Despedida de João Ubaldo Ribeiro


      
      Por Cyro de Mattos  

Nascido em 23 de janeiro de 1943, na Ilha de Itaparica, o  escritor João Ubaldo Ribeiro faleceu na última sexta-feira (18), no seu apartamento,  do bairro  Leblon, Rio de Janeiro, vítima de embolia pulmonar. Jornalista, contista, romancista, cronista,  tradutor e roteirista de cinema. Laureado com o Prêmio Jabuti duas vezes, Golfinho de Ouro (Rio),  Prêmio Camões, para autores brasileiros e portugueses. Esse baiano de Itaparica  deixa uma obra de  altíssimo nível no corpo das letras brasileiras. Destacam-se  na sua vasta produção os livros Sargento Getúlio (1971),  Viva o povo brasileiro, (1984) O sorriso do lagarto, romances,  e Livro de histórias (1981). Formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, na turma de 1962, nunca exerceu a advocacia.

Começou a escrever muito cedo, publicando os primeiros contos nas coletâneas Panorama do conto baiano (1959), Reunião (1961) e Histórias da Bahia (1963).  O romance Sargento Getúlio,  que virou filme e, há pouco tempo,  foi adaptado ao teatro, colocou João Ubaldo Ribeiro como um valor excepcional na moderna literatura brasileira.  O livro foi traduzido por ele mesmo para o inglês e publicado nos Estados Unidos. Foi editado também na França.  Com Livro de histórias (1981), o modo debochado de narrar do autor baiano mais uma vez retorna  com incursões  nas venturas e desventuras do povo de Itaparica e do sertão da Bahia.

Com Viva o povo brasileiro (1984), magnífico romance,  com seu prodígio técnico, conhecimento incomum de  linguagem e fala brasileira,  vasto cabedal de informações sobre a vida e cultura do povo, João Ubaldo Ribeiro passa a ser reconhecido como um dos escritores mais significativos da América latina, ao lado de Jorge Amado, Gabriel Garcia Márquez, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes e outros.  

           É triste, muito triste, essa despedida física de João Ubaldo Ribeiro. Ele foi meu amigo, companheiro de geração em Salvador e colega na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia,  no período compreendido entre 1958 e 1962.

         Quando estudante universitário, uma das coisas que eu gostava era de ir à Rua Chile. Quase todos os dias,  visitava a Livraria Civilização como uma necessidade que o tempo me impunha, semelhante àquela quando se tem sede ou fome. Era lá que eu me encontrava com os companheiros de geração, à qual alguns deles pertenciam por afinidades eletivas, enquanto outros em razão da idade. Ildásio Tavares, Alberto Silva, Ricardo Cruz, Marcos Santarrita, Orlando Sena, Olnei São Paulo, Adelmo Oliveira, Carlos Nelson Coutinho e, presença indispensável, João Ubaldo Ribeiro.  Lá estava o jovem de voz gutural, contador de casos como o  primeiro sem segundo, sorriso largo e franco,  olhos por trás de óculos com lente forte e armação grossa. De bom humor com  tudo que viesse de graça e da graça da boa terra baiana.

       E não é que, neste instante, pregando mais uma de suas travessuras e saindo da memória de repente, eis que risonho vejo diante de mim  o colega que deu as mãos à criação literária como meio de leitura crítica da vida? João Ubaldo Ribeiro, com o seu jeito brincalhão de circular naquela querida Faculdade de Direito. Ele era  encontrado na cantina, às vezes namorando com Belô, a moça mais bonita da faculdade. Comentava-se que feio como ele só mesmo sua inteligência rara poderia levá-lo à conquista do coração daquela moça, que, quando passava, arrancava suspiros dos estudantes universitários,  de tão bela. Lá mesmo na  cantina  contava alguma história de sua gente de Itaparica aos colegas Davi Sales  e Ildásio Tavares, o primeiro mostrando que sua vocação era  para crítico literário e o segundo para a poesia, e não para a profissão de advogado.   

