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Livro Cancioneiro do Cacau de Cyro de Mattos será lançado na Bienal Internacional do Livro no Rio




O livro Cancioneiro do Cacau, de Cyro de Mattos, publicação da Editus, em segunda edição, inserido na Coleção Nordestina, das editoras universitárias do Nordeste,  estará sendo lançado na Bienal Internacional do Livro, no Rio de  Janeiro,  a partir de 3 de setembro. Com orelhas do crítico e ficcionista Assis Brasil, prefácio de Eduardo Portella e  posfácio de Hélio Pólvora, Cancioneiro do Cacau  é um canto geral sobre a civilização cacaueira baiana, das origens aos dias atuais.  


Uma epopéia e mistérios do cacau na Bahia, este é o subtítulo da coletânea de poemas Cancioneiro do Cacau. Trata-se de um livro com casamento perfeito entre a poesia e a civilização cacaueira baiana. Um macrotexto poético, vigoroso,  dividido em dez partes: Os Sortilégios, As Raízes, As Safras, Os Bichos, As Cidades, Os Trabalhos, Os Transportes, As Imaginações, Os Recantos, Os Descaminhos.


Aqui, a realidade da civilização cacaueira baiana está cantada e contada como ainda não havia acontecido. O poeta baiano (de Itabuna) Cyro de Mattos expõe com fôlego e meios expressionais modernos sua ligação com o ser-estar do homem, dentro de um contexto específico, desde os tempos pioneiros até os dias atuais, de decadência, solidão, esquecimento e exílio.


Cancioneiro do Cacau conquistou prêmios de expressão no Brasil e exterior, como o Prêmio Nacional de Poesia Ribeiro Couto da União Brasileira de Escritores (Rio), para livros inéditos, em 1997; Terceiro Prêmio Nacional de Poesia Emílio Moura da Academia Mineira de Letras, em 2003; Finalista do Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira de Letras (SP), em 2003,  e  Segundo Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, do Centro Culturale Sestri Levante, em Gênova, Itália, em 2006.        

COMUNICADO

                       

O Editor da Revista Guriatã, da Academia de Letras de Itabuna, comunica aos membros  efetivos e correspondentes da entidade que estará recebendo as colaborações para o número dois, a ser editado no primeiro semestre de 2016, a partir de 1* de setembro até  30 de novembro de 2015.

 As colaborações devem obedecer aos padrões seguintes:  

1) Artigos e ensaios até 6 páginas
2) Contos até  5 páginas
3) Crônica até 2 páginas
4) Outros Textos até 4 páginas
5) Cinco poemas, sendo que cada um deles não deve ultrapassar uma página.

As colaborações  devem ser enviadas para o e-mail cyropm@bol.com.br, em Word, Times New Roman,  A 12. Cada colaborador pode enviar até duas colaborações dos itens referidos de  1 a 5, não estando inclusos neles os discursos oficiais  e editoriais.

Itabuna, 31 de agosto de 2015-08-30

Cyro de Mattos
Editor da Revista 

Noite de Lançamento da Revista Guriatã



Membros da ALITA e convidados especiais

Academia de Letras de Itabuna apresenta Revista Guriatã à comunidade

Numa noite que misturou música, poesia, teatro e oratória, a Academia de Letras de Itabuna (ALITA) apresentou à sociedade a primeira edição da Revista Guriatã, em 19 de agosto de 2015, no auditório da FTC (Faculdade de Tecnologia e Ciências). Tal como o pássaro emblemático do sul da Bahia que dá nome à publicação, a instituição tem um novo voo neste ano em que comemora o centenário do seu patrono, o saudoso escritor Adonias Filho.
             A Revista “Guriatã”, distribuída durante o lançamento, reúne artigos, ensaios, poesias e discursos, entre outros textos escritos por imortais da ALITA e demais nomes notáveis da literatura regional. Um dos editoriais é assinado pela presidente da Academia, Sônia Carvalho de Almeida Maron, que na solenidade agradeceu o patrocínio do Grupo Conlar à publicação, assim como do empresário Helenilson Chaves, que custeou o coquetel de lançamento.
              Na leitura da mensagem por ela assinada, evidenciou a proposta de fraternidade e união como tônica na Academia de Letras de Itabuna. “Esta revista nasce com o propósito de enfrentar o desafio consubstanciado na defesa dos valores que servem de alicerce não somente às academias de letras: são valores necessários à promoção de um mundo mais ético e mais justo, onde a liberdade de expressão cumpra o seu verdadeiro papel”, assinalou.
              O diretor da revista, Ruy do Carmo Póvoas, lembrou que “a publicação quer se constituir num espaço de interlocução e construção de conhecimentos e intercâmbios de experiências literárias, mormente a produzida na região sul da Bahia”. Ele aproveitou o momento, também, para reverenciar a poetisa Valdelice Pinheiro, durante a leitura do poema “Testamento”.
              Ao fazer uso da palavra no evento, o coordenador e produtor editorial da “Guriatã”, Cyro de Mattos, lamentou os maus-tratos a animais revelando como surgiu a ideia e, em seguida, recitando o poema “Canto a Nossa Senhora das Matas”. Já no discurso intitulado “Em Nome dos Fundadores”, transcrito na revista, Mattos declarou: “A ALITA de fato propicia meios para a valorização da autoestima dos outros no mundo. Isso contribui, em parte, para retirar o homem grapiúna do ócio e da zona de risco”.
              Outro momento marcante da noite foi o recital de poemas dirigido pelo acadêmico Jorge Luiz Batista, com participação dos atores... Eles declamaram poemas dos escritores Florisvaldo Mattos, Firmino Rocha, Telmo Padilha e Walker Luna. Para encerrar, o cantor Roque Luy entoou a versão musicada dos poemas “Passarinhando” e ..., escritos por Ceres Marylise Rebouças.
              A revista Guriatã traz textos assinados pelos seguintes membros da ALITA: Sônia Maron, Ruy Póvoas, Cyro de Mattos, Maria de Lourdes Netto Simões, Raimunda Assis, Jorge Luiz Batista dos Santos, Lurdes Bertol, Consuelo Pondé (in memoriam), Marcos Bandeira, Celina Santos, Sione Porto, Florisvaldo Mattos, Renato Prata, Aleilton Fonseca, Ceres Marylise, Hélio Pólvora (in memoriam), Aramis Ribeiro, Silmara Oliveira, Raquel Rocha e Antonio Lopes. Há, ainda, poemas dos notáveis Firmino Rocha, Telmo Padilha, Walker Luna e Valdelice Pinheiro (todos in memoriam).

Irmã Margarida, Representate do Lions Clube Itabuna Centro, Presidente da ALITA, A escritora Ceres Marylise, Mary Khalid , Raquel Rocha, Silmara Oliveira e Ivan Montenegro.
Sônia Maron, Irmã Margarida Alves, diretora da AFI,
 Paulo Lima e Raquel Rocha

Sônia Maron e confrades da AGRAL: presidente Ivan
 Montenegro e Paulo Lima

Representantes das duas academias, ALITA E AGRAL:
 Raquel Rocha, Ivan Montenegro, Sônia Maron, Silmara Oliveira e
 Paulo Lima

O jovem violinista Pedro Japiassu

Josevandro Nascimento, presidente da Academia de Letras
 de Ilhéus, Magnífica Reitora da UESC  Adélia Maria Pinheiro e Tica Simões


Presidente da ALITA e homenageados na mesa do evento

























O Lobo e o Pássaro

O cantor e compositor Lobão que veio a Ilhéus para um show que acontecerá neste sábado, 15/08/2015 em Olivença, recebeu a visita da jornalista e também acadêmica Raquel Rocha para uma entrevista, na pousada Morro dos Navegantes onde estava hospedado. O músico falou sobre sua turnê, sua carreira, seus livros e o sobre momento atual no qual vivem os brasileiros.

