EDIÇÃO ESPECIAL DE ANIVERSÁRIO DE ITABUNA- 28 DE JULHO DE 2016







 O MELHOR RIO DO MUNDO

             Cyro de Mattos

Meu novo amigo tinha mudado para a nossa rua há alguns dias. Usava óculos de grau e era metido a saber das coisas. Ele me revelou  que era o primeiro da classe no colégio onde estudara antes de mudar de cidade. Mostrou-se logo com aqueles ares  compenetrados entre os novos companheiros, querendo passar por um  grande conhecedor dos assuntos ligados à Geografia, mas tudo que ele falava para ressaltar a importância dos rios na história dos povos eu já sabia. Nada do que falava sobre os rios impressionava-me porque  a matéria que mais gostava na escola era Geografia..
Bastava ele  se encontrar comigo para puxar conversa sobre os rios. Dizia numa voz pedante que os  homens sempre tiveram atração pelas águas, acrescentando que as grandes civilizações nasceram e se desenvolveram às margens de um rio. Lembrava  que  o Amazonas com o seu mundo de água era um rio-mar. O  Nilo era uma dádiva porque deixava as  terras ribeirinhas fertilizadas depois de cada cheia, tornando-as as melhores do Egito para o plantio das lavouras. O milagre do Nilo beneficiava os agricultores e milhares de pessoas, observava prazerosamente. Eu ficava calado, ouvindo-o sem contestar o que ele dizia e procurava mudar de assunto.
Não se dava por vencido quando percebia que eu não me importava nem um pouco com o que ele dizia sobre os rios. Voltava de novo ao assunto, lembrando agora que grandes cidades brasileiras ficavam às margens de rios famosos, como São Paulo e o Tietê, Porto Alegre e o Guaíba, Manaus e o Amazonas, Recife e o Capibaribe. Aqueles rios, sim,  mereciam ser admirados e não  aquele riozinho que passava em minha cidade, que mal se prestava  a ser navegado por canoa  e que virava  um desses riachos pequenos correndo  entre as pedras quando o verão era seco e prolongado.
 O rio que cortava minha cidade em duas bandas,  o velho Cachoeira, como algumas   das pessoas mais velhas gostavam de chamá-lo, era para mim o maior e o melhor do mundo. Meu novo amigo não me trouxesse o Amazonas com o seu mundo de água nem o Nilo com suas dádivas. Um rio que passava como um bicho sem tamanho na enchente, levando nas costas tronco de árvore, bicho morto, soprando seus ventos alegres no meu peito e dos amigos quando era tempo de estiagem,  somente esse  me bastava nas manhãs e tardes ensolaradas.
Aprendi a nadar nas suas águas mansas,  mergulhar no raso e no fundo,  saltar dos barrancos altos como se esses fossem trampolins improvisados. Para não falar das pescarias, de anzol ou de rede, quando sempre pegava muito peixe.
Eu era quem melhor saltava dos barrancos do meu rio. Dava  cada salto mortal que no mesmo instante arrancava  aplausos dos amigos  que estavam assistindo aos que tinham coragem de pular do barranco para o poço da Pedra do Gelo. Tanto os que tinham medo de saltar do barranco como os que saltavam, afoitos, não entendiam como meu corpo depois do salto  penetrava na  água  sem quase fazer barulho. 
