Um mundo sem segredos

                            
                                      Sônia Carvalho de Almeida Maron*


Não adianta negar, ignorar, criticar, espernear. Vivemos em um mundo sem segredos, um verdadeiro aquário dentro do qual somos vistos e examinados, admirados ou criticados. O processo é inexorável em sua evolução. Para o bem ou para o mal. Para evitar o pior, embarquemos no avião supersônico da internet com destino ao bem. É a única opção para quem deseja a salvação nessa fantástica e assombrosa sociedade líquida.
Sufocados pelas informações de sites e blogs e ligados pelo correio eletrônico dos e-mails, WhatsApps, youtubes, facebooks , além da providencial ajuda do Google; aprendendo o significado de links, gigabytes, megabytes e outros bichos da nova fauna, sabemos de tudo e sabem tudo de nós. Os iPhones venceram a resistência dos mais velhos transformando-se em “bichinhos de estimação”. O meu, por exemplo, tomou o lugar de Lara, minha amada Cocker Spaniel que já se encontra em outra dimensão desconhecida por nós.
Graças aos milagres da internet, nessa esquecida Itabuna, onde vivo, tomei conhecimento do despacho do Juiz Federal Sérgio Moro, recebendo a denúncia que transformou um ex-presidente do País, de indiciado em um inquérito policial, em um dos acusados de uma ação penal. Se uma sentença condenatória terá o condão de transformá-lo em réu, somente a instrução do processo poderá revelar, a depender das provas documentais e depoimentos das testemunhas a serem ouvidas pela acusação e defesa.  Direito não é matemática, as interpretações e conceitos não são absolutos. Somente as cláusulas pétreas da Constituição da República Federativa do Brasil e os princípios do processo penal não podem mudar ao sabor do gosto do freguês, não importando o poder que represente. As aberrações ficam por conta das circunstâncias que levam cada um a cometer desatinos, preferindo dois pesos e duas medidas à interpretação segura, correta e cristalina da lei, vez que “fora da lei não há salvação” como dizia o nosso Ruy Barbosa.
Graças aos milagres da internet, repito, posso transcrever o despacho do Exmo. Sr. Dr Sérgio Moro no famoso processo e o fragmento que mais interessa diz o seguinte:
“Não olvida o julgador que, entre os acusados, encontra-se ex-Presidente da República, com o que a propositura da denúncia e o seu recebimento podem dar azo a celeumas de toda a espécie. Tais celeumas, porém, ocorrem fora do processo. Dentro, o que se espera é a observância estrita do devido processo legal, independentemente do cargo outrora ocupado pelo acusado.
É durante a ação penal que o ex-Presidente poderá exercer livremente a sua defesa, assim como será durante ela que caberá à Acusação produzir a prova acima de qualquer dúvida razoável de suas alegações caso pretenda a condenação.
O processo é, portanto, uma oportunidade para ambas as partes.” (http://oantagonista.com O  Recado de Moro a Lula e seus acólitos,20/09/2016  22:16)
É apenas isso, ninguém anunciou o Apocalipse. O processo é uma oportunidade para a acusação e a defesa. A sorte está lançada. Façam o jogo da verdade para que a paz volte a imperar nesse país verde, amarelo, azul e branco, dentro da mais perfeita ordem e no caminho do progresso.
Nesse Brasil sem líderes, é natural que o juiz Sergio Moro surja como o nosso Superman, protegido dos fragmentos da “kriptonita” pela honradez e destemor dos seus atos e lisura do seu comportamento como magistrado e cidadão. O resto da proteção material é confiada à sua Polícia Judiciária (DPF) e a  imaterial Deus proverá.


*Juiza de Direito do TJBA
                 Presidente da Academia de Letras de Itabuna - ALITA



UESC outorga título de Doutor Honoris Causa a Cyro de Mattos.



O vasto repertório com mais de 50 livros publicados – e traduzidos em diversos países do mundo –, assim como a defesa veemente de valores típicos da cultura sul-baiana. Estes e muitos outros elementos justificam a outorga do primeiro título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). A honraria, aprovada pelo CONSU (Conselho Superior Universitário), foi concedida ao escritor itabunense Cyro de Mattos, em solenidade na noite de quinta-feira (15), no auditório daquela instituição.
O evento reuniu professores e estudantes da Uesc; a presidente da Academia de Letras de Itabuna (Alita), Sônia Maron; o presidente da Academia de Letras de Ilhéus, Josevandro Nascimento, imortais das duas instituições, conselheiros da Uesc, devidamente paramentados, entre outras autoridades e demais representantes da sociedade organizada no eixo Itabuna-Ilhéus.

A madrinha do escritor na entrega do título, professora-doutora Reniglei Rehem, fez um relato emocionado que exaltou a importância de Cyro de Mattos para a literatura regional. Ela lembrou ter todos os livros por ele publicados e, mais do que leitora e admiradora da obra do autor, demonstrou orgulho da amizade que construíram ao longo dos anos.
Cyro de Mattos, por sua vez, recordou o tempo em que precisou sair de Itabuna para estudar em Salvador, porque à época a região não dispunha de faculdades nem colégios que preparassem para o nível superior. O preâmbulo serviu para evidenciar a importância da Uesc no contexto regional. Para ele, a universidade é um “tesouro que brilha nos olhos de todos por ela atendidos”.
A reitora Adélia Pinheiro destacou o valor do homenageado que inaugura a outorga de títulos de “Doutor Honoris Causa” e adiantou que os próximos doutores também deverão ter um perfil de defesa da educação e da cultura regionais.

