Na ocasião Lobão, que também é escritor, recebeu de presente a Revista Guriatã, da Academia de Letras de Itabuna, enviada pela presidente Sônia Maron cujo lançamento ocorrerá no próximo dia 19 de agosto. 









Lançamento da Revista Guriatã da Academia de Letras de Itabuna



A Academia de Letras de Itabuna- ALITA por meio da sua presidente Sônia Carvalho de Almeida Maron, convida  para o lançamento da Primeira Edição da Revista GURIATÃ. A revista teve como coordenador e produtor editorial o escritor Cyro de Mattos.


O lançamento ocorrerá no dia 19 de agosto de 2015 as 19:00 horas no Auditório da Faculdade de Tecnologia e Ciências - FTC.  O evento é de natureza cultural e a revista será distribuída gratuitamente. A Academia de Letras de Itabuna solicita aos convidados doações para o Abrigo São Francisco, que podem ser em forma de fraldas geriátricas descartáveis ou material de limpeza. 

Peripécia de Jorge Amado





              
             Cyro de Mattos

Eu te louvo pelos oprimidos
Nos subterrâneos da liberdade,
Teu pulso erguido com amor
Fale da seiva de servos,
Calo sem orvalho na trama
Do ouro vegetal com rifle na curva.
Teu verde galope indormido,
Na seara vermelha tua face
Carregando sede e fome,
O olho do sol crepitando
Céu de fogo na aurora,
Fósforo aceso no crepúsculo.
Teu riso leonino fendido
Com os capitães de areia,
Esse trauma de ladeiras
E ruas do mundo sem teto
Escondido na hora da ciranda.
Eu te louvo no peito lírico,
A garra de Teresa Batista,
Fome de Dona flor, agreste Tieta,
Rosa de Gabriela, cravo de Nacib.
Quem te fez pastor da noite,
Vasco Moscoso, flor do povo,
Pedro Bala, amado guerreiro,
Boêmio, malandro, meretriz, violeiro,
Guardador de chaves africanas,
Verdade absoluta em Pedro Arcanjo,
Duas mortes de Quincas Berro Dágua,
Gargalhada da Bahia ao infinito?
Ó meu capitão de longo curso
Tua cidade de mares e ventos
Amanhece repetida de foguetes,
De estrelas e atabaques anoitece,
Nos terreiros orixás estão descendo.


·          

Um Construtor de Pontes Literárias

         
                          
                             Cyro de Mattos

        