           Uma vez fez uma prova  de Direito do Trabalho em versos e ganhou do professor Elson Gottschalk a nota máxima. Outra vez, quando soube que havia passado de ano, subiu numa cadeira da cantina e, em transe, como se algum  espírito de luz tivesse se apossado dele, começou a recitar Shakespeare em inglês clássico. Com aquela cabeça grande de baiano em que formigavam histórias, gozações repentinas, que pegavam os colegas sem defesa, só podia João Ubaldo Ribeiro dá no que deu. Em vez de advogado militante, dotado de vasto saber jurídico, fôlego de sete gatos para enfrentar os litígios forenses, tornou-se em pouco tempo o romancista consagrado de Sargento Getúlio e Viva o povo brasileiro, entre outros livros soberbos.  

         Era membro da Academia Brasileira de Letras. Seus livros foram traduzidos para oito idiomas.
        
       



MOÇÃO DE PESAR PELO FALECIMENTO DE RUBEM ALVES


Nesta semana de grandes perdas a ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA – ALITA manifesta profundo pesar pela morte do escritor, educador e psicanalista Rubem Alves que faleceu aos 80 anos, no fim da manhã deste sábado (19 de julho) em decorrência de falência múltipla de órgãos.

Um dos pensadores mais respeitados do Brasil, Rubem Alves deixa contribuições no campo da pedagogia, da filosofia, da teologia, da mente humana e da literatura. O escritor era membro da Academia Campinense de Letras e professor-emérito da Unicamp.  Em sua bibliografia consta mais de 120 títulos.

Perdemos um grande pensador, uma mente inquieta e revolucionária mas que deixa exemplos e ensinamentos para muitas e muitas gerações.

"Foi então que perceberam a tolice do rei, ao tornar obrigatória a alegria e ao tornar proibidas as tristezas. Porque a vida é uma mistura de alegrias e tristezas." (Rubem Alves in O decreto da alegria)


MOÇÃO DE PESAR PELO FALECIMENTO DE JOÃO UBALDO RIBEIRO

JOÃO OSÓRIO UBALDO RIBEIRO PIMENTEL
                                                                                                                         
1941 – 2014



Neste momento de extraordinária comunhão de pesar, a ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA – ALITA, através de seus membros, se associa à dor dos familiares, amigos e acadêmicos pelo falecimento do escritor JOÃO UBALDO RIBEIRO, 73 anos, vítima de embolia pulmonar, ocorrido hoje, na cidade do Rio de Janeiro.

Formado em Direito, João Ubaldo Ribeiro nunca atuou como advogado optando por dedicar-se às letras e suas vivências literárias sempre foram assumidas com coerência, humor e sensatez.

Membro da Academia Brasileira de Letras – ABL e da Academia de Letras da Bahia - ALB, João Ubaldo Ribeiro com livros traduzidos em diversos idiomas e distinguido com o prêmio JABUTI, o mais importante do Brasil, deixa um importante legado para a literatura brasileira com sua obra construída sobre a sólida plataforma de seus milhares de leitores espalhados pelo mundo.

Cyro de Mattos lança livro sobre o universo mágico do mundo infantil




“Aí, eu vi o sol que acordava lá onde o céu faz uma curva. Abria seu olho enorme para ver se ainda restavam algumas sombras da noite nos passos da madrugada”.


Essa é a história de uma criança sonhadora passeando pelo mundo. Aquilo que seus olhos enxergam pode se transformar em um cenário magnífico, onde as ondas do mar são leões com jubas brancas e os raios de sol são as pernas finas e compridas de uma aranha dourada.

Em O que eu vi por aí, indicado para crianças a partir de 8 anos, o autor Cyro de Mattos aproxima os pequenos (e grandes) leitores de um universo mágico e divertido, com direito às ilustrações vivas e coloridas da polonesa Marta Ignerska. Cada página traz um novo ângulo de visão, onde o texto se mistura com a arte e conduz o leitor como se fosse o guia de um city tour.

