EDIÇÃO ESPECIAL: DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA




Até certo tempo, os alicerces que caracterizaram o brasileiro foram as raças branca, indígena e negra. Sobre eles  se definiram valores, costumes e perspectivas sociais: ao branco, toda a culpa justificada para um explorador; ao índio, toda a incapacidade por ser selvagem e ao negro, toda a misericórdia por ter sido escravizado, maltratado e explorado.
Aos poucos, esses conceitos foram sendo revistos gerando inúmeras reações de confronto, nas quais cada etnia obteve momentos de ressignificação, inclusive admitindo outros grupos étnicos que também participaram da construção do país: os imigrantes.
Em relação ao afrodescendente, o preconceito é ainda, embora meio velado, o mais latente e até entre muitos deles, quando recorrem a artifícios para mudar a aparência. Entretanto, faz-se necessário olhar a diversidade como acréscimo enriquecedor, percebendo que a ética e o respeito são fundamentais para um crescimento em conjunto.
O Dia da Consciência Negra é comemorado em 20 de novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares. Festejado há mais de 30 anos por ativistas do movimento negro, foi incluída em 2003 no calendário escolar nacional. Contudo, somente a Lei 12.519 de 2011 instituiu oficialmente o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. A data é feriado em mais de mil cidades brasileiras. Nos estados de Alagoas, Amapá, Amazonas, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, o feriado foi instituído por lei estadual. Entretanto, algumas verdades precisam ser abordadas sobre a criação dessas leis e podem ser consideradas  inconvenientes aos interesses políticos eleitoreiros: o próprio nome dado à data revela preconceito: consciência é humana, não tem cor.
Segundo Leandro Narloch em seu livro GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA HISTÓRIA DO BRASIL, Editora LeYa – SP, 2009, Zumbi dos Palmares nasceu livre, depois da Lei Áurea, mas foi capturado mais ou menos aos 6 ou 7 anos clandestinamente e entregue a missionários, fugindo aos 15 ou 20 e retornando para sua terra em Alagoas. Refugiou-se no Quilombo dos Palmares comandado por Ganga Zumba que foi envenenado e desconfia-se que o autor foi Zumbi para ocupar o poder. Zumbi era tirano e cruel; tinha capatazes, escravos e escravas ao seu bel prazer e não havia nada de democrático em suas decisões. Se essas denúncias forem reais, certamente a comemoração em sua homenagem pode ser politicamente correta; e não, historicamente correta. 

Ceres Marylise

TEXTOS ALITANOS




A COR DA CONSCIÊNCIA

Ruy Póvoas*

       O adjetivo é uma categoria gramatical que se refere ao substantivo. Através dele, os usuários do idioma atribuem qualidade ao seres, seja ela essencial ou explicativa. E porque o idioma é uma construção da psique humana, resultante de sua escalada na face da terra, é justamente no seu uso que se manifesta as particularidades das diferentes culturas que o imaginário conseguiu construir.
       O uso do idioma português pela gente brasileira revela um gosto exacerbado pela qualificação. No universo masculino, por exemplo, a mulher é gostosa, a partida de futebol é de lascar, o sambão é uma coisa de doido, a cerveja é divina e tem de ser gelada. E de tanto qualificar o que é concreto, estendemos as restrições e qualificações para o que é abstrato. Até Deus é qualificado e com muitos adjetivos que repassam para o divino atributos essencialmente humanos.
       Dentre outras particularidades do povo brasileiro, a mistura de etnias é uma determinante. Por causa das relações sócioeconômicas, a tonalidade da cultura dominante sempre tem sido branca. É provável que, por isso mesmo, nunca tenha sido preciso qualificar a consciência da cultura oficial como branca. Na vida dos homens e na ordem natural das coisas, no entanto, tudo tem seu dia. E um conjunto de fatores que perfazem estes tempos da nossa pós-modernidade traz à tona, de maneira contundente, a questão afrodescendente do brasileiro. Se nunca foi necessário falar-se em uma consciência branca, agora fala-se de uma consciência negra. E o adjetivo se levanta como alavanca mestra de nossas frases, na ânsia de transbordar os conteúdos semânticos de nossa agonia afônica.
       Evidentemente, há riscos. O modismo, o oba-oba, a falação, a politicagem que, disfarçadamente, afirmam uma luta em favor dos oprimidos. Os discursos em prol da adjetivação da consciência nunca foram tão fartos. As igrejas, os partidos políticos, os clubes de serviço, as associações de bairro, as entidades carnavalescas, a imprensa falada, escrita e televisiva, as escolas, os pesquisadores, tudo isso toma um porre de falas a favor da consciência, agora adjetivada como negra. Se a época da restrição da fala foi perigosa, a enxurrada de discursos pode comprometer a causa, pois corre-se o risco da banalidade, do discurso que é meramente falatório vazio e repetitivo.
       Por isso, é preciso muito cuidado. Caso contrário, poderemos fazer o que fizemos com o dia do índio, no qual as escolas vestem suas criancinhas com penachos, colam tirinhas de esparadrapo colorido no rosto e lá vamos nós “valorizando” o índio. É preciso ter em mente que a adjetivação desnecessária banaliza o substantivo e sua essência fica ofuscada. Flaubert, exemplo de escritor francês, tinha crises apopléticas quando não conseguia atinar num substantivo que não necessitasse de adjetivo, por meio do qual ele pudesse expor os conteúdos que imaginava essenciais.
       Na verdade, a tomada de consciência, no caso específico do brasileiro, para exercer a plenitude da cidadania, implica abordar também questões de etnia. Jamais, porém, será necessário que a consciência se torne negra, branca, parda, vermelha, ou assuma um outro colorido qualquer, para que se torne realmente consciência. Certamente, para quem conhece seu lugar no mundo e se sente gente do jeito que o Universo o chamou a estar na existência, entende o seu entorno, sua ancestralidade e os desvãos da trajetória de seu povo. Não é necessário, no entanto, para isso, colorir sua consciência. Ao contrário, quanto mais translúcida e cristalina a consciência, mais humano é o seu portador, mais evoluída é a sociedade que a construiu.
       É necessário cuidado com as ciladas, os equívocos, as fantasias. É realmente preocupante imaginar que a Universidade, na construção de uma consciência dita negra, é a solução para todos os desvios construídos pelos brasileiros em sua escalada, enquanto povo. Se ela fosse realmente a panaceia que muitos imaginam, todos os brasileiros brancos teriam educação, moradia, trabalho e lazer garantidos. E isso está muito longe de ser verdade. É certo que a Universidade tem como resolver algumas questões. Algumas, apenas algumas. Aliás, ela mesma já é uma grande questão: carente de verbas e de recursos, nem sabe ainda como escapar de sua infeliz sina de repetir o saber.
       Já seria um excelente trabalho, se a Universidade começasse a ensinar a todos que, apesar da enorme gama da variação étnica do brasileiro, a consciência não tem cor, tal qual o espírito, a verdade, a justiça e a dignidade. Tais valores são expressos em substantivos que não necessitam da muleta do adjetivo. Não se restringe, nem se explica tais nomes, porque sua essência resplandece como valores máximos construídos pelos humanos, em sua trajetória sobre a Terra.