               Curt Meyer-Clason nasceu em 19 de setembro de 1910, em Ludwigsburg, cidade próxima a Suttgart, no sudoeste da  Alemanha.  Contista, romancista, autor de diários, ensaísta,  conferencista, editor   e tradutor. Como autor publicou quinze livros  e, entre eles,  Equador, romance biográfico no qual narra a ausência de identidade pessoal em uma  juventude sem rumo,  em razão do período sombrio que passara a Alemanha no fim do século 19 e princípio do século 20. Sua correspondência com autores que traduziu forma um legado precioso, que dará grossos volumes quando publicada e ajudará a compreensão de sua obra.  
           A orquestração do destino quis que Curt Meyer-Clason  ficasse notabilizado como tradutor. Ele foi  o maior divulgador da literatura brasileira, portuguesa e latino-americana na Europa, tendo começado suas atividades de tradutor logo após a  Segunda Guerra Mundial. A lista completa de autores consagrados que traduziu  ultrapassa mais de 150 títulos. Esse construtor de pontes literárias traduziu para o alemão obras seminais e, entre elas,  “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, e “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez.
Seus ancestrais pertenciam à nobreza. O pai era oficial no exército prussiano. Depois de completar o ginásio em Sturrgart, Curt   Meyer-Clason  matriculou-se numa escola de co­mércio. Focado no desejo de exercer a vida no comércio,  seguiu para o norte da Alemanha. Em Bremen encontrou trabalho numa firma americana que atuava no ramo de importação de algodão e tinha filial em Le Havre. O jovem empregado havia aprendido  a “classificar algodão” e nessa época  já do­minava o inglês e o francês. Isso lhe deu  condições de se tornar   o  encarregado  da correspondência da empresa. Nesse  tipo de trabalho teve a oportunidade  de viajar   com frequência entre Bremen e Le Havre.  A empresa enviou-o ao Brasil onde passou a  trabalhar em São Paulo como “controlador de algodão”. Nesta função conheceu os mais importantes portos brasileiros, além de passar longos períodos na Argentina.
  Radicou-se em Porto Alegre onde  dirigiu uma empresa fabricante de móveis. Em pouco tempo se tornou  pessoa conhecida  na sociedade local. Desfrutava os prazeres que seu novo ambiente oferecia. Era jovem e atraente.  Possuía um automóvel conversível, o que era raro em sua idade e  uma prova de seu reconhecido status. Mais tarde, em uma de suas entrevistas, Meyer-Clason, referiu-se àquela época, dizendo: “Naqueles tempos eu era um dandy. Adorava três coisas: moças bonitas, gravatas e tênis”.
            Do lado de lá, a Segun­da Guerra expandia-se, o
bem e o mal coexistiam  numa vizinhança das mais imprevisíveis quanto mais niilista. O mal não tinha  limite.  Corpos de pessoas eram  usados para experiências absurdas. Almas  sem clamor e pequenos corações  viviam  aterrorizados sob a expectativa de que só iriam  sair dos campos de extermínio  pela chaminé reduzidos a cinzas. Sirenes, bombas, torpedos. Explosões, crateras, escombros. Na  enchente a morte. Tudo acontecia  de maneira imperturbável. A fera ressurgia da antiga caverna para galopar nas trevas. Não concedia a trégua com suas manadas  do terror.  A vida não tinha qualquer possibilidade numa condenação sem sentido. Muita gente morta, pessoas enforcadas, mutiladas,  queimadas.
         Do lado de cá,  o governo Getúlio Var­gas procurava se situar   entre os blocos inimigos, que mantinham acesa a guerra em seus passos devastadores. Curt Meyer-Clason foi acusado de espionagem a serviço do governo nazista de Hitler.  Foi preso pelos algozes do Estado Novo e  condenado a 20 anos de prisão . Passou cinco anos no presídio de Ilha  Grande, no Rio de Janeiro. Foi quando  o tempo parou para ele enquanto na Europa  mi­lhões de ho­mens da mesma ida­­­de se matavam, mutuamente, sem qualquer tipo de  remorso, numa incrível capacidade de resistência.
       Um companheiro de prisão, o barão Gerhard von Klein, alemão poliglota e muito culto,  despertou  em Curt Meyer-Clason o interesse pela leitura. Assim tinha início sua  grande viagem pelo universo dos livros.  Lia tudo que caía em suas mãos para entender melhor o mundo.  Rilke, Thomas Mann, Friedell, Mon­taigne, Pascal, Pro­ust, Bernanos, Berdjiajew, Bu­­ber, os grandes romancistas russos e autores brasileiros. Na medida em que viajava  em companhia de grandes autores, ia pulsando dentro dele outro homem.
        Posto em liberdade estabeleceu-se no Rio de Janeiro. Foi trabalhar no comércio de compensação alimentícia. Exportava madeira de pinho e importava  uísque escocês.   Em 1954, de­pois de 17 anos no Bra­sil, regressava  à Alemanha, fixando residência em Munique. E lá, em seu chão de origem, começou a  trabalhar como revisor para várias editoras. Nessa época, como visitante, passou a freqüentar o  Consulado Geral do Brasil,  para onde se dirigia constantemente. Com certeza para matar a saudade que sentia do nosso país. Como deveria acontecer, não demorou e foi sendo solicitado para trabalhos de tradução. Assim foi que nasceu a ideia  e tomou corpo  seu desejo de levar para a  Europa através da literatura a forma de vida latino-americana. Começava então seu longo e firme processo existencial de traduzir para o alemão obras do espanhol, português, francês  e inglês.
           Curt Meyer-Clason permaneceu em Munique até 1969. Nessa parte do tempo,  já havia traduzido Gabriel García Márquez, João Guimarães Rosa, Juan Carlos Onetti, César Vallejo, Augusto Roa Bastos, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e outros autores importantes da literatura latino-americana. Tornara-se figura respeitada nos círculos editoriais e culturais da Alemanha.  Paralelamente ao seu trabalho de tradutor,  mantinha estreito contato com quase todos os autores da América Latina vivos. 
           Em 1969 recebeu o convite para assumir o cargo de  diretor do Instituto Goethe de Lisboa. Permaneceu nessa função até ocorrer sua aposentadoria em 1976. Nesse tempo,  Portugal ainda vivia sob a influência dos anos da ditadura de  Salazar, que deixara o governo por questões de saúde, em 1968. Seu sucessor, Marcelo Caetano, seguiria  a mes­ma linha política de repressão salazarista.  Os meios de comunicação eram controlados pela máquina opressiva estatal   de um  governo ditatorial. À  maneira própria de um intelectual idealista,  sem se intimidar com o patrulhamento ideológico e repressivo do governo português, Curt Meyer-Clason transformou o Instituto Goethe de Lisboa “nu­ma porta aberta para a Eu­ropa”. A sede do Instituto servia como um oásis e ponto de encontro para escritores, representantes da intelectualidade portuguesa e dissidentes de todas as correntes políticas.
Convidava autores e intelectuais alemães para encontros com autores portugueses.  Wer­ner Herzog, Peter Weiss, Walter Jens, Martin Walser, Gün­ther Grass, Heinrich Böll, Hans-Mag­nus Enzensberger e o austríaco Tho­mas Ber­nhard são apenas alguns dos ícones  da cultura alemã que visitaram  Lisboa naquela época. Com uma companhia teatral de Lisboa, Meyer-Clason produziu apresentações do dramaturgo alemão Bertholt Bre­­cht na capital lusa.  Sempre  ajudava  au­­tores portugueses, como Miguel Torga, José Sara­mago e António Lo­bo Antunes,  a encontrar editoras para lançamento de  suas obras na Alemanha.
 Curt Meyer-Clason tornou-se personalidade  cultural de primeira linha  em Portugal, uma pessoa muito estimada nos meios intelectuais locais.  Quando circulou a notícia de que deixaria a direção do Instituto Goethe, houve de pronto uma reação contrária entre os intelectuais locais. Foi iniciada uma campanha na mídia portuguesa, liderada pelo romancista António Lobo Antunes, com vistas à permanência dele. Ressalte-se que na relação dos  autores portugueses que traduziu  para o alemão figuram  Eça de Queirós, Camilo Castelo Bran­co, Miguel Torga, Fernando Na­mora,  Al­meida Faria, Urbano Tavares Ro­drigues, Jorge de Sena, Eugenio de An­drade e Sofia de Mello Brey­ner-Andresen. Editou também antologia  de contos e poemas.
      Em 1976, mais  uma vez regressava a Munique. Dessa vez para se dedicar, em tempo integral, ao trabalho de tradutor e à escrita de seus  textos e ensaios.
 Além dos autores portugueses e brasileiros, já citados,   outros ficcionistas e poetas brasileiros e latino-americanos  foram  traduzidos por Curt  Meyer-Clason:  Adonias Filho,  Mário de Andrade, Jorge Luis Borges, Ignácio de Loyola Bran­dão, José Cândido de Carvalho, Rubén Darío, Autran Dourado, Ferreira Gullar, Clarice Lispector, Machado de Assis, João Cabral de Melo Neto, Gerardo Mello Mourão, Pablo Neruda, Darcy Ribeiro, João U­baldo Ri­bei­ro, Augusto Roas Bastos,  Fernando Sabino,  José Sarney, César Vallejo,  Octávio Paz e
Cyro de Mattos.
Causa  espanto como ele, já tradutor de inúmeros escritores da literatura, brasileira, portuguesa e latino-americana,  ainda conseguiu traduzir   autores de outras nacionalidades, do porte de   Louis Baudin, Brendan Behan, Isaiah Berlin, Erich Blau, Alphonse Boudard, Geoffrey H.S. Bushnell, Alfred Chester, Antonio Di Benedetto, Jean Descola, José Gorostiza, Bernard Gorsky, Ronald Hardy, Alan Harrington, Sean Hignett, Martin Buber, Alberto Moravia, Luc Stang,  Vladímir Nabókov e Henry Rothe Em alguns casos  traduziu mais de  um livro de cada autor.
        Certa vez perguntaram-lhe se ele teve muita dificuldade para  traduzir Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Respondeu que tra­duzir o Grande sertão: Veredas  para o alemão é mais ou menos como traduzir o Ulisses, de James Joyce.  O que ajudou no  êxito do projeto  é que Curt Meyer-Clason  era amigo de João Guimarães Rosa. Durante  anos manteve  correspondência com o escritor mineiro.  Foi-lhe  possível assim resolver as partes mais difíceis da tradução  com o auxílio do próprio autor. Trocaram   mais de quinhentas  cartas. Ele  apresentava as questões, formulava as perguntas,  o  romancista  respondia apontando as soluções cabíveis.
Nessa condição,  Guimarães Rosa foi  a Munique várias vezes para  discutir com ele  os termos e as passagens mais complicadas da obra. Chegava a permanecer  de três a quatro semanas. Regressava ao Brasil para retornar algum tempo depois.  Às vezes, tradutor e autor traduzido  discutiam  dias, com vistas a  encontrar a expressão  certa ou adequada de um só vocábulo, que, muitas vezes, nem estava registrado no dicionário. Muito  facilitou no  trabalho árduo  o fato de João Guimarães Rosa ter sido poliglota. Falava fluentemente vários idiomas, inclusive o  alemão, que aprendera durante o período de 1938 a 1942, quando  fora cônsul-geral do Brasil, em Hamburgo. Esse mesmo método de trabalho João Gui­marães Rosa manteria posteriormente com os seus tradutores italiano e americano.
Este articulista teve a honra  de ser   traduzido por Curt Meyer- Clason. Enviei primeiro para ele  o  livro Vinte poemas do rio e recebi de volta   vários poemas traduzidos e na sua carta a seguinte opinião: Li e reli seus poemas com os sentidos encantados e admiração pelo seu talento mágico. Nunca pensei que um pequeno livro de um poeta do interior baiano fosse sensibilizar o consagrado tradutor de João Guimarães Rosa e Gabriel Garcia Márquez.  Animado, enviei  depois o Cancioneiro do cacau, livro  que havia recebido   o Prêmio de Poesia Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores (Rio), o Segundo Prêmio Internacional Maestrale Marengo  d’Oro,  em Genova, Itália, o  Terceiro Prêmio de Poesia Emílio Moura, da Academia Mineira de Letras, e foi finalista do Prêmio Jabuti. Com muita alegria  recebi  dele outra carta fazendo elogio ao livro e ainda  vários poemas traduzidos.
 Foi assim que mantive correspondência com o  notável tradutor alemão  por mais de seis anos.   E tive o privilégio de ter dois livros meus traduzidos por ele: Canto a Nossa senhora das Matas, (Gesang Auf Unsere Liebe Frau von Den Wälden), editado pela Fundação Casa de Jorge Amado,  Salvador, e  Zwanzig Gedichte von Rio und andere Gedichte (Vinte Poemas do rio e outros poemas),  publicado na Alemanha, pela Projekte-Verlag,  de Halle.   Guardo como um tesouro raro a correspondência que mantive com Curt Meyer-Clason . Pretendo publicar um dia.
        Curt Meyer-Clason, este alemão carismático,  que seduzia a plateia  de professores universitários, escritores, jornalistas, estudantes e leitores quando discorria,  durante horas,  acerca de autores e temas da literatura brasileira, portuguesa e latino-americana,  é incomparável como construtor de pontes literárias entre vários países. No século vinte nenhum outro divulgou tanto e com tamanha eficiência a literatura brasileira na Europa. No Brasil ele recebeu algumas merecidas e altas distinções:  Medalha de Ouro Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, Membro-Correspondente da Academia Brasileira de Letras,  a Ordem Cruzeiro do Sul e o Prêmio  Biblioteca Nacional.  Na Europa foi agraciado com o Prêmio de Tradutor da Academia Alemã, para Poesia e Língua,  e com a Grã-Cruz de Mérito da República Federal  da Alemanha. Em Portugal  foi integrante da Associação dos Es­critores Portugueses.
          Foi um entusiasmado defensor  do Brasil. Não se tornou rancoroso nem guardou  ressentimento pelos anos  difíceis que teve no presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Esse tradutor admirável, conhecedor profundo e  intenso  da literatura brasileira  faleceu em janeiro  de 2012, em Munique, aos 101 anos de idade.


