DESPEDIDA DO BISPO DA DIOCESE DE ITABUNA DOM CESLAU STANULA 31.03.2017

Por Sônia Carvalho de Almeida Maron




 Dom Ceslau Stanula, muito amado Bispo da Diocese de Itabuna, que saúdo como representante de todas as autoridades eclesiásticas presentes; autoridades civis e militares presentes ou representadas; meus irmãos em Cristo, rebanho do pastor que ora se despede.
          Minha vida tem sido pontuada de episódios de desafios e também superação conseguida com a ajuda de Deus e da fé. Hoje estou diante de um dos maiores desafios já enfrentados, que se traduz no convite indeclinável da Dra. Mércia Margotto, para participar desta cerimônia com a incumbência honrosa de comentar um dos aspectos da personalidade multifacetada do nosso Bispo: Dom Ceslau, o verdadeiro pastor de almas que conquistou todos os segmentos sociais de Itabuna, é também escritor.
         Aceitei de imediato, cometendo o pecado de não questionar se eu teria legitimidade para assumir o encargo, não sendo a católica praticante ideal, com o comparecimento rigoroso às cerimônias e rituais da religião que professamos. Ou mesmo se teria bagagem para comentar a obra de um religioso redentorista que se tornou cidadão do mundo e renomado intelectual. Uma rigorosa autocrítica levou-me à conclusão que a profunda estima e admiração que voto ao homenageado impediria a recusa, além da amizade e carinho à coordenadora do evento. Não tenho a pretensão de apresentar uma crítica literária. Aceitei sem hesitação porque me considero com raízes profundas fincadas neste chão de Itabuna; aqui iniciei e conclui minha formação e sou testemunha, há muitas décadas, dos piores e melhores momentos que minha cidade viveu; aceitei para não perder a oportunidade de lembrar que, ainda criança, testemunhei os comentários sobre o projeto da catedral, partidos do engenheiro Diógenes Rebouças, marido da minha prima Dulce Almeida Conceição Rebouças, na residência da minha tia-avó Alaide Almeida Conceição, aqui bem perto, na rua Ruffo Galvão, à época rua Benjamin Constant. Em outro momento, fui uma das adolescentes da “Campanha do Cruzeiro”, grupo de voluntárias que D.Laura Conceição criou com a finalidade de arrecadar contribuições para a construção desta catedral,  que deve a bonita aparência, que hoje ostenta, à coragem e determinação de Monsenhor Moisés de Souza; aceitei porque não hesitaria em dizer, como digo, que Dom Ceslau Stanula, entre todos os administradores da Diocese de Itabuna, será sempre o exemplo do líder religioso e cidadão que se fez amar naturalmente, participando da vida da comunidade como emissário da paz e da concórdia. Aceitei principalmente para dizer que a presença do nosso pastor transmitiu, por todos esses anos, a força e energia necessárias ao enfrentamento das intempéries, garantindo a esperança de dias melhores na sua mensagem de fé, que nos faz acreditar ser tudo possível àquele que confia na proteção divina.
         Dom Ceslau Stanula, missionário redentorista de nacionalidade polonesa, escolheu o Brasil como sua pátria. Culto, dotado de simpatia e simplicidade incomuns, conquistou  credibilidade e respeito facilmente, até mesmo dos que professam religiões diversas, ateus e agnósticos. Dom Ceslau é sobretudo um homem de fé. E como homem de fé, Ministro de Cristo, concebeu e vem cumprindo sua trajetória como escritor.
         Em suas reflexões, imortalizadas em artigos e livros, mantém a inspiração religiosa e, com o matiz da Teologia, revela seu vastíssimo conhecimento como sociólogo, filósofo, historiador e cientista político, pensador brilhante preocupado em preservar princípios e valores que  servem de esteio à sociedade e que estão gravados na mente e no coração do verdadeiro cidadão.
         A personalidade do Bispo-escritor começa a delinear-se a partir da escolha da editora. Qualquer grande editora sentir-se-ia honrada em publicar o trabalho de um intelectual de seu porte. Preferiu a Gráfica e Editora Bom Jesus, da sua amada Diocese de Bom Jesus da Lapa.
         Seu primeiro livro, O Cotidiano da Igreja, publicado em 2009, é dedicado à memória do  Irmão Emílio, missionário redentorista e à Diocese de Itabuna, sacerdotes e fiéis. Na página 42, comentando a Campanha da Fraternidade, encontramos o seguinte:

“A deficiência não é um problema apenas para uma   determinada faixa de pessoas. Na realidade todos temos alguma deficiência. A nossa grande deficiência é deixar-se fascinar pelas aparências. As pessoas gostam de aparecer... paira a pergunta: onde anda a verdade, a retidão do coração? Já é tempo para que a sociedade tire a máscara e mostre seu verdadeiro rosto.”