* Professor de Língua Portuguesa, Mestre em Letras Vernáculas, escritor, poeta e babalorixá.


CONTAM OS MAIS VELHOS QUE...

Ruy Póvoas*

"... Trago de volta do passado, na polifonia das vozes de várias narradoras, uma voz que se fez presente ao longo de quatro gerações. Essa voz, trazida de volta, é um grito de liberdade. Por essa liberdade, foi pago um preço muito alto. Trata-se do registro de parte da trajetória de uma mulher negra trazida da África à força, ainda na primeira metade do século XIX e escravizada no Engenho de Santana, em Ilhéus.
    De acordo com os relatos da família, em consequência de uma guerra tribal, ela foi aprisionada e trazida de Ilexá, situada na atual Nigéria, onde era sacerdotisa de Oxum. No Brasil, essa escrava recebeu o nome cristão de Inês, embora seu nome tribal fosse Mejigã.
    No engenho, ela gerou uma única filha de nome Maria Figueiredo, cujo pai era um negro de origem angolana, de nome Leocádio. Maria Figueiredo, por sua vez, casou-se com Antônio do Carmo e tiveram seis filhos. Um dos filhos desse casal chamou-se Ulisses do Carmo que se casou com Hermosa Andrade. Entre filhos e filhas eles geraram vinte e três descendentes. Uma das filhas de Ulisses foi Maria Mercês do Carmo, minha mãe."
"... Conforme as narrativas circulantes na família, tal qual acontece nas narrativas arquetípicas de lideranças religiosas no mundo, Mejigã era uma velha centenária quando faleceu. Sua memória, no entanto, transmitida apenas pela oralidade, permaneceu viva, tendo em vista que ela, ainda depois de falecida, continua "falando" através das narrativas de seus descendentes. Não se preservou a memória  de qual trajeto Mejigã percorreu desde a África até o Brasil. Sabe-se apenas que ela aportou em Ilhéus e foi profundamente marcada por uma das maiores tragédias que pode se abater sobre o ser humano - a perda da liberdade. Os descendentes de Mejigã ainda hoje são enfáticos em demonstrar como ela criou estratégias de insurgência que, de forma subterrânea, propiciaram a transmissão de um saber que se chocava frontalmente - e ainda hoje se choca - com o saber da elite preponderante."
"... Ainda hoje, dois séculos após seu surgimento, os ensinamentos de Mejigã são repetidos no Ilê Axé Ijexá, terreiro de candomblé fundado em Itabuna por alguns de seus descendentes... "




In: MEJIGÃ e o contexto da escravidão / Ruy do Carmo Póvoas (organizador) - Ilhéus: Editus, 2012 
* Professor de Língua Portuguesa, Mestre em Letras Vernáculas, escritor, poeta e babalorixá.