                                    Referências Bibliográficas

MATTOS, Cyro de. Canto a Nossa senhora das Matas (Gesang Auf Unsere Liebe  Frau Von Den Wäldern), tradução Curt Meyer-Clason,, Fundação Casa de Jorge Amado, Casa de Palavras, Salvador, 2004.
-------- Zwanzig Gedichte  von Rio und andere Gedichte (Vinte poemas do rio e outros poemas),tradução Curt Meyer-Clason, Projekte-Verlag, Halle, Alemanha, 2010.


                        















Mestre Aurélio em Terras Grapiúnas

            

                     Cyro de Mattos




Em janeiro de 1990, escrevi  no “Jornal de Letras”,  editado por Elysio Condé, no Rio de Janeiro, que o vocábulo grapiúna  vinha registrado no  Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, primeiramente de maneira equivocada, a seguir  de forma imperfeita e restrita. Mestre Aurélio informava que grapiúna significava “a alcunha que  os sertanejos dão aos moradores da capital” (pág. 885). No verbete assinalava que grapiúna é o ilheense, citando trecho do romance Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado, para exemplificar o uso corrente do termo aplicado  aos que nasceram em Ilhéus.Conforme o trecho do romance: “Chegavam os estrangeiros e em pouco eram ilheenses dos melhores,  verdadeiros grapiúnas plantando roças.”
Mostrei no meu artigo  que, constituída dos elementos Ig (água), Cará (ave) e Una (azul-negro), segundo Teodoro Sampaio,  usada pelos índios da região cacaueira da Bahia, presume-se que no início a palavra grapiúna era “graaiúna”. Significava uma pequena ave preta que vive às margens do rio, conhecida até hoje em linguagem popular como “viuvinha”.  O escritor e editor Gumercindo Rocha Dórea, grapiúna nascido em Ilhéus, radicado há muitos anos em São Paulo, explica, na apresentação do meu livro “Cantiga Grapiúna”, que o elemento seria introduzido provavelmente por uma questão de eufonia, salientando que grapiúna também pode ter sua origem na expressão indígena igarapé-una, que quer dizer riacho preto, pequeno curso d’água muito encontrado nas fazendas de cacau e nas matas do sul da Bahia.
Em sua evolução semântica, perdendo a vogal inicial, grapiúna passou a significar os que vieram para o sul da Bahia no período do desbravamento e povoamento. Grapiúna assim diz respeito a uma civilização forjada no sul da Bahia por homens simples. Com o machado e o facão foram derrubando  as matas, penetrando a selva hostil, fundando vilas e pequenas cidades, estabelecendo na passagem dos anos uma forma singular de vida, proveniente da implantação da  lavoura do cacau.
Comentei que a saga de cobiça e morte no período da conquista da terra serviria  aos romancistas Jorge Amado e Adonias Filho como matéria ficcional, fazendo os dois fundadores dessa literatura regional, no melhor sentido, com  que a paisagem, psicologia, fala  e valores do homem grapiúna continuem vivos enquanto viva for a língua portuguesa.
Da epopéia do desbravamento, povoamento, da conquista da terra no sul da Bahia surgiu a civilização do cacau e dela uma literatura que prosseguiu valorizada  através dos livros de Sosígenes Costa, Jorge Medauar, Telmo Padilha, Florisvaldo Mattos, Valdelice Pinheiro,  Hélio Pólvora, Euclides Neto e James Amado. Poetas e prosadores  que viriam se juntar aos nomes poderosos de Jorge Amado e Adonias Filho, para tornar mais amplos  os caminhos das letras grapiúnas no corpo literário brasileiro. . Esses escritores nascidos no sul da Bahia  tematizam o homem grapiúna em suas obras, transfiguram no silêncio da criação literária o homem do cacau. Com sua coragem, seu amor, sua solidão, sua vingança, sua dúvida, sua condição social, sua verdade. São escritores do ente humano revestido de um modo de vida determinado na região cacaueira da Bahia. Porque ali nasceu, criou raízes, deu nome a seres,  coisas e ali morre.
Aleguei no meu escrito que  iam  a 770 os autores, entre clássicos e modernos, e a 1610 os livros registrados por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira  no seu Novo Dicionário da Língua Portuguesa. E, entre os autores do sul da Bahia referidos,  figuravam Jorge Amado com Dona Flor e Seus Dois Maridos, Farda, Fardão, Camisola de Dormir,  Gabriela, Cravo e Canela,  Os Velhos Marinheiros, Jubiabá e  Tieta do Agreste;  Adonias  Filho com Léguas da Promissão e Luanda Beira Bahia; Jorge Medauar com Água Preta; Hélio Pólvora com A Força da Ficção; Cyro de Mattos com Os Brabos e Sabóia Ribeiro com  seus Contos do Cacau.
Argumentei então que, se no dicionário maior  de nossa língua, ao lado dos romancistas Jorge Amado e Adonias Filho, outros escritores nascidos na região cacaueira da Bahia  eram  citados nos verbetes, fonte não faltou para que  o vocábulo grapiúna fosse registrado pelo dicionarista  de maneira correta.
Concluí meu texto assegurando que é  chamado de grapiuna o homem nascido nas terras do cacau da Bahia, outrora ricas,  ou aquele que radicado no seu  complexo cultural  identifica-se com um modo singular de vida, formado  por fatores de natureza histórica, social, econômica, política, ecológica, lingüística e artística. Ressalte-se a bem da verdade  que a civilização cacaueira baiana acha-se modificada atualmente em sua paisagem típica e no perfil do homem do cacau, dado que os elementos culturais foram alterados sensivelmente de uns anos para cá.
Vocábulo que vem do tempo da conquista da terra, demonstrei que grapiúna nada tem a ver com “a alcunha que os sertanejos dão aos moradores da capital”, como vinha registrando  mestre Aurélio Buarque de Holanda Ferreira  em seu tão importante Novo Dicionário da Língua Portuguesa.
Tomo conhecimento agora que o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, edição de 1999, 4ª impressão, anota  no verbete do vocábulo grapiúna o seguinte: “De origem tupi.1) Habitante da região cacaueira do sul da Bahia. 2) Diz-se dele, de seu modo de vida, de seus hábitos etc. “Ficcionistas e poetas do homem grapiúna, do homem do cacau, daquele ser humano que tem um modo  singular de vida, porque ali nasceu, ali criou raízes e ali morre.” Cyro de Mattos, em Jornal de Letras, janeiro de 1990. 3) Diz-se dessa região do sul da Bahia.”
        Nada mais acrescento  sobre o assunto, a não ser louvar mestre Aurélio Buarque pelo atual verbete do vocábulo grapiúna,  sem equívocos, neste dicionário esplêndido da nossa língua