POR UMA CIDADE MAIS HUMANIZADA- Por Marcos Bandeira



           A condição de cidadãos exige que sejamos autônomos, críticos e participativos em nossa comunidade. O município é o lugar onde moramos e construímos nossa história no cotidiano do trabalho ou nas horas de lazer e entretenimento. Certamente, será o lugar onde morreremos também.
           O ser humano, como sujeito biológico e cultural, deve inscrever na sua identidade terrena, uma consciência ecológica de que nos fala Edgar Morin, de “habitar, com todos os seres mortais, a mesma esfera viva... a consciência cívica terrena... da responsabilidade e da solidariedade para com os filhos da terra”. E é essa minha consciência ecológica me instiga a fazer alguns questionamentos: 
            Qual modelo ideal de cidade desejo para minha família e para as futuras gerações? Se não posso viver na cidade ideal, como seria a cidade capaz de me proporcionar bem estar e qualidade de vida? A cidade onde moro oferece itens, como segurança, educação, saúde, comércio, lazer, dentre outros, com qualidades razoáveis para a boa convivência humana? Devido às limitações deste artigo, deter-me-ei em apenas dois itens para testar o “bom viver” da cidade onde moro: segurança e lazer.
            Itabuna, cidade com mais de 220 mil habitantes e polo comercial da região sul da Bahia, possui uma das taxas de criminalidade mais alta do estado, tendo ocupado o topo do ranking nacional como a cidade mais violenta para adolescentes entre 12 a 18 anos, nos anos de 2009 e 2010, conforme dados oficiais da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. 
             Os delitos ocorrem invariavelmente no centro da cidade em plena luz do dia. Estamos inseguros, e essa sensação de insegurança é potencializada pelo sensacionalismo midiático que se encarrega de espalhar o clima de terror e pânico na cidade. 
             Quais discursos, quais ações podem ser implementadas para mudar esse quadro sombrio? Nas reuniões de segurança pública, o discurso para tomada de iniciativas sempre é o mesmo: mais armamento, mais viaturas, mais prisões. O presídio de Itabuna está atualmente com mais de 1.200 presos, quando a unidade comporta apenas 440. É uma bomba relógio que deverá explodir a qualquer momento.
              Na verdade, não tenho a receita pronta, mas posso afirmar que há necessidade de um novo paradigma de segurança pública no país, e para isso, é preciso vontade política que rompa muitas resistências naturais visando a manutenção das atuais estruturas. 
               Enquanto o novo paradigma não vem, o jeito é apostar na prevenção, implementando projetos sociais para crianças, adolescente e jovens, abrindo escolas nos bairros nos finais de semana, criando espaços para a prática do esporte e lazer, valorizando nossas praças públicas. Uma praça pública bem iluminada, com espaço para o lazer, com banheiros públicos higienizados, constitui uma janela aberta para a segurança, pois certamente atrairá aglomeração de famílias e assim afastará os meliantes. Ao contrário, uma praça pública mal iluminada, sem atrativo e abandonada, passa a se transformar num foco de marginais e usuários de drogas. É o que acontece com a Praça da Catedral de Itabuna, que há algum tempo não vem merecendo a devida atenção do poder público e hoje, é ponto de encontro de usuários de drogas, sendo cenário de vários delitos, como furtos e roubos. O mesmo acontece com a Praça do Bairro Santo Antônio, ponto de encontro de usuários de drogas. 
             Foi valorizando os logradouros e praças públicas, que o prefeito de Nova York em 1994 aplicou a teoria das janelas quebradas, reduzindo drasticamente os índices de criminalidade naquela cidade.
             Outro ponto que merece destaque é o espaço com a oferta de lazer, para a prática de esportes, atividades lúdicas e culturais. O sociólogo Domenico de Massi em seu livro “Ócio Criativo” afirma que dispomos de mais de 300 mil horas livres para exercitar a nossa criatividade, seja no esporte, na ginástica, na cultura,  na meditação, na interação com as pessoas, no amor ou  no convívio com a família.
               Passado o período da revolução industrial, onde o trabalho cansativo e de montagem ocupava o papel principal, valoriza-se hoje, o tempo livre, pois o ócio criativo é o que, de fato, acaba dando sentido às nossas vidas.
              O grande problema é que olhando para a minha cidade, vejo o rio Cachoeira agonizando sem que haja uma intervenção eficiente por parte do Poder Público, muito embora existam projetos, como o “Centro das águas” capitaneado pela professora Maria Luzia de Mello, que oferece estratégias para salvar o inditoso rio, cantado em verso e prosa por Cyro de Mattos, Lurdes Bertol e tantos outros escritores.
             O itabunense normalmente gosta de andar, correr e pedalar na avenida Beira Rio; entretanto, o piso é acidentado e estreito, a iluminação é sofrível e o mau cheiro que exala do rio é insuportável. É incrível que uma cidade como Itabuna não possua um projeto para melhorar a qualidade de vida das pessoas. O que se observa são algumas e poucas iniciativas particulares que acabam dando um novo colorido à cidade, como o futvólei e outras atividades físicas praticadas na Praça Aziz Maron . 
             Nos finais de semana alguns esportistas são obrigados a interditar algumas vias da Avenida Beira Rio para praticar atividades físicas nos finais de semana e feriados sem o risco de serem atropelados por algum veículo. Indaga-se: por que o Poder Público não transforma a Praça Aziz Maron num local aprazível, construindo uma arena moderna com vestiário e instrumentos de ginástica para a prática de esportes diversos?              Por que não realizar um projeto em torno da Avenida Beira Rio, alargando o passeio, melhorando a iluminação pública, construindo quiosques no seu entorno, oferecendo melhor espaço às pessoas que praticam atividades físicas e àquelas que transitam pelo local? 
             Por que não criar na cidade, pelo menos nos finais de semana e feriados, ciclovias móveis com cones, a exemplo do que já ocorre em grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, para as pessoas pedalarem? 
               Por que não revitalizar efetivamente essas praças públicas? Por que não utilizar o conhecimento científico das universidades e do projeto “Centro das Águas”  para salvar o Rio Cachoeira? Precisamos não só de justificativas, mas de ações que transformem nossa cidade num lugar aprazível para vivermos.
               Enfim, como cidadão itabunense, sou obrigado a exercer meu senso crítico no sentido de que a reflexão possa contribuir para que a cidade  onde moro e moram milhares de pessoas, possa oferecer a todos uma melhor qualidade de vida, pelo menos, no que tange à segurança, lazer e entretenimento, tornando-se assim, mais humanizada.



Marcos Bandeira é advogado, Juiz aposentado, Professor de Direito da UESC e ex-presidente da Academia de Letras de Itabuna.

O menino que via a vida acontecer






Sônia Carvalho de Almeida Maron*

O melhor mirante da cidade era o alto do telhado, de onde se via a vida acontecer no céu e na rua, por onde passavam personagens e fatos importantes que iriam marcar a vida do menino para sempre. 

(Cyro de Mattos, contracapa do livro Histórias do Mundo que se Foi)


    Aquele menino da Rua Ruy Barbosa tinha mesmo um jeito diferente. Em nossa rua não existiam estranhos: do primeiro ao último quarteirões, famílias trocavam sorrisos e cumprimentos, das crianças aos mais velhos. E o menino passava para o colégio, muitas vezes em companhia do irmão mais velho, compenetrado e sério, segurando a pasta com os livros como se fossem  uma carga preciosa. O irmão mais velho tinha o riso fácil e todas as vezes que passava em frente à minha casa sorria de forma amistosa. Os pais do menino gostavam de mim, eu tinha certeza, pois sabiam o meu nome e conheciam meu pai.
Na vida mansa da nossa rua todos eram conhecidos e a maioria amigos de verdade. As famílias visitavam-se, sentavam-se em cadeiras colocadas nos passeios nos dias de domingo, enquanto as crianças pulavam corda, jogavam bola de gude, pulavam amarelinha e cantavam cantigas de roda nas noites de luar. O menino fazia parte desse nosso mundo, mas eu sentia que participava de uma forma diferente:  meus olhos de criança não sabiam definir se era tímido ou se não queria participar de nossas brincadeiras por ter coisa melhor para fazer. Eu desconfiava que fosse mais amigo dos livros do que de nós.
E o tempo foi passando. Os colégios da cidade não permitiam que os jovens sonhassem com as carreiras mais nobres, não existiam faculdades. O menino e o irmão contaram com o apoio do pai e seguiram para a capital identificada pelos mais velhos como “Bahia”. Àquela época diziam com orgulho “meu filho foi estudar na Bahia”, como se Itabuna  fosse um lugar distante e fora do mapa do Estado. É que o privilégio de estudar na capital era restrito aos mais abastados da classe média. As famílias de milhares de arrobas de cacau enviavam os filhos para os colégios e faculdades do Rio de Janeiro e São Paulo. 
Não é que o pai do menino fosse um homem arrogante e rico como muitos coronéis do cacau. Ao contrário. Era um homem simples e trabalhador, sem diplomas e títulos, mas vislumbrava um futuro grandioso para os filhos e, para ele, o estudo era o único caminho. Acertou em cheio e ganhou um filho médico e o outro advogado.
O jovem advogado iniciou, sem muito entusiasmo, o caminho das lides forenses. Gostava mesmo era de escrever, escrever de verdade, coisa diferente das petições dos processos cíveis e criminais. E enfrentou o desafio. A força que o conduzia para a carreira sonhada era mais poderosa que o encanto dos embates da advocacia. Determinado, passo a passo, conquistou o reconhecimento do mundo literário do país conseguindo o que poucos alcançaram: Cyro de Mattos é um escritor. Não um escritor qualquer. O itabunense que via “a rua acontecer no céu e na terra, do alto do melhor mirante da cidade, o telhado de sua casa”, como podemos ler na contracapa de um dos seus livros, Histórias do mundo que se foi, coleciona prêmios e títulos como ficcionista, cronista, contista, poeta e demais variantes que pode assumir um verdadeiro escritor. Por último, representará sua cidade na Academia de Letras da Bahia, na cadeira de nº 22, que teve como membro fundador o mais  conhecido e ilustre dos baianos, Ruy Barbosa. Sem esquecer que leva em seu currículo os títulos de membro da Academia de Letras de Ilhéus e membro fundador e idealizador da Academia de Letras de Itabuna – ALITA.  
Cyro de Mattos é “prata de casa” da melhor qualidade. Todos sabem que seu currículo é conquista de poucos e nossas academias são citadas primeiro por motivo puramente sentimental.  Em resumida amostragem, registre-se o título de membro efetivo do Pen Clube do Brasil e Ordem do Mérito da Bahia, no Grau de Comendador. Em suas incursões pelo mundo integrou a delegação brasileira de Poetas da Universidade de Coimbra, em Portugal e no XVI Encontro de Poetas Iberoamericanos da Fundação Salamanca Cidade de Cultura e Saberes, na Espanha. Foi agraciado com vários prêmios literários de expressão, sendo autor de mais de cinquenta livros no Brasil e no exterior. 
A Rua Ruy Barbosa, na cidade de Itabuna, Bahia, Brasil, passou à imortalidade. A geração de Cyro de Mattos, que é também a minha, festeja a conquista de um  dos seus meninos do Ginásio Divina Providência. Festejamos o amigo que desenvolveu a admirável arte de observar o mundo com os olhos e o sentimento que só conhece quem adquiriu o conhecimento guardado nos livros, sobre terras, homens e tempos e serve de exemplo para a geração que se recusa a reconhecer a força mágica que o livro empresta à nossa vida.