                

    



CONSCIÊNCIA NEGRA E A LUTA PELA IGUALDADE RACIAL



Sione Porto*



O importante dia da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro, em homenagem à morte de Zumbi, o lendário líder negro do Quilombo dos Palmares, teve como fato impulsor o resgate pela Igualdade e Liberdade Racial.
A escravidão no Brasil e no mundo teve alijamento que repercutiu por séculos, envolvendo os interesses da monarquia, elites aristocráticas e senhores dos engenhos de açúcar e café, principais recursos da época. 
De um modo geral, a história transmitiu os horrores da época escravocrata, mas, muitas vezes, são escassas as informações, inclusive por culpa de quem sofreu preconceito, racismo e intolerância, já que tem vergonha de declarar e romper com o imobilismo numa demonstração de maturidade social, preço do grande erro da sociedade, um câncer que já deveria ser extirpado da nação humana.
O racismo se destaca em todos os segmentos: futebol, jornalismo, modelos, cantores, atores, esportistas, escritores, poetas, presidente e ministros. Corajosos denunciantes, como Roberto Carlos, campeão da Seleção Brasileira, chamado de macaco; a apresentadora Oprah Winfrey; a jornalista Glória Maria; a atriz Thalma de Freitas; o cantor Seu Jorge, assim como Preta Gil, Rihanna, Anderson Silva, MMA, Machado de Assis (“mulato de alma branca”), João da Cruz e Souza, Barack Obama (EUA), ministra Cristiana Taubira (França) e o ministro Joaquim Barbosa (Brasil).
O movimento social que resgatou o antirracismo surgiu em 1971, por iniciativa do Grupo Palmares de Porto Alegre (RS), e foi assimilado em 1978, durante o Congresso do Movimento Negro Unificado Contra A Discriminação Racial, hoje denominado Movimento Negro Unificado – MNU.
Essa menção ao dia da Consciência Negra, prestada ao negro Zumbi, nativo do Quilombo dos Palmares, engrandece pela sua trajetória, luta incansável pelos anseios de liberdade. Aos seis anos de idade, ele foi entregue pelos holandeses ao Padre Antonio Melo, que ensinou os primeiros Sacramentos e o batizou com o nome de Francisco.
Nada mais justo que esse resgate, à promoção pela luta contra o racismo, discriminação vivida pelos negros e afrodescendentes, que deve fortalecer todos os movimentos nacionais internacionais.
O preservado Sítio Histórico dos Palmares, onde viveu Zumbi, foi reconhecido pelo Governo Federal em 1980. Premia-nos com a beleza singular do local, onde, além do Observatório, temos um magnífico viveiro, trilhas exuberantes, universo que banha parte de nossa história afro-brasileira. Diz ainda a lenda, que vinte mil quilombolas ali viveram, amaram, ensinaram suas crenças e sua cultura.
Temos histórias também tristes e cruéis contra os negros fujões dos Palmares, que sofriam pesados castigos dos líderes impiedosos, sendo torturados e, muitas vezes, executados, no chamado Palco da Justiça Severa.
O fenômeno Zumbi, como herói, tem sido contestado amplamente, coroando-se Ganga-Zumba como o verdadeiro herói dos Palmares (José Murilo Carvalho, Cidadania no Brasil).
A data 20 de Novembro é também intitulada Semana da Consciência Negra, comemorada em todo o Brasil, mas centrada nos moinhos da negritude brasileira e coincide com a data de morte de Zumbi dos Palmares, que teria sido em 20/11/1695, segundo historiadores.
Após ter lutado bravamente pelos seus ideais de igualdade e liberdade, Zumbi, casado com Dandara, resistiu à pesada artilharia do bandeirante paulista Domingo Jorge velho, que não conseguiu capturá-lo.
Entretanto, traído por Antonio Soares e surpreendido pelo capitão Furtado de Mendonça, tornou-se Zumbi um mártir, ao ser preso e degolado, cuja cabeça foi exposta na cidade do Recife, após ser apresentada ao governador de Pernambuco, Melo e Castro.
 

*Sione Porto é membro efetivo da ALITA





INCLUSÃO GRADATIVA

Hélio Pólvora*

A consciência negra é uma realidade no Brasil. Hoje, 20, na data que lhe é devotada, mas cobre novembro inteiro, ela teve algo de concreto a festejar além da habitual retórica. Um exemplo: o Instituto Data Popular informou no ano passado que os afrodescendentes constituem maioria na classe média em ascensão.
A comemoração adquire amplitude e sentido em face das melhorias econômicas atestadas em várias pesquisas, apesar dos fortes resíduos de desigualdades no País. Pela inclusão social de negros e outras segmentos historicamente injustiçados ainda há o que fazer - e não será pouco.
A Bahia é o referencial dessa conscientização gradativa, graças, em parte, à sua maior população negra e organizada. Um estudo na Região Metropolitana de Salvador mostra que, entre 2010 e 2011 houve geração de 14 mil postos de trabalho resultantes do acréscimo de 39 mil empregos a negros e redução de 25 mil a não-negros.
A análise destaca 18 mil postos para mulheres negras. São números otimistas, mas ainda insatisfatórios. O desemprego ainda pesa mais entre os negros, em especial as mulheres (53,2% do total de desempregados), uma consequência direta de dupla  discriminação no mercado de trabalho.
Vive-se uma época de respeito maior a direitos básicos, traduzido em práticas eficazes. Não há como  negar a valorização da cidadania na expansão de uma classe média ativa (cerca de 52% da população ), da qual se espera um movimento financeiro superior a R$ 665 bilhões.
Poucos países europeus teriam um PIB – total da riqueza nacional - mais elevado. Pois bem: a inclusão dos negros representa 75% dos que acabam de galgar essa pujante classe média. E entre eles a presença feminina tem sido marcante, com uma renda 60% maior que a dos homens.
Se considerada a existência de jovens entre 18 e 30 anos, dos quais 55% na classe média, estará delineada uma próxima democracia no acesso às oportunidades de trabalho, valor social e renda.