AUTOR PORTUGUÊS LANÇA LIVROS EM ILHÉUS



Os livros "O Grande Banquete, a transformação e o templo" e "O Grande Banquete, viagens à nossa volta", do autor português Ricardo Ferreira, vão ser lançados no próximo dia 7 de Agosto, na Academia de Letras de Ilhéus, numa noite de exaltação a lusofonia e a união de Brasil, Portugal e Angola.

O trajeto de Ricardo Ferreira começa em Angola, na província de Benguela, onde nasceu, consolida-se em Portugal e chega ao Brasil, mais precisamente por Ilhéus. Unindo tudo com o fio condutor da lusofonia, o autor absorve, como sujeito, as experiências nesses três continentes como um elo entre os três países irmãos e de mesma língua materna.

Ainda hoje, Ricardo se divide vivendo um pouco em cada um deles. Resolveu expressar os seus sentimentos e registrar as experiências vividas, através da literatura. Assim, surge o primeiro livro, no qual a leitura desliza por uma narrativa espontânea, para em seguida, no segundo livro, o autor, mais amadurecido em sua escrita e pensamento, desenvolver tramas do passado e do presente e colocar o leitor em uma narrativa que aponta uma viagem sedutora pelas culturas de Angola, Portugal e Brasil, países que o ajudaram na consciência cidadã, deixando-o também às voltas com as questões da lusofonia, que permeiam a vida do personagem, João Antônio e do próprio autor, Ricardo Ferreira.

São dois romances, onde a ficção e a realidade se encontram, onde é impossível parar de ler. Os livros  de Ricrdo Ferreira vem referendados por ilustrações do artista plástico Bel Borba e prefácio do Professor Edivaldo Boaventura.





ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS PERDE A POETISA JANETE BADARÓ





A Academia de Letras de Ilhéus perdeu nesta manhã de sábado a confreira Janete Badaró, que completou 80 anos de idade no último dia 16 de julho.Era autora, entre outros, do livro de poemas “Máscaras em Procissão”.

“As palavras que posso dizer são de puro amor e saudade! A vida dela fez valer! Nossa querida poeta! Vá em paz mãezinha. Que o manto de Maria lhe cubra de luz e Deus abençoe está sua viagem!” Comentou sua filha, Jane Hilda, artista plástica e advogada.

O velório está acontecendo no SAF de  Ilhéus, sito à avenida Itabuna, desde às 14 horas, e o enterro será no domingo, às 9 horas, no cemitério da Vitória.



EDIÇÃO ESPECIAL- 105 ANOS DE ITABUNA






A CIDADE AMADA


Por Cyro de Mattos

Debruço-me na ponte de teus anos,
Alegre  meu cantar de passarinho,
Descubro manhãs de céu azul,
Continentes luminosos de tesouro.

Há rações verdes nas esquinas,
Vermelhos estandartes nessas ruas,
Espocam bombas dos passeios,
Explodem papagaios nos quintais.

Minhas as mãos de cata-vento,
No peito os bichos meus irmãos,
Noites amenas vertem espaçonaves,
Margaridas, boninas, girassóis.

Quem me fez água de chuva
Branca correndo em amado chão,
Perfeito estilingue nas caçadas,
Bola de gude nas partidas ideais?

Passistas as tropas vêm chegando,
Festa suspensa em ruivo poeiral,
De cores carregam-me tão velozes,
Tremula minha cidade de metal.

São meus os frutos cheios de ouro:
Jaca, sapoti, cacau, manga, mamão,
Apinhada de esperança a geografia
Enche minha capanga de risos naturais.

Na paisagem viva vejo-te  amores,
Quermesse acariciando corações,
Primeira ternura de namorado,
Presépio coroando-me infante rei.

Dentro de mim mergulhos ressoam
E sustos movendo carrosséis,
Passam neste vale mágicas nuvens,
Cantigas de São João e de Natal.

Que me dizem ventos de agora?
Pedras, cortes, incompreensões,
Gomos amargos de ocorrências
Na alma penetrando o que faz mal.

Lombo levando velho boi sábio,
Realejo tocando constante canção,
Cajado do tempo que não cansa,
Geme nas entranhas o meu rio.










ITABUNA SEMPRE

R. Santana

Gente deveria ser igual cidade que o tempo não destroi, mas constroi. O homem quando nasce, nasce bonito, se velho morre, morre pelancudo, murcho, desdentado, envergado, calvo, pele enferrujada, dor aqui, dor acolá, o tempo não perdoa... A cidade nasce com ruas tortas e estreitas, caminhos, casebres de taipas, de adobes, de tijolinhos, esgoto a céu aberto, iluminação precária ou sem iluminação, abastecimento de água improvisado, etc., etc., porém, à medida que o tempo passa, torna-se arquitetada, bonita, atraente, confortável, iluminada, ruas largas, água na torneira, casas planejadas, prédios, arranha-céus, transportes de massa, escolas, postos de saúde, hospitais, segurança pública, justiça, assim ocorreu em Paris, em Londres, em Roma, em Jerusalém, em Washington e em Itabuna.

Itabuna nasceu às margens do rio Cachoeira sob os olhares dos índios aimorés, tupis, tupiniquins e a força econômica dos tropeiros que faziam passagem para Vitória da Conquista na rancharia “Pouso das Tropas” na Burundanga, de José Firmino Alves. O sobrinho do cacauicultor Félix Severino do Amor Divino e filho de José Alves, Firmino Alves, foi o verdadeiro fundador de Itabuna, em 1906 ele doou as terras para sede administrativa do município, antes foi o Arraial de Tabocas, Vila, enfim, Itabuna, desmembrada de Ilhéus em 28 de Julho de 1910 e seu primeiro prefeito o engenheiro Olynto Batista Leone um dos apaniguados do coronel do cacau e político Firmino Alves.
O historiador Adelindo Kfoury registra que Firmino Alves não foi somente um grande fazendeiro, um coronel do cacau, tanto quantos muitos de sua época, mas um homem de excepcional capacidade administrativa, ainda jovem, com a morte do seu pai, mudou-se de Burundanga para o Arraial de Tabocas e construiu na Rua da Areia (Miguel Calmon), uma moradia suntuosa para os padrões da época e um armazém de cacau.
Firmino Alves além de empreendedor, foi um político de quatro costados, desde cedo, articulou junto às autoridades do estado a independência de Itabuna. Alguns anos antes do desmembramento de Ilhéus, Itabuna ainda Vila de 10.000 habitantes, estimulou a vinda de profissionais qualificados, em pouco tempo, engenheiros, médicos, professores, agrônomos, topógrafos, agrimensores, dentre outros profissionais, desembarcaram aqui com a promessa de um novo El Dorado.