*Presidente da Academia de Letras de Itabuna - ALITA









Atualidade do Brasileiro Rui Barbosa - Por Cyro de Mattos



Rui Barbosa era um homem de estatura baixa, franzino, a cabeça grande sustentada por um pescoço fino. Tímido e feio, mas  tinha uma voz poderosa quando  ocupava a tribuna. Os olhos faiscavam, de cada centelha a oratória incendiava com a argumentação firme, baseada na verdade. Uma dialética convincente e fascinante surpreendia os adversários. As imagens impressionavam a quem escutasse a palavra eloqüente, que da garganta  irrompia  cheia de energia,  a desfilar  pontos de vista inabaláveis. 
Era um orador prodigioso, seduzia pelo domínio do idioma, vocabulário ilimitado, citações expressivas,  raciocínios perfeitos. O político  liberal  batia-se   pela  mudança das instituições  políticas para melhor. Indignava-se com a escravidão, clamava pela adoção das eleições diretas, pela reforma do ensino com métodos humanos,  investia contra o poder papal,  sendo um defensor ferrenho  da  ideia da separação dos poderes entre o Estado e a Igreja.  
         Lia os liberais ingleses e franceses, Shakespeare no inglês clássico.   Quando discursava ou escrevia, revestia as ideias de princípios morais. Esse liberal convicto,  qual um Quixote brasileiro  viveu de pregar constantemente a paz, defender os direitos alheios, combater a violência, lutar pela liberdade em várias frentes. Construíra a República, dando-lhe o arcabouço jurídico.. 
       Fora incapaz de conceber a vida sem um ideal. Advogado, jornalista, jurista, gramático, orador, poliglota, político, financista, escritor.   Difícil dizer em que atividade era o melhor. Cada uma delas soube exercer com invulgar competência. O paladino da liberdade viveu  à frente dos contemporâneos. Portador de  uma inteligência privilegiada, associada à  erudição adquirida das leituras armazenadas,  ao longo  do tempo, soube aplicá-las com brilho nas relações sociais, as quais só queriam fazer o bem na construção da vida.  Gostava de repetir o versículo, “todo o bem que fizeres, receberás do Senhor.”
A oração que pronunciou em elogio a José Bonifácio, falecido no fim de 1886, constituiu-se em mais que um discurso, era mais um desabafo contra aquele mundo político mesquinho  em que várias vezes havia sido derrotado. Na oportunidade, disse: Supõe-se ser a política a contradição do belo, como o  tem sido, neste país, da verdade e do bem:  uma espécie de divindade gaga, semilouca e míope, protetora do daltonismo e da surdez, inimiga da harmonia do colorido e do bulício da vida,   afeiçoada às almas sem capacidade estética, sem instintos desinteressado,  sem ondulações sonoras; uma combinação da esterilidade das estepes com a taciturnidade das paisagens de Java, onde as aves não cantam.  
Suas palavras visionárias contra a luta suja pelo poder  permanecem atuais até hoje, considerando-se a leitura que pode ser feita delas com relação às  atitudes ambiciosas de políticos miseráveis,  que acionam sem parar, em proveito próprio,  a máquina da corrupção voltada para o  econômico.
 Rui Barbosa nasceu em Salvador, aos  5 de novembro de 1849. Faleceu em 1 de março de 1923, em Petrópolis, quando então  se despediu deste velho mundo e ingressou na eternidade. 

*Cyro de Mattos é escritor e poeta.  No dia 15 de setembro próximo irá  receber o título de Doutor Honoris  Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz  e, no dia 10  de novembro deste ano,  ocupará a cadeira 22 da Academia de Letras da Bahia, que tem como fundador Rui Barbosa e o seu último ocupante foi Clovis Lima. É um dos fundadores da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

Cyro de Mattos recebe título de Doutor Honoris Causa

O escritor e poeta Cyro de Mattos convida aos confrades e confreiras das Academias de Letra de Itabuna e de Ilhéus, parentes,  amigos e leitores, para a solenidade de entrega do título  Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.  A solenidade será realizada na UESC, no Auditório Paulo Souto, a partir das 19 horas. 

   

Carta de Cyro de Mattos

  
CARTA AOS MEMBROS DA ACADEMIA DE LETRAS DE LHÉUS ACOMPANHADA DO CURRÍCULO DE VIDA DE ALEILTON FONSECA E SEU PEDITÓRIO DE VOTOS

Salvador, 30 de agosto de 2016.