* Hélio Pólvora é membro efetivo da ALITA



 DESENCANTO EM LIMA BARRETO
                                                     
*Cyro de Mattos

            Viera ao mundo numa data aziaga para os espíritos supersticiosos: treze de maio, uma sexta-feira, dia de Nossa Senhora dos Mártires. E o que se chama destino trama contra ele cedo, começando com a perda da mãe, seis anos depois de ter nascido. Parte do espírito rebelde e a cor de mulato têm raízes na figura paterna, o tipógrafo João Henriques, filho de uma antiga escrava com um madeireiro português. O pai não lhe reconhece a paternidade.
       A cor de mulato instala-se na alma como algo que atormenta, causando-lhe obstáculos sucessivos. Estimulado pelo meio social vai acompanhá-lo até o fim da vida, gerando dramas ligados  a uma sociedade opressiva,  que ele pretende vingar-se. A alma de inconformado vai combater uma sociedade anacrônica, expressando-se perante o meio cultural através do que ele rotula de estética da sinceridade. Nesse particular interage numa literatura visceralmente voltada para as camadas proscritas da população, no texto  destituído de linguagem rebuscada, submissa a modelos europeus, postura que era comum  entre nossos escritores quando abordavam a realidade brasileira no  fim do século dezenove e  início do vinte.
           A imagem reinante dessa época era a de uma fragilidade no estado de espírito de nossos escritores. Nossa literatura possuía um corpo eclético formado pelo  cruzamento e entrecruzamento de várias correntes estéticas, tendências ou estilos.Vivia-se no Rio com o sonho da França. E a  Literatura,  forma ampla de conhecimento da vida,  era concebida por alguns  como o sorriso da sociedade. Ninguém podia  ser chamado de culto se não falasse nos heróis gregos e no cerco de Tróia. Como parte do contexto que primava pelo elogio à cultura de fora,  com os valores formais da arte tradicional sem conteúdo nacional,   aparece  uma figura peculiar  de escritor, a do boêmio, tipo pitoresco que se dava  ao prazer de contar anedotas, fazer trocadilhos, nas portas de café e nas confeitarias. Nosso Parnasianismo, que em geral praticava a arte pela arte e a precisão vocabular (mot juste), quanto à sonoridade e ao senso colorido, embriagava muitos poetas.
          A sedução de Paris, as agremiações literárias, o hábito dos saraus artísticos, a mania de conferências e o uso das letras na escrita sonora,  em seu poder verbal pobre de significado e percepção do drama humano, que teve em Coelho  Neto um expoente, testemunham um Brasil literário vivendo um clima de ócio cultural e inutilidade criativa.
         O criador de Policarpo Quaresma emerge dessa  ambiência cultural moldada em  atitudes  importadas da Europa, alma inconformada que pretendia se  tornar referencial oposto  à  estagnação  que tomava conta de nossas letras de fim de século dezenove e início do vinte. Uma voz indignada,  em sua revolta feita de humanismo  social e humor cotidiano, vinha para  contradizer  como legítima prata da casa as cenas vazias de autênticos protagonistas nacionais, as quais se desenvolviam  com as normas instituídas pelo ouropel alheio.
           Reclamava o Brasil dentro do Brasil, querendo ter o direito de se fazer ouvir aos que não cuidavam de se interessar pelas coisas verdadeiras de nossa realidade. Munido de um estilo liberto do complexo colonial, brasileiro na maneira de ver, sentir e narrar as coisas nossas tomadas emprestadas ao cotidiano, Lima Barreto vai buscar seus personagens nos subúrbios do Rio de Janeiro, lá  onde gravitam  funcionários públicos, pequenos negociantes, médicos com pequena clínica, tenentes de diferentes milícias e seresteiros.
           A arte representativa do real veraz na concepção de Lima Barreto não podia ser executada como instrumento para atingir o  estético de beleza refinada,  que adornasse a vida e a fizesse como  o sorriso da sociedade. Queria a arte participativa da realidade social do indivíduo, utilitária, rejeitando  qualquer forma de linguagem contemplativa. Reagia assim aos estímulos do meio social onde a vida pulsa  com dor, dramas, desigualdades, em alguns casos até com humor e naturalidade.
        Convicto de que literatura é forma de testemunhar a vida sem máscaras, instrumento ardente de sinceridade para fixar a imagem social de uma época, exaltando a comunhão dos homens de todas as raças e classes para valorizar a existência, Lima Barreto é o escritor que mais foi de encontro aos formalismos vigentes em nossas letras de fim do século  dezenove e início do vinte. É o intérprete compromissado com as camadas humildes da população,  vivendo nos arrabaldes cariocas. Usava para externar   a vida em trânsito na realidade imediata linguagem despretensiosa,  sempre na ofensiva. No andamento da prosa fluente, o escritor moderno  mostrava-se desleixado, optando pela nota social de mulato enfermiço, que se destaca como uma de suas marcas pungentes nos romances, contos, artigos e crônicas. Do estilo quixotesco vão sendo exibidos  os gestos da vida através de encontros e confrontos nas  relações de raça, registros do mestiço sempre  derrotado por uma sociedade calcada em preconceitos. Mas não se veja em sua literatura de participação social  apenas o desabafo de uma vida ressentida, deslocada na sociedade  sob diversos aspectos. Na arte sincera que logra extrair do social verdades amargas,  percebe-se o escritor que soube amar a sua cidade sob novo prisma, flagrar dramas nos subúrbios distantes, compartilhar a vida sem disfarce, ultrapassar frustrações e abraçar tipos pitorescos que vieram para permanecer  em nossas letras como personagens marcantes. Nele a sátira, que une húmus ideológico e sarcasmo, fere na intimidade a impotência de nossa imprensa  e de  nossos meios políticos, exibindo sem retoques suas mazelas  tiradas de um quadro social atado aos ditames da República Velha.
         Magistral caricaturista, memorialista dos bons, Lima Barreto é o escritor brasileiro que mais  olhou  a si mesmo na arte de escrever. Refletiu-se tanto em  várias de seus personagens que se transformou forçosamente num personagem, convertendo o seu  alter ego  em  solidão, solidariedade e humor.  Em Recordações do Escrivão Isaías Caminha aborda  a vida de um rapazinho do interior, tentando se situar como gente no meio social que lhe é hostil. Em Isaías Caminha há situações que ofendem  a natureza humana através dos preconceitos  de cor e classe, da mesma maneira que ocorreu com o  escritor em seu calvário. Numa época que vinha há pouco tempo da  Abolição, sem que os sonhos dos negros fossem realizados, permanecendo na sociedade  fortes marcas do preconceito racial, Isaías Caminha  trará na pele o estigma da cor de mulato, causa do fracasso para adaptar-se e vencer no meio social. Em dado momento do romance, como que encarnando a própria frustração do autor, o  personagem central desabafa:

“Ah! Seria doutor! Resgataria  o pecado original de meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente, cruciante, onímodo de minha cor... Nas dobras do pergaminho  da carta, traria presa a consideração de toda a gente.” (pág.53)
      
          Triste sonhar de Isaías Caminha. Em transe  por entre  visões infelizes  da vida,  depressões que dão  o tom maior do tempo que impinge fissuras, irá  saber que nada podia fazer para  encobrir a condição inferior de mulato. Sobre essa  condição degradante, aniquilando a vontade de viver, fazendo sempre com que ele tivesse horror à vida e à sociedade, em seu Diário Íntimo, Lima Barreto  chega a bradar:  “É triste não ser branco!”  Clamor de réu confesso que como única testemunha convivia com a mais difícil prova, a da inocência, sabendo que ele  era  erro permanente,  coisa prejulgada sem qualquer perdão do mundo.
         Lima Barreto é um dos grandes romancistas da cidade do  Rio de Janeiro, ao lado dos precursores Manuel Antônio de Almeida e Machado de Assis, possuindo a cidade no último o ponto literário mais elevado.  No fim da vida passava por decepções e desapontamentos constantes. Doía saber que não tinha  a estima dos contemporâneos. Não parecia um ser humano, mas uma coisa qualquer, algo ambulante com a sensação de que falhara como escritor e na ascensão social. Não conseguira o canudo doutoral nem ascendera na burocracia. Carregava ainda o fardo de que falhara  sob o ponto de vista sentimental. Passara a idade de ter o amor, fugira dele  para não se envolver com outro sofrimento e não fosse prejudicado na sua missão  de glória. Vivera sem o amor de uma mulher, amante ou esposa,  sem o amor de mãe, falecida quando tinha seis  anos. A vida passava assim para ele  com os dias  de um calendário triste. As sombras do destino cercavam-no por todos os lados, dizendo-lhe que era um excluído e sem  amor vivera.
         O  criador de grandes personagens, como o amanuense Isaias Caminha, o cético Gonzaga de Sá, o major Policarpo Quaresma, a pobre e rejeitada  Clara dos Anjos, vai se agarrar à literatura no fim da vida com todas as forças que pudesse reunir e ao álcool que lhe acarretaria a  morte. Francisco Assis Barbosa, o seu mais completo biógrafo, em A Vida de Lima Barreto, informa sobre essa última fase de sua vida de miséria, aniquilamento e marginalização:
                 