Sobre o autor
Cyro de Mattos nasceu em Itabuna, sul da Bahia. Contista, poeta, cronista, organizador de antologias e autor de livros infantojuvenis, já publicou mais de 30 livros. Foi laureado com a Medalha do Mérito do Governo da Bahia. Está presente em antologias importantes no Brasil, em Portugal, Alemanha, Itália, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos. Integra o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e a Academia de Letras da Bahia.

Sobre a ilustradora
Marta Ignerska é uma importante designer gráfica e ilustradora polonesa. Nasceu em 1978 e formou-se na Academia de Belas Artes de Varsóvia, em 2005. Ilustrou e fez o projeto gráfico de muitos livros e já ganhou diversos prêmios, cinco deles pelo livro O Tamanho do Meu Sonho, publicado pela Editora Biruta em 2010.


O que eu vi por aí, Cyro de Mattos, R$ 35, ISBN 978-85-7848-131-5, a partir de 8 anos, 44 páginas.

Formalizadas duas candidaturas do Troféu Juca Pato



Foram inscritas, junto a Secretaria da União Brasileira de Escritores, de São Paulo,  dois requerimentos de inscrição ao Prêmio Intelectual do Ano. Um deles, assinado por Cyro de Mattos, traz a subscrição de 38 assinaturas em apoio a crítica literária Nelly Novaes Coelho. O segundo requerimento, assinado por Audálio Dantas, traz a subscrição de 33 assinaturas, pela candidatura do cineasta e escritor João Batista de Andrade.
A Secretaria da UBE/SP terá de 1º a 15 de agosto de 2014 para impressão e expedição de cédulas, seguindo-se imediatamente 30 (trinta) dias, correspondente ao período de votação, que será encerrado no dia 15 de setembro de 2014.A União Brasileira de Escritores de São Paulo constituirá uma Comissão do Prêmio composta de três (3) representantes da sua Diretoria e de dois (2) representantes de cada candidato inscrito, incumbida de receber os votos, apurá-los e comunicar os resultados ao Presidente da UBE, para divulgação, até o dia 30 de setembro de 2014.
Poderão votar para o Prêmio Intelectual do Ano: a) os associados da UBE de São Paulo; b) os associados das UBEs de outros Estados, desde que comprovada sua filiação, através de listagem antecipadamente enviada pelas respectivas entidades; c) os membros da Academia Brasileira de Letras e das Academias de Letras estaduais; d) o Ministro da Cultura e os secretários de Cultura dos Estados e das prefeituras Municipais das Capitais; e) os reitores das universidades federais e estaduais públicas; f) os vencedores do Troféu; g) cinco representantes do Conselho Curador da TV Cultura, parceira da UBE no concurso; h) entidades culturais de representatividade previamente inscritas na UBE-SP para participar especificamente do Prêmio Intelectual do Ano, a critério da Diretoria, com direito a um voto cada; i) meios de comunicação, impresso ou eletrônico, com inscrição prévia, a convite da UBE (um voto cada); j) autores de livros, através do envio de um exemplar da obra ou outro comprovante de autoria, a critério e julgamento da Comissão do Prêmio e da Diretoria da UBE.As apurações serão públicas e feitas em dia e horário estabelecido pela Comissão, entre os dias 15 e 30 de setembro de 2014, quando então o Presidente da UBE, não havendo recurso pendente de julgamento, proclamará o vencedor. A entrega solene do Troféu Juca Pato ocorrerá em data a ser marcada, entre os meses de novembro e dezembro de 2014.