 Caríssimos acadêmicos, amantíssimas acadêmicas:
As Letras constituem um campo de ação e criação cultural, cujo mister mais elevado é cultivar o idioma e a convivência humana, através dos discursos da prosa, do drama e da poesia – tríade fundamental da literatura, desde a Arte Poética de Aristóteles.
Como cidadãos do mundo, de um país, de um estado, de uma cidade, habitamos uma pátria, – noção simbólica que nos reúne num mesmo solo de vivências, – e à qual somos chamados a servir. Essa ideia se redefine, na atualidade, como um corpo coletivo, heterogêneo e plural, que se quer inclusivo e participativo, legitimando os diferentes ofícios e modos de existir e viver em sociedade.
 Nesse lugar de múltiplas identidades, as diferenças e as alteridades desabrocham como flores díspares de um mesmo jardim, em convívio que se quer fraterno, produtivo e democrático. Somos todos irmãos de ofício e ideal. Para servir à pátria, exercemos o cultivo das Letras. Por força de um desígnio inescapável, dedicamos um valioso tempo de nossas vidas a projetos de criação de textos e discursos capazes de mobilizar leitores e ouvintes em torno de temas que suscitam leituras, polêmicas, reflexões, debates e, sobretudo, a fruição estética e o aprimoramento do intelecto e das emoções.
A literatura mobiliza, de modo integrado e indissociável, a razão e a emoção, estimulando o equilíbrio do ser, através da reflexão sobre o mundo real e do amadurecimento de seu aparato psicológico. Na recriação vicária da ficção, na emulação da vida no drama, na afetividade do discurso lírico nos encontramos todos, nos identificamos e nos humanizamos, pela epifania da verossimilhança e pela catarse reparadora de nossas energias vitais. A literatura é, por sua própria natureza, uma ação humana compartilhada, uma troca fraterna de experiências e saberes acumulados ao longo de séculos de cultura, de geração a geração.
 Essa condição se concretiza através da representatividade coletiva no corpo da agremiação acadêmica. Desde os gregos, a Academia é o lugar do exercício do corpo e da mente, sob o ideal que os romanos fixaram no lema: mens sana in corpore sano. Como parte dessa tradição secular, a Academia de Letras de Ilhéus constitui, em nossa terra, uma confraria dedicada ao cultivo, à transmissão e à celebração dos legados ancestrais.
A Academia é um colar simbólico de quarenta elos. Quando um de seus insignes titulares parte dessa vida, um elo se parte na corrente acadêmica. Um lugar fica vazio e clama pela sucessão, em louvor da memória do extinto e do porvir da confraria. O colar acadêmico da ALI perdeu, entre outros, o vigésimo quarto elo. Esse elo que ora lhe falta é a voz prodigiosa do saudoso jornalista, crítico e ficcionista Hélio Pólvora de Almeida. Uma perda irreparável para a Academia e para a literatura brasileira. Essa consciência se impõe, para mim, como um chamado visceral. Portanto, movido pelo apreço à memória do escritor Hélio Pólvora, e motivado a servir à causa acadêmica, eu me apresento candidato ao vosso voto para suceder ao elo que partiu, na notável Cadeira nº 24 da Academia de Letras de Ilhéus.
Como escritor grapiúna, nascido em Firmino Alves-Bahia, em 1959, cresci em Ilhéus, como filho adotivo dessa magnífica terra, e sou ilheense de coração. Em 1963, cheguei a Ilhéus, no seio de minha família, aos 4 anos de idade. Aprendi as primeiras letras, fiz as leituras iniciais, e comecei a vida literária. Entendi-me por gente em Ilhéus. Em 1979 parti para o mundo, e segui por tantos lugares, até trilhar os caminhos que sempre me trazem de volta ao convívio dos parentes e dos amigos. Trago o mapa e os caminhos de Ilhéus em minha mente e em minhas veias. Desde criança respiro essa cultura e essa condição existencial. Batizo-me todo ano nas águas de ferro do mítico Rio Cururupe. E por onde vivo e passo, levo em minha alma os aromas das matas, as cores dos rios, os arrulhos do mar e o gosto da terra e dos manguezais. Este sentimento brota do fundo do coração e da alma, – e me motiva e me convoca para o convívio com os meus semelhantes, diletos e diletas titulares das letras ilheenses.
Essa união criativa e cordial pode-se realizar como um compromisso de vida, se, em sua soberana deliberação, os dignos eleitores e as dignas eleitoras da ALI houveram por justo me honrar com a titularidade da cadeira nº 24 desse glorioso sodalício. Se eleito por vós, estarei ungido no sonho e na poesia, ao realizar o desejo de comungar com vossos ideais e vosso mister.
 Apresento-me, pois, para contribuir e somar com os acadêmicos da ALI, honrando o seu lema: PATRIAE LITTERAS COLENDO SERVIAM – Servir à Pátria Cultivando as Letras”. Ofereço-vos, com humildade e alegria, os préstimos de meus sonhos de construir e confraternizar através das nossas letras grapiúnas e brasileiras, na seara da reflexão e da criação e divulgação da poesia, da ficção e da ensaística de nossa terra.
 Minha atuação docente e literária sempre esteve e sempre estará comprometida com o cultivo e a valorização do nosso ethos literário e cultural, nossas raízes e nosso porvir. Para tanto, eu vos peço a honra de vosso voto.
Atenciosamente,
Aleilton Santana da Fonseca
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CURRÍCULO DE VIDA DE ALEILTON FONSECA