Nos cafés e nas livrarias antigas, colegas da Escola Politécnica,, medíocres inteligências, feitos então personagens importantes, evitavam-lhe o contacto. Ah! Os vitoriosos. Desviavam do encontro desagradável  com aquele fantasma do passado, em cujo olhar brilhava talvez uma ponta de ironia. (pág. 304)
      
          Admirado pelos póstumos, inserido   pela crítica  na corrente do melhor romance social brasileiro, Lima Barreto foi um escritor sem medo de colocar  na escrita o que sentia e pensava. Fugiu sempre da rotina dos falsos literatos, que usam palavra e sentimento para agradar os donos do poder. Escrever para ele era ver o ridículo e o patético de uma sociedade elitista sem conteúdo nacional na condução das  relações humanas. Era negar todo o academismo enquanto crítica equivocada a um Brasil arcaico. Devia ser  compartilhada com o  outro como resultado do ilógico da vida,  ligada  às mais degradantes condições da miséria social,  humilhação, opressão  e loucura.
           Na obra limabarretiana, questionadora de nosso complexo colonialista, inovadora no quadro cultural ocioso da belle époque, desponta  a força criativa da nossa inteligência com o documento social que sobressai sob nova atitude crítica. A vivência do que  pretendia representar e a  consciência crítica  que não permitia compartilhar com a falsidade, a inutilidade e o vazio  da existência questionam nossa realidade, expurgam o fútil no social e examinam as angústias da vida brasileira na última década  do século dezenove e início do vinte.
           Precursor dos temas alinhados na Semana da Arte Moderna de 22, em São Paulo, Lima Barreto deixou um legado que explora  a vida em sua problemática social. Faturou seu modelo literário como testemunho  de prospecção social no magma nacional, que seria retomado mais tarde no romance regionalista nordestino  de 30.
         Solitário, sem o reconhecimento literário que merecia ter  em sua época, faleceu aos 4l anos de idade.

    
Referências Bibliográficas

BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma, romance, Editora Brasiliense, São Paulo,  la. Edição, 1956.
--------------------- Histórias e sonhos,  Editora Brasiliense, .São Paulo, la. Edição, 1956.
 . -----------------Recordações do escrivão Isaías Caminha, romance, Editora                                       Brasiliense, São Paulo,    la. Edição, 1956.
-------------------- Diário intimo,  Editora Brasiliense, São Paulo,  la. Edição, 1956.
BARBOSA, Francisco Assis. A vida de Lima Barreto, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro,  la, edição, 1959, pág. 304..
LUCAS, Fábio. O caráter social da ficção no Brasil, Editora Ática, São Paulo, 1985.


