Luzes, Cores e Poesias!


O dia depois de amanhã

                     
                         
Sônia Carvalho de Almeida Maron*

O momento vivido pelo Brasil não comporta comemorações. Ao contrário, permanece a apreensão decorrente da expectativa das medidas urgentes a serem implementadas para minimizar as consequências do desastre econômico e administrativo imposto por um governo irresponsável e inconsequente. Daí o título escolhido para o artigo, inspirado no filme de Rolland Emmerich The day after tomorrow, que pertence aos clássicos da ficção científica cinematográfica.  O filme transporta o publico para as conseqüências dos desafios à natureza causados pelo aquecimento global.  O enredo, recheado de excelentes efeitos especiais, apresenta uma nova era glacial  congelando todo o hemisfério norte e retrata o drama vivido pelos sobreviventes na luta para enfrentar e vencer a intempérie, bem como  os primeiros passos para administrar as sobras da destruição implacável. Qualquer semelhança é mera coincidência...
O Brasil viveu um pesadelo populista, alimentado por narrativas e dados ilusórios. Nem mesmo os dias de chumbo dos governos militares vencidos pela desaprovação do povo brasileiro através do movimento das “Diretas já”, causou um prejuízo tão grande à economia do país e à sua posição entre os países que cultuam a democracia.  Preservando o ordenamento jurídico e o pleno funcionamento das instituições  ficou bem claro o repúdio do nosso povo ao autoritarismo, venha de onde vier. O discurso vazio,  fantasioso e medíocre que os dirigentes ora afastados do poder apresentaram durante treze anos, propositalmente ocultou os incontáveis cidadãos brasileiros que sofreram as conseqüências  de  um golpe  militar e passaram a compor, para os lulopetistas, a “elite inimiga”. Muitos desses brasileiros, entre os quais pontifica Fernando Henrique Cardoso, foram obrigados a deixar o país durante o regime militar.  Restabelecida a democracia, voltaram a  participar da vida pública deixando um legado admirável de um país respeitado que se destacava no cenário mundial pelo respeito à lei e às instituições como marco civilizatório da segurança jurídica tão necessária à paz social. 
Os dirigentes investigados e denunciados   não souberam aproveitar o momento mágico vivido por um país em ordem e demonstrando visíveis sinais de progresso. E meteram os pés pelas mãos. Estamos administrando o que restou da tempestade, inclusive o desalento, a desconfiança, o descrédito que deixaram como herança, maculando os políticos.  A  bem da verdade, nossos políticos nunca foram santos. Mas não podem ser considerados demônios. As exceções existem e muitos merecem a confiança e o respeito dos brasileiros.
  É forçoso reconhecer que nas casas legislativas ainda existem políticos dotados de consciência crítica e sem o vírus da paixão político-partidária. Ainda existem políticos esclarecidos que entendem o significado do sufrágio popular e do Poder Legislativo (com iniciais maiúsculas) no estado de direito. Os interesses pessoais e inconfessáveis de alguns hão de ceder  diante da necessidade de colaborar para o soerguimento do país. Afinal, estamos todos no mesmo barco. 
Retomando os enredos cinematográficos como exemplo,  diria que conseguimos desviar nosso Titanic do iceberg e nossa história não terá o final trágico do filme.  Precisamos  da colaboração de todos para afastar os obstáculos que possam surgir na rota traçada pelo bom senso. Nosso navio, bastante avariado, não suportaria outra colisão. Todos os brasileiros, sem exceção, seriam sacrificados. Principalmente aqueles que não aceitam as regras do procedimento de emergência da equipe de salvamento e são exatamente os mais vulneráveis e carentes que se prestam às manipulações e foram transformados em consumidores imaginando que se tornaram cidadãos. Precisam de educação, saúde e emprego e receberam esmolas. Se as conquistas sociais estão garantidas, esperamos que os beneficiários sejam  tratados com dignidade e respeito e comecem a conviver com uma realidade transformadora. As manobras para salvar náufragos e navios avariados  são cruentas e dolorosas,  todos sabem. O importante é sobreviver sob outro comando, evitando motins e  recuperando o rumo perdido. 

*  Ex-aluna do Ginásio Divina Providência
Professora aposentada da UESC
Juíza de Direito aposentada do TJ-BA
Presidente da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Cruzada contra o ódio


                             
Sônia Carvalho de Almeida Maron*


“Na longa e praticamente contínua batalha pela liberdade, contudo, as classes que lutavam contra a opressão em determinada fase, uma vez obtida a vitória, enfileiravam-se ao lado dos inimigos da liberdade para defender novos privilégios.” FROMM, Erich , O medo à liberdade, p. 13.