Aleilton Santana da Fonseca nasceu em Itamirim, hoje cidade de Firmino Alves, Bahia, em 21 de julho de 1959. Seu pai, um pequeno agricultor; sua mãe, uma professora primária. Casado há 32 anos com Rosana Maria Ribeiro Patricio, professora universitária, tem dois filhos: Diogo Ribeiro da Fonseca (31 anos, doutorando em Administração Pública - UnB) e Raul Ribeiro da Fonseca (27 anos, fisioterapeuta e acadêmico de Medicina – EBMSP-Bahia).
Aleilton Fonseca, desde os 4 anos de idade viveu a infância e adolescência em Ilhéus, com a mudança de sua família. Em 1979 seguiu para estudar em Salvador, onde fixou residência. Em Ilhéus cresceu, tomou consciência de si, estudou, tornou-se ilheense por adoção, formação e afeto. Retorna regularmente à cidade, para visitar familiares e amigos de infância. A partir dos 17 anos, ainda em Ilhéus, passou a escrever e a publicar em jornais e revistas. Atualmente sua produção literária abrange romance, conto, poesia, crítica e ensaio. É graduado em Letras pela Universidade Federal da Bahia (1982), com mestrado pela Universidade Federal da Paraíba (1992) e doutorado pela Universidade São Paulo (1997). Foi Professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, em Vitória da Conquista, de 1984 a 1998.  A partir de 1999, passou a lecionar na Universidade Estadual de Feira de Santana. É professor Pleno (Titular) de Literatura Brasileira na graduação em Letras e no Curso de pós-graduação Mestrado em Estudos Literários, e desenvolve pesquisas sobre as relações entre literatura, imagens urbanas e ecologia. Lecionou, como professor convidado, na Université d’Artois, na França, em 2003. Participa regularmente de eventos literários e científicos no Brasil e no exterior, como conferencista, pesquisador e escritor.   Proferiu palestras em diversas universidades brasileiras e em instituições estrangeiras, como Sorbonne, Nanterre, Rennes, Tour, Toulouse e Nantes (França), na  Universidade de Budapeste (Hungria) e  Università del Salento (Lecce/Itália).
Foi coeditor de Iararana - Revista de arte, crítica e literatura, editada em Salvador, de 1998 a 2007. É coeditor de Légua e Meia, Revista de literatura e diversidade cultural, da UEFS. Faz parte da Comissão Editorial da Revista da Academia de Letras da Bahia e de outras revistas literárias e acadêmicas. É correspondente da revista francesa Latitudes: cahiers lusophones. Recebeu um dos Prêmios Culturais Fundação Cultural da Bahia – 3º lugar (1996), o Prêmio Luis Cotrim (ALJ, 1997), o Prêmio Herberto Sales (ALB, 2001) e o Prêmio Marcos Almir Madeira (UBE-RJ, 2005). Em 2013 recebeu o título de Professor de Honra de Humanidades, pela Universidad del Norte, em  Assunção, Paraguai. Em 2014, recebeu o Troféu Carlos Drummond de Andrade (Itabira-MG), a Medalha Luis Vaz de Camões (Núcleo Académico de Letras e Artes de Lisboa) e a Comenda do Mérito Cultural, da Secretaria da Cultura, do Governo do Estado da Bahia. Também recebeu a Medalha Pedro Calmon (ABI -Bahia, 2002), a Medalha Euclides da Cunha (Academia Brasileira de Letras, 2009) e a Medalha Arlindo Fragoso (Academia de Letras da Bahia, 2010).   Publicou poemas, contos e artigos em diversas revistas, como as francesas Latitudes: cahiers lusophones (Paris),  Autre Sud (Marselhe),  Crisol (Nanterre) e Plural/Pluriel  (Nanterre) e L'Ampoule  (Bordeaux). Tem diversos livros e artigos publicados no Brasil, e em outros países como Portugal, França, Bélgica, Quebec/Canadá, Estados Unidos e Itália.
Em 2009, ao completar 50 anos, foi homenageado pelo Lycée des Arènes (Toulouse, França), pelo Instituto de Letras da UFBA (Projeto o escritor e seus múltiplos) e pela ALB (mesa redonda).  Coordena o Curso Castro Alves/Colóquio de Literatura Baiana, da ALB (2005-2015). Tem diversos livros e artigos publicados no Brasil, e em outros países como França, Bélgica, Canadá, Estados Unidos, Itália, Uruguai e Paraguai. Seu romance Nhô Guimarães foi adaptado para o teatro pela Companhia Baiana de Teatro, Grupo Criaturas Cênicas, em 2009. Em 2013 recebeu o título de Professor de Honra de Humanidades, pela Universidad del Norte, em  Assunção, Paraguai. Em 2014, Recebeu o Troféu Carlos Drummond de Andrade (Itabira-MG), a Medalha Luis Vaz de Camões (Núcleo Académico de Letras e Artes de Lisboa) e a Comenda do Mérito Cultural, concedida pela Secretaria da Cultura, do Governo do Estado da Bahia. Também recebeu as medalhas Pedro Calmon (Associação Baiana de Imprensa, 2002), Euclides da Cunha (Academia Brasileira de Letras, 2009) e Arlindo Fragoso (Academia de Letras da Bahia, 2010).  É membro da Academia de Letras da Bahia, da Academia de Letras de Itabuna, da União Brasileira de Escritores-SP e do PEN Clube do Brasil. Integra a Association Internationale de la Critique Littéraire, sediada na França, da qual foi vice-presidente para América do sul, em 2013-2014.


  
PEDITÓRIO DE VOTO
De: "Aleilton Fonseca" 
Enviada: 2016/08/31
Para: Cyro de Mattos
Assunto: PEDITÓRIO DE VOTO

Caro Cyro de Matos
envio-lhe esta missiva:
já estamos acertados
para a data decisiva.

Vem aí o dia certo,
todos hão de votar,
e assim eu espero
a eleição alcançar.

Eu terei muita alegria
de ser ali seu confrade,
na prosa e na poesia,
com afeto e amizade.

Mando-lhe esta carta
tomo papel e anoto
e faço logo a marca: 
conto com o seu voto.

 Aleilton Fonseca
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PEDITÓRIO DE VOTO

De: Cyro de Mattos
Enviada: 2016/08/31
Para: Aleilton Fonseca
Assunto: RE: PEDITÓRIO DE VOTO
Segue abaixo minha resposta, abraço, cyro.

Meu caro  amigo Aleilton,
Nem precisava me  pedir,
Conte comigo desde ontem,
Não há melhor do que você.

Ficcionista, cronista, poeta, ´
Numa escrita cheia de amor.
Ensaísta, traduzido, laureado,
Na área das letras doutor.

Firmino Alves é alegria
Com o seu filho escritor,
Você em nossa Academia
Ilhéus tem mais esplendor.

Por isso, caros confrades,
Na hora e na vez da eleição
Votar nesse grande homem
É fazer o bem  com a razão.   
Cyro de Mattos
* * *


UESC concede título de Honoris Causa a Cyro de Mattos.


Antologia Histórias dos Mares da Bahia organizada pelo Escritor Cyro de Mattos será Lançada na Bienal do Livro em SP


  
Publicada pela Editus,  editora da Universidade Estadual da Santa Cruz, a antologia Histórias dos Mares da Bahia vai ser lançada na Bienal do Livro, em São Paulo, no dia 26 de agosto, a partir das 19,30 horas, no estande coletivo da Associação Brasileira de Editoras Universitárias. O livro faz parte da Coleção Nordestina, projeto vitorioso que já publicou inúmeros títulos importantes  sobre temas nordestinos  e  envolve  as editoras universitárias do Nordeste. Com organização, prefácio e notas de   Cyro de Mattos, posfácio de  Gerana Damulakis, a antologia Histórias dos Mares da Bahia reúne autores representativos que escreveram um conto que tenha como cenário o mar da Bahia.
 O elenco é formado pelos seguintes autores:  Aleilton Fonseca (O Pescador), Aramis Ribeiro Costa (Praia), Carlos Ribeiro (Já Vai Longe o Tempo das Baleias), Cyro de Mattos (Somente Ele Escutou a Fúria do Mar),  Dias da Costa (Um Simples Farol no Mar), Gláucia Lemos (Os Lampadários do Céu), Guido Guerra (Os Olhos do Cristo de Pedra), Helena Parente Cunha (Quatro Minicontos em Guarajuba), Hélio Pólvora  (No Mar da Bahia), João Ubaldo Ribeiro (O Bom Robalo de Compadre Edinho), Jorge Medauar  (O Peixe Vermelho), Luís Garboggini Quaglia (Ventania), Ricardo Cruz  (Todas as Luzes do Mar), Ruy Espinheira Filho (Na Ilha), Vasconcelos Maia (O Maiô e a Rosa) e Xavier Marques  (A Noiva do Golfinho).

·        Histórias dos Mares da Bahia
·        Editus (UESC), Ilhéus, Bahia, 205  páginas
·        25,00










Academia de Letras da Bahia elege Cyro de Mattos Membro Efetivo





O escritor e poeta Cyro de Mattos foi eleito na quinta-feira última, dia 15, membro efetivo da Academia de Letras da Bahia com 27 votos dos 28 acadêmicos, membros  efetivos, que compareceram à eleição. O escritor baiano, de Itabuna, irá  ocupar a cadeira 22, que tem como patrono José Maria da Silva Paranhos, fundador Rui Barbosa e o seu último ocupante foi o poeta Clovis Lima.
       Cyro de Mattos era sócio correspondente da Academia de Letras da Bahia desde 2002, quando então o estatuto da instituição não permitia que um candidato residente fora de Salvador fosse eleito membro efetivo. Com a mudança nos estatutos, a proibição mencionada foi eliminada.
Jorge  Amado, Itazil Benício e  Hélio Pólvora foram outros escritores itabunenses que figuraram no quadro de membros efetivos da ALB. Atualmente, o jornalista Samuel Celestino, que assina uma coluna política no Jornal A Tarde, é também membro efetivo dessa valorosa instituição de letras. Do sul da Bahia, a instituição tem ainda como   membros efetivos o poeta Florisvaldo Mattos (de Uruçuca) e o escritor Aleilton Fonseca (de Itagimirim).   
      Escritor e poeta, Cyro de Mattos já publicou mais de cinquenta livros  no Brasil e nove no exterior, entre volumes de contos, romance, novelas, poesia  e literatura infantojuvenil. É detentor de mais de 40 prêmios literários de expressão,  no Brasil e no exterior e, entre eles, Os Brabos, Cancioneiro do Cacau, Vinte Poemas do Rio e  Os Ventos Gemedores. É advogado aposentado, jornalista com passagem na imprensa do Rio, casado com a professora Mariza Berbert  Marques de Mattos, pai de três filhos e avô de seis netos. 