        Só não via quem fosse cego que as lavadeiras, os areeiros, os aguadeiros e os pescadores tiravam  das águas do Cachoeira o sustento de suas famílias. Meu rio dava  um  espetáculo bonito de se ver quando as lavadeiras estendiam as roupas sobre as pedras pretas, colorindo-as. Depois da cheia, os areeiros escavavam o leito generoso do velho Cachoeira, quando então retiravam com a pá a areia  dos trechos mais rasos. Os jumentos levavam para as construções, que iam surgindo em vários pontos da cidade, as cargas de areia nas latas. Os pescadores traziam as canoas cheias de peixe graúdo, indo vendê-lo nas pensões e nas   casas das famílias, todos os dias.
Quanto ao meu rio só poder ser navegável por canoa, comecei a me preocupar sobre  tal situação  de uns dias para cá. Realmente eram aquelas pedras grandes, espalhadas em muitos trechos, que impediam que as águas de meu rio fossem navegadas  por embarcações maiores, como saveiro, lancha, barco e até navio. Nesse ponto achava que meu amigo mais novo tinha até razão quando apontava isso como uma das coisas desagradáveis  do meu rio. Infelizmente tinha que concordar com ele. 
Fui ficando cada vez mais preocupado com aquela situação que me deixava abatido quando ia admirar da balaustrada do jardim  a passagem do meu rio.  Não me conformava em saber, por exemplo,  que  nunca ia  viajar numa embarcação grande rumo ao mar de Ilhéus,  em razão daquelas inúmeras pedras pretas que brotavam do leito de meu rio. Mas como encontrar uma maneira pela qual o Cachoeira se tornasse  navegável por embarcações maiores do que uma  canoa?
Depois de muito pensar sobre o assunto,   tive uma idéia que me pareceu chegar em boa hora. Para retirar tantas pedras do rio Cachoeira, fazendo com que ele se tornasse navegável por qualquer tipo de embarcação grande,  só usando daquelas bombas que estremeciam a terra quando explodiam nas pedreiras. Claro que isso tinha que ser feito com o maior cuidado para que fosse evitada a morte  das pessoas que viviam do rio e também dos peixes. Mas quem  seria capaz de  executar tamanha proeza?
Aí me lembrei que na cidade apenas uma pessoa  podia realizar essa grande proeza. Só mesmo o Prefeito, mais ninguém. Mas logo encontrei um obstáculo impedindo  que levasse minha idéia adiante. Era que o prefeito atual pertencia ao partido da oposição e, por isso mesmo,  não ia atender a um  pedido importante como esse  feito por um menino filho do secretário do partido da situação.
Para que a minha idéia desse certo e, finalmente, o rio Cachoeira se tornasse navegável por embarcações grandes, era preciso primeiro que o prefeito fosse do  partido de meu pai.  Amanheci pensando em resolver o problema, valendo-me de outra idéia, que me pareceu tão luminosa quanto à primeira. As eleições para prefeito naquele ano iam ocorrer dali a um mês, e todos na cidade sabiam que geralmente saía vencedor aquele candidato que fizesse  as promessas maiores ao povo.
Fui então falar com meu pai, que havia acabado de ler o jornal e já ia ligar o rádio para ouvir as notícias do Brasil e do mundo, transmitidas pelo Repórter Esso,   por volta das 7 horas da noite.
Disse ao meu pai:
- Já sei como tio Alfredo pode ganhar as eleições para prefeito.
            Com a cara de espanto, meu pai fez que não entendeu  nada do que eu falei.
             - Como assim?.
             -  É só  ele fazer uma promessa que deixe todo mundo pasmado como nunca acontecera.