      Os regimes autoritários precisam de um inimigo para sobreviver. Sempre escolhem um bode expiatório que possibilite assumirem a posição de vítimas. É um fenômeno analisado pelos estudiosos de psicologia social e a facção política  que governa o Brasil não foge à regra. Repetem os argumentos rotos e desbotados, buscando apoio em critérios extravagantes de legalidade e/ou legitimidade que existem apenas em suas mentes conturbadas pelo desejo de perpetuação no poder. Dizendo-se “injustiçados” e  perseguidos pelos “golpistas” pretendem a aprovação do estamento social que iludiu e manipulou criminosamente.
     Se o momento vivido pelos brasileiros não fosse o pior experimentado na vida sociopolítica do país, seria hilária a afirmação da existência de um “golpe” semelhante à ditadura militar iniciada em 31 de março de 1964 e vencida pelo movimento social das “Diretas Já” vinte anos depois. A verdade histórica não escapa à compreensão das pessoas normais, ainda que sejam iletradas. Ninguém ignora que em 1964 as instituições não funcionavam, o Congresso foi impedido de exercer seu papel, o Poder Judiciário foi amordaçado e a imprensa severamente censurada. A força substituiu a razão. O diálogo tão necessário à democracia não existia. O devido processo legal e a ampla defesa eram sonhos de juristas suicidas.  
Recomenda-se aos fanáticos,  aos inocentes úteis e aos beneficiados com o caos do desgoverno a releitura do AI  5 ( Ato Institucional nº 5), de fácil consulta no GOOGLE para aqueles que não possuem códigos.  Poderão entender o que é um golpe institucional, com o massacre total aos direitos e princípios democráticos e imposição de normas draconianas que impediam de pensar, ler, escrever,  sorrir e cantar se tais atividades não estivessem de acordo com o desejo dos poderosos de plantão.
     A readaptação à liberdade democrática foi um processo lento  que caminhou para o amadurecimento definitivo anunciado na Constituição de 1988, aprovada por representantes do povo que foram selecionados em eleição direta e livre para composição da Assembléia Constituinte. Nossa democracia sofreu duros embates e provou sua força quando ensaiava os primeiros passos com a morte de Tancredo Neves e aceitação de Sarney, o vice que não tomou posse. A decisão contrariou a norma, é verdade, mas pacificou o país e facilitou a retomada da liberdade. Nossa Carta Magna foi novamente posta à prova com a infeliz escolha de Fernando Collor de Melo. Resistiu bravamente com um impeachment “cirúrgico”. Tornou-se adulta e imbatível para comandar as manifestações de 2013.
     Enganam-se aqueles que interpretaram as manifestações de 2013 como algo abstrato, sem foco e sem liderança. O desejo dos manifestantes que se vestiam de verde e amarelo, cores predominantes em nossa bandeira, era e continua sendo encontrar brasileiros normais, com vocação para a atividade política e aptos a governar a coisa pública com  honestidade e atentos ao bem comum. E não se diga, como argumento de defesa dos indefensáveis, que a corrupção é endêmica no Brasil, transferindo a responsabilidade da nossa desgraça a D. João VI e sua Corte que teriam implantado a prática criminosa ao fugir de Napoleão Bonaparte e esconder-se na colônia portuguesa, conhecida depois como “país de Macunaima”. Se é crônica a corrupção, entrou no paroxismo de uma crise aguda que exige tratamento enérgico e urgentíssimo. É o remédio prescrito em qualquer país democrático para impedir a continuidade de uma administração desastrada e irresponsável. O impedimento é  admitido na Constituição, regulamentado na  lei ordinária e nos Regimentos das casas legislativas. O impeachment é legal, legítimo, lícito e vem cumprindo todas as etapas exigidas pelo ordenamento jurídico do país.
O voto não significa autorização para a prática de corrupção, gestões temerárias e fraudes e nem confere legitimidade ao estelionato eleitoral que custou aos cofres públicos milhões ou bilhões de reais. O povo não pode ser coagido a tolerar corruptos e autores de um concurso material de crimes cujas penas, somadas,  atingiriam a prisão perpétua se for  considerada a expectativa de vida do homem brasileiro. A acusação contida no atual impeachment constitui modesta amostragem. Todos estão fartos de saber que a cantilena do “golpe” é um achincalhe à inteligência de todos os brasileiros.
Chega de asneiras destinadas a disseminar o ódio entre irmãos.  Nenhum grupo político que tem como objetivo eternizar-se no poder pode falar em democracia e liberdade. Voltando ao pensamento de Erich Fromm que empresta luz à epígrafe deste artigo, repetiria que a democracia não pode desanimar na luta contra o autoritarismo “mas passar à ofensiva, dispondo-se a realizar aquilo que tem sido sua meta no espírito dos que lutaram pela liberdade no decurso destes últimos séculos” (op.cit., p. 218).