Hoje, Itabuna não lembra de longe o Arraial de Tabocas, não é uma metrópole, mas é uma cidade grande: comércio forte, indústria incipiente, agricultura doméstica, sistema de saúde significativo, escolas para todas as faixas de idade, faculdades privadas, universidade, centro administrativo, bom sistema de segurança pública, justiça que atende às demandas, transporte de massa satisfatório, infraestrutura em expansão, ruas e avenidas asfaltadas, arquitetura moderna, uma frota significativa de automóveis e dezenas de bairros em torno.

Porém, a marca principal de Itabuna é o seu povo. Itabuna foi construída por gente simples e ordeira que migrou de outros estados do Nordeste, principalmente, o estado de Sergipe. O itabunense é alegre, bondoso, solidário, prestativo, acolhedor, trabalhador e inteligente. Não é a toa que o forasteiro não se sente forasteiro pouco depois que chega a este pedaço de terra do Sul da Bahia.

A cultura itabunense tem atuação expressiva no cenário nacional. Os nossos poetas, os nossos escritores e os nossos artistas são reconhecidos aqui e lá fora. Não se pode negar a contribuição às letras e às artes de Itabuna, de Jorge Amado, Valdelice Pinheiro, Firmino Rocha, Hélio Pólvora, Cyro de Mattos, Telmo Padilha, Plínio de Almeida, Minelvino Francisco Silva, Walter Moreira, José Bastos, José Dantas de Andrade, Adelindo Kfoury, Jorge Araújo, Ruy Póvoas e tantos outros que a memória e o tempo impedem-me de nomeá-los, mas, eles não têm contribuição menor.

No próximo 28 de Julho, Itabuna completará mais de cem anos de cidade, uma adolescente comparada às suas irmãs de milênios! Mais de cem anos de acolhimento aos seus filhos aqui gerados e aos seus filhos adotados. Mais de cem anos de luta, de intempéries, de espoliações, de estagnação, mas, também de desenvolvimento, de alegrias e vitórias.

Itabuna mãe, madrasta, amiga, Itabuna sempre.












 ITABUNA, A PRINCESINHA DO SUL DA BAHIA.

                      Rilvan Santana


Fui trazido para Itabuna por minha tia Judite, depois “mãe” Judite, no meado do século passado, em tenra idade, ainda vestindo fralda. Claro que não guardo na mente imagens e fatos daquela época, mas lembro-me de muita coisa quando eu tinha 5 ou 6 anos de idade.
Minha tia e o marido moravam no bairro São Caetano, aliás, “Fuminho” naquela época, é que dois amigos do alheio roubaram umas bolas de fumo na cidade e esconderam o produto do roubo no outro lado do rio no pequeno povoado que se formava que viria ser o São Caetano. O subdelegado de calça curta prendeu os marginais, mas o apelido “Fuminho” permaneceu por muito tempo até se firmar como bairro São Caetano.
O nome “São Caetano”, diz o povo que foi uma homenagem ao pioneiro das terras que se chamava José Batista Caetano, ou, uma trepadeira, uma herbácea que dá melão e chamada de São Caetano. O terreno produzia São Caetano em profusão mais que erva daninha. Não conheci José Batista Caetano, o fundador do bairro, conheci os seus filhos, Peó e Zezinho, dois negros cordatos, de coração grande, porém, sem instrução, depois de prolongado litígio, eles perderam essas terras para Dr. Durval Guedes de Pinho, filho de um famoso coronel caxixeiro das terras produtoras de cacau.
Itabuna, daquele tempo distante, não passava de uma cidadezinha rodeada de fazendas de cacau por todos os lados. Suas ruas principais eram as ruas: J.J. Seabra e 7 de Setembro. Contavam-se os bairros nos dedos das mãos. O centro da cidade limitava-se à Praça Adami, Rufo Galvão, Paulino Vieira, Adolfo Leite, Rui Barbosa e Duque de Caxias, Rua do Zinco e Avenida Garcia, não existia a Avenida Cinquentenário nos moldes de hoje.
A feira-livre era o centro comercial da cidade, vendia-se de tudo, a feira-livre só perdia como atrativo com a chegada do trem, pois quem não queria ver a chegada e a partida do trem apitando e bufando vapor? Ninguém.
A principal festa cívica da cidade não era o seu dia, mas o dia 7 de Setembro. As escolas saiam do campo da desportiva e marchavam pelas principais avenidas da cidade sob os olhares das autoridades, o controle e disciplina dos professores e a galhardia e a elegância da meninada.
Havia uma disputa não declarada qual a escola de melhor banda, de melhor coreografia, de melhores halteres, melhor balística, ou, de melhor ginástica rítmica. A “Escola Sagrado Coração de Jesus”, no Banco Raso, da professora Nair Assis Menezes (90 anos de idade e lúcida), sempre se destacava entre as primeiras em quase todas as atividades escolares.
Os principais veículos de comunicação eram: o “Intransigente”, o “Diário de Itabuna”, a “Rádio Clube”, a “Rádio de Difusora” e por fim a “Rádio Jornal”, não havia televisão, nem computador nem Internet. Porém, a comunidade era tão bem informada quanto hoje. As emissoras de rádio transmitiam de júri a futebol, além de programas de calouro e jornal falado com o tempo, além das emissoras de AM, surgiram as emissoras de FM.
O rio Cachoeira era orgulho da comunidade, muitas famílias se sustentavam com os peixes tirados de suas águas limpas. O rio também era usado por banhistas e canoeiros. O rio Cachoeira atual é um grande vaso sanitário, onde os peixes morrem por falta de oxigênio e pela poluição e os governos municipais não tomam providências. Hoje, a comunidade não tem mais orgulho de tê-lo e os poetas choram a cachoeira nos seus versos que não desce mais, a cachoeira corrente não corre, borbulha...
Se os ponteiros do relógio do tempo girassem para trás e Itabuna voltasse ser a cidadezinha quase bucólica em que o cidadão batia papo no passeio de sua casa nas noites de verão e os namorados de mãos entrelaçadas passeavam pelas ruas nas noites de Lua cheia e as casas não tivessem grades e o rio Cachoeira tivesse vida com o progresso atual, não seria uma maravilha!? O progresso chegou bem-vindo, não se pode queixar do progresso, porém, queixa-se dos males que acompanham o progresso, queixa-se da qualidade de vida que se perdeu.
Não sou itabunense de nascimento nem de título, mas amo Itabuna, nesta cidade, eu quero me deitar para sempre.