Os eleitores votarão na sede da UBE de São Paulo, durante os dias úteis da semana, das 14 às 19 horas, ou encaminharão pelo correio o seu voto pessoal e assinado. A data de postagem definirá a validade temporal do voto. Serão aceitos também votos assinados, anexados por meio eletrônico (imagem obtida por scanner ou equipamento fotográfico), considerada a data de envio da mensagem de correio eletrônico, endereçada a secretaria@ube.org.br

O Amargo Sabor do Fracasso

                                      
                                                                                

 Consuelo Pondé de Sena*

Para nós, brasileiros de todos os quadrantes, é de máxima importância compreender que o desejo da vitória não pode, de maneira alguma, suplantar a verdade dos fatos.
Nenhuma previsão é infalível, porque êxito e malogro dependem de inúmeras circunstâncias. Quando se desenham fatores previsíveis de sucesso, a vitória é alcançada. Mas, quando se interpõem fatores desconhecidos ou ignorados, deles resulta, quase sempre, o insucesso inesperado.
Será que, de sã consciência, algum brasileiro, de média capacidade intuitiva, acreditava na conquista do hexacampeonato? Por que antecipar prognóstico de sucesso e pintar com cores vivas os ônibus de traslados dos jogadores? Por que apostaram tanto nessa suposta “probabilidade” tão improvável?
Não pode haver dúvida de que o tempo exerce um poder catalisador, de molde a arrefecer o sentimento de derrota que feriu fundo a alma da nossa gente. Com o amortecer do trauma, a sensação dolorida deste momento cederá lugar a uma sensação de conformidade com o inevitável.
Não sei se muitos brasileiros já despertaram do “sonho letárgico” e se conscientizaram do enorme fiasco que a equipe brasileira e seus mentores expuseram aos olhos do mundo.  Ingenuamente, muitos compatriotas se comportavam como se vencedores pudessem ser. Como consequência agiram irracionalmente, emitindo correntes mentais de triunfalismo que se reproduziram por todo o país.  A dose de paixão e de emoção incontrolada foi tão intensa que mesmo assistindo o mau desempenho dos nossos atletas, ainda se acreditava que Neymar Júnior e Tiago Silva, citando apenas esses dois ídolos, pudessem resolver a questão. O desastre ocorrido com o primeiro jogador, convertido em talismã, e o cartão amarelo dado ao segundo, devem ter servido de aviso. Talismã, minha gente, segundo os ocultistas , jamais poderá ser usado por mera ostentação. De acordo com os mesmos detentores desses poderes poderá ser objeto de um pensamento negativo.  Quanta coisa má foi lançada sobre o jovem ídolo brasileiro? Quantas correntes de pensamento negativo recaíram sobre sua frágil figura física? Resta, todavia, um consolo: o mérito do talismã é a capacidade de regenerar-se após restabelecidas as harmonias abaladas ou subtraídas diante das malévolas emanações .
Por outro lado, a superstição muito arraigada no espírito da nossa gente, faz com que o discernimento vá para as “cucuias” e a crença de que tudo vai dar certo ainda perdure na mente dos que acreditam que Deus é brasileiro. Nesse caso, a opinião pública, sintetiza a opinião da maioria e, mesmo que muitos não acreditem na quimera, acabam sendo contagiado pela onda de otimismo. A onda de patriotismo também infla os pulmões dos torcedores numa forma de orgulho irracional que não permite que se enxergue o óbvio e que se alimentem de uma arrogância excessiva.
Para os brasileiros que confiavam cegamente na liderança de Felipão, nas baboseiras de Galvão Bueno, de Ronaldo, o Fenômeno ou do rouquenho Casa Grande, tudo ia bem no “país do futebol”.  A catástrofe foi provocada pelos competentes alemães que deram uma surra de 7 gols na equipe brasileira. O sofrimento, inesperadamente, se abateu sobre a nossa gente, sobre as nossas criancinhas, usadas nas chamadas da TV, para alimentar a ilusão dos “vencedores”. Eu mesma, que não sou de me deixar contagiar com essas babaquices, gravei a propaganda do Banco Itaú, aquela que diz: “Mostre a sua força Brasil / amarra o amor na chuteira / e a garra da torcida inteira vai junto com você / Brasil”. Até que ponto é possível aceitarmos que tudo isso não é verdade?
        
*Consuelo Pondé de Sena é historiadora, presidente do IGHB e membro das Academias de Letras da Bahia e de Itabuna.

