O olhar de Tica Simões- A SOMBRA NO ESPELHO

 

Sobre

A SOMBRA NO ESPELHO

O secreto arquivo de enigmas

 

 


O olhar de Tica Simões

 

Um livro para leitores curiosos...

Esta obra sobre afrodescendência intriga especialmente pela repetição especular que ocorre na estória e a multiplicidade de focos do discurso. A estória, em abismo, contém outras narrativas dentro de si, provocando a reflexividade literária. O discurso faz narrador dentro de narrador, um gestando o outro, em processo de encaixe de uma micro-narrativa noutra englobante.   Por que utilizar estórias dentro de estórias? E vários focos de discurso? Qual a intenção do autor?  Como ele se beneficia disso para a produção do texto literário?  São perguntas (enigmas?) a serem respondidas (ou não) no caminhar da leitura...


A estratégia em abismo é insinuada desde o título, A sombra no espelho. Que sombra? Por que espelho? Uma identidade cindida? Ou uma chamada para narciso? E o narciso seria o personagem ou o autor? Mas qual autor? Será a intenção de RP criar um jogo capaz de produzir, no leitor, uma sensação de estar entre espelhos, contemplando suas inúmeras reflexões? Ou faces? Se o título sugere o olhar  a si mesmo, “a circunstância do não dito”, a epígrafe Orixá metá  aponta crença. E o subtítulo ‒ O Secreto arquivo de enigmas ‒  anuncia um jogo interminável de “segredos” a descobrir? Prevê abismos contidos no secreto arquivo  a ser relatado? A primeira epígrafe já promove a dúvida: “o que se diz nem sempre é tão importante”.

 

Em sintonia, os paratextos: agradecimentos, dedicatória, epígrafes abrangem as  áreas ligadas à busca de si mesmo, da análise do discurso e do religioso nagô.


Ruy Póvoas apresenta o livro, circulando entre o real e o imaginado. Fala da condição do povo nagô, com olhar sobre o social. Enquanto apresentador, diz que são quatro os narradores ficcionais:  Alcina, enquanto organizadora do texto; Ranieri, autor da estória; Marcelo, personagem/narrador; o Marotti, editor. Ao final da sua apresentação, RP instala dúvida no leitor, quando inverte o preceito e diz: “qualquer semelhança com a realidade será a vida  imitando a arte”.  Será isso o primeiro Enigma a desvendar?

 

Embora semelhando paratextos, “Três bilhetes” são falas de personagens; iniciam o processo ficcional. O primeiro bilhete é de Alcina que envia o livro do marido Ranieri para a publicação pelo editor Marotti.  O segundo e terceiro bilhetes são de Marotti,  para Luísa,  revisora do texto; e para Alcina, em resposta.  E por que um editor-personagem? Esses três bilhetes, então, promovem abismo de enunciação, chave dessa trama autotextual do afrodescendente Marcelo.

 

Em “Missão executada”,  prefácio ficcional, Alcina esclarece a história do manuscrito do marido. E conta como tratou todo o material recebido.  Fazendo isso, Alcina não se torna coautora? Afinal, como ela afirma, recebeu um material que “era uma verdadeira barafunda” e o organizou a seu critério e deu corpo ao texto! E o leitor pode se perguntar: nesse trabalho, Alcina não terá dado uma especial base tonal ao texto?  Terá se imiscuído, dessa forma, no discurso da narrativa de Ranieri? E  outro possível enigma: O texto de Ranieri será autoficção?  As insinuações de Alcina alertam o leitor a se questionar sobre o discurso; de quem é o ponto de vista narrativo? Então, será todo o texto construído a partir de dúvidas?  Enigmas?

 

 

Ao assumir a narrativa (capítulo “Rompimento”), Ranieri já velho, mudado, relembra a infância e resolve criar Marcelo, a sombra no espelho, que assume o relato e fala para um bem-te-vi morto.  Morto o passado??

  

Entre vivências e sonhos (capítulos de “Sonho” ao “Chamado”),  Marcelo relata a busca de si mesmo, através dos vários processos terapêuticos. Inicialmente, devido à incompreensão sobre a sua condição mental; e o seu percurso, vida: doenças, psiquiatras...  Depois, leitura de búzios, astrologia, psicologia analítica, interpretação de sonhos... Serão autotextos da “sombra” de Ranieri?  O capítulo “Chamado” finaliza o arquivo de Ranieri, com a conclusão da narrativa de Marcelo que, finalmente, assume a sua religiosidade nagô. Fica, para o leitor, a compreensão da identidade, na solução da cisão da personalidade: luz e sombra.

 

A circularidade do texto leva o leitor de volta a Ranieri ou ao autor Ruy Póvoas, agora Babalorixá? A vida imitando a arte ou a arte imitando a vida? E aqui lembro as palavras de Mia Couto, na live de 20/5/2020, sobre os seus personagens: “sou sempre eu, alguma face de mim”.

 

Mas não acaba aí o texto ficcional; termina a estória, mas não termina a ficção. Alcina retoma a narrativa, em “Elegia”, provocando outros questionamentos ou...  abrindo, mais, o secreto arquivo de enigmas? Enigma 1: um livro é como um filho ‒ a arte faz permanecer depois de morto. Enigma 2: a dubiedade de uma personalidade: ser um, sendo outro.

 

Enigma 3: entendimento da sombra; as “estranhezas” de Marcelo; o percurso dos vários caminhos; personalidade cindida ou uma questão espiritual?  Enigma 4: “Creio-te vivo, e morta te pranteio” ‒  o enigma maior:  vida e morte.

 

Os enigmas do discurso estão no texto integral de Ruy Póvoas: uma narrativa dentro da outra; um narrador puxado pelo anterior...

 

A mudança de Alcina, no primeiro texto confusa, buscando vencer uma sua lacuna de possível incompetência; no final, vitoriosa, tranquila, seria também um resgate do feminino, através da mãe de Marcelo, coitada, sempre culpada de tudo...  Porém, no fim, com a vitória de Marcelo, reconhecida e resgatada? Seria mais um enigma ligado ao feminino?

 

E mais: Ruy Póvoas cria personagens agnósticos (como também aconteceu no seu livro A Viagem de Orixalá) como forma de justificar e explicar os estudos de religião de matriz africana? São muitas as questões.

 

Se a principal razão da narrativa em abismo é traçar paralelos com a estória principal, cada camada pode ser encarada como uma releitura, ou um simbolismo do que o leitor acompanhará nos outros níveis. Nesta obra de Ruy Póvoas, essa estratégia é forma de enfatizar as buscas do processo terapêutico. Essas camadas adicionam novos sentidos à estrutura e podem servir para suscitar enigmas, incutindo algumas ideias no leitor; acrescentam opiniões atuais às suas memórias do passado, os fatos apresentados mudam de forma: passamos a olhá-los de outra maneira. Enigmas!...

 

Ilhéus, outubro de 2020

 

MLNetto Simões

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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