AMADO JORGE


R. Santana



O nosso amado Jorge Amado não nasceu para pertencer a um lugar, mas nasceu para ser universal. Seus biógrafos tiveram o trabalho inicial de delimitar o lugar do seu nascimento por conta de algumas interpretações bairristas dos seus conterrâneos. Porém, nunca houve dúvida que Jorge Amado era brasileiro, baiano, adepto do candomblé e era Obá de Xangô no Ilê Opó Afonjá, comunista, jornalista e escritor. Todavia, tergiversava-se se ele era soteropolitano, ilheense, itabunense, pirangiense, itajuipense ou mesmo filho da fazenda Auricídia. Naquela época, com exceção da jovem Itabuna, tudo era município de Ilhéus, consequentemente, para os doutos de meia tigela, Jorge Amado era ilheense. Entretanto, a história é construída de fatos verdadeiros que podem ser dúbios no nascedouro mas incontestáveis no final: Jorge Amado foi registrado em 10 de agosto de 1912, Ferradas-Iabuna, Bahia, Brasil e ponto final.
Na minha juventude, estudante do antiquíssimo curso “científico”, hoje, com o rótulo de médio, comecei gostar de literatura. Li os românticos, os realistas, os simbolistas, os parnasianistas, os barroquenses, escritores brasileiros e portugueses. Tudo lindo, tudo bonito, gênios da palavra, mas fiquei enamorado dos modernistas, dos regionalistas. Quem não viaja na leitura de uma Rachel de Queiroz, de um José Lins do Rego, de um Érico Veríssimo, de um Adonias Filho, de um Graciliano Ramos, de um Jorge Amado e por aí afora? Todos.
Claro que não se pode empanar o gênio de um José de Alencar, de um Bernardo Guimarães, de um Eça de Queiroz, de um Camões, de um Castro Alves, de um Fagundes Varela, de um Artur de Azevedo, de um Aluísio de Azevedo e de um Machado de Assis. Todavia, para o tabaréu que sou, sem muitos dotes intelectuais e culturais, a prosa regionalista que fala da terra, do chão que piso, das mazelas não muito distantes de um povo ignorante, de pouco saber, é essa prosa que gosto. E, quem pintou com cores fortes, divertimento, lucidez e ousadia essa prosa regional? Jorge Amado!...
Comecei ler Jorge Amado depois que sua obra mais conhecida “Gabriela, cravo e canela”, virou novela, na Rede Globo, adaptação de Walter George Durst, com Sônia Braga, José Wilker e Paulo Gracindo nos papéis principais. Lembro-me que antes dessa novela, havia uma censura velada de suas obras, uma rejeição subjacente dos intelectuais, por considerá-lo desbocado, pornográfico, de poucos recursos gramaticais, uma subliteratura. As escolas, os professores, raramente usavam os seus textos na aprendizagem de seus educandos. Hoje, graças a Deus e ao bom senso, ele é um dos autores mais lidos e traduzidos em mais de 50 países, com adaptações no cinema e na televisão de suas obras. O erotismo de seus personagens, pode ser lido por ingênuos meninos que ainda estão fazendo a 1ª. Comunhão da Igreja Católica, comparado ao erotismo dos personagens de um “Budas ditosos” de João Ubaldo Ribeiro e de outros romancistas do gênero.
Sua obra “Gabriela, cravo e canela”, é um poema em forma de romance. Seus personagens possuem uma ingenuidade, uma simplicidade e uma pureza de sentimentos que somente Jorge Amado sabia descrevê-los Quando João Fulgêncio tenta justificar e compreender as travessuras e a natureza infiel de Gabriela para o turco Nacib, o faz como se estivesse recitando um verso: “Nacib, certas flores são belas e perfumadas enquanto estão nos galhos, nos jardins. Levadas pros jarros, mesmo jarros de prata, ficam murchas, morrem”. Em Gabriela, cravo e canela, Jorge Amado narra à derrocada política dos coronéis do cacau que governavam entrincheirados por jagunços, em que prevalecia o poder de fogo de cada fazendeiro para decisão e homologação de resultados eleitoreiros viciados e cheios de fraudes.
Os coronéis Ramiro Bastos, Melk Tavares e Amâncio Leal são os últimos remanescentes desse período arbitrário e autoritário das terras do sem fim. Esses personagens em Gabriela, cravo e canela, representavam um passado de lutas, de sangue derramado, de caxixes e de banditismo que duma forma ou doutra, tinham construído a civilização do cacau e Ilhéus era a cidade símbolo dessa civilização.
Por outro lado, Capitão, Doutor, Ezequiel e Mundinho Falcão, representavam o novo, o império da lei, novos métodos administrativos, novas ideologias estribadas em ações políticas comuns, cujo principal beneficiado era o povo.
O romance de Gabriela e Nacib, o crime da mulher do coronel Jesuíno e do seu amante, as raparigas e o cabaré de Maria Machadão, eram os condimentos necessários para o tempero desse romance e dessa história da civilização do cacau. Onde já se viu uma civilização sem esses ingredientes? Mesmo as civilizações mais primitivas, têm lutas, têm crimes, têm traições, têm paixões, têm amores impossíveis e tem o homem.
Tocaia grande é a odisséia do cacau. A odisséia que Homero não escreveu porque não era baiano mas, a odisséia que Jorge Amado escreveu porque não era grego, com as cores vermelhas do sangue derramado dos jagunço e de homens que não arredavam pé do seu pedacinho de terra e terminavam estirados nos pastos servindo de comida para os abutres e de carniças para os urubus.
“Tocaia grande” é o foro onde o capitão Natário da Fonseca e sua corja assinam a escritura do crime da terra, outorgando ao coronel Boaventura Andrade o direito de estender seus domínios por sesmarias de terras virgens, sem dono. Transformando dentre em pouco, o maior produtor de cacau daquela época e tendo como principal dispêndio, a compra de duas dúzias de rifles e munição.
Em Tocaia grande, Tieta e Tereza Batista, são as obras que Jorge Amado mais explora o lado sensual e erótico dos seus personagens. O sexo, o sexo promíscuo das raparigas, das concubinas, das amantes e dos papa-crias, ele não ter sido considerado pela crítica especializada, durante algum tempo, um escritor de gênio universal.
Vejo em Dona Flor e seus dois maridos, A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, o Jorge Amado místico, irreverente, que envereda nos fenômenos metafísicos com humor, hilariante, explorando o lado ingênuo dos seus personagens e sua miséria social, dando também, uma pincelada na sensualidade e no prazer que é a principal finalidade do homem para ser feliz. A morte não é o fim em si, mas uma mudança de plano. Embora haja alguns senões da crítica especializada e Jorge Amado não tenha sido virtuoso, um mestre do idioma, foi um escritor preocupado em transformar seus vilões, em personagens vítimas de um contexto de exploração trabalhista e injustiças sociais. Não era um erudito, era um romancista popular. Não tinha a erudição autodidata de um Graciliano Ramos, de um José Lins do Rego, de uma Rachel de Queiroz e de um desconhecido Franklin Távora, que falam do sertão, dos cangaceiros e da fuga do sertanejo pela inclemência do sol e falta de chuva, pasto para engorda do gado, com maestria e leveza. Jorge Amado preferia explorar o lado romântico e mundano dos jagunços e dos coronéis. A vida de engodo das meretrizes e concubinas, a carolice das sinhás e o fanatismo singelo e simples da maioria daquele povo que construiu o Sul da Bahia.
E, quando Jorge Amado adentrava em outras plagas literárias, a exemplo da biografia de Carlos Prestes em o Cavaleiro da esperança, e a história do comunismo brasileiro nos Subterrâneos da liberdade, ou quando ele dá uma de biógrafo em A. B. C. de Casto Alves ou quando ele narra as futricas, as intrigas, a ascensão e o poder da Academia Brasileira de Letras, em Farda, fardão camisola de dormir, ele torna-se um autor maçante, de erudição chata e superficial, mas o veio de um romancista desenvolto, lúcido e inteligente que mesmo fora de sua seara faz história, é visível. Tomba, alquebrado pela idade e pela doença, o Obá de Xangô, em sua Bahia, na cidade de Salvador, em 06 de agosto de 2001, aos 89 anos, o maior romancista dos tempos atuais, do Brasil.

Autor: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons






SÃO CAETANO

R. Santana




Porém, em tempos idos, muito antes de Frei Joaquim Cameli desembarcar por estas bandas, muito antes dos padres capuchinhos passarem aqui, na época das missões, a fé dos moradores do São Caetano era confiada a Dona Pedrina, Manuel Canguruçu, Mãe Ester, Caboclo Ló e Maria Sertaneja, os primeiros e principais pais-de-santo, filhos de Iansã, Obá, Ibeji, Oxossi, Ogum, Iemanjá e outros orixás, filhos da umbanda de Angola...         O São Caetano, hoje, é privilegiado pela quantidade de suas igrejas, a igreja Santa Rita de Cássia é a mais velha e a mais suntuosa, mas existe templo Adventista, Batista, Testemunha de Jeová, Universal, Assembleia de Deus, Igreja da Graça, além de igrejas dissidentes locadas em salão de garagem, portanto, se algum pesquisador fizer uma enquete, encontrará mais igreja do que bar (não é heresia), o que é generoso para a população, não obstante algumas servirem de fachada para exploração da fé e do bolso de incautos fiéis.