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ITABUNA, MINHA CIDADE


Margarida Fael

Todas as cidades têm suas histórias. Algumas mais belas, plenas de lutas, de atos de coragem; outras carregam sofrimentos e vivem por aí, a pedir perdão. Muitas são cheias de curiosidades, de "causos " inesquecíveis... Outras carregam tudo isso junto em sua bagagem. Itabuna, todos conhecemos, tem uma história curiosa. A nossa Taboca, estão aí os nossos cronistas e historiadores, tem muito o que contar. Mas ela nasceu bonita: nasceu da vontade de um homem, retirante que era, que para cá veio e levantou sua casa, plantou sua roça, agregou sua família. Nasceu bonita, sim! Muitas dores e tristezas, trapaças e traições aqui se fizeram depois e mancharam seu caminhar. Mas este ainda é, até hoje, o caminhar do homem sobre a terra. Aqui ou acolá, ontem, como hoje.
Porém, há uma Itabuna guardada em mim, guardada em muitos e muitos de nós que aqui vivemos e labutamos. Há uma Itabuna doce e querida: aquela de um rio belo e majestoso,
onde os acaris alimentavam os que nada tinham; aquele rio que, embora algumas vezes se levantasse como um monstro, lambendo furiosamente tudo a sua volta, era oferta de margens brancas de areia, era lajedo limpo e oferecido às lavadeiras que ali cantavam seus cantos de dor, ou suas modinhas de alegria...Itabuna eram os boninais floridos, enfeitando as ruas, mesmo aquelas escuras e mal calçadas; era a velha Matriz,badalando seu chamado para a Ave Maria de todo dia.Itabuna era o Colégio da Divina Providência, diplomando as primeira normalistas desta terra. Era uma saudosa Ação Fraternal de Itabuna, com suas meninas de azul e branco e seus corações  plantando sonhos e esperanças... Tanta, tanta coisa era a nossa Itabuna! Belos jardins floridos,os Guardas Municipais nem precisavam sair de suas posições de sentinelas : as flores ficavam ali, respeitadas em sua beleza... Tanta, tanta coisa ela foi!
 E hoje? Cresceu, avolumou-se, esticou-se para todos os lados, subiu morros e encostas.Espichou-se a mais não poder... Caminhou, caminhou... Esqueceu-se do rio, esqueceu-se das flores; boninais, ninguém mais os conhece. Construiu arranha-céus, e o rio? O rio, esquecido se tornou. É verdade que Itabuna construiu um bonito shopping, com nome de madeira rica que nem mais existe. Em suas ruas quase já não espaço para caminhadas lentas e para olhar o céu. Todos os passos se apertam , pois os carros estão a buscar espaço. Itabuna se modernizou! Para isso, teve que abdicar de sua alma, do seu caráter, de seus sonhos, de sua beleza...
E ficamos todos, seus filhos presentes e ausentes, com uma Itabuna apenas gravada na memória. E desistimos? E as nossas mãos, estão duras e inertes, incapazes do movimento? E as nossas vozes, estão mudas, perderam-se num país de desencantos?
Penso, no entanto, que sempre há e haverá, desde que estendamos nossos braços e soltemos nossa voz, uma Itabuna que espera, que está à espreita, imaginando-se mais bela e ordeira; esperando que desembrulhemos sua alma , escondida por tanto na inércia, escondida nos interesses e intenções às vezes obscuras, em tantos braços que se cruzaram.
Sim. Itabuna aqui está à espreita. Olhos abertos de desejo e sonhos nunca esquecidos! E espera nossa voz!

Margarida Cordeiro Fahel 
Professora de Literatura Brasileira da UESC ( Aposentada)

Autora do romance "Nas Dobras do Tempo", Editora Mondrongo.



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PARA SE CONHECER UMA CIADADE...

                                                                     Por Lurdes Bertol Rocha

Olhar para a cidade pode dar um prazer especial, por mais comum que possa parecer o panorama. 
                                                                                 Kevin Lynch
                                                                 