Observatório Social




A Associação Comercial de Itabuna, integrando a comissão de implantação do Observatório Social de Itabuna, reuniu todas as instituições da sociedade organizada  em sua sede, no dia 7 do corrente mês de julho, para a palestra da Profª Iara  Dórea, Diretora de Tecnologia do Observatório Nacional, com sede em Curitiba, Conselheira do Conselho Nacional de Contabilidade e Ouvidora Geraldo mesmo órgão, professora da UNIME-Salvador. 


A reunião teve como objetivo conduzir Itabuna a integrar um espaço para o exercício da cidadania, democrático e apartidário, reunindo o maior número possível de entidades representativas da sociedade civil,  a fim de contribuírem para a melhoria e transparência da gestão pública.


Cada observatório social é integrado por cidadãos brasileiros que transformam o seu direito de indignar-se em atitude, em favor da transparência e da qualidade da aplicação dos recursos públicos. Atenderam ao convite empresários, representantes de clubes de serviços, OAB, professores, estudantes, funcionários públicos, associações diversas, academias de letras, dispostos ao trabalho voluntário em prol da justiça social.

O Observatório Social  atua como pessoa jurídica de direito privado, em forma de associação, organizado em rede e coordenado pelo Observatório Nacional, com sede em Curitiba. Existentes e funcionando com êxito em 15 Estados brasileiros, estão presentes  em mais de 80 cidades, criando uma nova cultura, qual seja a participação do cidadão na ação preventiva e controle social dos gastos públicos. Para a consecução do ambicioso projeto vem contando, em todos os Estados, com o apoio do Ministério Público. Com o propósito de fundamentar o alicerce institucional a partir da mais ampla diversidade representativa da sociedade civil organizada tem como norma, em sua "carta de identidade",o estímulo ao trabalho voluntário voltado para o controle social e fiscal, como exercício da cidadania.



Nada acontece por acaso

  
                    
                                                                Sônia Carvalho de Almeida Maron*


Lamentável, sob todos os aspectos, a manifestação das arquibancadas do Itaquerão dirigida à presidente do Brasil na cerimônia de abertura da Copa do Mundo. Embora as vaias e aplausos sejam normalidade nos estádios de futebol, surpreendeu a forma como foi traduzida, ou seja, um coro de palavras chulas, que a imprensa tradicional omitiu registrando apenas o fato, enquanto os vídeos das redes sociais divulgaram em áudio e a cores... Agrade ou não, erre ou acerte, Dilma Rousseff comanda um dos poderes constituídos, figura entre os estadistas que decidem o destino da América Latina e do mundo como um todo. Como se não bastasse, é a guardiã da liturgia do cargo e de todos os valores morais e éticos que servem de bússola ao governante de um país civilizado. Esta primeira análise é inquestionável. Ocorre, no entanto, que nada acontece por acaso, do mesmo modo que não existe crime sem motivo. 

Exercitando a memória, voltemos ao passado recente dos primeiros dias de governo do líder do partido da presidente Dilma, seu mentor e padrinho. O ex-sindicalista, já investido no honroso cargo de presidente da República Federativa do Brasil, compareceu a uma cerimônia pública em São Bernardo do Campo e colocou na cabeça o boné padronizado do MST, recebido das mãos de um dos ativistas. Ninguém ignora que o movimento reivindica seus direitos praticando atos de vandalismo contra a propriedade pública e privada, como são exemplos a invasão do Congresso Nacional e empresas como a VALE, sem falar em invasões de incontáveis instituições públicas e propriedades rurais “agraciadas” por visitas dos “sem terra” e crimes contra a pessoa. Esse foi o pontapé inicial para sacramentar simbolicamente, o apoio aos atos ilegais praticados pelos integrantes do movimento que se mantém com verba de órgãos federais, vale dizer, do nosso bolso. Em contrapartida, não existe notícia da prometida reforma agrária.

