juca Pato grifes das nossas letras como Afonso Schmidt, Alceu Amoroso Lima, Érico Veríssimo, Jorge Amado, R. Magalhães Jr., Sérgio Buarque de Holanda, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Cora Coralina, Barbosa Lima Sobrinho, Jacob Gorender, Antonio Candido, Lygia Fagundes Telles, Aziz Ab’Sáber, Tatiana Belinky e Audálio Dantas.

 Para a presente antologia, a UBE contou com o incansável trabalho do nosso então vice-presidente, Luís Avelima (correntemente conselheiro). Sem o seu concurso, a sua dedicação, a sua seriedade e o seu amor pelas letras, estes livros não teriam sido possíveis. Em nome dele, agradeço a todos os diretores, conselheiros, associados e funcionários que trabalharam para que esta edição se realizasse.

Também não posso deixar de agradecer ao meu antecessor na presidência da UBE, Levi Bucalem Ferrari, cujos esforços e tirocínio permitiram que uma antologia anterior fosse publicada pela mesma Global Editora, abrindo caminho para a continuidade dessa generosa parceria.

E, a propósito de generosidade, cabe-me cumprimentar e agradecer a família Alves pela oportunidade que abre para os autores da UBE. Ao fundador, Luís Alves Júnior, meu velho amigo, e aos atuais condutores dessa casa editorial, Jefferson e Richard, nossos votos de que mantenham sempre o conceito de apoiar e privilegiar a literatura brasileira, nossa voz para o resto do mundo.

Joaquim Maria Botelho
Presidente



História de Laura Palmer

                         

                                  Cyro de Mattos
              

           Ela nunca soubera o tempo de escutar a própria voz e se sentir em disponibilidade de si mesma. Pouco a pouco, uma realidade foi sendo constatada em seus ângulos desconhecidos. Respirava entre pessoas que se encontravam para manter um ritmo sem qualquer  atrativo humano especial, apenas para alimentar certo rótulo social e econômico, exibido com enorme satisfação como um trunfo que poucos na vida conseguem. Perfis da vitória  nos seus acentos circunflexos, gestos redondos que se intumesciam de prazer, na mesa a prata castiça, iguarias e bebidas raras. Os dias desfilavam sob o peso de uma mentira constante. Por acaso existirá no mundo algo mais triste do que a solidão em família com as palavras encobrindo verdades e ferindo como faca? Ela tinha tudo em suas mãos, mas o sonho de viver livre era um passo que parecia impossível de ser dado. Um pássaro que não voava,  com o seu canto prisioneiro guardado numa gaiola de ouro era mesmo uma coisa sem sentido. E o dissabor da realidade desse pássaro artificial atingiu o ponto máximo quando ela percebeu que os filhos não precisavam mais dela, e o marido, o banqueiro  mais famoso da cidade, fechado no mundo dos negócios, era uma pedra que se lançara para o fundo de um poço.

            Um grito então aconteceu. Como algo especial que se aqueceu em segredo e apareceu na paisagem para se propagar com os dias plenos de ardor. Laura Palmer, senhora de alta sociedade, mãe de três filhos, todos casados, em romance com Clarindo Mali, compositor negro, cantor do bloco Olodum, que neste ano vai apresentar durante o carnaval o tema “Dogons, o povo das estrelas”, e mostrará como se deu a criação, a origem da vida, do nosso planeta e do universo. O bloco  irá mostrar no desfile dessa temporada  a importância do respeito às águas, o amor às estrelas, de onde viemos e para onde vamos voltar um dia. Milionária divorciada grava o seu primeiro CD e entra com surpreendente sucesso no mundo  apaixonante da música popular. E fofocas e comentários e  disse  me disse. Ela assim conheceu que aquele grito deveria ter sido dado muito antes. Aos dezessete anos talvez. Na plena força da idade quando o coração pulsa com o fulgor  maravilhoso de um sol, a irradiar luz por todos os recantos. É bom caminhar assim e sorrir e chorar. Esta a vida do ar, do amar e do sonhar, pensou.

          Na medida em que se via penetrada das cores da realidade nova, ela se sentia levada por ondas que iam deixando para trás cenas de uma alma saturada de coisas insignificantes. Havia circulado naquele tempo habitado por rostos sem brilho, beijos sem afeto, dedos sem entrelaço. Que droga, aquela havia sido a sua estrada? Quanta insinceridade, meu Deus, as pessoas haviam colocado nisso tudo, nessa estrada horrível, a essa altura comprida. Pessoas de seu círculo formaram logo opiniões. Quiseram tomar detalhes, reincidiram nas visitas, mostraram-se inconformadas com aquela mudança súbita. No fundo mesmo ficaram  revoltadas com a altivez acentuada que surgiu dos traços harmoniosos de seu rosto. Alguns parentes, não conseguindo ferir os encobertos objetivos, utilizaram-se das armas do desprezo, coação e  censura.

         A propósito, há poucos dias sua mãe fez a seguinte observação: Depois de velha, você entendeu de ser artista... E ela, agora eu sou livre, l-i-v-r-e. E seu ex-marido, o banqueiro Carlos, deixou um pouco de lado o mundo dos sucessos econômicos e resolveu também interferir. É essa a maneira de você  retribuir aos filhos  o amor  que eles sempre dedicaram a você? E ela: Na  minha maneira de ser nada mudou para eles, apenas agora eu estou vivendo. E os filhos por sua vez disseram que não acreditavam no que estava sendo publicado nas colunas sociais dos jornais e revistas. Esses comentários chocam muito. E ela, não vendo qualquer motivo que justificasse esconder a verdade,  procurou deixá-los a par de tudo.  Vocês não devem sofrer por isso, gostaria de dizer a vocês o inverso do que eu ouvi dos meus pais, o oposto de tudo o que eu aprendi com eles. Concluindo: Sinto-me na vida. E mil coisas agradáveis, marcantes, ela passou a conhecer.