Academia de Letras de Itabuna na FELITA 2016



A ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA ACEITOU O CONVITE DA FUNDAÇÃO ITABUNENSE DE CULTURA E CIDADANIA - FICC, PARA PARTICIPAR DA III FEIRA LITERÁRIA DE ITABUNA. 

OS CONFRADES E CONFREIRAS  PODERÃO DISPOR DO ESPAÇO  RESERVADO À NOSSA ACADEMIA PARA EXPOSIÇÃO E VENDA DOS SEUS LIVROS, QUE SERÃO ENTREGUES NO STAND, FICANDO SOB  NOSSA RESPONSABILIDADE  ATÉ O ENCERRAMENTO DO EVENTO.

Pequena Antologia Poética - Cyro de Mattos

                                          
                                               
         Hebel Ediciones, de Santiago, Chile, oferecem ao público amante de boa poesia a antologia Según  Voy de Camino, do  poeta peruano-salmantino e Professor da Universidade de Salamanca, Espanha,  Alfredo Pérez Alencar,  contendo dez poemas de fácil compreensão, motivados por  vários assuntos. A antologia  assim com dez faces contribui para o conhecimento de  uma poesia que  tem como fundamento a vida. São instantes imaginativos do verso, ora impregnados de encanto, ora entranhado de sabedoria e  verdade. A obra apresenta-se com tradução para quatro idiomas:  bengalês por Mainak Adak; grego por María Koutentaki; chinês por  Huaping Han, e para o  inglés por José Ben Kotel (com revisão de Gretchen Abernathy).
Emprestando mais uma vez a palavra ao sonho para iluminar o ser, o poeta peruano-espanhol  tem em  sua companhia, nesta oportunidade, o artista plástico cubano-espanhol   Luis Cabrera Hernández (La Habana, 1956),  professor da Escola  de Grabado e Desenho Gráfico da Real Casa da Moeda de  Madrid, dono de  um  currículo exemplar em que se registram inúmeras mostras individuais e exposições em importantes eventos internacionais.  Esta é a segunda vez que a parceria acontece para o bem da poesia, quando então o poeta da palavra e o artista do discurso no grafismo  dão as mãos para que a vida se torne viável.
         Essa pequena antologia do poeta peruano-salmantino, já traduzido em  mais de uma vintena de idiomas, reúne poemas  simples em sua expressão,  porém,  com uma riqueza de conteúdo que só os legítimos poetas possuem. Poesia é qualidade, perfeição na palavra eficiente e certeira, na ideia harmoniosa e dialética,  que diz do mundo à humanidade,  sem  banalizações e equívocos pueris. É forma de conhecimento da vida, que se apresenta  essencial  no mundo como  o  amanhecer.  É fruto do talento e da vocação, da sensibilidade e da  crença, condições sem as quais o poeta não sobrevive na matéria verbal executada  como o solitário gesto do ver. 
        É o que sentimos quando lemos um poeta de alto nível  como Alfredo Pérez Alencart, mesmo que isso aconteça em apenas dez poemas, como se dá agora.   Lendo esses dez poemas,  vemos como o conjunto ritmado de significações importantes encaixa-se  naquilo que os gregos preconizam quando afirmam  que quanto maior a extensão menor a compreensão e quanto menor a extensão maior a compreensão. 
Esses dez  poemas são suficientes para transmitir com densidade o encanto mesclado com  assombro que o menino teve  quando na infância vê pela primeira vez os vaga-lumes, lanterninhas de Deus acendendo e apagando seu mistério a quem vê.  Em similar visão, a capacidade de assombro e encantamento  estará com o poeta ao se deparar com o voo delicado  do colibri, no qual ele leu  “ en el gran cielo un mensaje hecho de miel y de ceniza”
“ Santo Ofício” é uma declaração de amor a Salamanca, onde o poeta foi acolhido, constituiu uma família digna e se tornou, por entre atividades importantes,  um disseminador de afetividades poéticas. Ressalte-se que ele organiza  o Encontro de Poetas Iberoamericanos, com êxito e repercussão internacional em sucessivas edições. O poeta peruano-espanhol  sempre guarda algum tesouro para os que por lá chegam, para que não manchem  a mesa que acolhe quando está a servir mãos alheias.
A poesia quer invenção da vida, não a opressão que anula, não  a humilhação  dos desvalidos na vergonha. Quer transmitir o bem, sem que seja panfletária e piegas, apesar da aparência enganosa da  simplicidade.  Nos poemas  “Humillación de la pobreza”, “‘Cartel”, “Mientras se derrumba Wall Street” e “Honestidad”, formula-se no verso apurado as  desigualdades muitas vezes engendradas  pelo sistema social organizado.  Esse protesto manso, de sabedoria  lendária, é uma das vertentes da  poesia de Alfredo Pérez Alencart. Vem de sua filiação confessa   ao amor  ofertado pelo Cristo, o bem-amado salvador da humanidade.
Por outro lado, três versos de um  dos  poemas referidos  anotam: «Ser honesto/ es la debilidad/ que te hace fuerte». Não hesito em afirmar que poucas vezes vi em tão enxuto versejar  o questionamento   com tanta intensidade da condição precária e contraditória na qual todos estamos inseridos. “Orfandad” é um  poema capaz  de identificar o leitor com sua orfandade em qualquer país que esteja. “Perder un padre es perder una luz que no tiene principio ni fin.”  Já “Vuelta a casa” traduz o quadro que fere o forasteiro como ser gregário em seu crítico ser-estar no mundo. 

 “Un perro olfateó mi ropa de forastero tras largo viaje. No es visión pasada. Ayer llegué a la entrada del pueblo, pero el perro no me deja pasar, aunque le muestre ternura o la foto del abuelo que era de aquí. Hundo las manos en esta tierra y luego me embosco entre las ramas del recuerdo.”
    
     Da leitura dos dez poemas de Según Voy de Camino, vemos na sua melhor e maior compreensão, em função da menor extensão do conjunto,  que a  poesia  estende-se com sentidos eternos  quando  elaborada com maestria para dizer da  beleza e da verdade.
       Tanto quanto a planta quando  se abre e brota  a flor.


I SEMINÁRIO BENEFICENTE LUZ, CÂMERA, ARTE

I SEMINÁRIO LUZ, CÂMERA, ARTE

Conhecimento, Ética, Arte e Cultura na Construção do Pensamento Livre.

No dia 21 de julho de 2016 o Centro de Cultura Adonias Filho realizará o I Seminário Luz, Câmera, Arte com produção da cineasta e apresentadora Raquel Rocha. 

O Seminário tratará de temas como Conhecimento, Ética, Arte e Cultura na Construção do Pensamento Livre e Crítico. Como palestrantes: Sônia Maron, Claudio Zumaeta, Erailton Gama e Lourival Piligra.