                                    

Curso de Extensão -SUICÍDIO Compreensão e Superação



Nos dias 04 e 05 de junho de 2016 a Alitana Raquel Rocha, irá ministrar o curso de Extensão "SUICÍDIO - Compreensão e Superação" na Clínica Persona em Itabuna.

O seminário é direcionado para profissionais das áreas de Psicanálise e Psicologia, podendo também participar comunicólogos, jornalistas e qualquer um que se interessar sobre o tema.

Informações pelo telefone (73) 3212 7070

Raquel Rocha é Economista, Comunicóloga, Psicanalista, Especialista em Saúde Mental, Pós-graduanda em Neuropsicologia e Membro da Academia de Letras de Itabuna




A Bahia Perde o Grande Artista Plástico Sante Scaldaferri








LUTO NOS CÉUS DA GRANDE ARTE BAIANA

Mal acordo, recebo a triste notícia do desaparecimento do artista plástico Sante Scaldaferri, um dos maiores destaques de minha geração, compondo o seu grupo nuclear com Glauber Rocha, Calasans Neto (o Mestre Calá), Paulo Gil Soares, Fred Souza Castro, todos hoje também saudosos, e os ainda vivos Fernando da Rocha Peres, João Carlos Teixeira Gomes (Joca, o Pena de Aço) e o também artista plástico Ângelo Roberto. Pessoa cordial e afável, um símbolo de amizade real, sincero e solidário, repito aqui o entendimento que desde muito manifestei sobre Sante e sua arte, o de ser ele o maior representante da estética expressionista na Bahia, como pintor, desenhista e praticante de outras soluções estéticas, inclusive virtuais. Tive a sorte de ser seu amigo e o tenho como um exemplo de fraternidade. 
Apresento meus pêsames e meu sentimento solidário de afeto a Marina, sua mulher e companheira de toda a vida. Que o nosso querido Sante descanse em paz.
Faço minhas as sentidas e fidedignas palavras que aqui postou a jornalista e escritora italiana Antonella Tita Roscilli, repercutindo essa triste perda para a cultura baiana.
Aproveito para reproduzir texto que escrevi sobre ele e sua arte expressionista, mas já numa perspectiva de transvanguardismo, publicado em edição do também saudoso Caderno Cultural de "A Tarde", que vai abaixo, ilustrado com fotos do querido artista e de obra sua intitulada "Mulher Pensativa".


SANTE SCALDAFERRI TRANSVANGUARDISTA
Florisvaldo Mattos

Seja por impulso afetivo e geracional, seja por juízo crítico quanto à obra do artista, a personalidade de Sante Scaldaferri sempre suscitou definições. Atado por laços de cotidiana e sincera amizade, Paulo Gil Soares viu no moço quieto, franco, prestativo e sorridente um "coração aberto a todas as dores do mundo que não deviam ser suas". Com olhar ativo e perscrutante de cineasta ainda por estrear, Glauber Rocha percebeu na linguagem de sua pintura uma "cor Bahia", que a um só tempo concentrava atmosfera, luz e "pathos bahianos", a denotar um fundamento de raízes distante do figurativismo decorativo de fácil transposição, síntese que, à época, de tão precisa e inventiva, para o crítico Clarival do Prado Valladares, dispensava explicações.
Em mais de uma apreciação, Wilson Rocha viu na aparência fantástica e na visão dramática do mundo biomórfico de Sante uma prova de "honradez pictórica"; uma visão poderosa de artista maior "que acompanha a aventura do homem no mundo e observa os absurdos da existência humana", cuja deformação se impunha pela dura verdade do conteúdo, expressa por "uma dramaticidade de acentos irônicos e brutais".
Para Ferreira Gullar, pela "atitude irreverente e corajosa", Sante era "o boca do inferno da pintura baiana", fiel a uma arte de desmistificação que punha "a nu todas as hipocrisias e pretensões, tanto sociais, quanto artísticas", enquanto José Roberto Teixeira Leite reconheceu na "dura realidade" geográfica que seus quadros espelhavam "o severo cotidiano de muitos milhões de brasileiros". Além de atestar "um modo próprio de organizar o universo visual", a um mesmo tempo carregado de significações, Gullar encara os personagens de Scaldaferri, como "saídos de uma iconografia que a cultura urbana submete e marginaliza"; contrariamente ao belo, refinado e transcendente, apontam para baixo, para o popular, que, na obra do artista, "se identifica com a feiúra e a rudeza das figuras e das cenas".
Já numa clave que o desvia dos acenos da circunstância, Walmir Ayala não titubeia em descrevê-lo como "um pintor próximo da massa, do sofrimento indefeso dos desfavorecidos", refletindo o universo cultural de um povo, mas, consciente das suas contradições, "onde a pobreza canta e dança nas ruas", realizando "uma pintura que contesta a diluição provocada pelo consumo turístico".
Eu próprio, ao deparar-me com seus vaqueiros e cangaceiros de fundas e vastas olheiras, seus rebanhos de bois e beatos - signos que chamaria de cor-Nordeste, projetando intensos verdes, vermelho, ocre e sépia -, recriados e tratados com humanidade sobre tela ou madeira, tomei-os em lavra poética como "cintilação campestre" de um universo patriarcal, que aprisionava o tempo e colhia "a rosa alvaçã", na "pelagem do incontemplado".