         Para se conhecer uma cidade é mister conhecer sua alma. E o que é a alma de uma cidade? Oliveira diz que "a alma de uma cidade é tudo que se passa dentro dela" (Jornal Agora, 28 de julho de 1999, p. 2). Para ele, fazem parte da alma da cidade os bares, os loucos, os poetas, os boêmios, as crianças, os pássaros, o povo, as ruas, as praças, os bairros. Enfim, a alma da cidade tem cheiro de povo, pois uma cidade não existe sem o povo e para o povo. E, se a cidade tem gente, tem alma. E a alma é viva, causa movimento, agitação. Se tem alma, tem vida. Se tem vida, tem alma. E isto se faz visível através do cotidiano da cidade, através do mundo vivido e experienciado por seus habitantes que sabem disso, sentem isso.  
A cidade se constitui no lugar de cada um.  Se é o lugar, significa afeto, gostar de estar, preservar, cuidar (topofilia). O centro da cidade é a sala de visitas desse lugar. E a sala de visitas é, ou pelo menos deveria ser, o lugar mais bonito da casa. Apesar de os moradores de Itabuna sentirem amor por sua cidade, sua sala de visitas precisa urgentemente ser recuperada, serem revitalizados seus espaços/lugares/signos: monumentos, praças, ruas. Reconstruir. Senão, como fazer a leitura da história/geografia, da memória da cidade, se os registros que lhe deveriam dar acesso encontram-se maltratados pelo descaso/desconhecimento de seus moradores? Transformar-se-á, por certo, numa cidade sem alma. Uma cidade sem alma é uma cidade fantasma. Urge, portanto, reavivar a alma da cidade de Itabuna. Isto é tarefa do poder público, do poder privado, da comunidade; enfim, de todos. É mister que cada um cuide de sua casa, de sua rua, de seu pedaço, de seu lugar. 
Pode-se afirmar que a o amor ao lugar faz parte da vida das pessoas, vivam elas na cidade ou não. Quem é que não sente a magia de uma praça, de algumas ruas históricas, paços públicos, monumentos? Desde o farfalhar das folhas na praça, o barulho de água corrente numa fonte, o canto de pássaros, as festejos das tradições folclóricas e históricas, os sons das crianças brincando, demarcam sítios arqueológicos vivos na memória de quem retorna a seu lugar depois de se ausentar por algum tempo. 
A cidade parece ser, em si mesma, a memória viva de um povo, de um clã, de uma etnia, determinada por seus feitos, num certo período do tempo e do espaço. Pode-se dizer, ainda, que a aura de uma cidade é o reflexo de como vivem seus cidadãos, que fala numa linguagem sutil, não verbal, das subjetividades expressas em forma de ruas, praças, museus, jardins, bosques, pontes. 
Cada habitante de Itabuna é responsável pelo bem estar da alma de sua cidade. Como? Cuidando de sua rua, de sua calçada, dos monumentos, das praças, dos espaços públicos em geral. Neste seu aniversário de 106 anos de emancipação política, que ela receba, como presente de seus filhos naturais ou adotivos, a promessa de que farão tudo para que ela esteja sempre bem cuidada, florida, alegre, receptiva e amada.  

(Fonte: Baseado no livro “O centro da cidade de Itabuna: trajetória, signos e significados”. Lurdes Bertol Rocha). 







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 ITABUNA
                                                                Ceres Marylise Rebouças

                        Os meus olhos são os mesmos
             Desse teu rio rasgando
      Avenidas de omissão
  E desprezo dos humanos.


                             São os mesmos de tuas matas
                 Hoje, escuras paisagens
           Padecendo na inclemência
  De uma longa estiagem.


                                 São os mesmos dos teus frutos,
                       Frutos do ouro, outrora
       Destruídos pelos NÓS
  Que lembram insana história.


                        São nossas tuas feridas
                   Provocadas por carências,
          Abandonos, retrocessos,
   De quem jurou tuas crenças.


                     Mas o teu povo acredita
              E na esperança persiste
       Para que brilhes de novo
Com a força que em ti resiste.


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Documentário ITABUNA 100 ANOS- A História Contada

Direção: Raquel Rocha




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INVENÇÃO POÉTICA: UM ESPAÇO DE LIBERDADE?
         Literatura grapiúna – uma reflexão


Maria de Lourdes Netto Simões*


Com o propósito de provocação, começo perguntando: Escrita literária será espaço de liberdade? Que liberdade tem um artista ao  inventar a sua obra? Deve submeter-se a regras?  Deve ousar?  Seguir escolas, grupos?  Que escolas, quais grupos?   Até onde vai a sua liberdade? Há limites?

Como sabemos, uma das  pretensões mais firmes desses tempos é a  rejeição a quaisquer critérios canônicos de valor.  Não existe texto fechado, desde quando  o espaço concedido ao leitor dá-lhe a liberdade de re-significações. Não existe última versão autoral, se cada versão consiste em novo momento enunciativo. Com os recursos da mídia e a velocidade dos tempos, a literatura é representação, mas também se faz em apresentação, acontecendo...

Falar sobre espaço de liberdade da escrita literária exige refletir no que pensam os ficcionistas e poetas sobre o ato da escrita.  Exige, também, que consideremos a mudança do pensar o fazer poético de tempos em tempos; desde a ideia do poeta como ser  inacessível, que tem o sopro divino; ao poeta de inspiração e transpiração;  àquele que não cria mas produz, dizendo de outra forma; ao da auto-reflexividade poética, etc, etc...   Essas várias formas de ver a liberdade autoral exigem uma reflexão sobre  a  gênese literária. Cada obra cria o seu próprio gênero, diz Todorov (1978). 