A Presidente da Academia de Letras de Itabuna Sônia Maron, também juíza aposentada, abordará o tema “O livro está morrendo?”. O professor Claudio Zumaeta, escritor e historiador, discorrerá sobre “ A Arte e a História na Construção do Pensamento Independente.”.  Erailton Gama, Químico e Especialista em gestão de pessoas debaterá a respeito da “Ética e Cidadania no Caminho de uma Sociedade Consciente.” E por último o escritor e mestre em Filosofia, Lourival Piligra palestrará sobre o tema “Arte e Filosofia como expressões do Absoluto”

O Seminário também contará com momentos de música e poesia, com Aldo Bastos, Fernando Caldas, Walmir do Carmo, Malena Doria, Pedro Gurgel e Jaciara Taksim.

O evento objetiva a arrecadação de alimentos para os 3 abrigos de Idosos da cidade de Itabuna:  Abrigo São Francisco,  Abrigo Albergue Bezerra de Menezes e Lar Dr. Balduino. O Evento será realizado da sala principal do Centro Cultura Adonias Filho, na quinta-feira, 21 de julho as 19:00 pontualmente.

Entrada: 2 kg de alimentos não perecíveis.

POESIA DE FLORISVALDO MATTOS




Em bom momento deste mês, em que Itabuna completará no dia 28 mais um ano de emancipação política,  a poesia de Florisvaldo Mattos chega até nós  para avivar o imaginário. Poeta de linguagem expressiva e conteúdo fraterno,  de lastro clássico em seu discurso coeso, um dos mais importantes nas letras contemporâneas brasileiras, nascido em Uruçuca, Florisvaldo Mattos é também jornalista,  professor aposentado da UFBA, membro da Academia de Letras da Bahia. Publicou livros de poesia e ensaio, sendo os dois últimos Poesia Reunida e Inéditos (2011) e Sonetos elementais (2012); tem no prelo Estuário dos dias e outros poemas, seu oitavo livro de poesia, do qual constam estes abaixo  em homenagem a Itabuna, onde viveu, de 1945 a 1958, mas sempre presente em sua memória. (Cyro de Mattos)





OS HEROIS
(Infinita memória de Tabocas) 

A Cyro de Mattos e em memória de saudosos amigos itabunenses: Agostinho, Carlito Barreto, Dedé, Edson Cordier, Eraldo Cerqueira Gomes, Fernando Menezes Dantas, Dr. Gervásio Santos, Hélio Nunes, Hélio Pólvora, Manoel Leal de Oliveira, Raleu Baracate, Ruy Cedar Fontes, Telmo Padilha, Vidal, os irmãos Vitório e Zequinha Carmo.

                                                          



I
Ao redor de um jequitibá 

A mata vai gemendo, e a terra estremece...
                            E o matagal cortado em fúria desfalece.
                                               Nataniel Ruben Ribeiro Gonçalves (1960)

Com as flores de mil novecentos e onze,
Saúda-se uma construção dos homens,
Primeiro trem-de-ferro em Itabuna.
Estação branca e verde, vigamentos
E colunas fundidos na Inglaterra.
Logo se juntam ventos mensageiros.
Plataforma apinhada de murmúrios,
Espargem-se no ar gestos que meu pai
Fazia, quando moço, certamente, 
E amargara na terra em que buscava
Tolhido fruto ao sonho retirante.
Lá, de gravata e colarinho duro,
O Intendente rodeado de comparsas
Bufa contentamento sob o fraque
E manda um telegrama ao Presidente
Alcovitando o feito dos ingleses.

Aprumando o Latim das Escrituras,
O Padre vem benzer o prédio novo.
Ajusta os paramentos de seu culto
E fala aos fiéis do bem que é o Progresso,
Quando mansa a alma se volta para os céus.
Discute-se o futuro dos transportes,
O quanto servirão a safra e ganhos.
O Juiz exalta a força do vapor,
A do carvão e da eletricidade. 
Especula-se a sorte do aeroplano,
Ou do que irão chamar de zepelim,
Maior glória não há por entre nuvens.

A fé republicana abrasa as mentes.
Lábios estrugem matinal vanglória
De batalhas vencidas, que devolvem
Trajetos de remotas aventuras,
Apegadas ao nome do arraial.
No ardor de lúbricas fruições, desfraldam
Firmamento de audazes fundadores:
Firmes rostos e nomes que até rimam
(Félix Severino do Amor Divino,
Constantino, José Firmino), e passos
De claro curso que celebrizaram
Valentias e força de trabalho.

Hálito de matas e aldeias índias,
As sílabas percorrem de Tabocas
Mágico som jorrado de uma física
Tertúlia de músculos e pulsos
Contra espesso e imperial jequitibá,
Regência de machado em fortes mãos, 
Espelhadas em pedregoso rio.
Embora calem pássaros e ramos,
Abençoa-as um céu de cores grandes
E corpos vibram de tenacidade.

Teve também os seus Eneias essa 
Laboriosa extensão de apenas terra,
Que se atribui nascida pátria da honra,
Isenta de alegrias musicais,
Sem artes de alma e ardências, sem violões,
Sem canções que não as da natureza;
Somente árvore e sombra, em dura faina,
E o cabedal de lutas intestinas.
Uns ridentes, outros compenetrados,
Entretém-se, conversam e confabulam.
Há um novo sol no século que se abre,
Vozes em eco, unânimes, consagram
Passado que resume um sonho plástico:
Charcos que foram e serão depois
Ruas e praças, casas e sobrados,
Matas vencendo, derrubando cercas,
Auras que são tributo da coragem.

A estação miram com olhos do presente.
O trem-de-ferro logo chegará.
“Para cá virão tropas e tropeiros,
Os que passam agora e passarão
Outros que sejam por manhãs e tardes”.
Dali saem e vão jogar bilhar,
Ou simplesmente ao coito com donzelas,
Um conhaque talvez no Elite Bar.
Ruge o inverno nas roças de cacau,
Esplende a lama cevando jatiuns.



II
Aurora com Zé Nik


                   CONTRA NATURAM
                   Trouxeram putas para Elêusis
                   Meteram cadáveres no banquete
                   A mando da usura.
                                               (Ezra Pound, Canto XLV)

José Nik a este mundo não pertence.
Jamais seria alferes dessas hostes;
Era mais personagem que um ser físico.
Vinha de pai honrado fazendeiro,
Gozou de lar e escola, tinha letras,
Mas como herança de satyricons,
Pela trama dos dias e das noites, 
Ganhou fama de mestre em diabruras.
De onde vem como fauno endinheirado,
Ilhéus lhe impôs coroa de valente.
Dispensa o trem-de-ferro e, em montaria,
Tabocas é o destino, a terra nova
De áulicos e de belas raparigas, 
E vai se divertir no Ponto Chic,
Áureo templo de bródios camaradas.
Todos esperam que chegue o endiabrado.

