EDIÇÃO ESPECIAL DE NATAL 2015 e ANO NOVO



DEZEMBRO


                     Florisvaldo Mattos


 Menino ainda, costumava


romper o cristal da manhã

e do macio horizonte
cavalgar o aromado pelo
haurindo a seiva do dia, tanto me
comoviam os animais no campo.
Na adolescência,
ave, passei às mãos das incertezas:
como a mim permitiam decidi
a vida cantar por não ser nada.
Transitei pelos vales recolhendo
um pouco de mim mesmo em cada planta
na água dos riachos me banhava
da pedra me enxugava nas durezas
que ao vento domavam e refaziam
meu secreto saber.
Eu era agora um homem,
tanto me diziam, tanto me provava
o contato com os homens ou algo mais.
A lua cheia matava-me no silêncio
invariável lua que jamais cantei
por pouco ser e muito dizer.
 
Amanhecia por vezes sobre um couro,
transido de frio, sem pecados.
Amava a terra, doação da manhã,
mesmo quando armas rudes me cortavam
a fimbria da existência: eu era
um pouco das safras transportadas,
da poeira que tropeiros levantavam
misturada a rastos de sangue nas ladeiras;
“um cavalo cortado ao meio”, me diziam,
e isso valia como identificação
ao que vem e suporta seus tropeços.

  Os companheiros de infância,
muito bem mortos, lá estão
esculpidos em ecos, regressando
do afã diário aos búzios vesperais
ignorando armadilhas do sol-posto,
tanto falam-me os gestos, os ruídos.
E como vêm falar do que não foram!

Agora é dezembro, e pouco vale
um coração cruzado de datas,
mesmo punhais de lâminas fecundas,
rebrilhando ao sol do meio-dia,
de flores, de frutos na campestre senda.
Humilho-me por não ser o que mais fui,
consciente mas expondo-me aos assédios
de ventos ruminosos, águas várias –
– águas de aboio insopitado e lento.
Agora é dezembro: com seu penacho
de luz acende o caminho, incinerando
as fétidas lembranças, colorindo
ausências de sonora geometria.
Antes triste que perdido
Ao sol que nos confunde,
à chuva que nos vence.
Agora é dezembro, um mês guerreiro,
que doma sombras ao calor de espadas.
(Florisvaldo Mattos, Poesia Reunida e Inéditos, São Paulo: Escrituras Editora, 2011, p. 107).


 



Presépio
          Cyro de Mattos


Do céu dos céus
Uma estrela
Que anuncia
Só amores
Para iluminar
As pobrezas
Dessa terra.

Na manjedoura
Ondas embalam
O menino no berço
Feito de palha.
É Natal! É Natal!
Os bichos propagam.

Cantam os anjos,
Tocam os pastores
Suas doces flautas.
Os reis magos
Estão sorrindo
De pura alegria.





ERA ESSA A IGUALDADE QUE TANTO
FALAVAS, JESUS?

Ceres Marylise Rebouças

Mais um Natal se aproxima...
Para onde a cauda do teu cometa
nos apontará desta vez, Jesus?
Para um grande shopping cujas lojas
manipulam psicologicamente
nosso consumismo?

Para o corpo do menininho morto
jogado pelo mar numa praia da Turquia
e transformado em símbolo da tragédia
dos que fogem dos horrores das guerras
e da crueldade insana do Estado Islâmico
em seus países de origem?

Para outras nações onde igualmente
há guerras civis, econômicas, religiosas,
diplomáticas, químicas e biológicas?
Ou nos lembrará da constante ameaça
diante da existência de ogivas nucleares
que podem ser acionadas a qualquer momento?



Ah, Jesus! Como dói ver nosso planeta
povoando sua rota com homens inescrupulosos
que se insultam, que se chocam e que se matam
muitas vezes, pelo simples prazer de matar!
Que destroem velozmente a natureza
e cada ser vivo para fins lucrativos!

ERA ESSA A IGUALDADE QUE TANTO
FALAVAS, JESUS?

E no entanto, renascerás mais uma vez
no estábulo do coração dos homens
porque Natal não é tempo de odiar:
é tempo de esquecer, de perdoar, de amar,
e de fazer rebrotar a esperança!







O NATAL PEDE PASSAGEM

                                               Sônia Carvalho de Almeida Maron*
Vamos esperar um pouco antes de acender as luzes coloridas da árvore de Natal. É preciso enxugar as lágrimas do rosto dos franceses e assegurar às famílias de Paris que suas crianças não serão executadas nas escolas. Afinal, é Natal. A ameaça paira no ar, os terroristas já divulgaram o próximo alvo. Quem sabe, aguardarão mais um pouco. Quem sabe, desistirão. Cristo nasce e se renova na fé daqueles que acreditam Nele.