A sucessão de atos incompatíveis com o exercício digno e democrático do poder culminaram com o escancarado desrespeito aos poderes legislativo e judiciário, desmoralizando o primeiro e fragilizando o segundo, última trincheira que o cidadão dispõe no estado democrático para defesa e preservação dos seus direitos. O espaço restrito que um jornal dispõe para seus colaboradores não permite elencar todos os desmandos, provas irrefutáveis de corrupção, destruição de valores éticos e morais, uma constante na administração pública brasileira atual. O mais engraçado é que o ex-presidente não sabia de nada e mal conhecia o chefe da Casa Civil e outros colaboradores, conforme suas declarações na imprensa de países vizinhos, logo após o julgamento, pelo STF, da ação penal que ficou conhecida como “mensalão”. Coincidentemente a presidente atual também não tinha conhecimento dos detalhes referentes à compra da refinaria de Pasadena, apesar de integrar a comissão. E lá se foi a Petrobras, a joia da coroa... A solução encontrada foi a propaganda televisiva maciça do lado “cor de rosa” da empresa estatal, na tentativa frustrada de apagar mais um escândalo. Até mesmo o povão das “bolsas” e “minha casa minha vida” está enxergando a manipulação de suas consciências e não aceita a sugestão do ex-presidente no sentido de que o transporte no lombo de um jegue pode muito bem substituir o metrô, para alcançar as “arenas” nos jogos da Copa do Mundo. O povão sabe muito bem que a pessoa que lhe oferece o meio de mobilidade urbana usada pelo menino Jesus, usa jatinhos e carros blindados.
    
Em verdade, a vaia não partiu da elite. Naquele momento, aqueles que conseguiram adquirir o ingresso de preço proibitivo ao povo do salário mínimo, representavam o cidadão brasileiro que perdeu a paciência, não acredita mais que foi o PT quem descobriu o Brasil e esgotou a última gota de tolerância com o discurso maniqueísta e bolorento “nós somos o bem, eles são o mal”. Além do mais, o patrão da presidente vaiada (estrategicamente desaparecido e jogando a pupila às feras) cometeu um erro gravíssimo: tentou preparar uma “batida” misturando futebol e política em ano de eleição. Futebol é paixão nacional e contagia o mundo inteiro. É alegria, emoção, mistura de confraternização e disputa no tapete verde dos estádios, à vista de todos. Nossos craques são cidadãos do mundo, suam a camisa para fazer jus aos salários milionários. Nesse clima de glória, chuteiras douradas e euforia, os políticos são intrusos e indesejáveis quando a rejeição já restou provada em pesquisas de opinião. Ao herói do momento, que tem o nome de Júlio Cesar, toda honra e toda glória, até o fim da Copa, AMÉM!  
        
A Copa do Mundo vai seguindo “com o coração batendo a mil” e o cerimonial da FIFA exige a presença dos reis e presidentes no encerramento, cumprindo o ritual de entrega da taça ao vencedor. A presidente Dilma “acredita” que invocando os ORIXÁS da Bahia, aos quais pediu a bênção na convenção do seu partido (segundo divulgação do seu pronunciamento pelo jornal A TARDE), conseguirá a proteção desejada. Acontece que sou baiana. Posso afirmar que nosso sincretismo religioso, apesar de tolerante e magnânimo, não aceita adesões de última hora, até porque nossos ORIXÁS estão muito ocupados com os pedidos dos seus filhos da Bahia.

            

Uma pausa para a fantasia




Por Celina Santos


 Nas gigantescas “arenas” construídas em 12 capitais, é um espetáculo à parte o “brado retumbante do heróico povo brasileiro” ao entoar o Hino Nacional à capela; torna-se difícil não se emocionar, ainda que do outro lado do televisor, quando a torcida canta “eu sou brasileiro/ com muito orgulho/ com muito amor...”.

Definitivamente, a Copa do Mundo envolve na redoma da fantasia, onde a maioria das pessoas é simbolicamente transportada para um universo regido pelo mais puro ufanismo. É como se a carinhosamente chamada camisa “canarinho” fizesse cair por terra qualquer sentimento negativo em relação ao país.