Acreditamos que as vivências do autor são fundamentais para o seu processo de criação/produção poética?  Consideramos que o imaginário é alimentado do vivido e do vivível? Consideramos que as versões de um mesmo texto, em verdade, são processos enunciativos diversos? Nesse caso, a última vontade autoral vale tanto quanto a primeira?  Essas são algumas questões que levanto quanto observo o processo de alguns escritores.

O quê é mesmo matéria ficcional ou poética?  O quê houve  e o quê poderia ter havido? O vivido e o vivível  fazem o imaginário que  se concretiza, pela palavra,  em literatura?  Tudo isso implica em espaço de liberdade?
Que dizer sobre o retorno do referente  (Peter  Brooks, 1983)? Como olhar o processo paródico (intertextual e irônico) senão entendendo que não mais cabe  uma postura inocente  quanto a linguagens e tipos de discursos.   Concordamos com a idéia de que tudo já foi dito, resta-nos dizer de outra forma?
Que busca o leitor contemporâneo ao ler um livro ficcional? Italo Calvino (1989) preconizou, nas suas Seis Propostas, o tipo de linguagem que interessaria ao leitor deste milênio: Leveza, rapidez, visibilidade, multiplicidade, exatidão,  e consistência.  A liberdade do autor considerará isso?

Todos esses questionamentos implicam  em reflexão  sobre a liberdade de invenção poética, que aqui quero somente suscitar, sem respostas definitivas. Não caberia, claro!


Então quem é o autor?   Qual a sua matéria prima?
Até bem pouco tempo falava-se na morte do autor.  Hoje, o autor recupera o seu espaço, em múltiplos  questionamentos.

Quando do seu doutoramento honoris causa na UFMG, José Saramago dizia  da sua idéia  entre narrador e autor, negando o primeiro e afirmando o segundo.  No seu discurso, chega a afirmar que "provavelmente o leitor não lê o romance, lê o romancista"  (1999, 25). Retoma a declaração de Flaubert: “Madame Bovary sou eu”, e diz ter Flaubert esquecido de também dizer que ele era o marido e os amantes de Emma Bovary. Quer com isso afirmar que um autor é os seus personagens. Assim ele, Saramago, é Blimunda,  e  é Baltasar, em Memorial do Convento. E em Evangelho Segundo Jesus Cristo, diz ele, "não sou apenas Jesus ou Maria Madalena, ou José e Maria, porque sou também Deus e o Diabo que lá estão..." (1999, 25). 

No discurso de posse da Academia Brasileira de Letras, Adonias Filho declara a sua inspiração vinda da terra, das suas memórias. Declara que, voltando no tempo vivido, é o menino quem em verdade escreve: a fábula regional, as vozes, as figuras. Testemunho.  Da mesma forma, Jorge Amado recorre à memória da sua infância nas terras do cacau para escrever a sua saga. Convicto da importância da vivência nos seus processos ficcionais, esses escritores das terras do cacau, no entanto,  tomam o seu espaço de escrita por perspectivas de liberdade diversas. Enquanto o primeiro faz a escrita por artesanato da palavra, o outro é um contador de histórias.  Ambos contam a saga do Cacau por espaços de liberdades diversos. Assim também quando Hélio Pólvora ou Cyro de Mattos (e tantos outros) narram histórias do cacau, certamente eles trazem as suas memórias ouvidas e vividas. Ainda, a africanidade  temática da ficção de Ruy Póvoas traz a memória das suas origens, vivências em “fingimento” da vida. Margarida Fahel, em Nas Dobras do Tempo, chega mesmo a se questionar como lhe chegam os fatos? E Ritinha Dantas que afirma a sua “alma grapiúna”, quando conta/pede Bença Vó! Esses são alguns exemplos deste chão grapiúna, através dos quais busco pensar a liberdade autoral e interpretar a apropriação discursiva dos personagens criados.

