ORATÓRIO: SANTUÁRIO DE ANTANHO DE RUY PÓVOAS


PRIMEIRA ORELHA

 

Além de contos em publicações esparsas, a exemplo de jornais, revistas e antologias, Ruy Póvoas traz agora seu terceiro livro desse tipo de gênero literário, neste Oratório. São dez contos por ele produzidos especificamente para este novo livro. Conforme ele mesmo esclarece em prefácio a esta edição, o vocábulo ORATÓRIO remete a um tipo de composição ou poema vocal-instrumental de caráter dramático e de vastas proporções, que utiliza, predominantemente, textos da Bíblia. A partir desse núcleo de significação, Ruy Póvoas transcende os limites da definição e mergulha no enfoque do fazer e do viver de um segmento social em suas práticas religiosas afrodescendentes.

Então, cada um dos contos é construído num trabalho literário que, para além do trato criativo com a linguagem e com o foco narrativo, envolve personagens na busca de solução para suas angústias, conflitos, no que o autor denomina “padecimentos da desistência”. Ocorre, no entanto, que tais personagens são legítimos representantes da fauna humana.

Conforme afirma a professora Marialda Jovita Silveira, este Oratório é organizado a partir do ato de rememorar, fundado na tradição sobre a memória, construído através de narrativas em mosaico. As reminiscências de seus protagonistas acabam por determinar um modus narrativo interessante: ora o narrador, ora o personagem, na costura de retalhos que convidam o leitor a unir os fragmentos para a construção do grande mosaico. A narrativa se configura, então, como mosaicos-de-si, que são também mosaicos de outros, coletivos, capeados pelo resgate da tradição, sob rezas, lugares, jeitos-de-ser.

 

SEGUNDA ORELHA


Ruy do Carmo Póvoas (1943), ilheense, fixado em Itabuna, licenciado em Letras (FAFI) e Mestre em Letras Vernáculas (UFRJ). Em Itabuna, fundou o Ilê Axé Ijexá, terreiro de candomblé de origem nagô, de nação Ijexá, no qual exerce a função de babalorixá.

Sua produção escrita abrange o verso e a prosa. Tem publicado: Vocabulário da paixãoA linguagem do candombléItan dos mais-velhosItan de boca a ouvidoA fala do santoVersoREversoDa porteira para foraA memória do feminino no candomblé, Mejigã e o contexto da escravidão, Fazenda de contosA viagem de OrixaláNovos dizeresRepresentações do escondido e Matéria acidentada.

Fundador do Núcleo de Estudos Afro-Baianos Regionais ─ Kàwé, da Universidade Estadual de Santa Cruz, e seu coordenador durante dezesseis anos, sendo editor do Jornal Tàkàdá, Caderno Kàwé e da Revista Kàwé. Ocupa a cadeira 18 da Academia de Letras de Ilhéus e é membro fundador da Academia de Letras de Itabuna.

 

 

CONTRA-CAPA


Neste Oratório, cada conto constitui-se em um convite ao prazeroso ato de ler. A proposta para a sua construção, conforme consta da apresentação do livro pelo próprio autor, é mantida desde o primeiro até o último texto. Há, em todos eles, um cuidado com a linguagem literária, com o foco narrativo, com a construção de personagens narradores, com a memória de lugares, fatos, acontecimentos, pessoas. Tudo isso confere a cada texto uma verossimilhança interna e faz com que a leitura seja feita em um só fôlego.

Além desses aspectos, há um cuidado especial em preparar o leitor para que consiga chegar ao desfecho de cada conto com as hipóteses que foram construídas ao longo da leitura. Em todos os contos, também prevalece a máxima popular de "não julgar o bom por bom, nem o mau por mau", ou valendo-se do paradigma inaugurado por Bachelard, faz com que seja possível ir além do dado evidente, para alcançar o real oculto, cujo sonho todos desejam concretizar. Em tal sentido, justifica-se a epígrafe bachelardiana que recobre a obra: “A realidade é feita para fixar os nossos sonhos.”

Marcos Salviano Bispo Queiroz

 

 

                Foto: André Elvas

 


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