Foi justamente esta predominante fixação na figura humana, já agora construída com elementos de deformação, decomposição e desarticulação, segundo Teixeira Leite, "com evidentes intenções expressivas", que irá representar um salto na arte de Sante Scaldaferri. Embora confesse, por mais de uma vez, em depoimentos e entrevistas à imprensa, ter evitado vincular-se a escolas ou correntes pictóricas, não resta dúvida de que o impulso e a espontaneidade com que desde jovem abraçou a arte moderna, livrando-se das peias do receituário acadêmico, levaram-no a descobrir a fecunda trilha da cultura popular.
Aferra-se com seriedade e responsabilidade à essência de signos populares e, daí, a uma nova atitude artística em relação à figura - principalmente a figura humana -, que abre seu espírito à estética do expressionismo, tantas são as identidades com as suas propostas e intenção revolucionária de olhar o mundo "por trás da aparência das cores" - um de seus ditames. Assim, opta por um vocabulário plástico de deliberada simplificação, formas reduzidas ao essencial, corpos distorcidos, até se confrontar com certa obsessão pelo grotesco, o satírico e o caricatural, sem com isso estar traindo – muito pelo contrário - aquela representação do pathos baiano que Glauber Rocha de início nele identificou.
Quanto a isto anota Teixeira Leite: "Essa tendência a pintar o ser humano como é por dentro não permite dúvidas: Sante é um expressionista, e sua arte, como toda arteexpressionista, resvala para a sátira e para a farsa, para a caricatura e a imprecação". E, pela perspectiva do não convencional e do grotesco, não se recusa a suscitar um parentesco com o alemão Hieronymus Bosch (1450-1516), a que se poderia acrescentar o Goya dos Caprichos (1799), a série de 82 gravuras que retrata um universo de pesadelos e ataques ferozes aos costumes, isto é, à hipocrisia da circunstância. O crítico descreve-o como um "pessimista incorrigível" descrente da nobreza do homem, encarando-o "como um animal depravado e imperfeito", cujo exterior grotesco apenas reflete o seu interior deformado pelas paixões, os vícios e
a ânsia de prazer e poder. Assim, o artista vê o ser humano no seu trânsito social.
Nesse aspecto, há clara similitude entre o baiano e personagens de proa doexpressionismo alemão, a exemplo de Franz Marc, na sua opção conceitual por uma pintura animalista, sob o argumento de que a impureza dos homens que o rodeavam não lhe despertava os verdadeiros sentimentos, pois, enquanto via só feiúra nas pessoas, os animais lhe pareciam mais belos e mais puros, como diz numa carta à mulher (1915), enviada do teatro da Primeira Guerra Mundial (1914-18), na qual veio a morrer.
Embora suponha que nenhum deles "importou vanguardas estrangeiras", nem se submeteu a modismos internacionais, não há como negar que é também pelo visorexpressionista que o poeta e crítico de arte Theon Spanudis mira Scaldaferri, ao unir sua arte, pela originalidade e autenticidade temáticas, à de dois outros baianos, Rubem Valentim e Raimundo de Oliveira. No primeiro, o misticismo e o simbolismo religioso de fundo afro-brasileiro; no segundo, o catolicismo popular bíblico, focado na ingenuidade. "Sante se interessa pelo povo nordestino, seus dramas, paixões e vitalidade", sublinha Spanudis, agarrando-o pela geografia. Com variações de temas – no caso de Valentim, o construtivismo simbólico das crenças de origem afro -, arrisco-me a dizer que os três são tributários daquele despojamento rude e elementar de cores fortes e saturadas, aplicadas com pincel grosso, para sugerir ou definir figuras num espaço repleto de vibração interior, marca do expressionismo - lógico que mais acentuado no caso de Scaldaferri, cujo parentesco artístico na Bahia, a meu ver, o alinha com Mário Cravo e, no Brasil, com Iberê Camargo.
Sem ser um especialista, mas insistindo na tecla da codificação pictórica doexpressionismo, que, pela violenta deformação da figura, o elemento fisiológico, o corporal e a obsessão pelo corpo humano - e, porque não dizer, por um ainda persistente vínculo com a cultura européia -, o aproxima da arte de Munch, Kirchner, Egon Schiele, Heckel, Ensor e, mais recentemente, Francis Bacon, sou tentado a ver em Sante, principalmente no que vem construindo desde a segunda metade dos anos 80, que culmina nestas obras expostas pela Galeria Paulo Darzé, a buscar inter-relação de sua arte com a representativa dos movimentos de pós-vanguarda ou transvanguarda, que vicejaram, persistem e se desdobram na Alemanha, Itália, Estados Unidos e outros países. 
Não tenho dúvidas de que é nesta saga estética de ousadias figurativas que se encaixa confortavelmente Sante Scaldaferri. A refinada afetação (roçando o excessivo e o vulgar), o gosto por efeitos espaciais desconcertantes, a intensidade emocional derivada das formas distorcidas, as desproporções, a maestria no manejo das técnicas da pintura, as excitantes e eróticas alusões, a tendência à exuberância e ao monumental, a marca de desespero e manifesto horror, a secreta irracionalidade - enfim, toda uma arqueologia visual da transvanguarda, que, segundo a crítica, evoca o maneirismo de Pontormo, Parmigianino, Bronzino e El Greco, sendas do barroco, e, cogito – porque não? -, do romantismo libertário, de Goya, e visionário, de William Blake. Pela tendência à narração insubmissa e satírica, pejada de ironia, a habilidade e variação no uso das técnicas da pintura, recorrendo entre outras até à quase pré-histórica encáustica, de suportes e materiais (madeira, borracha, pano, plástico), além da vitalidade e independência do vigoroso desenho -, com a propositada malícia que levou Umberto Eco a vislumbrar em quadros seus "uma sombra pop"-, vejo em Sante um artista mais identificado com a rebeldia estética de alemães, como Georg Baselitz, Anselm Kiefer, Jörg Immendorff. A. R. Penck, Sigmar Polke, Walter Dahn; os italianos Sandro Chia, Francesco Clemente, Enzo Cucchi, Mimmo Paladino; os americanos Julian Schnabel, David Salle, Cindy Sherman e, em certo sentido, por indícios mais recentes, com a rudeza de desenho e grafismo de Keith Haring e Jean-Michel Basquiat, e outros mais, todos legítimos representantes do que desde os anos 80 se passou a chamar de transvanguarda, pelos laços com as vanguardas de inícios do século passado e suplantação de seus processos e desdobramentos.
Como eles, sem se recusar até mesmo ao apelo à caricatura (afinidade possível com o traço satírico de George Grosz), em essência, Scaldaferri pinta visões, as suas, de um mundo torto, execrável, no seu secreto ou exposto horror. Gostaria de reformá-lo; não podendo, escarmenta-o, denuncia, ironiza, satiriza. Como? Pela distorção, pela vigorosa e contundente expressão do grotesco, contra o totalitarismo subliminar da sociedade em que vive, a sua desigualdade, a miséria explícita e invencível. Muitos se recusariam a pôr um quadro dele na parede da sala-de-estar, não por alegada feiúra, mas por outras obsessões, uma delas a hipocrisia.

