O dia depois de amanhã

                   
                         
Sônia Carvalho de Almeida Maron*

O momento vivido pelo Brasil não comporta comemorações. Ao contrário, permanece a apreensão decorrente da expectativa das medidas urgentes a serem implementadas para minimizar as consequências do desastre econômico e administrativo imposto por um governo irresponsável e inconsequente. Daí o título escolhido para o artigo, inspirado no filme de Rolland Emmerich The day after tomorrow, que pertence aos clássicos da ficção científica cinematográfica.  O filme transporta o publico para as conseqüências dos desafios à natureza causados pelo aquecimento global.  O enredo, recheado de excelentes efeitos especiais, apresenta uma nova era glacial  congelando todo o hemisfério norte e retrata o drama vivido pelos sobreviventes na luta para enfrentar e vencer a intempérie, bem como  os primeiros passos para administrar as sobras da destruição implacável. Qualquer semelhança é mera coincidência...
O Brasil viveu um pesadelo populista, alimentado por narrativas e dados ilusórios. Nem mesmo os dias de chumbo dos governos militares vencidos pela desaprovação do povo brasileiro através do movimento das “Diretas já”, causou um prejuízo tão grande à economia do país e à sua posição entre os países que cultuam a democracia.  Preservando o ordenamento jurídico e o pleno funcionamento das instituições  ficou bem claro o repúdio do nosso povo ao autoritarismo, venha de onde vier. O discurso vazio,  fantasioso e medíocre que os dirigentes ora afastados do poder apresentaram durante treze anos, propositalmente ocultou os incontáveis cidadãos brasileiros que sofreram as conseqüências  de  um golpe  militar e passaram a compor, para os lulopetistas, a “elite inimiga”. Muitos desses brasileiros, entre os quais pontifica Fernando Henrique Cardoso, foram obrigados a deixar o país durante o regime militar.  Restabelecida a democracia, voltaram a  participar da vida pública deixando um legado admirável de um país respeitado que se destacava no cenário mundial pelo respeito à lei e às instituições como marco civilizatório da segurança jurídica tão necessária à paz social. 
Os dirigentes investigados e denunciados   não souberam aproveitar o momento mágico vivido por um país em ordem e demonstrando visíveis sinais de progresso. E meteram os pés pelas mãos. Estamos administrando o que restou da tempestade, inclusive o desalento, a desconfiança, o descrédito que deixaram como herança, maculando os políticos.  A  bem da verdade, nossos políticos nunca foram santos. Mas não podem ser considerados demônios. As exceções existem e muitos merecem a confiança e o respeito dos brasileiros.
  É forçoso reconhecer que nas casas legislativas ainda existem políticos dotados de consciência crítica e sem o vírus da paixão político-partidária. Ainda existem políticos esclarecidos que entendem o significado do sufrágio popular e do Poder Legislativo (com iniciais maiúsculas) no estado de direito. Os interesses pessoais e inconfessáveis de alguns hão de ceder  diante da necessidade de colaborar para o soerguimento do país. Afinal, estamos todos no mesmo barco. 
Retomando os enredos cinematográficos como exemplo,  diria que conseguimos desviar nosso Titanic do iceberg e nossa história não terá o final trágico do filme.  Precisamos  da colaboração de todos para afastar os obstáculos que possam surgir na rota traçada pelo bom senso. Nosso navio, bastante avariado, não suportaria outra colisão. Todos os brasileiros, sem exceção, seriam sacrificados. Principalmente aqueles que não aceitam as regras do procedimento de emergência da equipe de salvamento e são exatamente os mais vulneráveis e carentes que se prestam às manipulações e foram transformados em consumidores imaginando que se tornaram cidadãos. Precisam de educação, saúde e emprego e receberam esmolas. Se as conquistas sociais estão garantidas, esperamos que os beneficiários sejam  tratados com dignidade e respeito e comecem a conviver com uma realidade transformadora. As manobras para salvar náufragos e navios avariados  são cruentas e dolorosas,  todos sabem. O importante é sobreviver sob outro comando, evitando motins e  recuperando o rumo perdido. 

*  Ex-aluna do Ginásio Divina Providência
Professora aposentada da UESC
Juíza de Direito aposentada do TJ-BA
Presidente da Academia de Letras de Itabuna - ALITA