Cada personagem tem um pouco do autor?  mas nenhum é ele mesmo!! Sim, é bem como quando Fernando Pessoa diz:  “o poeta é um fingidor,  finge tão completamente / que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente". Se observarmos,   veremos que  não há  contradição em relação ao que afirma Saramago: "Do fingimento de verdade e de verdades de fingimento se fazem, pois, as histórias" (id: 24). Mas José Saramago acrescenta  que,  ao ler um livro, mais do que a história apresentada, o leitor vai em busca "da pessoa invisível, mas onipresente, do autor".  Por isso, também, a sua identificação com todos os personagens que cria. São todos: ele.  De resto, "a literatura (como toda obra de arte) é assim a "expressão mais ambiciosa de uma parcela identificada  da humanidade, isto é, o seu autor"

Além da sua liberdade de escolha, o  quê leva um escritor a escrever sobre um tema?
Desde sempre, a pergunta se  impôs para mim. Quando escrevia sobre a antologia Itabuna, Chão de minhas Raízes (1996), organizada por Cyro de Mattos, perguntei-me então: que motivos suscitaram, nos anos 90, a retomada do tema do cacau na literatura grapiúna? - fazer com que os mais jovens conhecessem a história?  E o quê levou o organizador a se ocupar de uma cidade, no caso Itabuna? Homenagem? Relembrança de uma época?  Naquele então, afirmei (e hoje reafirmo) que o cantar uma “aldeia” é sempre o contar a alma de um povo: seus anseios, seus sofrimentos suas alegrias seu cotidiano, sua história; vivências retidas na memória, lembranças ou perspectivas de um tempo, redimensionadas pelo imaginário e tornadas literatura.

No caso dos textos reunidos na referida antologia (e pela temática, cito essa em meio a tantas outras), os textos vão desde o arraial de Tabocas até a sua condição de cidade. Retomam os tempos de conquistas das terras, passando pelo apogeu do cacau, até os tempos mais difíceis. Tematizam paisagens, espaços, fatos e pessoas. Percorrem a história de Itabuna, da época das velhas marinetes e da estrada de ferro. Falam de um “burgo de penetração, pois que nasceu como centro de estradas” (Adonias Filho). Abordam tempos da prosperidade e do poderio do coronel do cacau e dos empresários habitantes do bairro Goes Calmon. Chegam até aos tempos de crise. Assim, marcas e características da cidade e do povo (referentes do real) são identificados nos espaços revisitados, nos personagens transmudados pela ficção.

E o questionamento persiste:
Como ocorre a liberdade autoral na escolha dessa ou daquela expressão, frase, versão? Podemos, nós leitores, precisar a intenção autoral?  E quando se trata de manuscritos literários: qual a intenção autoral se temos duas ou mais versões de um mesmo texto?  por que a reescrita de um mesmo texto? a busca  da perfeição poética, a procura da melhor palavra? 

Reporto-me à concepção de escrita de Valdelice Pinheiro, poetisa itabunense, falecida (1993), que deixou inéditos nos quais trabalhei e resultaram na publicação do livro Expressão Poética de Valdelice Pinheiro (2002). Eminentemente filosófica desde o seu processo de enunciação até à concretude da sua formulação, muitas vezes antecede ao processo de produção uma reflexão filosófica.  Nesse sentido, textos filosóficos são verdadeiras matrizes de poemas  ou de prosas poéticas.

A própria poetisa diz sobre a sua poesia: “é simples, toda nascida de uma linguagem cotidiana, sem rebuscos. Por isso o povo gosta dela, embora às vezes o sentido de alguns poemas seja até metafísico. Acho que se se entende a palavra, sente-se o conteúdo do poema”.  Super realistas, para ela, artistas são aqueles que vêem “a explosão de uma semente e ouvem uma flor se abrir”. “o poeta, como o filósofo, é esse micróbio que conhece as entranhas”. "Só pode haver criação sobre uma existência anterior", diz Valdelice.