Conheci Sante por volta de 1956 (não sou forte em datas), pela mão de Glauber Rocha, no instante mesmo em que um punhado de jovens de mente lúcida e febril começava a agitar o meio cultural baiano (entre os quais, além dele e GR, Paulo Gil, Fernando da Rocha Peres, Calasans Neto, Fred Souza Castro, João Carlos Teixeira Gomes, Carlos Anísio Melhor, Ângelo Roberto), a partir das sessões de poesia dramatizada, levadas no auditório do então Colégio da Bahia (depois Central), sob o mítico e lúdico nome de Jogralescas, no movimento que depois se rotularia vagamente de geração Mapa, seguindo um hábito do tempo. Acostumei-me, a partir daí, a conviver com este monumento de fraternidade, que já ostentava o sorriso largo, o bigode mexicano, a barba à época acastanhada e a luminosa e irrefreável calvície. Acostumei-me também a admirar um artista cuja obra se afirma, em suas várias fases, na busca de horizontes mais amplos, de essência perdurável, em conteúdo e forma, rumo à universalidade que lhe apontam suas inquietações interiores, sua visão de mundo e suas emoções.
Acompanhei essa árdua prova de fidelidade a um sacerdócio, de incontestável amor à arte.
Por isso, mesmo ante uma crítica mais purista, higiênica e depilada, atuante no Rio e São Paulo, que, no dizer de Frederico Morais, exerce uma ditadura no país, torcendo o nariz a exemplos de sinceridade e imaginação como este, de Sante Scaldaferri, ele segue impávido seu caminho, sua devoção. E, ante tais mostras de covardia e intencional descaso, a cada exposição, catálogo ou livro de arte que publica, ao sair de cada um desses eventos, esse grande artista baiano ostenta no rosto e no riso uma expressão de radiante e sonora felicidade, que é uma lição de bravura, para a arte e para os artistas, e de vida, para todos os que o conhecem, cuja obra não se desmerece ante nenhum grande pintor brasileiro.