Acendendo relâmpagos nas pedras,
Por uma dessas portas chegará
O cavaleiro de rosto amorenado.
Conhaque de alcatrão e Vinho do Porto,
Gim e aguardente espalham-se nas mesas.
Envolto em lumes, ele enfim chegou,
Com seu chapéu de feltro e aba larga, 
Camisa em listras, largo cinturão;
O revólver de cabo madrepérola,
O punhal e o rebenque encastoado. 
Pisara em flores sobre lama e lodo.
O punho forte segurando as rédeas,
Apeia-se da mula e entra no bar.
Pede conhaque com açucena e, sério,
Bebe de um gole um quarto de garrafa.
Já veio bambo e, após os cumprimentos, 
Senta-se. Logo se levanta e brada:
“A canalha está em festa, a raça espúria.
Quero que morra a nata apodrecida,
Que nem mesmo vale um tostão furado”.
Da audiência refletida nos espelhos,
Tanto quanto as garrafas de bebidas,
Abre-se o riso em luz de acetileno,
Sobre as pedras de silenciosa rua.
Entre um gole e outro, a frase aguda,
Os olhos presos no mármore da mesa,
Sabe-se que vem ébrio; entanto, todos
Querem ouvir o oráculo das matas.

Vivas estalam em rolhas de champanhe,
Entre os cristais do bar estrelejado.
Logo debulha os vícios da República,
Que homizia um rosário de maldades.
E, ante ávida plateia, alinhavava:
Os deputados a bico de pena,
A moral de rapina, o chão de ratos,
Astúcias no silêncio dos cartórios, 
De notários e fátuos advogados,
Venalidades e querências surdas;
Os enfatuados donos do dinheiro,
Nas casas compradoras de cacau,
Com estrangeiros de rosto avermelhado,
Tramam revoltas e terras ocupam,
Expulsando posseiros a chicote;
Os caxixes, o exército de agiotas
(A usura participa do cenário),
Balas e assassinatos de tocaia.
Transpiram calma e cálculo, astros são
De um conservadorismo abençoado,
Cujas filhas fornicam nos quintais.
Divertem-se liberando ansiedades.
À noite nas sessões de jogatina,
Entorpecidos, jogam bacará
E sete-e-meio e pôquer apostado.
Privam também com suas concubinas,
Em bordéis e mansões; arreiam tropas
E transportam cacau pela alvorada.
Tensas mulheres em lençóis de seda
Libertam-se de sexo reprimido,
Entre cortinas de um amor furtivo,
Vezes muitas por trás de um naipe de ouros.

Olhos vívidos miram os cristais,
Um gole a mais, o cálice no ar.
(Escrevente Manoel Fogueira observa 
Ovações e estridências do espetáculo).
Todos lembram o instante em que Zé Nik
Destratara um Juiz em calma rua
E a noite em que, em pleno Quartel Velho, 
Tonto, se defrontou com três maçons;
Mandou que abrisse o bolso cada um,
Enfiando neles moedas de um vintém.
Chovera. O céu de estrelas semelhava
Um lago que espelhasse pedrarias.



III

Noite com Zé Nik

                   Na cinquentenária avenida
cinquenta anos te espero:
foste herói impossível de um dia
que não vingou nos anos vindouros.
                            (Telmo Padilha)


Horas havia, à noite, em que o peito arfava,
O coração media em derredor.
Destravando as amarras do pensar,
Cogitava outro passo, outro caminho.
Sonhava que estivesse num jardim,
Entre flores e amigos, num coreto,
A dizer-lhes que o mundo é bem diverso
Do que ruminam eles, do que sonham,
Como talvez lutar no Contestado, 
Soldado ser no Rio de Janeiro,
Viver na terra como um desastrado.
Rugas na testa evocam movimentos,
Em paragens longínquas, alistado,
Araucárias e verdes pinheirais,
De árduo escudeiro, de anjo protetor.

Tarde de sol venal e de cansaço,
Na hora em que búzios desertam o dia, 
Entre nuvens de excesso e perdição,
Olhos de azeite e voz tonitruante,
O desastrado irrompe no terreiro
De uma fazenda calma e preguiçosa. 
Aguardente de cana na mão trêmula,
Com todos grita, acusa, execra e xinga.
Depois arruma alforjes nos arreios,
Emborca um gole a mais, apruma o corpo
E deita, despedindo-se do dia.
Entre restos de selva e serrania,
O Rio Almada exaure-se em canções,
Prenunciando auroras e crepúsculos
De uma saga que nasce nele próprio.
Zé Nik dorme o sono da inocência.
É quando, alma que veio do Nordeste,
Para sumir nos eitos do cacau,
Colecionando injúrias, lavrando ódios,
Arreando tropas, o Amarelo espreita.
Com a mesma mão que arreia as alimárias,
Doa a um machado os sonhos de Zé Nik
E ao Juiz disse que matou sem cúmplices,

Na tarde de incógnitas infinitas.
Foi-se sem um rugido, mesmo um sopro.
Fechados olhos como que de ausência, 
Do corpo pendem-lhe mãos de escultura,
Da boca e queixo, um terno e rubro líquido,
Sangue que peito cobre e alaga o chão.
Arreado está, arreado ficará.
“Ai! Que anjos o levem, jamais Caronte”,
Imploram os varões do Ponto Chic.
Astros e deuses logo o levarão
Pelo moroso céu do que se finda.
Adiante passam burros, passam tropas,
Verdes matas prosseguem expectantes,
Talvez nos ramos pássaros gorjeiem.
Ansiosa desde sempre a terra vibra,
Em pouco alegre chuva a encharcará.
O outono vem com nuvens de cetim.
(O rio Almada corre silencioso,
No seu fado de eterna testemunha).
Já pelo ar calmos ventos anunciam:
Por milagre talvez ou santas mãos,
Sobe na Bolsa o preço do cacau.
Gritos se ouvem, nas águas, nos caminhos,
Em mil novecentos e vinte e sete.
Personagem de conto fin-de-siècle,
Aqui se finda a história de Zé Nik,
Em nada parecido com um ser físico.



IV

Alvorada renascida


Ah! Como eu sou feliz e me sinto orgulhoso
De um dia ter nascido em teu seio faustoso,
Sob o esplendor de um céu de beleza tão rara!
                                               José Bastos (1905-1937)


A luz que escorre sobre um rio morto
Ainda derrama cores e nos alerta
Que o passado vivido que passou 
É passado lembrado que não passa.
(Ó sonoro Guillén, disseste-o bem,
Ecoando suados rastros de conquistas,
Com voz de bardo hispano-americano:
“O passado passado não passou”).*
O tempo foge, gasta e desconcerta.
Os caminhos da vida têm cancelas,
Que se abrem, quando emergem na memória
Com os ecos de machados retumbantes,
Força e fervor de braços sergipanos.
Não só de sóis a letra é devedora,
Das estrelas menores é também.
Sumiu Tabocas, o arraial primeiro,
Matas de cedros e maçarandubas.
(Só não sumiu o amor pelo cacau).
As noites moldam novas alvoradas,
Enquanto nuvens pelos céus bendizem
Terras heroicas sobre as quais ainda hoje
O vento sopra despejando flores,
Saudando todas as criações e luzes,
Os caminhos acesos de Tabocas,
Que ainda fosforescem e cintilam,
Em chão de orvalho e lidas que retornam
A esperanças vividas e sentidas.
Dessas auras, contrito, me despeço.
Itabuna venera seus Eneias,
Que dialogavam com jequitibás.
Tabocas nunca esquecerá Zé Nik,
Que foi seu outro lado incandescente.

(SSA/BA, 1982-01.05.2016) 

*Oh aurora dos tempos, incendida!
Oh mar de sangue, mar que desbordou!
O passado passado não passou.
A nova vida espera nova vida.


(Nicolás Guillén, in “Elegia a Jacques Roumain, tradução de Manuel Bandeira).