COM A PALAVRA, A SAUDADE- Sônia Carvalho de Almeida Maron



Estamos vivendo dias amargos. Principalmente a minha geração que viu florescer a esperança e acreditou em um futuro de estabilidade e progresso para nossa cidade, à qual ninguém negava a liderança social e política da região sul da Bahia. Os itabunenses que eram crianças e adolescentes na década de cinquenta certamente guardam a lembrança de dias melhores, estimulados pelo otimismo e norteados por valores hoje postergados.  Em nosso passado não havia lugar para o desalento, a desesperança, a indiferença e a omissão.
Nossa cidade, a região onde está situada, o Estado ao qual pertence, o País ao qual pertencemos, vivem uma fase de insegurança e incerteza. Aos poucos estamos perdendo a capacidade de indignação e passamos a encarar com naturalidade a morte dos sonhos, valores, princípios e tradições,  permitindo que as novas gerações acreditem que não temos um passado a ser lembrado e cultuado como passaporte para o futuro. Estamos perdendo nossa identidade. 
Não se trata do saudosismo próprio das pessoas que nasceram no século passado. A verdade é que o mundo fica cada vez pior no que se refere às relações entre os seres humanos. Até mesmo o Brasil, dito “país bonito por natureza” e contagiado pela alegria da sua festa maior, o Carnaval, esmorece diante da violência cotidiana e da ameaça de um mosquito.
É claro que nossa agenda de desventuras é bem mais extensa e já constituem desgastados clichês as demonstrações de cinismo, ausência total de escrúpulo e incompetência daqueles que comandam o país nos planos administrativo e econômico. É constrangedor para o cidadão que trabalha e produz riqueza verificar que muitos dos escolhidos  pelo  voto do povo  são agora personagens do noticiário policial.
Esse cenário cinzento fica mais sombrio e triste quando vemos partir alguém que percorreu, em nosso chão grapiúna, caminhos bem diferentes, contribuindo para o fortalecimento de muitas das nossas instituições. É inevitável a tristeza quando perdemos um verdadeiro cidadão, comprometido e participativo, digno representante de uma geração que tinha raízes fincadas neste chão itabunense. Estou falando de Nailton Ferreira Ramos, falecido em 9 de janeiro do ano que dizem novo e já nos primeiros dias se faz portador de dores e tristezas, depois de tantas promessas de alegria.
Nailton era um dos mais velhos entre os adolescentes que cresceram na rua Ruy Barbosa. Filho de Eugênio Simões Ramos e Odete Ferreira Ramos, nasceu em Ferradas em 25 de novembro de 1932, a mesma Ferradas de Jorge Amado, José Soares Pinheiro e Valdelice Soares Pinheiro. Contemporâneo de Telmo Padilha (também do grupo de jovens da rua Ruy Barbosa), estudou em  nosso Ginásio Divina Providência e Colégio Maristas, em Salvador, graduando-se em Medicina Veterinária. Prestou serviços ao Instituto Biológico da Bahia, GERFAB e Instituto de Cacau da Bahia – ICB, onde ocupou cargo de direção. Era funcionário da Secretaria de Agricultura da Bahia e esteve à frente do Sindicato Rural de Itabuna por mais de 20 anos, representando a instituição junto à CEPLAC e Organização Internacional do Cacau. Entre os cargos ocupados, destaca-se a direção da Associação Repetidora Assis Chateaubriand, responsável pela implantação e distribuição do sinal de TV em Itabuna e região. Entre suas atividades figurou também o comércio, como sócio da Farmácia SANIVET. No meio judiciário foi juiz classista. Presidiu a Cooperativa de Eletrificação Rural da Região Cacaueira e foi um dos fundadores da Cooperativa de Agropecuaristas de Itabuna – COOGRAP.
Lembro o currículo de Nailton, meu amigo, morador da rua da nossa infância e adolescência, com a intenção de apresentar à nova geração um filho desta região que marcou presença nos anos de ouro do cacau e aceitou desafios com entusiasmo e dignidade, deixando um legado de trabalho e dedicação à comunidade.
Concedi a palavra à saudade para lembrar e enaltecer um filho de Itabuna que exerceu em plenitude o seu papel: foi um dos líderes de uma geração que sai  do cenário. O exemplo de coragem e confiança no futuro, dos filhos que se despedem, em uma cidade que luta para reencontrar o caminho perdido em um passado às vezes esquecido, pode e deve ser usado como estímulo e bússola. Com a palavra, os jovens, emissários do amanhã. Ocupem nossos espaços e construam um mundo melhor. Não esqueçam que o mundo, para todos nós, começa em nosso município. 


                                                      *Sônia Carvalho de Almeida Maron
                                   Presidente da Academia de Letras de Itabuna - ALITA