O momento, vivenciado a cada quatro anos, lembra uma célebre frase atribuída ao filósofo Georg Hegel, para quem “nada existe de grandioso sem paixão”. A despeito de preferências pessoais, não há como negar: Um dos mais inquestionáveis componentes da identidade brasileira é a paixão pelo futebol.

Neste ano de 2014, em especial, a mobilização é incomparavelmente maior. Afinal, a “terra adorada” é a anfitriã da maior competição do esporte mundial. Cerca de 600 mil visitantes vieram para assistir aos jogos, muitos ávidos por conhecer as tão alardeadas maravilhas do país. Em enquetes, eles já destacam a culinária diversa, a cordialidade e alegria dos “donos da casa”. Além, é claro, de testemunhar o quão forte é a ligação entre a torcida e a Seleção Brasileira

Como bem definiu o jornalista Tino Marcos, a Seleção é uma instituição cultural para o Brasil. Através dos dribles geniais dos jogadores, parecemos dizer: que venham os obstáculos, porque somos brilhantes o suficiente para derrubá-los. Ilusão? Alienação? Por ora, nada importa! As vitórias nas “quatro linhas” chegam como uma catarse, a expurgar toda espécie de frustração lá do mundo real.

Enquanto o lugar de torcedor se sobressai em relação aos demais papéis, o brasileiro cria uma espécie de carapaça, de modo a impedir que qualquer discussão sociopolítica (ou algo que o valha) invada o sagrado cantinho do sonho. Aliás, está aí a razão pela qual de nada adiantam as tentativas de atrelar política a futebol.

Ao mesmo tempo em que vibra, aplaude, vaia, chora, grita, a nação deixa claro que é hora de devanear. Já que não foi acionado novamente o “botão” da realidade, segue a festa, o batuque, a contagem para o apito final do juiz. Espera-se, porém, que a torcida possa desembarcar do “planeta fantasia” dando passes acertados na relação com o próximo (família, amigos, patrões, empregados, vizinhos, desconhecidos...) e, principalmente, levando a bola do voto para longe do gol contra.


FUTEBOL EM TEMPOS DE COPA DO MUNDO - EM CAMPO, OUTRAS GLÓRIAS - Florisvaldo Mattos


EM CAMPO, OUTRAS GLÓRIAS


Florisvaldo Mattos*


Planejava aguardar o final da fase classificatória da Copa do Mundo de futebol, da qual já foi surpreendentemente expulsa a campeã Espanha, declarando a morte de seu estilo por todos admirado e imitado, para celebrar algo que considero deslumbrante na atual edição desse torneio: a empolgante e fascinante presença de jogadores negros em várias seleções (fora as óbvias formações da equipe brasileira e elencos das de origem africana), especialmente nas de países tidos, antes como hoje, na história, como imperialistas ou de tradição colonialista, com pouquíssimas exceções, e então, adiantando-me, resolvi homenagear esses grandiosos atletas, em geral homens esbeltos, altivos e fortes, em meio a brancos simpáticos e educados, num exemplo patente de civilização, democracia e humanismo real. Para tanto, então, só encontrei um meio que satisfizesse meu intento – a transcrição de um poema que é parte de outro maior sobre as formas artísticas genuinamente, a meu ver, criadas pelo século passado (“Saudades do Século XX – Mitologias”, um elogio ao Cinema, ao Jazz e ao Futebol). Vai então abaixo a parte desse poema que celebra o Jazz, de suas origens à resplendência de seus grandes nomes, como a forma de arte com que a raça negra enriqueceu a história do Ocidente, com nada menos que a doce, sofrida e inesquecível voz de Billie Holiday, na monumental canção “Strange Fruit”, marco de uma época dolorosa. Ofereço a todos, tanto aos que amam e torcem, como aos que apenas toleram o futebol, além de sonharem com o Brasil campeão.