OS NEGROS

                                                 Relato de  Cyro de Mattos
                                      
            O negro Sinfrônio Barbadura  chegou por essas bandas do Japará  quando tudo aqui era ainda um lugarejo, com pouca gente e algumas ruas de chão batido nas proximidades do rio. Se muito tinha o lugarejo eram umas 525 casas. A mata fechada na vizinhança, com índios, pássaros grandes, macacos, escuridões. Soube dos que voltavam para a caatinga que isso aqui era terra de bandidos, onça e cobra, léguas onde Satanás reinava. Das  muitas informações colhidas daquela gente desiludida, fixou-se em alguns detalhes e concluiu que aquelas brenhas do Japará não eram o paraíso, mas um lugar para ficar rico porque chovia muito,  a terra tinha fama de que era boa para o plantio de lavouras permanentes ou de pouca duração. Para não se falar nas matas cobertas de árvores frondosas com madeira de lei.
           Chegou acompanhado de Sabina, uma negra pequena e ainda jovem. Foram morar primeiro numa cabana de pescador abandonada na ilha.  Depois ele  se apossou de  um estirão de mata nas Salteadas, lugar que tinha esse nome porque por lá passava um ribeirão forte com muitos trechos encachoeirados. Ergueu uma  casa de taipa na clareira aberta com as árvores que derrubou a golpes de machado. Plantou roça de milho e mandioca em poucas semanas. Sabina cuidava de fazer a comida no fogão a lenha, aproveitando a caça fresca e o peixe pescado no  ribeirão ali perto da tapera.  
          Eles viajaram de navio dois dias para chegar nessas terras do Japará. E ainda tiveram de caminhar alguns dias no meio do mato para chegar até aqui no lugarejo. Caminharam através das picadas feitas pelos caçadores. Protegeram-se da chuva no oco grande de uma sapucaia. Dormiram  nas redes que armavam entre dois pés de pau. Passaram a noite junto da fogueira feita  com galhos de pau-brasil e jacarandá. Enquanto ela dormia, ele ficava acordado, vigiando  com a repetição engatilhada. Às vezes alimentava a fogueira para que não apagasse  com galhos e folhas secas. Revezavam-se durante a noite escura e quieta. Acordavam com o grito dos macacos nos galhos altos, os cantos das inhumas, sabiás, macucos, mutuns, arapongas  e outras aves.  Comiam carne salgada com farinha seca quando paravam para descansar da viagem pelo meio do mato fechado.  Matavam a sede bebendo na folha larga a água de ribeirão, que escorria escuro dentro  da mata impenetrável.
            Ela causou espanto  a quem viu  quando apareceu no lugarejo com ele  pela primeira vez. Vestia calça e camisa de homem, mas era  uma mulher, disso ninguém duvidava. Tinha os cabelos crespos, a pele preta como a dele, os lábios carnudos, o nariz grosso. Os seios grandes apertados por baixo da camisa de algodão. Mulher naquele tempo era coisa rara por essas bandas do Japará.  Os caçadores pegavam índia  no mato a dente de cachorro. Trocava-se  na feira aquela mulherzinha quase nua por um pedaço de mata derrubada, já com alguma plantação de milho, mandioca, banana e cacau.
             Passaram meses naquela vida de trabalho e solidão no meio da mata. Faltavam-lhes  roupas,  sal,  sabão, munição  e ferramenta de trabalho. Ele chegou a ficar alguns anos derrubando as árvores nativas para o plantio de cacau. Ela ajudava-o a limpar o terreno,  abria  com a ponta do facão as covas  para que ele  jogasse  as sementes dentro. Ele chegou a colher duzentas arrobas de cacau no ano  e ainda  tinha várias roças com plantações novas, entremeadas com bananeiras.
 Nos idos de 1915, dois soldados bêbados  quiseram desarmá-lo na feira, dando ordem para que entregasse o revólver. Resistiu, brigou com os soldados, mas foi preso e teve as mãos amarradas. Lá na cadeia, os soldados  espancaram-no. Ficou num quarto escuro, sem comida e água. Duas semanas depois foi posto em liberdade
              Um dia teve notícia de que os dois  soldados estavam em Ferradas, fazendo  diligência para  capturar um bandido perigoso. Na tocaia acertou um deles no peito com tiros de repetição, o outro foi ferido na perna e no braço. O soldado ferido arregalou uns olhos de medo,  ficou tremendo no corpo todo. Disse: “Seu Sinfrônio, eu não quis lhe prender nem bater naquele dia.  Foi o outro soldado que me forçou a fazer aquilo. Tenha piedade de mim.” Tirou um cigarro do bolso, acendeu e fumou sem pressa. Quando acabou de fumar, pegou  o punhal e bradou: “Prepare-se, seu  peste,  pra engolir este doce!” O punhal entrou até o cabo na goela do soldado, que ficou com a língua de fora,  os olhos esbugalhados querendo cair na estrada.
             O delegado Procópio, um amarelinho  que tinha feito parte da volante que matou Lampião e seu grupo de cangaceiros na caatinga,  comandou   os vinte soldados que partiram num dia chuvoso para as matas das Salteadas. O negro Sinfrônio Foi atingido com uma bala de fuzil, que lhe  estourou o osso da perna. Não havia como ele escapar daquele cerco armado pelo delegado com os soldados. Até que ele então  foi atingido com outra  bala de fuzil, que  penetrou no braço e foi sair no ombro.  Foi preso e amarrado como um bicho perigoso. Sabina  assistiu tudo escondida por trás de uma moita de goiabeiras.
             No outro dia foi encontrado enforcado na cadeia. Dizem que foi o delegado Procópio que mandou fazer aquilo para vingar as mortes dos dois soldados. Ninguém soube explicar como de repente a fazendinha nas Salteadas, com as lavouras que foram  plantadas pelo  negro Sinfrônio Barbadura e a negra Sabina, foi parar nas mãos do delegado Procópio. O resto do que aconteceu ficou aí grudado na negra Sabina, pesando no  corpo e alma dela com tudo que não presta nessa vida.
                                                                    
·Cyro de Mattos é escritor, poeta e advogado aposentado.




FLORISVALDO MATTOS

Contextualização:

Duas criações constantes do  livro “Mares Anoitecidos”, inserido num conjunto de edições comemorativas dos 500 anos do Descobrimento, contendo uma extensa série de poemas, tendo como foco o fato histórico da presença dos holandeses na Bahia, no século 17, a que nos acostumamos chamar de invasão holandesa, como se os descobridores portugueses não fossem invasores. 
Como a poesia mais se revela na figura dos vencidos que na dos vencedores, resolvi tratar o assunto poética e independentemente pelo lado dos vencidos, que protagonizaram o malogro, depois de dominar a Bahia por precisos um ano e três meses.
Entre tantos cenários e episódios,   esses dois poemas põem em destaque a figura do negro, pois, a história não conta, mas grande contingente de negros se alinhou com os holandeses invasores, desde que viam  nesses uma diferença: a promessa de libertação do regime escravo: um, encarando o homem  negro, em estado de banzo e íntima revolta, enquanto no outro, em dimensão mais claramente lírica, a personagem é a mulher negra na sua relação afetiva e amorosa com o louro holandês que a acolheu, amou e tratou bem, dele se despedindo no momento da expulsão pelos portugueses detentores da terra colonizada. ( Florisvaldo Mattos )


