A ENCRUZILHADA - Sônia Maron




Vai ficando cada dia mais difícil continuar vivendo como espectador, instalado em uma zona de conforto, assistindo impassível tudo que existe de mais reprovável em uma sociedade acontecer diante dos nossos olhos: desmonte e degradação das instituições, falência de valores éticos e morais, desrespeito aos direitos mais elementares do cidadão anônimo que trabalha e paga impostos, não cultiva desvios de conduta e respeita as normas da organização social que orientam seu viver no mundo.
No Brasil de hoje tudo pode acontecer. Para cumprir os mandamentos da cartilha politicamente correta da atualidade existem senhas estranhas que identificam os dirigentes (e/ou  “dirigentas”) que se acham  detentores de todos os poderes, até mesmo de determinar uma nova reforma ortográfica e utilizar expressões esdrúxulas nos pronunciamentos oficiais. A “presidenta”, que se diz “mulher sapiens”, declarou na Assembléia da ONU que o Brasil está “estocando vento” e recentemente batizou de “mosquita” a fêmea do aedes aegypti. São exemplos mínimos do cotidiano imposto aos brasileiros dos nossos dias, como se não bastasse a degradação do ensino fundamental e médio e os demais milagres da “pátria educadora”. Somem-se a todas as aberrações a “nova matriz econômica”, invenção dos economistas do desgoverno que transformou o Brasil em uma versão continental do Titanic:  submergindo aos poucos e invadido pela água da corrupção em todos os compartimentos, da proa à popa.  
Diante dos absurdos que acontecem na prática desse populismo ridículo, cansativo e patético, resta perguntar:  será que somos todos imbecis? Como é possível às pessoas que exercem mandatos eletivos tratarem o povo que os escolheu com tanta mentira e empulhação? Será que toda a população brasileira é portadora de microcefalia? A última hipótese seria a única explicação possível para a aceitação da história fantástica de um ex-presidente e família que não possuem sequer um teto para morar e vivem graças à generosidade dos amigos ricos e poderosos. 
Convenhamos, não dá mais para segurar. Nossa indignação vai crescendo à medida que os  fatos cada vez mais graves vão surgindo. Aliás, desde a última campanha eleitoral o ex-presidente já mostrava a distorção do seu caráter e a personalidade doentia. Todos lembram, decerto, sua afirmação de que “faria o diabo para o PT ganhar”. O mantra foi repetido à exaustão por criador e criatura. Agora, comentando a condução coercitiva para o interrogatório, escolheu a figura de um réptil peçonhento para autodenominar-se. Quem de nós, de mente sadia, gostaria de comparar-se a um réptil? Certamente ninguém. 
Quanto à condução coercitiva, foi antecipada desnecessariamente além de oferecer munição aos simpatizantes do interrogado. Mas não causou prejuízo ao processo. Diria até que o agente dos delitos não faz jus à honraria de escolta tão qualificada. O remédio para apanhar ratos é a caçada paciente realizada por um gato tranquilo e habilidoso ou uma ratoeira com o petisco preferido do roedor, temperado com o veneno adequado.  O tempo fará o resto. O requerimento de prisão preventiva pelo MP de São Paulo, suscita, preliminarmente, discussão sobre competência por conexão ou prevenção. Quanto ao réptil, a peçonha é neutralizada com o próprio veneno, o soro antiofídico. 
A propósito, a autodenominação tresloucada escolhida pelo ex-presidente investigado incomodou até a CNBB, instituição que andou protegendo, em eleições pretéritas, em algumas dioceses, agentes do MST e  militantes do PT. Nos dias atuais, arrancadas as máscaras dos petistas, o bispo auxiliar da Arquidiocese de Aparecida, dom Darci José Nicioli, reagiu inesperadamente, depois da declaração do ex-presidente, dizendo em uma cerimônia religiosa:
           “É hora de voltar à casa do Pai. Pisar a cabeça da serpente. De todas as serpentes.
 Anular a força do mal e vencer o mal pelo bem. Coragem” (Revista Veja,    16/03/2016, p. 45).
           Diante dos fatos e da reação dos investigados, nenhum gesto de grandeza pode ocorrer, amenizando o julgamento da história. O Brasil sobreviveu a muitas crises e foi beneficiado por decisões que serviram para pacificar o país e cicatrizar as feridas. Servem de exemplo a renúncia de Jânio Quadros e a posse de José Sarney, ilegítima, como vice do presidente que faleceu antes da assunção; naquele momento, a paz social falou mais alto que o critério de legalidade estrita. O aspecto mais lamentável é que os protagonistas do drama atual pensam apenas no poder, o poder maldito que transformou todos eles em sociopatas. Esquecem que o poder, mesmo no totalitarismo, não é vitalício, muito menos eterno. A prova é que Nero, Hitler, Stalin e outros menos votados não existem mais. E são lembrados como maldição.
Estamos em uma encruzilhada. E não temos líderes para nos amparar e apontar o caminho. Não tivemos a sorte de contar com seguidores de Gandhi ou Nelson Mandela que pensavam apenas na liberdade e independência dos países que representavam. Em nossa encruzilhada, a esta altura, a bússola está nas mãos dos onze Ministros do Supremo Tribunal Federal. Nossa única esperança é que despertem para a responsabilidade de assegurar o fortalecimento das instituições democráticas, a paz e a harmonia social, restabelecendo o clima de segurança jurídica que confere independência e dignidade aos três poderes. 

Sônia Carvalho de Almeida Maron
Juiza de Direito do TJBA aposentada
Professora Msc da UESC aposentada