 É preciso analisar o cenário do mundo sob a ameaça do terrorismo e parte dele sobrevivendo às guerras fratricidas que obrigam as populações atingidas a abandonar sonhos e esperanças, refugiando-se como párias em países que relutam em recebê-los pelas conseqüências sócio-econômicas que fatalmente enfrentarão com a excessiva permissividade.

 Precisamos confortar os habitantes da cidade de Mariana, Minas Gerais, Brasil. É necessário arranjar abrigo, roupas e alimentos para os sobreviventes da maior catástrofe que já atingiu nosso país.  É nosso dever enxugar  as lágrimas das viúvas, mães, pais e órfãos da cidadezinha que saiu do mapa graças à irresponsabilidade dos poderosos empresários que extraíam riqueza da terra que oferecia abrigo e alimentava aquela gente;  principalmente lembremos  aos titulares dos poderes constituídos que o grito de alerta do Ministério Público se fez ouvir muito antes, sem acordar os surdos e indiferentes. E o povo de Mariana, todos  sem casa e muitos sem vida, olham para o céu acompanhando o voo rasante de um helicóptero, imaginando que é o trenó de Papai Noel, cheio de presentes. Para aquela gente, também é Natal. O trenó de presentes, é claro, continua uma lenda.

 Vale lembrar que vai chegar o Natal não somente na cidadezinha coberta pela lama. Também é Natal no Oceano Atlântico que emprestava o azul de suas ondas ao litoral do Espírito Santo. O capixaba assiste impotente a areia morena de Guarapari mudar de cor e assumir o tom sombrio que prepara a recepção para toneladas de peixes mortos; fauna e flora destruídas  no caminho percorrido pelo desastre tido por alguns entendidos como irmão das tragédias de Hiroshima e da usina atômica de Chernobyl. Quando o meio ambiente é atingido criminosamente, o mundo já não é o mesmo, nosso fim fica mais próximo e mais doloroso. É preciso abrir os olhos e enxergar, ainda que seja por ocasião do Natal. 

 Cuidemos de esquecer um pouco as desgraças do mundo e ficar atentos ao cenário da Câmara dos Deputados, onde alguns dos representantes do povo brasileiro trocam tapas e palavras de baixo calão, engalfinhando-se em vergonhosa luta corporal no plenário da “augusta” casa que abriga os cidadãos agraciados com o voto popular. Transformada em academia de MMA, a casa legislativa onde nosso destino é decidido, abriga um grupo de exploradores da boa fé e da ignorância do segmento de brasileiros que permitiram a presença deles como nossos mandatários. As agressões e o frenético descontrole decorre da necessidade de conservar a zona de conforto em que vivem, defendendo os responsáveis pelas escolhas equivocadas na administração do país. Seguimos o caminho inverso à moralidade e decoro dos cargos públicos, vivemos um verdadeiro retrocesso econômico. Como se não bastasse, somos obrigados a ouvir os lutadores de MMA do mundo político interpretarem o impeachment como “golpe”. Como sempre, não sabem o que falam. Não provam e nem podem provar as insustentáveis e levianas afirmações.

 Vamos ler e tentar entender a Lei nº 1079, de 10 de abril de 1950, que define os crimes de responsabilidade e oferece os fundamentos para o procedimento lícito, destinado a coibir os abusos dos detentores de cargos públicos cuja investidura decorre do voto popular. Não precisa ser bacharel em Direito: qualquer pessoa medianamente alfabetizada pode consultar o Google, evitando a leitura dos manuais e tratados de Direito Constitucional, leitura obrigatória  para os estudiosos do assunto. Façam isso porque o Natal pede passagem.

 Chegamos, por fim, ao pedaço de chão sob nossos pés: o município de Itabuna. Olhemos com atenção a cor das águas do Rio Cachoeira, chorando as lágrimas verdes da poluição que vem minando sua vida. Melhor dizendo, nossa vida. Concentrem a atenção nos caminhões-tanque que cortam a cidade ininterruptamente para levar o equilíbrio da vida no planeta, a água, aos edifícios e casas dos bairros privilegiados, habitados por pessoas de médio ou alto poder aquisitivo e que podem pagar pelo precioso líquido. E nos bairros da periferia? E nos célebres condomínios “nossa casa, nossa vida”? Ora, Deus proverá. É problema de somenos importância para os gestores.

