A velhice e suas vantagens

                            
                                     
                      Sônia Carvalho de Almeida Maron*

A maioria das pessoas encara a velhice como um castigo, vendo apenas desvantagens e  não é bem assim: como todas as fases da existência humana apresenta um lado positivo que deve ser explorado. Uma das vantagens, talvez a principal, é que à medida que avançamos na idade, utilizamos melhor o juízo crítico de nós mesmos e em relação a tudo e a todos. Trocar a lágrima pelo sorriso, transformar o desalento em esperança, a tragédia em comédia e conservar a serenidade diante do desastre, é próprio dos mais velhos. E o velho sabe que a luz sempre vai existir para afastar a escuridão, que a noite termina quando começa o dia e que tudo na vida é finito. Todos nós, jovens e velhos, vivemos em relativo equilíbrio porque a vida flui em permanente renovação.

Aos jovens fica a incumbência de permanecer no palco, aperfeiçoando o desempenho do papel que lhes foi reservado na vida social, conscientes que a cadeia de atos tem um final; se não alcançarem uma performance satisfatória, sentirão na pele as consequências e a história registrará e punirá o desempenho pífio do péssimo ator ou atriz e o espetáculo continuará.

Infelizmente, no Brasil, muitos  jovens da atualidade encontrarão dificuldade em seguir um script de boa qualidade. O país mudou e esses não foram educados para entender o amplo significado do preâmbulo da Carta Magna e suas cláusulas pétreas. O mais grave é que ignoram o vaticínio de Aristóteles que é definitivo e irrecorrível: o homem é um ser político. Assim sendo esses jovens continuarão na linha de fogo sem colete à prova de balas e sem armas para o confronto. Usando uma expressão coloquial, diria que “estão mais perdidos do que cego em tiroteio”. A visão superficial que por vezes  manifestam é preocupante porque preferem ignorar que figuram no elenco como atores principais do espetáculo que pode ser trágico se a representação não for levada a sério.

 Não sei se seria para chorar ou sorrir, perceber que muitos jovens dos nossos dias, não têm a curiosidade de buscar informações sobre os motivos que levaram Charles Louis de Secondat, barão de La Brède e de Montesquieu (*1689/+1755) a escrever “O Espírito das Leis,” irresignado com a monarquia absolutista. A teoria da divisão dos poderes para formação do Estado, descrita na obra do filósofo do Iluminismo, continua sendo fonte das doutrinas constitucionais liberais. Ao considerar a república movida pela virtude, aponta a tripartição dos poderes como o caminho para preservar os governos da corrupção. Assim, segundo Montesquieu, os três poderes cumprem o papel que lhes foi reservado em harmonia e absoluta independência, respeitados os limites da atribuição de cada um.

A formação do Estado é um espetáculo monumental. Imaginemos um concerto regido por um maestro competente que não deve e não pode cometer erros que comprometam o desempenho da orquestra e, em consequência, os músicos seriam escolhidos entre os melhores no domínio de cada instrumento. Se o maestro não tem a formação técnica exigida, não tem caráter ou é leviano e irresponsável, escolherá seus músicos a esmo para atender pedidos ou receber favores pessoais e o  espetáculo resultará em fracasso. Se o maestro não reconhece os erros cometidos e diz que “vai fazer o diabo” para realizar um novo concerto, perderá  a credibilidade  provocando desconfiança e insegurança. No concerto das orquestras ou no desconcertado mundo da política, quem paga a conta é o povo: pagou muito caro o ingresso e não recebeu aquilo que foi prometido, ou seja, a  prova material de probidade para cumprir as promessas e zelar pelo bem comum.

Voltando aos privilégios desfrutados pelos mais velhos, conheci o Professor Doutor e, à época, Senador da República Josafá Marinho. Não somente conheci: ele tinha a memória prodigiosa e lembrava meu nome cada vez que nos encontrávamos em congressos ou palestras. E para minha felicidade, foram muitos encontros enriquecedores. Certa feita, quando proferiu a aula magna no reinício de um dos  anos letivos da UESC, comentando a Constituição de 1988, afirmou: “Se um país tem um executivo truculento, um legislativo omisso e um judiciário submisso, não há Constituição que resista”.

Com todo respeito aos que pensam que a oposição deve sair do palanque, lembro que em um país democrático, a oposição pode e deve continuar no palanque. É o seu lugar e vai continuar sendo no espetáculo dos poderes tripartidos. O Congresso vai retomar o seu papel impedindo que nosso país seja governado através de decretos-leis e medidas provisórias. O Brasil não tem vocação para a monarquia, assunto já discutido oficialmente em plebiscito décadas atrás; e muito menos para o totalitarismo, já experimentado com os apelidos de  Estado Novo e governos militares. Nossa destinação democrática não será interrompida. Resistirá, como tem resistido, com a força de um país que cultua a paz social, o bom senso e a solução pacífica dos seus problemas.