         Em 2010 foi publicado Em sintonia com a Igreja. Na página 110, comentando a “semana nacional da vida”, filia-se à campanha pela doação de órgãos, no encorajamento às pessoas e principalmente às famílias para “doação de órgãos de forma livre e consciente, como gesto solidário de amor, com a devida proteção legal e em consonância com o evangelho da vida”. Estimula a doação voluntária de órgãos, os transplantes, doações de sangue e medula óssea. Leva a presença da Igreja à medicina dizendo que os procedimentos cirúrgicos referidos significam “um sim à vida”. O mesmo livro, na página 202, revela a preocupação com a natureza, demonstrando quanto sofre com a sorte do nosso Rio Cachoeira:

           “Estamos matando nossos rios (veja o nosso Cachoeira!), matamos bosques, poluímos o ar, invadimos o subsolo, tiramos toneladas de carvão, milhões de barris de petróleo, disseminando-se com isto os gases tóxicos  que matam plantas e pessoas...”

         Em sequência, Semente caída, publicado em  2012, nos traz a Carta de Itabuna, concebida no Centenário da cidade (2010), ocasião em que se realizou a Semana Diocesana da Cidadania. O documento, divulgado na página 72,  espelha a realidade da nossa cidade, com enfoque na violência que assola o cotidiano de Itabuna. Analisando as diversas formas de violência, destaca a violência contra a natureza, o meio ambiente, apontando como maior vítima o nosso Rio Cachoeira, “antes  caudaloso e gerador de renda para os pescadores, lavadeiras; hoje, fonte de doenças, esquecido e maltratado! É o retrato vivo da violência ambiental em nossa cidade”. Fecho as aspas, assinalando que as palavras do escritor refletem o sentimento da comunidade itabunense, pelo menos dos segmentos que enxergam e conservam o bom senso.
         Em seu livro Voz que clama, p. 80, ed. 2014, escreveu sobre o Dia da Pátria, 7 de setembro, e do texto primoroso destaco o seguinte:

São tantas as fraudes, tanta corrupção e tanto desvio dos bens  públicos! Deixam-nos a impressão de que continuamos dependentes dos pequenos “príncipes e dominadores” que se revestem do poder legado pelo povo”.

E prossegue na p. 81:

A pátria é o nosso berço, aí nos criamos, descobrimos este mundo de Deus. A pátria é algo muito caro para o coração do cidadão. Para compreender e sentir a grandeza da pátria é preciso conhecê-la. Só se ama o que se conhece.”

         O conteúdo das lições diversificadas do nosso pastor que recebeu o privilégio de pensar as ciências sociais e humanas, a religião, a história, os desvios do ser humano e a força da esperança e da fé, analisadas sob a visão laica ou do ângulo da espiritualidade, revelam o sacerdote e o cidadão a oferecer-nos artigos de opinião, crônicas e até versos livres, que uma interpretação dogmática poderia denominar homilias. Prefiro ler e entender nosso Bispo-escritor livre de rótulos, divulgando a produção de  sua mente abençoada e independente, exercendo .o seu poder de formador de opinião que pode operar milagres
         E como nosso país precisa de milagres! União, Estados e Municípios esperam e desesperam, aguardando as mudanças prometidas. Ao invés de mudanças, vivemos o pesadelo do crime hediondo que se intitula “tome lá e dê cá”, prática deletéria do loteamento de cargos públicos para beneficiar incompetentes e corruptos. E o nosso escritor, Bispo Emérito já consagrado, alerta de forma delicada e subliminar, sem comprometer a indignação e a firmeza.
         O quinto livro de Dom Ceslau, Na Virada da Época, publicado em 2016, oferece um verdadeiro poema de versos livres, no qual ensina onde encontrar Jesus:

         “Talvez na feição de um professor ou professora, desvalorizado pelo educando e pelas autoridades, querendo que se sujeitem às suas manias políticas e se desviem de sua missão” (p.106).

                   É o cidadão que fala pela voz do sacerdote, em defesa da categoria profissional mais importante da sociedade, o professor.
         É facil e gratificante falar sobre as pessoas que amamos, O único perigo é cair na armadilha da suspeição. Não corro esse risco. A admiração e estima por Dom Ceslau está a salvo da suspeição que conduz ao exagero ou à inverdade. Em primeiro lugar, porque a verdade é fácil de ser constatada por todos que conhecem o homenageado; finalmente porque minha formação   condiciona minhas palavras à isenção e imparcialidade.  Além do mais, nosso homenageado conseguiu aprovação unânime como sacerdote e como cidadão e não existe ninguém, debaixo do céu de Itabuna, que ouse contestar. Sua voz soará sempre nesta catedral e em nossos ouvidos e sua bênção acompanhará nossos passos. Onde quer que esteja nosso Bispo Emérito, permanecerá em nossas vidas e nas conquistas da cidade de São José.
         Vá em paz, Dom Ceslau Stanula, Bispo Emérito de Itabuna.  Deus o acompanhe, iluminando cada vez mais o seu caminho e nos ajude a suportar a saudade.