 Uma parada para reflexão, enquanto é tempo. Itabuna agoniza. Não existe água para o consumo da população.  Um projeto antigo de revitalização da bacia do Rio Cachoeira, idealizado pela UESC, continua vivo em uma instituição privada e independente, Centro das Águas. A duras penas, sua coordenadora conseguiu criar um Forum Permanente das Águas, incluindo a maioria das instituições da sociedade organizada inclusive as duas Universidades, ressaltando-se o caráter voluntário da participação das entidades. Divididas as responsabilidades, cumpre às Universidades a elaboração dos projetos para consecução de objetivos que dependam de apoio político. Até agora, silêncio absoluto da UESC e da UFSB. É compreensível a indiferença da Universidade Federal do Sul da Bahia, apesar de comandada por um filho da região: algemada às metas da política do momento, na qual Itabuna nunca figurou como  prioridade, fatalmente permanecerá no plano das promessas e pedras fundamentais diante dos problemas maiores da comunidade. Com a UESC, a relação é outra. Apesar de estadualizada e inserida nos “projetos” da “pátria educadora”, nasceu do sonho puro e legítimo de filhos desta região, notadamente Ilhéus e Itabuna; tem compromissos com a história: passado, presente e futuro estão unidos indissoluvelmente. Nenhum direcionamento ditado pelas circunstâncias afastará a trajetória inicialmente traçada. A UESC precisa ser fiel às suas origens e à sua história. É o único patrimônio que restou da pujante região cacaueira.

Para festejar o Natal, esperem, confortem, lembrem, analisem, esqueçam a desgraça geral momentaneamente, leiam e tentem entender, concentrem-se, reflitam. Por fim, abram as portas, abram o coração, limpem as mentes do egoísmo,  do pessimismo e da covardia. Deixem o clima festivo entrar e permanecer em seus lares. É a energia do simbolismo do Natal que pede passagem.

 





A PAZ DO NATAL

Marcos Bandeira

               Neste momento em que celebramos o nascimento de Jesus Cristo convido a todos os confrades e confreiras da nossa querida ALITA para uma reflexão. Principio com o belíssimo texto de Nancy M. Unger, intitulado “Encantamento do humano”, quando ela afirma que a civilização está experimentando uma “crise de sentido”, de visão de mundo, enfim de ordem ontológica, na qual o homem na sociedade capitalista se afasta do sagrado e de sua dimensão cósmica e espiritual, reduzindo-se a objeto e instrumento, de sorte a visualizar o mundo como algo utilitarista e instrumental, fundado na busca insaciável de poder e lucro. Nancy, com sutileza, enfatiza que o desencantamento do mundo não é da natureza, que apesar dos bombardeios sofridos, continua incólume, mas do olhar, que nos reduz à reificação.
             Assim, torna-se imperativo que reflitamos sobre a nossa vida, a nossa convivência humana, nossos valores, e de que forma podemos redirecionar os nossos olhares para o humano, para o sagrado, para a intuição e assim contribuir para crescermos como seres humanos e tornar mais amena a nossa convivência com nossos familiares, com nossos amigos, enfim, com nossa comunidade.
             Convivemos numa sociedade líquida, de que nos fala o sociólogo polonês Zygmunt Bauman,  caracterizada pela construção de laços frouxos e voltada para o consumo desenfreado de bens e coisas artificiais. Qual o meu papel neste mundo, cujos vínculos são construídos e desconstruídos com um simples clic no computador? O que posso fazer para dar sentido à minha vida neste mundo tão complexo? Será que estou guardando os mandamentos sagrados do Senhor? Será que estou contribuindo com a minha conduta para semear a paz na minha família e na minha comunidade? Será que sou capaz de sublimar as mágoas e ressentimentos que ainda calam no fundo da minha alma? Será que sou capaz de perdoar o meu irmão?
             Essas são algumas reflexões que devemos fazer neste final de ano, nesse momento que se celebra o nascimento do nosso DEUS VIVO que é amor, perdão, esperança, justiça, humildade, compreensão e paz!
            A humanidade, sem dúvida alguma, evoluiu; entretanto o ser humano ainda continua distante de sua verdadeira essência.  Destarte, torna-se obrigatória a citação de três grandes homens, que não só vivenciaram verdadeiramente os seus valores e princípios como também deixaram um legado de luta, sacrifícios, valores, ideais, exemplos a serem seguidos pelas futuras gerações, porque eles contribuíram para o progresso da humanidade e para a disseminação da cultura da paz. Cada um do seu jeito.
           O primeiro a se destacar nessa linha é Mahatma Gandhi, também conhecido como “a grande alma” que lutou pela libertação da Índia do jugo imposto pela minoria branca britânica, utilizando a estratégia da não violência. Disse Gandhi: A não violência, em sua concepção dinâmica, significa sofrimento consciente. Não quer absolutamente dizer submissão humilde à vontade do malfeitor, mas um empenho, com todo o ânimo, contra o tirano. Assim, um indivíduo, tendo como base esta lei, pode desafiar os poderes de um império injusto para salvar a própria honra, a própria religião, a própria alma e adiantar as premissas para a queda e a regeneração daquele mesmo império”.
            Tempos depois, já na segunda metade do século XX, surge a figura carismática de Martin Luther King, que entregou a sua vida para acabar com a segregação racial nos Estados Unidos, utilizando como estratégia de defesa a mesma técnica da não violência empregada por Mahatma Gandhi na Índia. O grande pacificador, que ganhou o prêmio Nobel da Paz em 1964, na sua histórica marcha contra a segregação racial até Washington, capital dos Estados Unidos da América pontificou: Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!... E quando isto acontecer, quando nós permitirmos o sino da liberdade soar, quando nós o deixarmos soar em toda moradia e todo vilarejo, em todo Estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho espiritual negro: “Livre afinal, livre afinal.  Agradeço a Deus todo-poderoso, nós somos livres afinal”.
           A não violência, em sua concepção dinâmica, significa sofrimento consciente. Não quer absolutamente dizer submissão humilde à vontade do malfeitor, mas um empenho, com todo o ânimo, contra o tirano. Assim, um indivíduo, tendo como base esta lei, pode desafiar os poderes de um império injusto para salvar a própria honra, a própria religião, a própria alma e adiantar as premissas para a queda e a regeneração daquele mesmo império”.
            Em nossa sociedade contemporânea podemos ainda mencionar Nelson Mandela, que viveu 27 anos na prisão da Ilha Robben, na África do Sul, e que nunca deixou de sonhar pelo seu ideal: a paz verdadeira na África do Sul entre brancos e negros. O enigmático e grande homem da paz do mundo dissera para a nação africana: “Toda minha vida foi dedicada à luta do povo africano. Lutei contra a dominação branca e contra a dominação negra. Escolhi o ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas possam viver em harmonia, com oportunidades iguais. É um ideal pelo qual espero viver e atingir um dia. Mas, se for necessário, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer”.
            Assim, a paz está dentro de cada um de nós e a sua disseminação depende de cada um de nós também. A verdadeira paz nos foi enviada pelo Espírito Santo, portanto, emanada de DEUS.
            É por isso que Jesus Cristo, o nosso DEUS, o mestre de todos os mestres, inigualável e incomparável, a quem devemos não somente amar, mas a louvar todo o dia, disse aos seus apóstolos:

“EU VOS DEIXO A VOZ PAZ, EU VOS DOU A MINHA PAZ”.
QUE NÃO CONFUNDAMOS A PAZ, COM A PASSIVIDADE SUBALTERNA OU A INDIFERENÇA CRUEL DIANTE DO QUE OCORRE EM DERREDOR DE NÓS, PRINCIPALMENTE COM NOSSOS IRMÃOS MAIS NECESSITADOS.
QUE UTILIZEMOS A PAZ ATIVA COMO CIDADÃO PARTICIPATIVO, AUTÔNOMO E SOLIDÁRIO NA CONSTRUÇÃO DE UMA SOCIEDADE LIVRE E IGUALITÁRIA.
QUE NESSE MUNDO AINDA TÃO DESIGUAL E ONDE AINDA CAMPEIA A CORRUPÇÃO, POSSAMOS TAMBÉM NOS INDIGNAR COM A INJUSTIÇA, COM O CRIME, COM A COVARDIA, COM A BLASFÊMIA.

QUE POSSAMOS EXERCER OS NOSSOS DIREITOS COMO CIDADÃOS E SEMPRE CULTUAR A PAZ EM NOSSA VIDA.

FELIZ NATAL!

Marcos Bandeira








CANTO DE ANO NOVO


Desejo um feliz ano novo
ao amigo e à doce amiga
e eu mesmo me comovo
ao repetir a velha cantiga,
embalado pela esperança
de que seja bem-aventurado 
o novo ano que já avança
sobre o mundo tão desolado.
Ano velho, eu te absolvo
se a alma sofrida te reprova
com as travas de nova trova
                      por um feliz mundo novo.                        

Aleilton Fonseca






ANO NOVO

  Cyro de Mattos

Uma infinidade
De estrelas e balões
Conjuga a maravilha.
Desenha flores no céu
Uma  emoção intensa.
Festeja  a esperança.
Ritmo sem pausa
Em todos ou em cada
No abraço da vida.
Nada de capas
Grossas de espuma
Em rio se arrastando
Na dura lei das águas
Por baixo da ponte.


 Ilhéus, Praia do Norte, 31/12/2015