O texto "Retomada" (SIMÕES, 2002, p. 136) é um exercício de auto-reflexão sobre o processo criador.  Valdelice  ocupa-se dele  simultaneamente ao seu fazer poético.   Esses escritos de auto-interpretação são  explicativos do seu processo poético e podem ser tomados como uma proposta de  teoria da poesia.  Para V.P., escrever é libertar-se.  O texto nasce do silêncio, diz a poetisa, de uma voz interior impulsionadora. Essa Voz (com maiúscula), diz ela, não “a simples voz, um som emitido pela competência do aparelho fonador, mas a Voz, a VOZ, aquilo que sem dúvida não me antecipa mas é certamente o que me diz. A Voz... Esse silêncio que chega aflito, precisando do grito, tem que inventar o som...”.  O processo de surgimento do poema passa pela fase do que chama de “mundo das idéias”, fase essa expressada através de desenhos.  São retas, curvas, espirais que dão surgimento a inesperadas formas e em seguida ao poema.  Nesse instante, “a voz  tira a lógica, o juízo, desregula o comportamento do vocabulário”.  Assim nasce  o poema: Se a carambola/ tivesse dedos/ tocaria Mozart,/ certamente.

Poesia e desenhos (rabiscos, como ela prefere chamar) expressam a sua forma de comunicar, compondo um processo artístico que ultrapassa a palavra para uma comunicabilidade visual, que certamente dará  mais leveza, rapidez e visibilidade ao texto.
Valdelice é um exemplo de que, nesses tempos, a liberdade da escrita não se limita à palavra. A liberdade vai além, passando pelo visual, pelo estrutural; enfim, a liberdade abrange toda uma concepção artística comunicadora.

                                                                 
Sem uma resposta definitiva às perguntas aqui lançadas, no entanto, os exemplos dizem muito. É ler e reler essa rica literatura grapiúna para outras  questões se colocarem.  E, chegando aos mais novos escritores, o leitor vai identificar outras questões mais... que a arte não se limita a espaço e tempo...   

Então, qual a temática pulsante destes novos tempos? Quais caminhos de escrita? Essa pergunta fica em aberto para próximas reflexões.


                                                         Itabuna, julho de 2016.


Pós-Doc em Estudos Portugueses, pela Universidade de Lisboa. Comendadora da Ordem do Ensino – Portugal.  Professora Titular de Literatura Portuguesa/ UESC, aposentada.

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EU, MENINA, ITABUNA



                                           Sione Maria Porto de Oliveira

Nos idos anos sessenta,
Desabrochando como rosa perfumada,
Descia a Benjamin Constant
Em direção a Praça Adami,
Em algazarra com minhas amigas delicadas.

Sorridentes,
Percorríamos o caminho para Praça Olinto Leone
Onde ficava o antigo jardim dos namorados,
Do tradicional Itabuna Club.

Sorvo as lembranças como hoje,
Daquelas noites enluaradas
Onde os belos rapazolas perfumados
Impressionavam tragando cigarro Minister
Que saudade!

Oh Itabuna feliz de outrora!
Sonolenta e sem violência
Tranquilamente nos transmitia,
Seu ar de paz e plenitude se sua flora.

Pujava a lavoura do cacau,
Que cada vez mais lúdica crescia
Lembro dos bravos cacauicultores
Emanados de amor pela sua terra

Com fé doavam grandes quantias
A ilustre dona senhora
Benemérita, para São José!
Que bem merecia.

Hoje teus valentes filhos lamentam
O que do teu chão podre resvala,
Deixados sobre seus ombros
E choram...

Do historiador Arlindo Kfoury, aprendi
Que o governador da Bahia João Ferreira Pinho,
Em 28 de julho de 1910, através da Lei 807,
Fez-te a mais bela emancipada!

Faltava um nome que a qualificasse,
Vários surgiram para substituir tabocas,
Da sugestão do biscateiro João colete
Que gritou bota da lavadeira Maria Buna.



Salve ita una, nossa pedra preta.
Que enfeitada as margens do nosso Rio Cachoeira,
Que agoniza pedindo socorro,
Sem eco, morrendo aos poucos...

Oh Itabuna querida!
Nunca ninguém te amou como eu,
Do saudoso nome da lavadeira,
Tu te tornaste a mais bela, Itabuna!


Sione Maria Porto de Oliveira
Delegada de Policia, Membro da Academia de Letras de Itabuna