Florisvaldo Mattos é poeta e jornalista, com livros de poesia e ensaios publicados; integra a Academia de Letras da Bahia.




Instituto Geográfico e Histórico da Bahia comemora 122 anos


 








Instituto Geográfico e Histórico da Bahia comemora 122 anos de fundação e homenageia cinco personalidades com a Medalha do Mérito Bernardino de Souza



Os 122 anos de fundação do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia serão comemorados nesta quarta (18 de maio), às 18h, em sua sede (Piedade). Na solenidade, presidida por Eduardo Morais de Castro, haverá a entrega do Diploma do Mérito e Medalha Bernardino de Souza a cinco personalidades baianas: a Universidade Federal da Bahia (pelos 70 anos de fundação), a professora e ex-presidente do IGHB, Consuelo Pondé de Sena (post mortem), ao professor Wilson Thomé Sardinha Martins, ao general Artur Costa Moura (Comandante da 6ª Região Militar) e ao escritor Nelson Almeida Taboada; todos com relevantes serviços prestados à preservação dos valores cívicos da Bahia e do seu povo.

A medalha Bernardino de Souza será entregue ao Reitor da UFBA, professor João Carlos Salles, pelas mãos do presidente de honra do IGHB, Roberto Santos, filho do fundador e primeiro reitor da Universidade, Edgard Santos. No seu reitorado, a Bahia ganhou projeção, com destaque para os cursos de Dança, Música e Teatro, primeiros universitários do gênero no país.

Durante a sessão solene, o orador oficial da Casa da Bahia, Edivaldo Machado Boaventura, fará discurso de homenagem aos associados falecidos: Sylvia Athayde (museóloga e ex-diretora do Museu de Arte da Bahia), João Carlos Tourinho Dantas (ex-deputado e ex-vice-presidente do IGHB), Ático Vilas Boas da Mota (escritor), João Justiniano da Fonseca (poeta e político), Eduardo Saback Dias de Moraes (professor) e Remy de Souza (professor). Completam a programação, a posse de novos associados, lançamento da Revista 110 do IGHB e apresentação musical.

Sobre o IGHB - Fundado em 13 de maio de 1894, o IGHB é a entidade cultural mais antiga do Estado, com 122 anos de funcionamento ininterrupto, e uma das 15 instituições apoiadas pelo programa Ações Continuadas a Instituições Culturais, iniciativa da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA) através do Fundo de Cultura da Bahia (FCBA). Possui a maior coleção de jornais, e o maior acervo cartográfico do Estado. Na Biblioteca Ruy Barbosa e Arquivo Histórico Theodoro Sampaio estão milhares de títulos e imagens à disposição do pesquisador. O IGHB promove diversas atividades culturais e é o guardião do Pavilhão 2 de Julho, no Largo da Lapinha, onde estão os dois principais símbolos da maior festa cívica do país: o Caboclo e a Cabocla.

