ENCONTRO NA CASA DAS ROSAS: CYRO DE MATTOS PARTICIPOU DAS HOMENAGENS À ESCRITORA NELLY NOVAES COELHO





        No dia 29 passado,  a Editora Letras Selvagem e a Casa das Rosas (Centro de Literatura e Cultura Haroldo de Campos) prestaram homenagem em São Paulo à consagrada escritora Nelly Novaes Coelho, pela passagem de seus 91 anos de idade, docência universitária e exercício da crítica literária durante 50 anos. Os escritores Ignácio Loyola Brandão e Cyro de Mattos, os críticos Benjamin Abdala Jr e Fábio Lucas, doutores em Letras, da USP, integraram a mesa oficial do evento e proferiram  homenagem à Nelly Novaes Coelho, Professora Emérita da USP.
        Na oportunidade, depois das homenagens prestadas,    Nelly Novaes Coelho lançou o livro  “81 Escritores da Literatura Brasileira no Século XX”, publicado pela Editora Letra Selvagem, de São Paulo, volume de quase mil páginas, no qual  é analisada pela ensaísta  a obra de  grandes autores da ficção brasileira. 

        Eis na íntegra a fala de Cyro de Mattos homenageando Nelly Novaes Coelho:

         “Senhores e senhoras:

        A linguagem literária é caminho  importante para a compreensão do outro mais  o mundo.  As obras literárias falam à imaginação e ao sentimento. As científicas, de preferência à razão. A soma da sabedoria humana não está apreendida por nenhuma linguagem. Nenhuma linguagem em particular é capaz de exprimir todas as formas e graus de compreensão humana. De todas as linguagens a que mais se aproxima dessa condição é a literária
        A literatura é a expressão mais completa do homem, como ente que pensa e sente. Todas as outras expressões referem-se ao homem enquanto especialista de uma atividade. Só a literatura concebe e apreende o homem enquanto homem. Sem distinção nem qualificação alguma. É a via mais direta para que os povos se entendam e se encontrem como irmãos. Assim, ela devolve ao ser humano, o que de fato lhe  pertence como aptidão e aderência:  a inteligência e a emoção.
       Essa crença nos sinais visíveis da escrita como expressão do pensamento mágico e lógico é o que Nelly Novaes Coelho  vem transmitindo em  sua prática de docência universitária e exercício da crítica literária durante 50 anos. Portadora de uma didática admirável,  pesquisadora exemplar, analista  lúcida.  Registra a voz de muitos autores que vêm dando seu testemunho de vida e ideais por meio da Palavra. Seus dicionários de escritoras brasileiras e da literatura infantil e juvenil brasileira são pontos elevados na valorização do corpo literário brasileiro.
       Ao colocar a cultura e a literatura  em tão rico  patamar, contribuindo decisivamente para a construção do patrimônio comum a todos os estudiosos e criadores literários, o trabalho dessa  intelectual é assombroso. A tarefa de pesquisa,  cara às universidades, à reflexão das mutações do mundo, historicidade e atualidade do homem, circunstanciado no ontem e no hoje, encontra em Nelly Novaes Coelho  a dinâmica perfeita que emerge da vocação voltada para os campos investigativos e interpretativos, culturais e literários.
      Em sua contribuição enciclopédica e analítica da literatura, como os iluministas de ontem,  essa intelectual rara desincumbe-se da jornada  com erudição, consciência crítica e uma santa paciência de pesquisadora. Ela sempre está  surpreendendo. Depois de enriquecer o corpo das letras brasileiras com volumes importantes  como  Literatura e Linguagem, Literatura Infantil, Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras,  Dicionário Crítico de Literatura Infantil e Juvenil Brasileira, Panorama Histórico da Literatura Infantil/Juvenil,  na idade em que muitos já aposentaram suas ferramentas, eis que  ela  brinda agora seu público leitor com este 81 Escritores Brasileiros do Século XX, resultado de 50 anos de pesquisas, leituras e releituras de obras apresentadas em cursos universitários, congressos, seminários, colóquios, no Brasil, Portugal e Estados Unidos da América.       
       São 81 escritores analisados neste precioso e extenso livro. Dos mais conhecidos,  Jorge Amado, Graciliano Ramos. Guimarães Rosa, Mário de Andrade, Oswaldo de Andrade, João Ubaldo Ribeiro, Ignácio de Loyola Brandão,  passando por nomes expressivos que ficaram esquecidos da crítica e  mercado editorial,  Cornélio Pena, Gustavo Corção, Adonias Filho, Murilo Rubião, Victor Giudice, Campos de Carvalho,  Alcides Pinto, e ainda outros que precisam de divulgação para melhor serem conhecidos:  Vicente Cecim, Olavo Pereira, Agrippino de Paula, Fausto Antonio, Ricardo  Guilherme Dicke, Mora Fuentes, Samuel Rawet,  Alaor Barbosa  e outros.  Todos esses autores dão voo à razão e à emoção quando abordam a problemática existencial do ser humano e a crise  de uma sociedade exaurida de valores e sentidos. 
         A escritora admirável revela que  foi a “Sorte ou o Acaso” que puseram em seu caminho os 81 escritores reunidos e analisados neste seu último livro. A generosidade, a humildade e  a solidariedade são marcas da alma dessa grande  criatura.   Os   autores aqui analisados  tiveram, sim,  a sorte ou o acaso de ser posta em seus caminhos uma intelectual da grandeza de  Nely. Um autor para ser instituído como cânone precisa de um crítico dotado  de instrumental teórico suficiente, que  chame a atenção para as questões estéticas, seja capaz de revelar os elementos estruturantes que entraram  na composição da  forma e conteúdo da obra.
         No meu caso,  de autor baiano insulado em Itabuna, cidade localizada no sul da Bahia, distante do eixo Rio e São Paulo,  que ainda funciona como tambor cultural desse país inculto, por mais que o mundo hoje seja uma aldeia globalizada, nem sei como agradecer a inclusão  na relação desses escritores maiores elencados no testemunho crítico da Nelly.
     É uma grande honra estar aqui,  neste momento festivo, de reconhecimento e afetividade.  Felicito a sempre  lembrada  e querida amiga Nelly  por seus 91 anos de idade, repetindo,  como ela certa vez nos disse, que  sem leitura e escrita a vida não tem emoção.  Termino  minha pequena homenagem a quem tanto deu às letras brasileiras, às inúmeras gerações em seu ciclo de docência universitária e no exercício da crítica literária, durante 50 anos, dizendo: “Obrigado,  Nelly,  por tudo que você  fez pela sociedade e, em particular, pela  literatura brasileira. Você ama a literatura. A literatura tem mostrado que ama você”.

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