Sonetos Motivados por Shakespeare - Cyro de Mattos


Ó amor, que horror traz a memória! 

Da flor a dor esmaga a formosura, 

E o coração diz: “Sinto essa vontade  

Que nas veias arde, no sonho voa.”

As amargas de pronto contrapõem:

 “Nas veias a ira ferve amargo fel.”

Inspirado do que fazem os dons  

Da natureza inocente, Romeu 

Comove quando fala à Julieta:   

“Não tenhas medo, haverá tua voz 

Em minha voz, gestos meus que são teus,  

Teus sustos meus, a cada primavera.”

Fatal sucedeu, conforme a fúria,  

O beijo que calou os seus algozes.   


II 

 

Alguns adoram nadar em dinheiro,    

Ter na cocheira cavalos de raça,           

Dirigir em automóveis de luxo, 

Deslizar no iate entre as ondas mansas.  

Hoje como ontem, o homem é um ser 

Que, no jogo dos desejos, paixões 

Refunde, na fortuna do prazer 

É que esbanja o valor de sua fama. 

Mas tua alquimia traduz o mundo, 

Inventado na forma da beleza,  

Em seus ares se espalha pela terra, 

Também Homero conta velhas lendas. 

Ó bardo inglês, teu som me faz completo.

Homem real, crente do amor eterno.    


III 

Comprovas quão insano vive o homem,  

Matador que leva contra si a paixão,    

Entristece o céu com as cores do nada,   

No lugar do verde quer os desvãos.  

Cava o tempo, que tudo sabe e lambe,

 Com os golpes indeléveis do tormento,

Do desespero, da louca ambição, 

Como trágico desde não sei quando, 

Tem prazer em andar na solidão.

Carrega o gume que mais cego fura, 

Encrava-o até o último gemido,

A ponta aguda sempre o faz contente.   

Na manhã sorridentes seus reveses  

Dos feitos sem remorso tantas vezes.


IV


Bardo inglês, aonde vais farto de tudo?

Farto da arrogância dos que mandam,

Da paixão humana que tanto horroriza,   

Produz messes sem frutos promissores.

Farto dos que exibem a pompa enfadonha,  

Entoam que a coroa vale o mundo, 

Adoram o fausto como a seu tesouro, 

 Nessa ópera de vilezas, constantes 

Cantores bufões. De tudo que é vasto

No inútil pedes ares do descanso,

A paz que a morte com a sua chegada 

Planta e faz que todos sejam justos. 

Na lápide de um gênio seja escrito:

“Nada quis, a não ser da vida o belo.” 


V


Verme vil debaixo do chão não vejo,  

Este cumpre o papel na natureza,    

À espera que a matéria podre

Chegue pra ele fartar-se no banquete.  

O que sobre a terra impeça o botão  

Que em ti flora os hábitos da beleza,

 Os gorjeios nos acordes da harmonia,  

De ti mágica cena que arrebata,     

Este é o pior de todos que existam.   

Rói teu poema para não ser lido, 

A página em que incorruptível fazes    

Da vida sonho que supera o tempo.  

Hás de viver na voz que te recita 

Enquanto dure o amor no humano peito.   


VI 

Do deserto onde o sol queima,       

Da neve que tem cor branca, 

Da verdade não acredito, 

Mas teu amor eu sei vero.      

Duvido do mar azul,      

Dos gorjeios na Primavera,

Da boca voraz do tempo,   

Mas teu amor eu sei puro.     

Duvido que   encante a flor,

Tenha o dia venturoso 

Do beija-flor quando a beija.  

Mas teu amor que comove  

Duvido que a noite negra     

De ti neste som esconda.      



Cyro de Mattos é ficcionista, poeta, ensaísta, cronista, romancista e autor de literatura infantojuvenil. Editado também em Portugal, Itália, França, Espanha, Alemanha e Estados Unidos. Premiado no Brasil e exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia e Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Sua obra é estudada na universidade e adotada nas escolas. 


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