Sobre a Medalha - A medalha leva o nome de Bernardino José de Souza, sergipano, etnógrafo, que foi professor de Geografia e História, além de diretor da Faculdade de Direito da Bahia. Autor de várias obras importantes ficou mais conhecido na Bahia do que em sua terra natal. Seu nome está associado a um extenso acervo bibliográfico e também a realizações empreendedoras, como as construções das sedes do IGHB e da Faculdade de Direito da Bahia, onde hoje funciona a OAB-BA.


SERVIÇO
18 de maio de 2016, às 18h
Festa comemorativa aos 122 anos do IGHB
Av. Joana Angélica, 43 – Piedade
Salvador-BA /71 3329 4463

Assessoria: 71 9974 5858/98777 5409

El destacado escritor brasileño Cyro de Mattos dedica su último poemario a Alencar

Traducido al alemán por Curt Meyer Clason, ahora Fred Ellison ha vertido su poesía al idioma de Walt Whitman. Mattos está vinculado a Salamanca por los Encuentros de Poetas Iberoamericanos






Participante del XVI Encuentro de Poetas Iberoamericanos, que en 2013 homenajeó a Fray Luis de León, Cyro de Mattos (Itabuna, Bahía, 1939), acaba de publicar tres libros nuevos bajo el sello de la editorial brasileña Via Litaratum. Uno de ellos, de poesía, se titula “Poemas da Terra e do río / Earth and river poems”, el mismo que tiene un atractivo prólogo firmado por Heloísa Prazeres, doctora por la Universidad de Cincinnati y profesora jubilada del Instituto de Letras de la Universidad Federal de Bahía.
Poseedor de una vasta obra literaria, tanto en volúmenes de cuentos, novelas, poemarios o textos para niños y jóvenes, Cyro de Mattos quiso dedicar este libro al poeta Alfredo Pérez Alencart “¡con la misma pasión por la Poesía que a diario demuestra el reconocido poeta peruano-salmantino!”. La traducción de los treinta y ocho poemas (repartidos en las dos partes que integran el libro, una selección de textos de ‘De Cacau e Água’ y ‘Vinte poemas do Rio’) ha estado a cargo del reconocido traductor norteamericano Fred Ellison, profesor en las Universidades de Illinois y Texas hasta hace algunos años y que también ha traducido a Rachel de Quiroz, Adonias Filho, Affonso Romano de Sant’AnnaHelena Parente Cunha (también participante de los Encuentros salmantinos).
Cyro de Matos es miembro de la Academia de Letras de Bahía y del Pen Clube de Brasil, y ha obtenido varios galardones, como el Premio Nacional Ribeiro Couto, el Premio Afonso Arinos, el Premio Centenario Emílio Mora o el Premio Internacional de literatura Maestrale Marengo d’Oro (Génova). Tiene obra publicada en Alemania, Francia, Portugal, Rusia, Estados Unidos, México, Dinamarca, Suiza e Italia. Entre sus libros de poesía están Vinte Poemas do Rio, Cancioneiro do Cacau, Ecológico, Vinte e Um Poemas de Amor, Lavrador inventivo, Viagrária, Casa Verde, Os engaños cativantes, Cantiga grapiúna, No lado azul da cançao, Onde Estou e Sou / Donde estoy y soy, Canto a Nossa Senhora das Matas y Oratório de Natal. La mayor parte de estos poemarios y de los otros libros de narrativa deCyro de Mattos se pueden consultar en la Biblioteca del Centro de estudios Brasileños de la Universidad de Salamanca, por la donación que hiciera el propio autor en un acto celebrado en octubre de 2013. Los otros dos libros de Mattos, recientemente publicados por Via Literarum, son: Fissuras e Rupturas: Verdades (Cuentos) y O Circo  no Quintal (para niños).
Fotografías de Cyro de Mattos durante su estancia en Salamanca (Jacqueline Alencart y José Amador Martín)


Publicado orginalmente em: http://salamancartvaldia.es/not/116251/destacado-escritor-brasileno-cyro-mattos-dedica-ultimo-poemario/ Data: Lunes, 16 de mayo de 2016