NEGRO

Ê, meu sinhô,
negro no eito
queimando
plantando
cana verde
cortando

Ê, meu sinhô,
negro no engenho
cana cortada
moendo
cozendo
louro mel

Ê, meu sinhô,
negro no eito
cantando
negro sem jeito
sofrendo
cantando
lembrando

Ê, meu sinhô
negro no eito
tabaco planta
e na senzala
cachimbo pita
ora, que é bom
é muito bom

Ê, meu sinhô,
no eito tem
gengibre pimenta
inhame aipim
cobra também
caranguejeira
doença que mata
a todos tem

Ê, meu sinhô,
no brejo socó
na mata jiru
tem jacutinga
no campo teiú
e tem saruê
bom de comer

Ê, meu sinhô,
chiche que vem
do mar precioso
agrupando festa
muita gente tem
até mesmo feitor

Eh, meu sinhô
maior valor
a terra nos dá
não o que se quer 

Eh, meu sinhô
o mais que almejamos
ninguém nos dá
queremos África
nosso lugar
em conta de chegar
andando
é andando
que chego lá.
  

ADEUS  DA  NEGRA  MINA

 Meu destino africano revoguei
(de para lá voltar cortando os mares),
a meus santos patronos implorei
para de ardis dos fados te livrares.

Para mim  não fazia diferença,
na fortuna que os deuses me teceram,
estar contigo ou com outro, mas a crença
no que, vindo do mar, meus olhos leram.

A face da coragem que trazias,
além de barcos, armas, sonhos, velas,
inseriu no infinito de meus dias
o segredo invisível das procelas.

Havia algo mais que  não era só
o corpo, o coito, a força, que  não era
a bruta lei do mando, o relho, o pó
do eito, onde lavrava eu minha quimera.

E para consagrar tua coragem,
em qualquer tempo e lugar por onde andes,
dei-te meu coração como ancoragem,
a sombra, o mel e a flor de árvores grandes,

Pelo frescor dos campos sossegados,
por dentro da floresta silenciosa,
a fugir de espada e ferrões ervados,
em que me vinhas como ave e eras rosa.

De outras vezes, embaixo das muralhas,
teu mudo peito pulsava, e eu gemia.
Tu chegavas cansado das batalhas;
eu, sendas a ver por onde a tarde ia.

À noite, quando a noite enfim chegava,
eu te despia o gasto arnês de guerra;
vinha do aceso de ti estuante lava,
nosso íntimo fervor, o sal da terra.

Daqui como de lá, e de muito além,
teu lábio entoa com esperança e zelo
uma canção que do passado vem,
de remotas pirâmides de gelo.

Quão diversos do teu são meus cantares!
Quando a tarde esplende de fulgores,
de savana eles falam, e de lunares
caminhos, de água e areia, sol e flores;

Dos símbolos maiores que me seguem
por rastros de leões, gnus e leopardos,
chão dos que fogem e dos que perseguem,
beirando espelhos de reflexos pardos.

Agora te vás, meu bom Sig. Flaminco,
levando em  teu bornal dores e sombras,
tudo que em ti deixou um duro vinco,
de batalhas, de perdas e de sombras.

E que me fica de teu corpo claro,
para me acompanhar sob céus incertos?
Traspassando da terra o injurioso aro,
tua semente  povoará desertos.

*Florisvaldo Mattos – “Mares Anoitecidos”, Rio de Janeiro: Imago Editora, 2000; págs. 36 (“Negro”) e 83 (“Adeus da negra mina”).
* Membro efetivo da ALITA

                    
DELILE OLIVEIRA
           
SOU NEGRO!


Mulato na pele,

negro nos cabelos,

português eu falo.

Sou filho da África,

sou negro nagô.

Ventos trouxeram

sopros de liberdade.

Ó, Mama África,

hoje eu sou livre:

livre eu sou!

*Delile Oliveira é membro efetivo da ALITA.



  
  CERES MARYLISE*

ANCESTRALIDADE

Prendadas de tédio e ócio
ficavam muitas branquelas
olhando a vida dos outros
e esquecendo-se das delas.
Nomeavam quem passasse
cuidando de  suas tarefas,
principalmente  mulheres
pela cor de suas peles:
eram pretinhas, mulatas,
pardas, escuras, roxinhas,
mas vestidas de histórias
que vieram das montanhas,
das planícies e savanas,
dos tambores ressoando
nos momentos de partida.
Devotas de padroeiro,
mães de santo de terreiros,
pegadoras de menino,
rezadeiras de quebranto,
colhedoras de cacau,
cozinheiras, lavadeiras,
estas, debaixo de trouxas,
outras, com suas maletas
ou sob seus tabuleiros
com cheiro bom de dendê.

E eu, passeando menina
por suas muitas memórias
divididas no quintais,
pelos caminhos das roças,
pelos vastos cacauais,
nas pedras do rio de Contas
e terreiros de orixás.

Todas da história esquecidas,
trazendo nódoas na alma
marcadas a ferro e fogo:
herança dos ancestrais. 

*Ceres Marylise é membro efetivo da ALITA