A Morte de Salim Miguel (1924-2016) - Cyro de Mattos

                                    
Salim Miguel, o escritor mais importante de Santa Catarina em nosso tempo, figura marcante de nossas letras no século XX, autor de A Rede, romance, A Morte do Tenente e Outros Contos,  Velhice e Outros Contos, Nur Na Escuridão, romance, entre outros, com mais de 30 livros publicados, entre volumes de crônicas, contos e romances,  morreu sábado, 22 de abril de 2016, aos 92 anos de idade, em Brasília - DF, onde atualmente residia.
     Um de seus contos, “O Gol”, participa da antologia Contos Brasileiros de Futebol (LGE Editora, Brasília, 2008), que organizei e prefaciei. Nascido no Líbano, mas criado em Santa Catarina, Salim Miguel participou do movimento de renovação cultural de Santa Catarina, conhecido como Grupo Sul. Foi preso durante  o golpe militar de 1964. Transferiu-se para o Rio de Janeiro onde foi um dos redatores da revista “Ficção”. De volta a Florianópolis dirigiu  a editora da Universidade Federal  de Santa Catarina, de 1983 a  1991.  Com Nur na Escuridão ganhou o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes e Prêmio Zaffari & Bourbon. A Academia Brasileira de Letras agraciou-lhe com o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra.
       Transcrevo abaixo depoimento do autor de Velhice e Outros Contos.
       "Comecei a escrever antes de aprender a escrever. Naquela época, fim dos anos 20, começo dos 30, depois das estripulias diárias, a criançada se reunia ora na frente da casa de um, ora na frente da casa de outro, e cada um relatava como é que tinha sido o seu dia. As correrias, as brigas. Hoje, nós brigávamos; amanhã, éramos grandes amigos. Então, eu cortava uma folha de papel-embrulho da loja de meu pai, recortava palavras ou letras, juntava alguns rascunhos meus. Linhas na horizontal, na vertical, em círculos. E lia aquilo pra eles. Lia não, porque eu não sabia ler. Inventava que estava lendo. Ali estava surgindo, ao mesmo tempo, o jornalista e o escritor. Então meu pai, me vendo grudado em tudo que era papel impresso, vendo aqueles signos mágicos me fascinarem, me perguntou: “O que pretendes fazer na vida?” Sem titubear, respondi: “Ler e escrever”. Minha mãe, que era uma mulher sensível, disse: “Não vai ser fácil”. E meu pai: “Fácil não vai ser, mas se ele persistir, conseguirá”. Então, uma palavra que me acompanha toda a vida é “persistir.”
      “Para falar a verdade, se eu tivesse uma formação acadêmica, gostaria de ter sido crítico e ensaísta. João Cabral dizia a mesma coisa. Mas acho que tive o bom senso de sempre escrever muito e rasgar mais do que publiquei. Rasguei muito mais do que publiquei. Tanto que, para os nossos padrões, pelo menos para os da minha juventude, comecei muito tarde. Passei a infância e a adolescência em Biguaçu — tanto que costumo dizer que sou um líbano-biguaçuense — e só comecei a publicar em Florianópolis. Nos anos 40, a capital catarinense tinha quatro jornais. Hoje, só tem um. (…) Ao mesmo tempo em que eu publicava algumas crônicas nos jornais, já começava a escrever o que chamo de “anotações sobre leituras”. De repente, me disse assim: “Já que estou fazendo crônicas — e a crônica é meio caminho para o conto —, por que não chego ao conto?”. Daí, comecei a publicar contos. Meu primeiro livro é de 1951. Chama-se Velhice e outros contos, pois sempre me preocupou o tema da velhice, da morte, do tempo e da memória. Devo esse livro ao IBGE. Não ganhei dinheiro trabalhando para o senso demográfico de 1950, mas cinco dos oito contos desse livro, inclusive os três Velhice — Velhice 1Velhice 2Velhice 3 —, resultaram de conversas com pessoas que fui recensear."
Verdade,   para ser escritor é preciso vocação e talento. Vocação manifesta-se na persistência daquilo que o verdadeiro escritor não pode passar na vida sem ela, sob pena de sucumbir com todo o peso terrestre e, frustrado, configure a sua incapacidade para produzir a obra de qualidade resultante do ofício que abraçou.  O talento manifesta-se na sensibilidade e capacidade que o escritor possui para transformar emoções e razões  em eficazes criações literárias.
 Persistência (vocação) e talento (sensibilidade), Salim  Miguel demonstrou que possuía através de sua experiência de vida.  Demonstrou estar longe  longe de possuir apenas a síndrome literária,  que forja o pensamento de quem acha que não é necessário ler muito, escrever muito, persistir  para produzir obras de qualidades.  Persistência, talento, leitura e sentimento do mundo foram elementos imprescindíveis que fizeram acontecer o escritor  Salim Miguel.  A literatura ficou  mais rica com suas criações, resultantes de uma experiência de vida, com provando assim que em literatura quem é bom fica, vivo ou morto.    


·         Cyro de Mattos é escritor e poeta.