A Morte de Salim Miguel (1924-2016) - Cyro de Mattos

                                    
Salim Miguel, o escritor mais importante de Santa Catarina em nosso tempo, figura marcante de nossas letras no século XX, autor de A Rede, romance, A Morte do Tenente e Outros Contos,  Velhice e Outros Contos, Nur Na Escuridão, romance, entre outros, com mais de 30 livros publicados, entre volumes de crônicas, contos e romances,  morreu sábado, 22 de abril de 2016, aos 92 anos de idade, em Brasília - DF, onde atualmente residia.
     Um de seus contos, “O Gol”, participa da antologia Contos Brasileiros de Futebol (LGE Editora, Brasília, 2008), que organizei e prefaciei. Nascido no Líbano, mas criado em Santa Catarina, Salim Miguel participou do movimento de renovação cultural de Santa Catarina, conhecido como Grupo Sul. Foi preso durante  o golpe militar de 1964. Transferiu-se para o Rio de Janeiro onde foi um dos redatores da revista “Ficção”. De volta a Florianópolis dirigiu  a editora da Universidade Federal  de Santa Catarina, de 1983 a  1991.  Com Nur na Escuridão ganhou o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes e Prêmio Zaffari & Bourbon. A Academia Brasileira de Letras agraciou-lhe com o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra.
       Transcrevo abaixo depoimento do autor de Velhice e Outros Contos.
       "Comecei a escrever antes de aprender a escrever. Naquela época, fim dos anos 20, começo dos 30, depois das estripulias diárias, a criançada se reunia ora na frente da casa de um, ora na frente da casa de outro, e cada um relatava como é que tinha sido o seu dia. As correrias, as brigas. Hoje, nós brigávamos; amanhã, éramos grandes amigos. Então, eu cortava uma folha de papel-embrulho da loja de meu pai, recortava palavras ou letras, juntava alguns rascunhos meus. Linhas na horizontal, na vertical, em círculos. E lia aquilo pra eles. Lia não, porque eu não sabia ler. Inventava que estava lendo. Ali estava surgindo, ao mesmo tempo, o jornalista e o escritor. Então meu pai, me vendo grudado em tudo que era papel impresso, vendo aqueles signos mágicos me fascinarem, me perguntou: “O que pretendes fazer na vida?” Sem titubear, respondi: “Ler e escrever”. Minha mãe, que era uma mulher sensível, disse: “Não vai ser fácil”. E meu pai: “Fácil não vai ser, mas se ele persistir, conseguirá”. Então, uma palavra que me acompanha toda a vida é “persistir.”
      “Para falar a verdade, se eu tivesse uma formação acadêmica, gostaria de ter sido crítico e ensaísta. João Cabral dizia a mesma coisa. Mas acho que tive o bom senso de sempre escrever muito e rasgar mais do que publiquei. Rasguei muito mais do que publiquei. Tanto que, para os nossos padrões, pelo menos para os da minha juventude, comecei muito tarde. Passei a infância e a adolescência em Biguaçu — tanto que costumo dizer que sou um líbano-biguaçuense — e só comecei a publicar em Florianópolis. Nos anos 40, a capital catarinense tinha quatro jornais. Hoje, só tem um. (…) Ao mesmo tempo em que eu publicava algumas crônicas nos jornais, já começava a escrever o que chamo de “anotações sobre leituras”. De repente, me disse assim: “Já que estou fazendo crônicas — e a crônica é meio caminho para o conto —, por que não chego ao conto?”. Daí, comecei a publicar contos. Meu primeiro livro é de 1951. Chama-se Velhice e outros contos, pois sempre me preocupou o tema da velhice, da morte, do tempo e da memória. Devo esse livro ao IBGE. Não ganhei dinheiro trabalhando para o senso demográfico de 1950, mas cinco dos oito contos desse livro, inclusive os três Velhice — Velhice 1Velhice 2Velhice 3 —, resultaram de conversas com pessoas que fui recensear."
Verdade,   para ser escritor é preciso vocação e talento. Vocação manifesta-se na persistência daquilo que o verdadeiro escritor não pode passar na vida sem ela, sob pena de sucumbir com todo o peso terrestre e, frustrado, configure a sua incapacidade para produzir a obra de qualidade resultante do ofício que abraçou.  O talento manifesta-se na sensibilidade e capacidade que o escritor possui para transformar emoções e razões  em eficazes criações literárias.
 Persistência (vocação) e talento (sensibilidade), Salim  Miguel demonstrou que possuía através de sua experiência de vida.  Demonstrou estar longe  longe de possuir apenas a síndrome literária,  que forja o pensamento de quem acha que não é necessário ler muito, escrever muito, persistir  para produzir obras de qualidades.  Persistência, talento, leitura e sentimento do mundo foram elementos imprescindíveis que fizeram acontecer o escritor  Salim Miguel.  A literatura ficou  mais rica com suas criações, resultantes de uma experiência de vida, com provando assim que em literatura quem é bom fica, vivo ou morto.    


·         Cyro de Mattos é escritor e poeta.