         Aconteceu ela cruzar inúmeros caminhos, descobrir-se com uma infinidade de pessoas, cuja beleza consistia em fazer da vida uma realidade simples, espontânea, habitada nos seus movimentos cotidianos à vontade por ondas de calor e brilho forte.. E recentemente lhe tocou uma emoção grande quando aquele rosto tão jovem aproximou-se dela e perguntou qual seria o título do seu livro de memórias e ela, irradiando serenidade e alegria, sem hesitar um minuto sequer, respondeu: Viver.                                    

                                                                      




Protestar é um direito, incitar é crime




Sônia Carvalho de Almeida Maron*

            Os bons livros são os inseparáveis amigos no curso da vida e ao lado dos amigos humanos a maior e mais preciosa riqueza. No caminho que venho percorrendo tive o cuidado de estimular a formação desse patrimônio. A convivência com os amigos e a releitura dos livros preferidos é um medicamento milagroso, com eficácia comprovada e sem efeitos colaterais danosos. Hoje amanheci relendo Havia uma Oliveira no Jardim, uma das minhas jóias, presente de Valdelice Soares Pinheiro no final da década de cinquenta. O autor, Álvaro Moreyra, membro da Academia Brasileira de Letras, dono de um jeito simples e doce de comunicar-se, diz que tem “uma oliveira plantada no jardim” considerando-se, portanto, “um homem de paz”. Nada melhor que uma mensagem de paz para começar o dia.
           
            Invocando o pensamento de Álvaro Moreyra o alvo, na verdade, é o clima de protestos que envolve o país. Os protestos pacíficos – se é que alguns ignoram – são assegurados e protegidos pela Constituição Federal, no art. 5º, inciso XVI:

todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público,  independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente”.

         
   Não é crível, em um país que se diz democrático, um ex-presidente anunciar, na iminência dos protestos, que vai colocar na rua “o exército de Stédile” se porventura forem considerados prejudiciais aos seus interesses. Nem sempre nobres, diga-se de passagem. O mesmo personagem, o ex-presidente, na campanha eleitoral afirmou em comícios e declarou à imprensa que ia “fazer o diabo para o PT ganhar a eleição”. E fez... A Operação Lava Jato, timidamente, vem apontando executores dos planos utilizados para ganhar a eleição; só que o jato utilizado não alcança mandantes, com o DPF trabalhando de freio de mão puxado. Que o Deus invocado no preâmbulo da Constituição proteja o DPF,  o juiz federal Sérgio Moro e o que resta do STF.

             À parte os exageros das mensagens e vídeos das redes sociais, o que é isso afinal? Tais afirmações são próprias de um ex-chefe de Estado? Os absurdos proclamados aos quatro ventos estão em harmonia com o preâmbulo da Constituição? Refresquem a memória, pelo menos, com a parte final que em “juridiquês” dizemos in fine:

“...na ordem nacional e internacional com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil.”

            A declaração do ex-presidente ao invés de amedrontar o Brasil, desperta a mais profunda piedade por quem manipula pessoas fragilizadas pela fome, desespero e ignorância. Seria o caso de indagar-se nos protestos quantos assentamentos foram efetivados nos últimos doze anos e como vive e é mantido o “exército de Stédile”, o MST, considerado força paramilitar admitida em confissão pública pelo ex-presidente.
            O Brasil precisa acordar e vai acordar em paz. Incitar é crime. A incitação às “Sininhos”da vida e black blocs  (é forçoso admitir depois da confissão escancarada) é a mesma agora direcionada aos “comandados” de Stédile.
            Apesar do tratamento que os terroristas do islamismo distorcido estão dando aos jornalistas, ainda acredito no Brasil e estou escrevendo sob o manto protetor e abençoado do art. 5º, incisos IV e IX da Constituição:

                        “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;”

“é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação,   independentemente de censura ou licença”;

            O Brasil não é uma capitania hereditária do partido que elegeu o chefe de um dos poderes. É um país soberano, independente, democrático e ainda digno de respeito, com o comando do seu destino tripartido e obediente à vontade popular. Vai para a rua quando e onde quiser, sua Carta Magna autoriza e ninguém está acima do bem e do mal e muito menos da Lei Maior.  

           O Brasil vai para a rua como todo país que se respeita, em PAZ, SEM VIOLÊNCIA, do mesmo modo que a França reuniu três milhões de pessoas, de diferentes etnias,  nacionalidades e ideologias sem qualquer incidente, mínimo que fosse,  para macular o momento de união de propósitos pela paz e combate ao terrorismo.

        Não tenho uma oliveira no jardim, como Álvaro Moreyra, porque moro em apartamento. Mas sou uma pessoa da paz e do bem. O Brasil não pode e não vai ficar na contramão da história repetindo atos de grupos que fizeram oposição ao regime militar. O passado está morto e sepultado e ninguém está disposto a trocar os “anos de chumbo” por “anos vermelhos” tisnados do sangue de irmãos em manifestações pacíficas e lícitas. A marcha dos brasileiros será verde e amarelo, sob a égide da paz e da fraternidade.


                                                           *Ex-aluna do Colégio Divina Providência
                                                            Ex- docente da UESC
                                                           Juíza de Direito do TJBA aposentada
                                                            Presidente da Academia de Letras de Itabuna - ALITA