O seu sincretismo religioso fazia inveja às idéias ecumênicas atuais. Todos, sem traumas, tinham idéias cristãs permeadas de orixás, salvo, os pais-de-santo charlatães, de interesses escusos, manifestavam crença nos exus como meio de solucionar os males físicos e os casos de possessão dos seus clientes. Naquele tempo, todo barracão tinha um espaço reservado aos santos, à queima de velas, às oferendas e um quartinho escuro cheio de mistério, onde segundo a lenda, o babalorixá mantinha o Diabo preso e o soltava em sessões especiais.



Missa? Missa nos eventos anuais: Sexta-Feira Santa, Natal, Dia de São José e Quarta- feira de Cinzas. Os moradores emperiquitados, roupa domingueira, cabelo brilhantina, desciam a pé, a cavalo ou de carroça para o centro da cidade, no retorno, se despiam daquela parafernália indumentária, arregaçavam a bainha, penduravam os sapatos nas costas e voltavam pegando picula na estrada, às vezes, estrada enlameada.  



Porém, os adultos gostavam mais das festas e danças de candomblé, não movidos pela fé, mas pela superstição e requebro dos quadris das morenas e negras ao som dos tambores, possuídas pelos orixás... O som dos tambores era ouvido ao longe e ao invés do som repicado e monótono dos sinos, era mágico o som dos tambores de D. Pedrina ou de Manoel Canguruçu ou de Maria Sertaneja.  As filhas de santo, de corpo escultural, de roupa branca e descalça, todo o corpo se mexendo, principalmente, os quadris e os ombros, movimentos eróticos levavam à loucura os filhos de santo, de vez em quando, uma filha de santo embuchava do pai-de-terreiro ou dos filhos-de-santo, aí, o pobre coitado ficava na casa do sem jeito, o jeito era amancebar-se.  O pai-de-terreiro participava da dança de candomblé ou ficava sentado num estrado com postura de bispo, abençoando-os e recebendo louvores.



Cada pai-de-santo incorporava um orixá (Bará, Ogum, Oiá-Iansã, Exu, Ibeji, Odé, Otim, Oxalé), estes orixás controlam (conforme a crença), as forças da natureza, portanto, existe o orixá de cura, o orixá para expulsar os espíritos maus, orixá pra controlar as paixões, orixá Tinhoso, orixá para benzer as encruzilhadas, orixá da fortuna, enfim, orixá para fazer o bem e orixá para fazer o mal.



Os candomblés mais arrumados eram o de Dona Pedrina, o de Manoel Canguruçu e o candomblé de Maria Sertaneja. O candomblé de Pedrina era frequentado pela elite e pelos políticos, a elite, interessada em suas lindas filhas de santo e os políticos interessados no aumento do seu cacife eleitoral. O candomblé de Manoel Canguruçu era voltado para cura de pessoas com obsessão de perseguição, vítimas de bruxaria, endemoninhadas, possessas, e, não para o tratamento de neuroses histéricas, depressão, perturbação obsessivo-compulsiva, esquizofrenias e outras psicopatias. O candomblé de Maria Sertaneja cuidava dos despachos, da coisa-feita e das mandingas de encruzilhada.



Os malucos eram tratados por Manoel Canguruçu por certa “unguentoterapia”, uma substância estranha de rato morto, sapo, urubu, cobra, lagartixa que ele triturava tudo num pilão e deixava de fusão com uma mistura de ervas, após alguns dias, no sol e no sereno, aquilo se tornava uma “pasta putrefata” que era espalhada no corpo do maluco que se não ficasse bom...



Porém, as mulheres malucas, as moças histéricas, de calundu, as moças mal amadas, reprimidas pela ignorância dos pais e dos costumes, cheias de faniquitos, eram tratadas por Manoel Canguruçu com água de cheiro e muita mordomia, as más línguas juravam que elas caíam na lábia e na cama do pai-de-terreiro como a “mosca no leite”.



Um episódio policial acerca do candomblé é contado até hoje pelos moradores mais velhos, protagonizado pelo sargento Mário Silva, delegado do São Caetano naquela época: - As filhas de Iemanjá do Pai João Demétrio, voltavam do Rio Cachoeira com uns tabuleiros de oferenda, vazios, todas de traje branco, pulseiras e argolas, quando foram paradas pelo Jeep Willys do delegado, que autoritariamente, fez as moças subirem no automóvel com os tabuleiros e as levou para cadeia da cidade a pretexto de nada, minto, a pretexto de alimentar o seu ego etílico e autoritário.



Hoje, as histórias de antigamente, parecem contos da carochinha, histórias de Trancoso, fatos inverossímeis, porém, são histórias verdadeiras, crendices de gente simples, crendices que contribuíram para crença racional e o sincretismo cultural e religioso atuais. Naquela época, padre, pastor, médico, advogado e engenheiro eram de ouvir dizer... O São Caetano daquele tempo era uma comunidade de trabalhadores rurais, jagunços, burareiros, carroceiros, aguadeiros, bodegueiros, retirantes, mestres de ofício, a maioria absoluta, analfabeta e supersticiosa, mas sem essa gente, os caetanenses de hoje, não poderiam contar sua História.





Autor: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons
Fonte oral: Pedro Batista de Santana     









OUTROS POEMAS DA CIDADE ANTIGA

      Por Cyro de Mattos


I

Soneto do Campo da Desportiva

De zinco era coberta a arquibancada,
A cancha tinha um piso esburacado.
Nem um pouco essa chuva demorada
Conseguia deixar desanimado

O torcedor, que curtia a jogada
Do seu ídolo na bola passada.
Dos pés a mágica mostrava  ser
Tudo um sonho para nunca esquecer.

O gol de placa do atacante quando
A partida já chegava ao final
E a marca da seleção que venceu 

Tantas vezes o intermunicipal
Seguiram-me na torcida de meu
Time pelos estádios do mundo.   






II


Soneto de Itabuna

Encontro-me no verde de teus anos,
Como sonho menino nos outeiros,
Afoitas minhas mãos de cata-vento
Desfraldando estandartes nessas ruas.

São meus todos esses frutos maduros:
Jaca, cacau, mamão, sapoti, manga.
E esta canção que trago na capanga
É o vento soprando nos quintais.

Quem me fez estilingue tão certeiro
Nos verões das caçadas ideais?
Quem nesse chão me plantou com raízes

Fundas até que me dispersem ventos
Da saudade e solidão? Ó  poema!
Ó recantos! Ó águas do meu rio!











        III

          Soneto de Carnaval


                                                   Pelo salão com a espada de pau,
        O olho tapado na cara de mau
                                              E a cigana que finge ser real
        O seu primeiro amor no carnaval.

                                              Agora estão  na praça principal
                                              Afoxés* e batucadas da nau,
        Teu  tempo de confetes, serpentinas
        E a lança que perfuma em cada esquina.

                               Era um grande barulho que fazias
        Na vida cheia de cores e alegrias,    
                                                         Com o preto, branco, rico, pobre. Ó meu

                                                         Marujo, de lá pra cá, sei dizer
                                                        Que noutra  onda rolou o mundo teu
                                                        E, na orla, nunca soubeste o porquê.