ACORDES E ECOS DA JÂNGAL

Florisvaldo Mattos

Desde que Buddy Bolden expedia
flechas de som da noite para o dia,
Nova Orleans era só fardo e barril,
irrompeu lá outra guerra civil,
sustentada em acordes e gemidos,
paixão, dor, consciência, duplos sentidos,
que proferem metais, tambores, cordas,
e deste vasto porto partem hordas,
aquilo que foi sopro, ritmo e canto,
de mistura com suor, lamento e pranto.
O do algodão e escravos Mississipi
é testemunha e, antes que se dissipe
essa remota história do fervor,
urdo um rol à memória do langor.

Começo por lembrar Louis Armstrong,
King Oliver, Sidney Bechet e o gong
De Big Sid Catlett; sigo um fundo vale
(de lá a Nova York, nada que me cale):
Hawkins Body and Soul arrebentando,
nos criativos trinta do suingue, quando
reinam Flecther e Jimmie Lunceford,
a nova ordem do bom para o melhor.
Invoco Hodges, Bigard, repito Blanton,
o trombone vodu de Trick Sam Nanton,
no rastro de Bix, Basie, algo que fungue
o pescoço da aurora, até Lester Young,
príncipe do langor; alas ao bebop
e a quem que na caudal surja alto e tope
com Dizzy, Parker, Monk, Powell, Mingus,
que ao jazz raspam a face de domingos,
ou reste apenas nos flancos dessa grei
espaço à prata e o ouro de Billie Holiday:
corça, escapa entre dédalos de pedra,
tênue haste, mais Ofélia do que Fedra.



Billie Holiday-Strange fruit- HD



 



Movido pelo espírito da Copa do Mundo e os ânimos que ela desperta e acende, o poeta José Carlos Capinan teve a brilhante ideia de promover, no museu de cultura afro-baiana que criou e dirige, um tributo ao goleiro Barbosa, o grande anti-herói da malfadada Copa do Mundo de 1950, a da trágica vitória do Uruguai, que emudeceu o Maracanã e deixou marcas indeléveis em gerações de brasileiros, convencido de que o gesto do goleiro, pegar no fundo das redes a bola do gol de Ghiggia, fazia um movimento que despertava e insuflava a dignidade e o orgulho nacionais para as conquistas futuras do Pentacampeonato Mundial de Futebol. Ao ser avisado dessa bonita iniciativa, lembrei-me de poema que escrevi, há alguns anos ("Saudades do Século XX - Mitologias"), celebrando o futebol como arte e sensação. Vai abaixo ilustrado com a foto de Barbosa, justamente no gol que paralisou a nação.



LUZES NO ÉDEN DAS



QUATRO LINHAS


A outra alma, a que palpita nos estádios
aqui, ali, acolá, a dos ruidosos gládios,
que abrasam corações, em rubras tardes,
estrépitos de passos, e os alardes
de alegrias que vêm às toneladas,
a rasgos de bandeiras desfraldadas.
O passe de Didi para Garrincha,
que Vinicius notou por uma frincha
do céu, aquele espaço, aquele porto
de cristal, onde reinava o anjo torto;
soberano Pelé e outros de Setenta,
gols, passes, dribles, gingas da opulenta
legião que ilustrou este e outros pagos,
quebrando a morbidez de dias vagos,
como estirpes de vinhos capitosos,
fecundam tempo e saga generosos,
desde os coroados a quem foi à lona:
Di Stefano, Puskas, Cruyff, Maradona.
Mas antes, bem antes, pois há quem ache,
as artes de Zizinho e Friendereich.
E as do naufrágio no Maracanã,
ídolos caídos em tarde dura e malsã,
quando conhecemos por voz agreste
o outro sabor da palavra Celeste
Em movimentos de fugazes luas,
enunciações de quanto perpetuas,
ó futebol, idioma corporal,
oculto em peripécias de jogral.

*FLORISVALDO MATTOS, escritor, poeta e jornalista